Octavio Caumo Serrano  ocaumo@gmail.com

Dirigente espírita e casa cheia.

É comum se ver nas organizações espíritas situações que favorecem a afluência de público, mesmo que contrariem os princípios mais elementares da doutrina. Atrações artísticas impróprias, artes mediúnicas, chás, bingos, rifas e mesmo bazares e comércios que estimulam vícios, ganâncias e disputas. Há os que precisam de sócios para a sobrevivência e ficam reféns dos frequentadores até com “almoços fraternos” regados a aperitivos e cerveja, entre outras aberrações.

A verdade é que o dirigente busca todos os recursos para ver o centro cheio, independentemente da qualidade do público e do interesse que o levou até ali. Poucos estão na casa com o espírito cristão, com desejos de aprendizado para autoaprimoramento ou oferecendo-se para ser um auxiliar no campo da caridade. A maioria se encanta com a palestra bonita, com o orador de fala fácil e argumentação cheia de sabedoria, mas logo que saem do centro esquecem o que ouviram ou como usar as orientações em suas vidas. Foram ali mais em busca do passe milagroso, crendo que ele soluciona todos os problemas.

Uma parcela, oriunda de outras religiões, imagina que também no Espiritismo existe a “salvação” que se obtém com promessas, ofertas ou a simples presença no templo, ao menos uma vez por semana. Nada sabem da mensagem dos Espíritos porque nunca participaram do estudo que ensina os mecanismos que regem a espiritualidade para aprender que a cada um é dado exclusivamente segundo suas obras e merecimentos. Já afirmou o apóstolo Tiago (2:14-26) em sua epístola que a fé sem obras é morta. Diz ele: – “Poderão até dizer tu tens a fé, mas eu tenho as obras. Mostra-me então a tua fé sem as obras, porque eu te dou a prova da minha fé através das minhas obras”. Em 26, ele reforça:-Tal como o corpo que está morto se nele não há espírito, assim a fé sem obras está morta”.

Como obras devem ser entendidas não somente a esmola ou qualquer ajuda material, mas também a própria modificação para servir de exemplo e estímulo aos que estão desesperados, inclusive entre familiares, mostrando a confiança que temos em Deus. É a vivência do Evangelho na prática e não apenas no discurso com mera citação de capítulos ou versículos, decorados e não vividos. A comprovação do que dissemos se pode ter quando examinamos a quantidade de pessoas nos eventos e reuniões de assistência espiritual (passes, palestra) e as presentes nos estudos que, aliás, não faz parte de todas as casas espíritas nos moldes corretos, com troca de ideias para correta interpretação dos textos evangélico-doutrinários.

A voz do Cristo ainda ressoa nos ventos: “Conhecereis a verdade é ela vos fará livres.”  O entendimento do Evangelho corresponde ao entendimento da vida, tal a sua lógica. A mensagem de Jesus, embora muito simples, é tão real que os homens não conseguem acrescentar um ponto ou uma vírgula. Ela é a lei da física de ação e reação aplicada ao nosso cotidiano! Todo efeito nasce de uma causa.

Certa vez alguém argumentou comigo que para ele Jesus era uma invenção das religiões; é, como Sherlock Holmes, o personagem fictício criado por Sir Arthur Conan Doyle. Não há provas “científicas” da existência de Jesus. A maioria não percebe que quase sempre o bom senso prova mais que a ciência. Eu, por exemplo, creio na reencarnação mais pela lógica do que por provas.  Se Jesus não existiu na figura como nos é mostrado, então é um fenômeno ainda maior; se alguém que não existia deixou uma mensagem perfeita, irretocável, é ainda mais fantástico do que se houvera sido pronunciada por alguém de verdade!

Caro irmão espírita: – Estamos no mundo em tarefa de auto aprimoramento; embora dediquemos a maior parte do nosso tempo à preocupação de melhorar os outros e apontar suas faltas, não esqueçamos que cada um é seu próprio salvador; nós, divulgadores religiosos, apenas mostramos os caminhos. Logo, roguemos para que nossas palavras tenham sabedoria, mas que sejam comprovadas por nossas ações. Já aprendemos que um só exemplo ensina mais que um milhão de conselhos.  E nestes tempos difíceis somos cada vez mais responsáveis pelos nossos atos. Não podemos destruir a casa espiritual para edificar o templo material.

Jornal O Clarim – junho 2021