Médico das almas

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Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Sou o grande médico das almas e venho trazer-vos o remédio que vos há de curar. Os fracos, os sofredores e os enfermos são os meus filhos prediletos. Venho salvá-los. Vinde, pois, a mim, vós que sofreis e vos achais oprimidos, e sereis aliviados e consolados. Não busqueis alhures a força e a consolação, pois que o mundo é impotente para dá-las. Deus dirige um supremo apelo aos vossos corações, por meio do Espiritismo. Escutai-o. Extirpados sejam de vossas almas doloridas a impiedade, a mentira, o erro, a incredulidade. São monstros que sugam o vosso mais puro sangue e que vos abrem chagas quase sempre mortais. Que, no futuro, humildes e submissos ao Criador, pratiqueis a sua lei divina. Amai e orai; sede dóceis aos Espíritos do Senhor; invocai-o do fundo de vossos corações. Ele, então, vos enviará o seu Filho bem-amado, para vos instruir e dizer estas boas palavras: Eis-me aqui;

venho até vós, porque me chamastes.[1]

Num momento no qual em que a primeira palavra poderia ser de blasfêmia diante dos sofrimentos em que a criatura enlutada busca suprir a falta dos que já partiram ou por estar vivenciando as perdas materiais que assolam as nações e que por si só já causam grandes transtornos O Espírito de Verdade exorta-nos a uma reflexão sobre o sublime amor do Pai para conosco.

Diante das lutas do dia a dia, diante do leito vazio, diante das despedidas não feitas, convoca-nos a voltarmos os nossos sentimentos ao Espiritismo como consolo as nossas almas combalidas diante das intempéries que estamos vivendo. Tendo a convicção que os que já partiram, estão vivos, não somente em nossa lembrança, mas como criaturas eternas, iguais a nós mesmos que em algum momento iremos realizar a nossa passagem em mudança de plano constitutivo de densidade fluídica. Os que já partiram recebem as nossas vibrações de amor e ternura. Como também de saudade e tristeza.

Não acreditemos que os nossos esforços, por mais parcos e incipientes que aos nossos olhos possam parecer, representem algo perante a mudança que já se processa neste momento no Mundo. Não poderemos nos enfraquecer na boa obra da construção do bem, em virtude dos maus exemplos que nos circunda. Preenchamo-nos ao contrário da esperança e nos envolvamos das boas atitudes daqueles que estão em nosso derredor fazendo o bem pelo bem, entendendo que esta é a única possibilidade de vivenciarmos a consciência tranquila durante a existência terrestre.

Representantes de várias religiões unem-se em prol dos desvalidos. Cientistas não pronunciando o segmento religioso que professam dão-se as mãos. Anônimos deixam o recesso de seus lares para buscarem outros lares em doação de si mesmos para serem os Médicos de Almas que o Mestre Jesus preconizava a mais de dois mil anos. Todos estes são exemplos da prática do bem pelo bem. Sentirmo-nos oprimidos diante da avalanche dos acontecimentos é consequência esperada. Mais tenhamos a certeza que seremos aliviados e consolados pelos obreiros do bem, verdadeiros mensageiros do Pai que estão em nosso derredor.

Não busquemos alheres, nos prazeres transitórios, materiais, de gozo fácil que não preenchem a alma a cura para a alma combalida, a força e a consolação. Mas porque, então ele exorta o Espiritismo? Porque através do Espiritismo compreendemos que a vida continua, entendemos que somos herdeiros de nós mesmos, que através das várias vilegiaturas reencarnatórias equacionamos os erros passados e constituímos um somatório positivo de boas aventuranças em nosso benefício. Através do Espiritismo compreendemos de onde viemos, porque estamos aqui e para onde estamos caminhando. Entendemos que depende de nós o quão rápido ou lento será a nossa caminha rumo a perfeição relativa a qual estamos destinados.

Por fim, na passagem, há a exortação para que amemos e oremos. Em tudo fazemos escolhas. Ao amarmos deixamos de acalentar a dor, a revolta, a incredulidade e todos os outros vícios e instrumentos de sofrimento que nos afastam da Divindade e de nós mesmos. A oração nos sustenta nesta mudança de proposta, fazendo-nos enxergar o mais além. Quando estamos muito voltados para o presente, permitimo-nos imantar com mais facilidade da revolta, má conselheira, que nos impede de desenvolver a resignação e a obediência perante a Lei Divina.

O Mestre Jesus sempre se faz presente em nossas vidas. Basta desejarmos. Constitui-se numa questão de sintonia. De nos permitirmos envolver em seus exemplos e seguirmos seus passos. Nunca estamos numa caminhada a sós, além dos espíritos do Senhor que nos ladeiam os passos e nos instruem, sempre que solicitamos e nos tornamos dóceis a suas orientações, temos Jesus, de braços dados conosco, a nos dizer: Eis-me aqui; venho até vós, porque me chamastes.

Jornal O Clarim – junho 2021


[1] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VI, item 7

Coragem da fé

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Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Aprendestes que foi dito: ‘Amareis o vosso próximo e odiareis os vossos inimigos.’ Eu, porém, vos digo: ‘Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam, a fim de serdes filhos do vosso Pai que está nos céus e que faz se levante o Sol para os bons e para os maus e que chova sobre os justos e os injustos. – Porque, se só amardes os que vos amam, qual será a vossa recompensa? Não procedem assim também os publicanos? Se apenas os vossos irmãos saudardes, que é o que com isso fazeis mais do que os outros? Não fazem outro tanto os pagãos?”[1]

“Digo-vos que, se a vossa justiça não for mais abundante que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no reino dos céus.”[2]

Quando aportamos no movimento espírita, talvez pensemos que o maior ato de coragem fosse lidar com a presença dos espíritos. Pois, ato contínuo a existência da chamada vida após a morte, foi-nos informado que aqueles que partiram da indumentária física antes de nós e que se constituíram antagonistas nossos continuavam existindo no pós-morte.

Tempo passa e deparamo-nos com outra realidade. A dos vivos que nos ladeiam os passos. Dos encarnados que nos colocam em prova sobre o que constitui a nossa fé. Dizermo-nos espíritas dentro de uma instituição com criaturas que comungam do mesmo pensamento e que trazem histórias de vida semelhantes as nossas, pois desejam modificação na grande maioria, buscando na instituição a força e o apoio necessários para conseguirem suplantar as dores que trazem consigo, constitui-se o momento sublime das dificuldades que poderemos por ora encontrar.

Desavenças, descrença ou desvios que por ventura ocorram serão realinhados e direcionados. Aqueles que desejam permanecer no trabalho excelso do bem manter-se-ão firmes. Os que ainda não se evidenciam perfeitamente convencidos, sairão no momento correto, acrescidos da mensagem evangélica. No momento aprazado tal mensagem novamente eclodirá. Estando onde a criatura estiver, será um instrumento da mensagem viva do Amor do Cristo na vida dos semelhantes.

Falamos e desejamos abordar as criaturas que ultrapassam os limites da chamada tolerância e da boa convivência durante a encarnação, exigindo um pouco mais da nossa compreensão evangélica. Pessoas que estão ladeando-nos a encarnação, verdadeiros instrumentos da nossa compreensão do que vem a ser fé com o Cristo. Não estamos isentando com isso o comportamento do outro perante o ato, mas estamos nos colocando no devido lugar daqueles que já entendemos a mensagem espírita e como deveremos aplica-la no dia a dia de nossa encarnação. Pois, não é este o grande questionamento de nossas vidas, como fazer diante dos sofrimentos e aplicar o conhecimento espírita a nossas vidas atualmente?

É plausível o questionamento e viável a aplicação. Na verdade, nunca foi tão exequível a aplicação do conhecimento espírita em nossas vidas. Utilizando-nos do próprio conhecimento espírita entendamos que aquele que nos faz o mal o faz por desconhecimento da Lei Divina, mesmo ela estando insculpida em nossa consciência[3] somente através das várias encarnações e através do exercício do amor vamos descortinando o véu da ignorância que a encobre, este é o primeiro ponto que gostaríamos de destacar.

O segundo ponto, é que a criatura que assim o age, associa-se a criaturas tão desarrazoadas mentalmente quanto ela, formando um agrupamento que deseja dar vazão as suas tristezas, mágoas e revoltas contra nós ou a humanidade como um todo. Não podendo subir, procuram trazer para baixo aqueles que de alguma forma estão esforçando-se para crescer: “O desejo que neles predomina é o de impedirem, quanto possam, que os Espíritos ainda inexperientes alcancem o supremo bem. Querem que os outros experimentem o que eles próprios experimentam.”[4]

Quarto ponto. Pela Lei da Afinidade, diz o dito popular que o criminoso sempre volta ao local do crime. Não somos vitimas que estamos sofrendo a injunção pecaminosa de um algoz. Somos criaturas que estamos num processo evolutivo que possuímos um passado do qual necessitamos o devido reajuste moral. Se algo de tamanha monta nos acontece é porque em passado próximo ou distante fizemos algo que estava em desacordo com a Lei Divina e que neste momento necessita ser equacionado.

Quinto ponto. Em Doutrina Espírita aprendemos que a Justiça distributiva se faz para todos indistintamente. Mesmo que estejamos neste processo de reajuste e que o outro esteja servindo por escolha própria como instrumento para que tal ocorra conosco ele também terá seu momento de encontro com a Lei e a própria consciência. Pois estamos todos mergulhados na Lei de Justiça, de Amor e de Caridade.

Tendo a fé que nos sustente nos momentos graves da encarnação, seremos conduzidos para o porvir que nos fará ultrapassar os pórticos dolorosos que por ora estejamos vivenciando tendo a certeza que esta faze de dores passará para logo vivenciarmos os momentos de alegria e bem-aventuranças que tanto desejamos. Trabalhemos pela nossa paz e não nos detenhamos nos percalços da vida.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho 2021


[1] MATEUS, cap. V, vv. 43 a 47

[2]  MATEUS, cap. V, v. 20

[3] Livro dos Espíritos, questão 621

[4] Livro dos Espíritos, questão 281

Quantidade e qualidade

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Octavio Caumo Serrano  ocaumo@gmail.com

Dirigente espírita e casa cheia.

É comum se ver nas organizações espíritas situações que favorecem a afluência de público, mesmo que contrariem os princípios mais elementares da doutrina. Atrações artísticas impróprias, artes mediúnicas, chás, bingos, rifas e mesmo bazares e comércios que estimulam vícios, ganâncias e disputas. Há os que precisam de sócios para a sobrevivência e ficam reféns dos frequentadores até com “almoços fraternos” regados a aperitivos e cerveja, entre outras aberrações.

A verdade é que o dirigente busca todos os recursos para ver o centro cheio, independentemente da qualidade do público e do interesse que o levou até ali. Poucos estão na casa com o espírito cristão, com desejos de aprendizado para autoaprimoramento ou oferecendo-se para ser um auxiliar no campo da caridade. A maioria se encanta com a palestra bonita, com o orador de fala fácil e argumentação cheia de sabedoria, mas logo que saem do centro esquecem o que ouviram ou como usar as orientações em suas vidas. Foram ali mais em busca do passe milagroso, crendo que ele soluciona todos os problemas.

Uma parcela, oriunda de outras religiões, imagina que também no Espiritismo existe a “salvação” que se obtém com promessas, ofertas ou a simples presença no templo, ao menos uma vez por semana. Nada sabem da mensagem dos Espíritos porque nunca participaram do estudo que ensina os mecanismos que regem a espiritualidade para aprender que a cada um é dado exclusivamente segundo suas obras e merecimentos. Já afirmou o apóstolo Tiago (2:14-26) em sua epístola que a fé sem obras é morta. Diz ele: – “Poderão até dizer tu tens a fé, mas eu tenho as obras. Mostra-me então a tua fé sem as obras, porque eu te dou a prova da minha fé através das minhas obras”. Em 26, ele reforça:-Tal como o corpo que está morto se nele não há espírito, assim a fé sem obras está morta”.

Como obras devem ser entendidas não somente a esmola ou qualquer ajuda material, mas também a própria modificação para servir de exemplo e estímulo aos que estão desesperados, inclusive entre familiares, mostrando a confiança que temos em Deus. É a vivência do Evangelho na prática e não apenas no discurso com mera citação de capítulos ou versículos, decorados e não vividos. A comprovação do que dissemos se pode ter quando examinamos a quantidade de pessoas nos eventos e reuniões de assistência espiritual (passes, palestra) e as presentes nos estudos que, aliás, não faz parte de todas as casas espíritas nos moldes corretos, com troca de ideias para correta interpretação dos textos evangélico-doutrinários.

A voz do Cristo ainda ressoa nos ventos: “Conhecereis a verdade é ela vos fará livres.”  O entendimento do Evangelho corresponde ao entendimento da vida, tal a sua lógica. A mensagem de Jesus, embora muito simples, é tão real que os homens não conseguem acrescentar um ponto ou uma vírgula. Ela é a lei da física de ação e reação aplicada ao nosso cotidiano! Todo efeito nasce de uma causa.

Certa vez alguém argumentou comigo que para ele Jesus era uma invenção das religiões; é, como Sherlock Holmes, o personagem fictício criado por Sir Arthur Conan Doyle. Não há provas “científicas” da existência de Jesus. A maioria não percebe que quase sempre o bom senso prova mais que a ciência. Eu, por exemplo, creio na reencarnação mais pela lógica do que por provas.  Se Jesus não existiu na figura como nos é mostrado, então é um fenômeno ainda maior; se alguém que não existia deixou uma mensagem perfeita, irretocável, é ainda mais fantástico do que se houvera sido pronunciada por alguém de verdade!

Caro irmão espírita: – Estamos no mundo em tarefa de auto aprimoramento; embora dediquemos a maior parte do nosso tempo à preocupação de melhorar os outros e apontar suas faltas, não esqueçamos que cada um é seu próprio salvador; nós, divulgadores religiosos, apenas mostramos os caminhos. Logo, roguemos para que nossas palavras tenham sabedoria, mas que sejam comprovadas por nossas ações. Já aprendemos que um só exemplo ensina mais que um milhão de conselhos.  E nestes tempos difíceis somos cada vez mais responsáveis pelos nossos atos. Não podemos destruir a casa espiritual para edificar o templo material.

Jornal O Clarim – junho 2021