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Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Deus não dá prova superior às forças daquele que a pede; só permite as que podem ser cumpridas. Se tal não sucede, não é que falte possibilidade: falta a vontade. Com efeito, quantos há que, em vez de resistirem aos maus pendores, se comprazem neles. A esses ficam reservados o pranto e os gemidos em existências posteriores. Admirai, no entanto, a bondade de Deus, que nunca fecha a porta ao arrependimento. Vem um dia em que ao culpado, cansado de sofrer, com o orgulho afinal abatido, Deus abre os braços para receber o filho pródigo que se lhe lança aos pés. As provas rudes, ouvi-me bem, são quase sempre indício de um fim de sofrimento e de um aperfeiçoamento do Espírito, quando aceitas com o pensamento em Deus. É um momento supremo, no qual, sobretudo, cumpre ao Espírito não falir murmurando, se não quiser perder o fruto de tais provas e ter de recomeçar. Em vez de vos queixardes, agradecei a Deus o ensejo que vos proporciona de vencerdes, a fim de vos deferir o prêmio da vitória. [1]

Este trecho encontra-se inserido no capítulo que trata sobre a Ingratidão dos Filhos e os Laços de Família do Evangelho Segundo o Espiritismo. Mesmo para nós espíritas, este torna-se um tema delicado a ser tratado, pois enxergarmos com a roupagem física pessoas que a título da consanguinidade deveriam nos amar ou ter laços de afinidade conosco, são em algumas situações, criaturas antagônicas nossas. Pessoas que nos fizeram mal ou a quem prejudicamos e recebemos na nossa estrutura familiar ou somos recebidos por eles.

A reencarnação nos alinha no campo perfeito de entendimento para o sentido de aprendizado completo evolutivo. Desejamos fracionar o conhecimento, afastando de nós o processo, não convivendo com àqueles de quem temos necessidade. Abortando de todas as formas este processo. A Divindade, em sua magnânima proficiência, une-nos nos sei familiar, fazendo-nos sermos aqueles que iremos embalar o berço do nosso algoz ou sermos o necessitado desse embalo e cuidados daquele a quem fizemos mal.

Um princípio de repulsão de estabelece nestas situações, o qual deveremos buscar superar, em nome da caridade e do desejo de ultrapassarmos as algemas que nos prende ao passado de delitos cometidos. Mesmo que sejamos nós as vítimas de outrora, vinculamos pelo ódio e a falta de perdão a tais situações. Aquele que praticou, através do remorso, mesmo que inconsciente, também se vincula. Ambos desejosos que a solução se estabeleça.

Após passada a primeira infância, momento mais favorável ao plantio da boa semente e no qual o processo reencarnatório se finda, a criatura, plena de si, volve a plenitude do seu ser, mesmo possuindo o véu do esquecimento, reconhece no seu (sua) genitor(a) o (a) aquele (a) de quem ele se inimizou em outra encarnação. Todos nós temos o direito de escolha. Não é porque começamos de forma errada que deveremos terminar algo de forma errada.

Por isso, que reencarnamos. Para podermos ter a oportunidade de nos reajustarmos com a Lei através do próximo. Aparando as arestas e fazendo as pazes, sempre que possível, com quem estiver a caminho conosco. O conhecimento espírita oferta-nos a possibilidade de compreender de maneira diferente tais processos. A compreensão leva-nos a um comportamento diferente.

Talvez, não consigamos mudar totalmente de comportamento, nem influenciar positivamente no todo o comportamento do outro, mas ambos sairemos modificados desta convivência. “Senhor, quantas vezes perdoarei a meu irmão, quando houver pecado contra mim? Até sete vezes?” – Respondeu-lhe Jesus: ‘Não vos digo que perdoeis até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes.’”[2] Além do convite a tolerância com relação ao próximo, o Mestre Jesus também nos convida a darmos uma nova chance ao outro, uma oportunidade para que o outro mostre também as suas virtudes, pois todos as possuímos.

Mesmo nos esforçando, existe a possibilidade do outro não absorve a mensagem que desejemos transmitir, mais saibamos que estamos nos esforçando pela execução do bem. Um dia, o outro também esforçar-se-á pela modificação. Em algum momento o arrependimento dos atos cometidos nos bate à porta, isto ocorre porque a boa semente foi plantada em nós e floresceu diante do aprendizado vindouro. Assim também ocorrerá com aqueles que por ventura estejam vinculados a nós e não nos compreendam a mensagem.

Que não sejamos nós aqueles que dificultam o bom entendimento e o desfazimento de raízes profundas de sofrimentos passados. Que não sejamos nós aqueles que perdem a oportunidade de rejubilar-se de ter podido ajudar aquele que sofre na escuridão da falta de entendimento das verdades eternas. Que não sejamos nós aquele que deixe de ceder primeiro em nome de um ponto de honra que mais nos leva a desgostos e tristeza do que nos faculta a paz de espírito.

Criaturas nos encontramos nos mais variados patamares de entendimento espiritual. Brigas, mágoas, tristezas e desentendimentos surgem por situações muitas vezes as mais pueris. Outras, são baseadas em traumas provindos de outras encarnações que demorarão tantas outras para serem dirimidas. Que as primeiras, as mais fáceis de serem dirimidas, possam contar com o nosso apoio, entendimento e decisão para solução. Somente assim, as famílias conseguirão se unir num só clã, numa só unidade.

Muitos dos problemas que alguns atribuem a outras encarnações são provindos desta mesma, deste bom olho e desta boa vontade em viver em comunidade. Estamos em família é termos a oportunidade de crescermos em conjunto, de aprendermos em conjunto de amarmos o conjunto.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – maio 2021


[1] O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIV, item 9

[2] MATEUS, cap. XVIII, vv 21 e 22