Conversão

Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Em dado instante, todavia, quando mal despertara das angustiosas cogitações, sente-se envolvido por luzes diferentes da tonalidade solar. Mas a confusão dos sentidos lhe tira a noção de equilíbrio e tomba do animal, ao desamparo, sobre a areia ardente. A visão, no entanto, parece dilatar-se ao infinito. Outra luz lhe banha os olhos deslumbrados, e no caminho, que a atmosfera rasgada lhe desvenda, vê surgir a figura de um homem de majestática beleza, dando-lhe a impressão de que descia do céu ao seu encontro. Sua túnica era feita de pontos luminosos, os cabelos tocavam nos ombros, à nazarena, os olhos magnéticos, imanados de simpatia e de amor, iluminando a fisionomia grave e terna, onde pairava uma divina tristeza. O doutor de Tarso contemplava-o com espanto profundo, e foi quando, numa inflexão de voz inesquecível, o desconhecido se fez ouvir: — Saulo!… Saulo!… por que me persegues?[1]

O então ainda Saulo de Tarso, doutor da Lei, conhecedor das escrituras encontra-se no momento mais decisivo da sua encarnação. Já havia vivenciado o momento de aprendizagem com Estevão, o qual não aproveitou; o momento de aprendizagem com Abigail, sua noiva, o qual também não aproveitou; necessitando do encontro com o Mestre Rabi na estrada de Damasco para então haver a conversão de Saulo em Paulo de Tarso.

O então Saulo, encontrava-se revoltado pelo desenlace físico da sua noiva, creditava que por que ela deixou-se envolver pela mensagem do crucificado e por ter ouvido a mensagem dos frequentadores da Casa do Caminho, ela havia mudado de comportamento e por isso, em síntese, ela havia desencarnado. Creditava, ainda, a Ananias, a responsabilidade, pois este era o decodificador da mensagem para a jovem Abigail.

Coisa singular, ocorre conosco após deixarmos velhos hábitos para trás. Abandonamos antigas companhias, deixamos de ter determinadas conversações, adquirimos outro proceder. Enfim, ocorre uma mudança de proceder em quem somos. Isto choca alguns, irrita outros e fascina alguns. Dentre tais criaturas, existem os que nos ladeiam a encarnação. Estes, podem assumir a postura de apoio ou simplesmente ignorar a nossa mudança, creditando os dissabores da nossa encarnação a mudança de conduta, esquecendo-se que dissabores, tristezas e amarguras, iremos possuí-las todos, independente do guante religioso que abracemos.

O que sim, irá diferenciar é a forma como iremos vivenciar a experiência em virtude da fé religiosa que abracemos teremos maior ou menor entendimento e consequentemente maior ou menor resignação diante dos fatos. Quando estamos entorpecidos pelo ópio do ódio, da inveja, do ciúme e de tantos outros vícios e nos afastamos das virtudes que já se fazem presentes em nós, acreditamos que os outros são responsáveis pela nossa desdita. Porque pessoas amadas vão embora de nossas vidas ou porque, enfim, passamos por determinadas situações. Alguns de nós, revoltamo-nos perante a Lei. Desejamos fazer justiça pelas próprias mãos alegando que temos o direito: Pois “… uma coisa é estudar a Lei e outra é defender a Lei.”[2]

Com o passar do tempo, muitas vezes, sem nos apercebermos, tornamo-nos censores severos dos nossos semelhantes por nos acreditarmos como os guardiães fies da Lei de Deus. Esquecendo-nos de observarmos a nós mesmos diante da própria Lei que comungamos. Não basta parecermos, é necessário sermos. Em muitas ocasiões, procuramos aplacar a nossa consciência de culpa diante do que fizemos de errado, semelhante a Saulo, que procura aplacar a sua consciência de culpa perante Abigail, por tê-la abandonado e por ter sido algoz de Estevão, este segue em busca Ananias, o culpando por algo que ele não era responsável. Quantas vezes também não agimos desta forma e culpamos os outros por atos que somos nós quem os causamos?

No desejo de aplacarmos esta consciência que nos lembra da nossa responsabilidade perante atos passados desta ou de outras encarnações tornamo-nos vigias ciosos da Lei em detrimento do comportamento alheio esquecendo-nos da nossa própria conversão. Ato contínuo, a própria Lei a qual defendemos materializa-se através de uma Luz tão clara que nos faz enxergar sem contradita a verdade e executamos o movimento de conversão, de volta para o princípio, para podermos regularizar a meta traçada. Pois a Lei é correta, a forma como estamos interpretando e aplicando está equivocada.

A semelhança de Saulo, que não compreende o que ocorre diante de Jesus, num primeiro momento, também nos sentimos perturbados diante de tamanha Luz a nos envolver. Momento chega, após a conversão, que não mais seremos a criatura antiga, não seremos mais Saulo, mas sim, Paulo, pronto aos testemunhos da encarnação. Nos quais nos depararemos com criaturas que antes aplaudiam o nosso comportamento deturpado perante a Lei, pessoas que nos ladeavam o comportamento e outras que detestavam o que faziam, mas temiam-nos as atitudes; zombarem de nós e acreditarem que nos tornamos fracos, quando nos tornamos mais fortes.

Pois entendemos que forte é aquele que sai de si e cresce como criatura, passando a enxergar as outras pessoas. Os sentimentos de solidariedade e gentileza caminham junto com a Lei. A verdade da mensagem forma a tríade de Justiça, Amor e Caridade vivenciada por Jesus. Passamos a entender que mais do que palavras o exemplo será a melhor forma de ensinar ao outro a Lei.

No livro em pauta, Jesus orienta o Saulo a ir para Damasco aguardar ajuda, pois naquele momento, a luz foi tão intensa, que ele ficou sem enxergar. Após o decorrer dos dias, necessários para a reflexão, quem vem restituir-lhe a visão material é Ananias. Mesmo sabendo que poderia ser preso e maltratado pelo antigo Saulo. Exemplifica através da prática do perdão o testemunho do amor em ação.

Mãos amigas também nos conduzem os passos, enviados pelo Mestre Jesus, limpam-nos os olhos da cegueira espiritual. Restituem-nos os passos no caminho reto do bem. Encaminham-nos para seguir-nos no único e seguro meio de chegarmos a perfeição relativa que nos é proporcionada. Momento chegará que também olhos desconfiados nos fitarão não acreditando na nossa conversão. Que importa, a exemplo do já Paulo de Tarso? Que perseveremos em nosso propósito!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – OUTUBRO 2021


[1] Livro Paulo e Estevão, psicografia de Chico Xavier, autor Emmanuel, Primeira Parte, cap. 10

[2] Idem