Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Aprendestes que foi dito: ‘Amareis o vosso próximo e odiareis os vossos inimigos.’ Eu, porém, vos digo: ‘Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam, a fim de serdes filhos do vosso Pai que está nos céus e que faz se levante o Sol para os bons e para os maus e que chova sobre os justos e os injustos. – Porque, se só amardes os que vos amam, qual será a vossa recompensa? Não procedem assim também os publicanos? Se apenas os vossos irmãos saudardes, que é o que com isso fazeis mais do que os outros? Não fazem outro tanto os pagãos?”[1]

“Digo-vos que, se a vossa justiça não for mais abundante que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no reino dos céus.”[2]

Quando aportamos no movimento espírita, talvez pensemos que o maior ato de coragem fosse lidar com a presença dos espíritos. Pois, ato contínuo a existência da chamada vida após a morte, foi-nos informado que aqueles que partiram da indumentária física antes de nós e que se constituíram antagonistas nossos continuavam existindo no pós-morte.

Tempo passa e deparamo-nos com outra realidade. A dos vivos que nos ladeiam os passos. Dos encarnados que nos colocam em prova sobre o que constitui a nossa fé. Dizermo-nos espíritas dentro de uma instituição com criaturas que comungam do mesmo pensamento e que trazem histórias de vida semelhantes as nossas, pois desejam modificação na grande maioria, buscando na instituição a força e o apoio necessários para conseguirem suplantar as dores que trazem consigo, constitui-se o momento sublime das dificuldades que poderemos por ora encontrar.

Desavenças, descrença ou desvios que por ventura ocorram serão realinhados e direcionados. Aqueles que desejam permanecer no trabalho excelso do bem manter-se-ão firmes. Os que ainda não se evidenciam perfeitamente convencidos, sairão no momento correto, acrescidos da mensagem evangélica. No momento aprazado tal mensagem novamente eclodirá. Estando onde a criatura estiver, será um instrumento da mensagem viva do Amor do Cristo na vida dos semelhantes.

Falamos e desejamos abordar as criaturas que ultrapassam os limites da chamada tolerância e da boa convivência durante a encarnação, exigindo um pouco mais da nossa compreensão evangélica. Pessoas que estão ladeando-nos a encarnação, verdadeiros instrumentos da nossa compreensão do que vem a ser fé com o Cristo. Não estamos isentando com isso o comportamento do outro perante o ato, mas estamos nos colocando no devido lugar daqueles que já entendemos a mensagem espírita e como deveremos aplica-la no dia a dia de nossa encarnação. Pois, não é este o grande questionamento de nossas vidas, como fazer diante dos sofrimentos e aplicar o conhecimento espírita a nossas vidas atualmente?

É plausível o questionamento e viável a aplicação. Na verdade, nunca foi tão exequível a aplicação do conhecimento espírita em nossas vidas. Utilizando-nos do próprio conhecimento espírita entendamos que aquele que nos faz o mal o faz por desconhecimento da Lei Divina, mesmo ela estando insculpida em nossa consciência[3] somente através das várias encarnações e através do exercício do amor vamos descortinando o véu da ignorância que a encobre, este é o primeiro ponto que gostaríamos de destacar.

O segundo ponto, é que a criatura que assim o age, associa-se a criaturas tão desarrazoadas mentalmente quanto ela, formando um agrupamento que deseja dar vazão as suas tristezas, mágoas e revoltas contra nós ou a humanidade como um todo. Não podendo subir, procuram trazer para baixo aqueles que de alguma forma estão esforçando-se para crescer: “O desejo que neles predomina é o de impedirem, quanto possam, que os Espíritos ainda inexperientes alcancem o supremo bem. Querem que os outros experimentem o que eles próprios experimentam.”[4]

Quarto ponto. Pela Lei da Afinidade, diz o dito popular que o criminoso sempre volta ao local do crime. Não somos vitimas que estamos sofrendo a injunção pecaminosa de um algoz. Somos criaturas que estamos num processo evolutivo que possuímos um passado do qual necessitamos o devido reajuste moral. Se algo de tamanha monta nos acontece é porque em passado próximo ou distante fizemos algo que estava em desacordo com a Lei Divina e que neste momento necessita ser equacionado.

Quinto ponto. Em Doutrina Espírita aprendemos que a Justiça distributiva se faz para todos indistintamente. Mesmo que estejamos neste processo de reajuste e que o outro esteja servindo por escolha própria como instrumento para que tal ocorra conosco ele também terá seu momento de encontro com a Lei e a própria consciência. Pois estamos todos mergulhados na Lei de Justiça, de Amor e de Caridade.

Tendo a fé que nos sustente nos momentos graves da encarnação, seremos conduzidos para o porvir que nos fará ultrapassar os pórticos dolorosos que por ora estejamos vivenciando tendo a certeza que esta faze de dores passará para logo vivenciarmos os momentos de alegria e bem-aventuranças que tanto desejamos. Trabalhemos pela nossa paz e não nos detenhamos nos percalços da vida.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho 2021


[1] MATEUS, cap. V, vv. 43 a 47

[2]  MATEUS, cap. V, v. 20

[3] Livro dos Espíritos, questão 621

[4] Livro dos Espíritos, questão 281