Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Quando ele veio ao encontro do povo, um homem se lhe aproximou e, lançando-se de joelhos a seus pés, disse: Senhor, tem piedade do meu filho, que é lunático e sofre muito, pois cai muitas vezes no fogo e muitas vezes na água. Apresentei-o aos teus discípulos, mas eles não o puderam curar. Jesus respondeu. dizendo: Ó raça incrédula e depravada, até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei? Trazei-me aqui esse menino. – E tendo Jesus ameaçado o demônio, este saiu do menino, que no mesmo instante ficou são. Os discípulos vieram então ter com Jesus em particular e lhe perguntaram: Por que não pudemos nós outros expulsar esse demônio? – Respondeu-lhes Jesus: Por causa da vossa incredulidade. Pois em verdade vos digo, se tivésseis a fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a esta montanha: Transporta-te daí para ali e ela se transportaria, e nada vos seria impossível.”[1]

Cena singular na qual um pai de família representando todos os que chefiam os seus clãs familiares interpela o Mestre Rabi diante da manifestação do filho que se encontrava em processo obsessivo por subjugação.

Por ser digno de nota e objeto de explicação, temos o processo de obsessão como o envolvimento espiritual de uma criatura com relação a outra. No caso em deslinde, de um desencarnado para um encarnado. Fala-se que é de subjugação, pois o encarnado em questão, como bem destacado na passagem “… cai muitas vezes no fogo e muitas vezes na água …” demonstrando que o estado do subjugado “… é uma constrição que paralisa a vontade daquele que a sofre e o faz agir a seu mau grado. Numa palavra: o paciente fica sob um verdadeiro jugo.[2]

Entendido a questão do processo que ocorreu gostaríamos de destacar a questão que mais à frente que se desenvolve: da fé do tamanho do grão de mostarda. Deixa-nos pensar, pois que se os apóstolos que ladeavam o Mestre não na tinham como deveriam, nós, que não convivemos com Ele, pelo menos não temos esta lembrança, iremos ter ou desenvolver esta fé? Como, num processo de aprendizado acelerado que no momento estamos vivenciando, iremos trabalhar esta fé em nós?

Se observarmos, os apóstolos nada mais eram que tipos representativos da humanidade. Viviam em sociedade e para os costumes da época, grau evolutivo individual, padrão de entendimento da mensagem divina e compreensão da representatividade de Jesus naquele momento, também possuíam seus dilemas, dificuldades, mas também, contribuíram positivamente para o processo evolutivo de agrupamento no qual viviam. Influenciavam o seu clã e permitiam-se influenciar, levando tais conflitos ao Mestre.

Existiam fatores que eles não dominavam, mas que nem por isso eram excluídos da presença de Jesus. Sabiam-se aquém, em alguns momentos, do trabalho que eram convocados a realizar, mas não deixavam de executar quando eram convocados por Jesus. Por fim, sabiam-se que não conheciam todas as verdades que o Cristo trazia, mas nem por isso deixavam de acompanha-lo e dar testemunhos de fé em outros tantos momentos nos quais foram convocados a fazer. Muito pelo contrário. Executavam e procuravam fortalecer-se enquanto o faziam.

Quando erravam, corrigiam a rota. Não se permitiam tempo para lamentar a derrota. Num exemplo muito claro, após a negação de Pedro a Jesus, ele redimiu-se no trabalho bem executado em prol da divulgação da Mensagem de Amor do Mestre, sendo um dos mais fiéis apóstolos após a partida de Jesus juntamente com Paulo de Tarso.

Já nos orienta Erastro[3]: “Ah! bendizei o Senhor, vós que haveis posto a vossa fé na sua soberana justiça e que, novos apóstolos da crença revelada pelas proféticas vozes superiores, ides pregar o novo dogma da reencarnação e da elevação dos Espíritos, conforme tenham cumprido, bem ou mal, suas missões e suportado suas provas terrestres.”

A maneira dos apóstolos não nos é exigido a perfeição, nem tão pouco a compreensão absoluta para seguirmos os passos do Mestre e termos fé “… do tamanho do grão de mostarda”, mas os apóstolos nos ensinam na perseverança que desenvolvemos a fé através do trabalho árdua de devoção ao bem e modificação interior iremos trabalhando a argila igual aos vasos antigos que após serem moldados são levados ao fogo extremo e tornam-se sólidos, após a queima.

A fé não nasce pronta nem aparece num processo rápido. É construída dia após dia através do aprendizado constante da criatura para com ela mesma diante da vida. Não é mensurada em quantidade, mas em qualidade, sendo individual, revela-se nos mais diferentes e inesperados momentos da vivência da criatura. O que para um pode ser um fator desencadeador, para outro representa um momento de revolta, traduzindo-se também como uma soma de experiências passadas que a faz eclodir e solidificar na criatura. Ter fé é compreender que a vontade de Deus é a que prevalece porque ela representa o real cumprimento da Sua Lei.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – julho 2021


[1] MATEUS, cap. XVII, vv. 14 a 20

[2] Livro dos Médiuns, item 240

[3] Evangelho Segundo o Espiritismo, item 4