Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – walkirialucia.wlac@outlook.com

“… Disse ao servo: sai depressa pelas ruas e bairros da cidade e traze aqui os pobres, os aleijados, mancos e cegos.”[1]

É comum, ao dispormos cursos de passes nas Instituições Espiritas, um grande número se candidatar. Mas com o passar do tempo o grupo ir resumindo-se a alguns poucos, até verificarmos que após o engajamento propriamente dito ao trabalho, pois que não existe formatura em nenhum tipo de trabalho, constituindo-se o primeiro choque para aqueles que começam, verificarmos a desistência e inconstância dos que ficaram. Resumindo-se a poucos daquele agrupamento iniciado.

A alegação de muitos passa pelos afazeres domésticos, cursos que precisam começar ou terminar, trabalhos assumidos, enfim, situações diversas que a criatura humana alega para o desligamento. Outras, afirmam incapazes de darem continuidade em virtude da incapacidade para o serviço assumido ou por reconhecerem-se com impedimentos morais que lhe tolhem os passos? Mas será que para arregimentarmo-nos neste agrupamento de soldados do Cristo na divulgação do bem teremos que ser perfeitos? Não. Pois se assim fosse, não teríamos nenhum trabalhador na seara espírita.

Afastando-se os impedimentos naturais e as situações que realmente fogem ao controle daqueles que estão vivenciando gostaríamos de destacar os quadros obsessivos tão bem explicados em O Livro dos Médiuns, em seu capítulo 23. “A obsessão é o resultado do intercâmbio psíquico, emocional ou físico entre dois seres que se amam ou que se detestam. … Aquele que se sentiu enganado ou traído, vitimado pelo seu opositor, busca retribuir o mal que lhe sofreu, impondo-lhe a crueldade da perseguição sem quartel procedente do mundo espiritual onde hoje se encontra. … Outras vezes, são vinculações amorosas de qualidade inferior, nas quais ambos os compares intercambiam sentimentos vulgares, que os levam a uma convivência mental de torpes satisfações ou de desejos inconfessáveis, que a morte de um deles não mais permite realizar-se.”[2]

Quando nos permitimos associar por mentes que desejam nos afastar de nossos propósitos mais elevados, estes sugerem que aquilo que estamos fazendo não é importante, necessário ou não somos úteis a obra que estamos abraçando. Mais ainda, que não estamos prontos e não somos merecedores de estarmos onde estamos. Não podemos nos permitir contaminar por tais pensamentos. E tal envolvimento não acontece somente com os noviciados no trabalho espírita. Nenhum de nós está livre de tal envolvimento. Orai e vigiai, já nos foi ensinado, para não cairmos em tentação.

Sendo para os de nós que já nos encontramos a mais tempo no movimento estas palavras, entendemos que o tempo de doutrina não significa tempo de conhecimento. A mensagem aplicada ao dia a dia da criatura constitui-se como corolário do que o Mestre nos exemplificou. Lembremos sempre que Ele mesmo não escreveu nenhum Evangelho. Estes foram escritos pelos seus seguidores. Mostra-nos que mais importante do que falarmos, precisamos experienciarmos a mensagem. No nosso segmento diário de proceder. Não desistirmos de empreender o contido no Evangelho representa obra de vida.

Allan Kardec, Bezerra de Menezes, Chico Xavier e tantos outros são exemplos de persistência e perseverança diante da mensagem. Fazendo com que ela se torne viva, não somente palavras repetidas como forma de convencimento. Observemos que nenhum deles dizia-se perfeito na execução do trabalho, mas faziam o que hoje os profissionais da área chamam de rever o que errou para consertar no processo de construção de um líder e que Santo Agostinho já nos orientava: “Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma…”[3]

Desta forma, as interferências de outras mentes até ocorrerão, pois as baixas mentais farão parte da nossa encarnação, mas quando fizermos esta avalição que Santo Agostinho nos sugere começaremos por praticar a primeira virtude que nos imuniza contra a obsessão: a humildade. Após, avançaremos para o exercício da correção moral, outra virtude a nos humanizar e espiritualizar. A caridade começar a brotar neste momento em nós. Pois, vemos que ou outros também passam por este processo, terceira virtude imunizatória diante dos processos obsessivos.

O conhecimento permeia todas estas fazes nos instruindo e fortificando. Explicando o porquê de termos paciência, perseverança e por fim, a necessidade do perdão. Perdão ao outro e a nós mesmos. Nesta última, do perdão, desvinculamo-nos dos quadros obsessivos mais delicados, os destacados anteriormente como “traição” ou que a criatura acredita-se “vitimado” por nós. Ao nos perdoarmos, deixamos de trazer a pecha da culpa e substituímos pela responsabilidade ativa, através do trabalho.

O outro terá a opção de iluminar-se também e trabalhar pela própria evolução ou ficará num processo de busca por vingança. O que gostaríamos de destacar que o chamamento divino[4] como Emmanuel sabiamente diz, soa para todos nós. Aproveitemos esta oportunidade e não permitamos que outros interfiram na oportunidade bendita que tenhamos de nos auto iluminar. Não seremos punidos, nem nada demais nos ocorrerá, mas retardaremos os passos ruma a perfeição relativa buscada. Isto já é o bastante para analisarmos a situação e mantermo-nos firmes diante do propósito abraçado.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – abril 2021


[1] Lucas. 14:21.

[2] Livro: Reencontro com a Vida, psicografado por Divaldo P. Franco, autoria espiritual Manoel P. de Miranda, capítulo 04 – Exorcismo Inútil

[3] Questão 919-a

[4] Livro: Palavras de Vida Eterna, capítulo 127, psicografado por Chico Xavier