O moderno São Francisco

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Octávio Caumo Serrano  caumo@caumo.com

Muito inspirado o novo papa da igreja católica quando adotou o nome de Francisco, homenageando o “poverello” de Assis.

Há muito que nós defendemos a importância da disciplina nas reuniões do nosso Centro Espírita, porque não se trata de um evento social, mas uma confraternização espiritual, onde certos detalhes devem ser observados com rigor. Por exemplo, a indumentária que usamos nessas ocasiões, onde não deveríamos ir de shorts, regatas, chinelo, bermudas, decotes ou assemelhados, bonitos e próprios para outros locais. Temos também combatido o uso do famoso celular, pelo menos no curto período em que estamos no centro, porque se estamos mais preocupados com ele do que com os nossos problemas espirituais, melhor ficarmos em casa. Nada temos a fazer no centro porque nem doaremos nem receberemos. A simples presença física, com a alma alienada ante os acontecimentos, nada nos acrescenta.

Agora, também Francisco censura os celulares na missa, dizendo que a Igreja não é um museu e que os fiéis não são paparazzi para ficar fotografando a missa sem manter atenção à cerimônia religiosa. Reclama que chegam na igreja cinco minutos antes e em vez de recolher-se em silêncio conversam de tudo e com todos. Como numa festa mundana. No nosso centro não é permitido conversar enquanto esperamos o início da palestra. Distribuímos mensagens, revistas, temos biblioteca de livros espíritas, tudo para que o participante torne a espera menos cansativa, já que todos nós somos meio ansiosos e esperar nos causa desconforto.

Temos, encantados, acompanhado as atitudes do Papa Francisco que se mostra pleno de humildade no cargo que ocupa, a ponto de transformar em doação aos necessitados o valor de um carro de alto luxo que recebeu de presente. Lembrou-nos o episódio Chico Xavier, muito mais modesto, mas igualmente representativo, quando recebeu um Volkswagen zero Km e trocou-o com um fornecedor do centro por alimentos para os pobres.

Outro assunto que temos enfatizado é que não devemos nos aborrecer nem irritar com a desonestidade de bandidos, políticos corruptos ou qualquer outra coisa contra as quais não temos força para lutar. Devemos ter sabedoria para mudar o que pode ser mudado e também para aceitar o que não pode ser mudado. Nossa revolta insensata nos adoece e nada soluciona. Vimos o papa na sua última fala dizer que está a par da corrupção que existe na sua igreja, com dinheiro e problemas de pedofilia, homossexualidade e que tais, mas que ele depois que foi morar na Itália aderiu um pouco ao estilo italiano de vida. “Na Argentina, disse ele, eu era radical e vivia estressado, querendo consertar tudo. Aqui na Itália aderi ao “menefreguismo”, derivado da conhecida expressão fascista italiana “me ne frego” (que me importa), porque o que vale é seguir em frente no combate para que superemos qualquer risco.”

Ele demonstra estar convicto que somos parceiros de Deus na melhora do mundo, mas não devemos querer resolver os problemas que só a Ele competem. Quando o Criador se dá conta de que um filho seu está perdendo as oportunidades de crescimento e ainda prejudica o semelhante, Ele o afasta da sociedade usando uma doença, um acontecimento fortuito, ou mesmo desligando-o do mundo material fazendo-o voltar à espiritualidade para avaliar-se e recomeçar.

Observando a humanidade destes tempos finais, concluímos que tudo é irreversível. É impossível transformar a maioria dos homens de agora em pessoas de bem. Atuem onde atuarem, especialmente nos altos cargos onde a desonestidade é padrão de conduta. A melhora só vira com a substituição paulatina deles com a reencarnação de espíritos mais comprometidos com o bem. O que nos compete, como afirmou o Papa, é não sermos nós um desses desonestos. Se nossas convicções já nos levam a isso, menos mal. Mas se ainda invejamos a esperteza dos outros e desejamos também levar vantagem ilicitamente, é só deixar as águas rolar. A opção é pessoal e intransferível. Só que no final ninguém se queixe. A cada um segundo suas obras.

Vida longa ao Papa. Que ele sobreviva às máfias, inclusive a religiosa, e possa seguir como homem de bem. Agradecemos, Francisco, por seus exemplos de retidão de conduta.

Jornal O Clarim – fevereiro de 2018

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Assuntos de gratidão

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Octávio Caúmo Serrano   dia a dia 1/18 caumo@caumo.com

Os espíritos disseram a Allan Kardec que nós nos perdemos nas palavras. Que o ideal seria existir um idioma no qual cada palavra identificasse claramente uma ideia, sem subterfúgios ou divagações interpretativas.

Ao analisar as palavras humildade, resignação, paciência e outras tantas, vemos que cada pessoa lhes dá uma conotação. Humildade, uma das maiores virtudes espirituais que podemos encontrar em ricos e pobres, é confundida com a miserabilidade. Usa-se para definir uma pessoa sofrida, malvestida, sem recursos.

Resignação é entendida como acovardamento porque nos induz a aceitar tudo sem contestação. Na verdade, é o entendimento de que passamos por aquilo que precisamos, merecemos ou construímos e que, portanto, exige de nós luta sem revolta e não acomodação.

Paciência é entendida como calma passiva, contemplando o caos sem tomar qualquer ação. Mas não é. Paciência é equilíbrio, mas com enfrentamento contra o que nos desagrada, de maneira serena e sem perder a fé. Acreditando que passaremos por mais uma provação.

A gratidão também é entendida como a retribuição ao que nos fez o favor, com simples agradecimento, mas, sempre que possível, com algum bem ou favor. Exemplo dos mais simples é o da senhora que recebe da vizinha uma vasilha com doce e não consegue apenas lavá-la e devolver vazia, agradecida. Precisa pôr, também, algum presente como troca. Segundo os psicólogos essa atitude é feita para quitar a dívida e não ficar em posição inferior. Paga e já não deve nada. Embora aleguem que é apenas pagamento de gentileza com gentileza, o gesto esconde algo mais profundo.

A gratidão consiste em não ser mal-agradecido com quem nos ajuda, mas não há necessidade de ser retribuída para a mesma pessoa, desde que ela não precise. Podemos demonstrar nossa gratidão, ao fazer um favor a quem dele realmente necessite, mostrando que entendemos a possibilidade de ser fraternos. Se gostamos de receber, certamente o outros também se alegrarão com nosso gesto.

Não tenha pressa em se livrar da dívida de gratidão. Mantenha-a viva em sua alma feliz por ter quem preste atenção em você e desfrute o prazer de ter amigos desinteressados. A vida é troca permanente, mas não necessariamente entre as partes envolvidas apenas, mas num leque que abrange toda a sociedade. Já fui menino muito pobre e recebi ajuda de todos os lados, de pessoas às quais nunca pude retribuir. Estudei com desconto na mensalidade do colégio, vesti muita roupa doada, me alimentei de muitas sobras que a mãe, empregada doméstica, levava no final do seu trabalho. Mas depois disso, já ajudei muita gente. E o melhor, tenho vivas na memória todas as ajudas recebidas desde os meus sete anos de idade até hoje. Especialmente até os quarenta quando minha vida começou a estabilizar-se e pude dar mais que receber. Aos oitenta e três continuo na minha proposta de fazer o bem de todas as maneiras.

Gratidão à vida, em primeiro lugar. As pessoas são emissárias de Deus para ajudá-Lo na construção de um mundo cada vez melhor, do qual somos co-criadores. Dando e recebendo, permanentemente, sem sentir-nos humilhados ou envaidecidos. Tudo muito natural.

Se fôssemos nos aprofundar no assunto, veríamos que temos muito mais a agradecer do que a pedir. Gratidão por mais uma encarnação, pelo corpo, pelo lar, pelo trabalho, pelo alimento e pelas oportunidades de servir que passam à nossa frente a cada minuto e que geralmente não percebemos. É precisa que estejamos atentos.

Feliz 2018 e que Deus cuide de nós!

Jornal O Clarim – Janeiro  de 2018

Cuidado, Deus castiga

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Octávio Caumo Serrano

Um amigo comentou que em 1880 o reverendo inglês Gideon Ouseley achou um manuscrito chamado o “Evangelho dos doze santos” num monastério budista na índia, escrito em aramaico. No capítulo 21 ele afirma que Jesus falou: “Vim para abolir as festas sangrentas e os sacrifícios, e se não cessais de sacrificar e comer carne e sangue dos animais, a ira de Deus não terminará de persegui-los, como também perseguiu a vossos antepassados no deserto, que se dedicaram a comer carne e que foram eliminados por epidemias e pestes”. Falar da ira de Deus não contraria os princípios cristãos do amor ao próximo?

Ao longo dos tempos a “figura” de Deus foi usada pelos religiosos como um Pai punitivo que se irava e castigava, contrastando com a bondade e a misericórdia que a Ele atribuímos. Já na questão número 10 de O Livro dos Espíritos está indagado se “pode o homem compreender a natureza íntima de Deus” e os veneráveis responderam que não. Falta-lhe o sentido para isso”. Quando dizemos que somos filhos de Deus criados à sua imagem e semelhança, logo nos vem à mente um velho barbudo, com um cajado, sentado num trono, como os reis terrenos. Mas a nossa semelhança com Deus é espiritual, não física.

Sem reportar-nos a tempos sepultados num passado longínquo da história, chegamos a fatos relativamente recentes com Moisés e os dez mandamentos e vemos que depois de tirar os judeus do Egito ele continuou legislando em nome de Deus. Deus não permitia atividades aos sábados; a circuncisão devia ser feita nos meninos, porque Deus ordenara, quando era simples ato de higiene para evitar doenças. Deus proibia consumo de carne de animais de quatro dedos, como o porco. Hoje sabemos os cuidados que temos de ter ao preparar carne suína. Sempre bem cozida porque traz muitas enfermidades, como a neurocisticercose, por exemplo, que leva um verme do porco a diferentes partes do organismo, inclusive ao cérebro. E muitas outras providências importantes para manter a saúde das pessoas foram por Moisés atribuídas à vontade Deus. E as pessoas acreditavam cegamente e, portanto, obedeciam. Ainda hoje é comum a expressão “temente a Deus”, mas nunca no sentido do respeito, mas de temor; de medo. Se você pecar a ira de Deus se voltará contra você.

Para o Espírita não existe pecado, pois Deus não castiga nem perdoa. Deus é a Lei e não se envolve em nossas intrigas, paixões e desentendimentos, nem em tudo o mais que diga respeito à nossa vida mundana. Para demonstrar a Lei de Deus na prática, exemplificando, Jesus veio pessoalmente ao nosso planeta para informar que só o amor pode nos fazer melhores. Foi humilhado e perdoou, inúmeras vezes, embora tivesse poder para destruir seus inimigos com um simples olhar. Cumpriu um ritual doloroso para os humanos ao testemunhar, na prática, qual deve ser a atitude de um legítimo filho de Deus.

Jesus chegou até os nossos dias graças às anotações de alguns abnegados que viveram no seu tempo. Especialmente os Evangelistas. Há mais de cinquenta evangelhos apócrifos embora a igreja use para a sociedade apenas os de Mateus, Marcos, Lucas e João. Mas o pouco que foi registrado é mais que suficiente como roteiro para uma vida cristã que nos elevará na escala espiritual. Basta saber que o amor cobre a multidão de pecados, como consta na Epístola de Pedro. Ame e o resto virá por acréscimo de misericórdia.

Como deveríamos, então, comportar-nos diante da vida? Exatamente de forma contrária à que nos comportamos. Substituir a valentia pela mansuetude; o orgulho pela humildade; o egoísmo pelo desprendimento; a derrota provisória pela vitória eterna e a dúvida pela fé. Não precisamos ter sempre razão, pois isto só produz desafetos. Que o outro fique com a sua razão e nós com a paz no coração. Troquemos a bajulação provisória dos homens pela glória eterna de Deus. Assim cumpriremos a Lei.

Quanto a alimentar-se da carne, na questão 723 diz o Livro dos Espíritos: “Dada a vossa constituição física, a carne alimenta a carne, do contrário o homem perece. A lei de conservação lhe prescreve, como um dever, para que mantenha as energias e a saúde para o cumprimento da lei do trabalho. Portanto deve alimentar-se conforme exige seu organismo”. Com a evolução espiritual, suas necessidades grosseiras vão desaparecendo e alimentos mais frugais o suprirão suficientemente. Sem contar que hoje já existem vegetais com as mesmas proteínas da carne. A soja é um exemplo.

Feliz Natal e um iluminado Ano Novo para cada amigo leitor e para os que compõem a nobre Editora deste jornal que tantos recados libertadores nos oferece. Vamos dar graça a Deus pela oportunidade que temos de continuar vivendo e crescendo como espíritos imortais. E como Deus é misericórdia, fiquem todos certos de que Ele nunca castiga.

Jornal O Clarim – Dezembro de 2017

 

 

Um perigoso obsessor

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Octávio Caumo Serrano

Parece absurdo ter de pedir para que as pessoas desliguem os celulares ao entrar no Centro. Afinal, se estão mais interessadas no celular do que no Evangelho e na assistência espiritual, o que vão fazer na casa espírita?

Ressalvadas as exceções, médicos e plantonistas de qualquer atividade, que podem deixar ligados seus aparelhos sem o som, apenas com o aviso vibratório que atenderão nas emergências retirando-se para local isolado, nada justifica ir ao centro com a atenção mais ligada nesse rastreador do que na palestra do dia.

É preciso deixar claro para as pessoas que ao entrarmos no Centro já somos ajudados e doamos o que tivermos de melhor para outros necessitados. Importante também que saibam que a explanação da lição do dia é mais importante do que o passe, porque o Evangelho nos dá o conhecimento da verdade que é a real libertação. O passe é reforço fluídico que deve ser acompanhado da colaboração do assistido para maior eficiência.

Dia destes, no nosso Centro, logo na segunda fileira do salão, uma senhora com criança de uns dois anos, brincavam de celular. Antes da palestra a ser feita por uma confreira da nossa Instituição, pedimos a ela que se fosse impossível fazer a criança se comportar, que, por favor, se sentasse mais no final do salão, para não atrapalhar os que tinham interesse no assunto, nem desviar a atenção da expositora, que havia se dedicado na preparação do tema do dia para oferecer-nos o melhor.

A senhora levantou-se naturalmente, deu água para a criança, e acomodou-se na outra sala onde pode assistir à palestra por um monitor de TV. Tudo natural, sem trauma. Apenas disse a ela que a criança não tinha culpa porque o que ali se realizava não despertava nela qualquer interesse. O erro é dar um celular a uma criança a quem a mãe deveria dar uma boneca. Ela estava sonegando da filha a sua infância. Retirei-me e fui participar dos trabalhos dos passes de tratamento.

Dia seguinte, soube que um casal que foi ao Centro por primeira vez estranhou nosso comportamento, censurando-nos.  Lamentei por eles porque mostraram que não conhecem as implicações da hierarquia, da organização e do respeito. Sendo caridoso e calando diante da atitude daquela mãe equivocada, estaríamos desrespeitando todos os demais que destinam aquele pequeno tempo para sua oração semanal, muitas vezes vindos diretamente do trabalho, sem alimentação, porque consideram importante em suas vidas. Preferível, portanto, que dois ou três se zanguem a que todos os demais sejam privados do ambiente equilibrado. Já disse Jesus que não devemos lançar pérolas aos porcos. Baseamo-nos na orientação do item 21, por São Luiz, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo X.

Certa vez, o competente José Raul Teixeira, expressivo conferencista espírita, interrompeu a sua fala diante da indisciplina de crianças num Centro, perguntando onde estavam seus pais e os dirigentes da casa que não tomavam providências. Disse que naquelas condições era impossível realizável seu trabalho. E era apenas convidado.

Ninguém é obrigado a ir ao Centro. Mas quem vai deve se submeter à sua organização, sentando onde lhe recomendam, seguindo os trâmites dos trabalhos, comportando-se conforme estabelecido pela administração que antes de criar normas estudou-as, criteriosamente. Quem não se adaptar, procure outro local que mais lhe agrade. O dirigente é o guardião da doutrina dentro do Centro. Os erros e as falhas dos trabalhadores são atribuídos ao Espiritismo, porque o participante insatisfeito dirá que se desencantou com a Doutrina Espírita, pela maneira como é ali divulgada.

Quem dá mais importância ao celular do que ao Evangelho, escravize-se a ele no restaurante, na rua, no carro, em casa. Não na igreja, no templo, no Centro Espírita, no teatro ou em qualquer reunião pública. Queremos nos livrar dos espíritos inferiores, mas temos outros obsessores eleitos por nós mesmos: crediário, cartões de crédito e as famosas redes sociais onde temos amigos aos milhares que, no entanto, nos deixam abandonados quando estamos precisando de atenção e socorro. A opção de cada um é livre, mas o centro se serve das lições do Cristo para ajudar na educação das almas. Quem não concordar com as normas não venha. Diz o povo e aqui se aplica: “Muito me ajuda quem não me atrapalha”.

Jornal O Clarim – novembro de 2017

 

Pensamentos já pensados

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Octávio Caumo Serrano            dia a dia

Muito justo que aprendamos, repitamos e reverenciemos os ensinamentos que nos legaram os vultos da história. Políticos, religiosos, filósofos, cientistas, poetas, jornalistas e de outros seguimentos, que nos deixaram lições para facilitar-nos o curso da vida.

Experimentadores expertos empregaram sua vida em pesquisas, ocupados com soluções que seriam úteis para que o mundo fosse melhor. Daí, profetas e enviados de Deus, destacadamente o nosso Venerável Jesus Cristo, esqueceram-se de si mesmos para amar o próximo e aconselhar-nos a prudência, o bom senso, fornecendo-nos regras para simplificar nossa caminhada, a fim de amainar-nos o sofrimento.

Mas, diz o povo, que há dois tipos de tolos: Os que acreditam em tudo e os que não acreditam em nada. Quando não entendemos ou não concordamos com alguma opinião ou diretriz que nos é proposta, é sabedoria deixar em banho-maria até que tenhamos condições para decidir com bom senso. Não devemos negar sem fundamento o que não conhecermos, mas não podemos também crer de maneira irracional em tudo o que nos digam, especialmente quando provém de pessoas supostamente importantes.

É comum alguém ser chamado de “vaquinha de presépio”, que balança a cabeça sempre aprovando, ou maria-vai-com-as-outras, porque aceitam como verdade tudo o que lhe dizem. Se um religioso lhe disser que basta ir à igreja dele, aceitar Jesus e oferecer o dízimo para livrar-se dos “pecados” ele, crédulo, confia sem raciocinar, embora saiba que nenhum mérito tem para libertar-se do que fez de errado. Se lhe disserem também que acendendo uma vela do seu tamanho conseguirá a graça que procura ou penitenciando-se com o flagelo de uma caminhada de joelhos em solo pedregoso, ele crê que Deus vai se agradar com isso e premiá-lo com a felicidade que busca.

Ainda atendo-nos à religião, vamos encontrar em O Livro dos Espíritos uma questão interessante: A de número 623. Depois de nos dizer que a Lei de Deus está inscrita na consciência (621) e que de vez em quando Deus envia Espíritos Superiores para orientar as pessoas, foi perguntado se “os que pretenderam instruir os homens na Lei de Deus, às vezes não se enganaram transviando-os devido a falsos princípios?” (623). A resposta é clara: “Aqueles que não foram inspirados por Deus e que se dedicaram por ambição a uma missão que não lhes cabia, certamente pode tê-los transviado. No entanto, como eram afinal homens de gênio, mesmo em meio aos erros que ensinaram, muitas vezes, se encontram grandes verdades.” Ou seja, só aceitamos os erros quando nos convém.

Isso significa que não podemos ser crentes cegos; devemos analisar tudo e reter o que é bom, segundo conselho de Paulo de Tarso. Portanto, mesmo aquele orientador que busca tirar de nós vantagens financeiras para “salvar-nos” dizem verdades que podemos aproveitar.  Se do seu discurso separarmos o joio do trigo, ficando só com o que é útil e descartando o que não faz sentido, seremos beneficiados mesmo que as palavras tenham vindo de oportunistas que procuram beneficiar-se a custa da pregação religiosa. Mas para saber que atitude tomar, temos de conhecer a verdade, porque é a verdade que nos libertará, já advertiu Jesus Cristo.

Em síntese, embora possamos seguir pensamentos já pensados, de quando em vez será interessante que tenhamos nossos próprios conceitos sobre o que nos diz respeito diretamente, porque só nós podemos saber aquilo que realmente queremos para a nossa vida. Ninguém pode vivê-la por nós, por mais bem intencionado que seja e pelos melhores conselhos que nos ofereça. Disse o Cristo, no Evangelho de Mateus, capítulo 10,  que temos que ser simples como a pomba, mas  prudentes como a serpente, porque no mundo de hoje os bons são como ovelhas no meio de lobos. Não podemos ser muito sabidos (donos da verdade) nem muito ingênuos (dizendo amém a tudo e todos).

De vez em quando, portanto, em vez de pensarmos com a cabeça dos outros tentemos pensar com a nossa.

Jornal O Clarim de outubro de 2017

O egoísmo

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Dizem os Espíritos que o egoísmo é a matriz de todos os males do homem. O egoísta é, invejoso, ciumento e nunca pode ser satisfeito, porque nada lhe é suficiente. O egoísmo caminha paralelamente com a insegurança, com o orgulho, o melindre e ele sente necessidade de sempre ter e ser o melhor.  No capítulo XI de O Evangelho Segundo o Espiritismo, vemos os itens Egoísmo e Fé e caridade e logo percebemos que são incompatíveis. Ou temos fé e somos caridosos ou somos egoístas. O egoísta jamais é caridoso. Ele não sabe dividir.

Lamentavelmente, essa é uma característica de quase todos os seres humanos. Só grandes Espíritos conseguem vencer essa deficiência. O pior é que ele está em todas as raças, todas as idades, mostrando que é uma deficiência da humanidade. A partir da mais tenra idade o egoísmo já se manifesta. Uma criança rica que tenha todos os brinquedos mais modernos, ao ver um menino pobre com um carrinho de madeira quererá esse também. Parece que a felicidade do outro a incomoda.

A pergunta que não quer calar é: – Mas quem são os Espíritos e por que vêm nos orientar? A resposta não é difícil. São entidades que até pouco tempo viveram num corpo como o nosso e tiveram comportamento desorganizado como o que hoje temos. Ao chegar na espiritualidade sentiram o desconforto que seu tipo de vida lhes causou e como já abrigam alguma bondade em seu coração, advertem-nos para que não cometamos os mesmos erros. Fossem ainda egoístas e não se importariam conosco. Lembram-se da mensagem da Rainha de França de O Evangelho Segundo o Espiritismo? Ilustra bem o que estamos afirmando.

Um dos exemplos mais marcantes da vitória contra o egoísmo é o do nosso querido Adolfo Bezerra de Menezes. Visitado pelo anjo Celina, enviado por Maria de Nazaré, foi informado que já tinha direito a viver em planos mais elevados como prêmio por sua conduta envolvendo o amor ao próximo, quando encarnado e depois desencarnado. Num gesto de desprendimento, Bezerra responde que se lhe é permitido escolher, ele gostaria de ficar junto aos seus irmãos sofridos da Terra enquanto aqui houvesse uma só lágrima a ser enxugada.

Seria essa também nossa atitude ou comemoraríamos por poder deixar este vale de lágrimas para viver em planos celestiais, como mérito por nosso progresso?  Será que como Bezerra também nos importaríamos com a dor do nosso próximo, abrindo mão de vantagens para continuar na prática do bem?

É algo para pensarmos em mudar nosso comportamento desde já porque tudo nos diz respeito. O sofrimento de um respinga na vida do outro. Vejam o que acontece quando uma pessoa da família está desajustada, enferma, viciada ou depressiva. Todos os outros sofrem juntos porque estamos amarrados uns nos outros. Somos gregários; não conseguimos viver sozinhos.

Enquanto formos egoístas, nos desgastamos pelas conquistas e nunca estaremos saciados. Treinando o desprendimento, o desapego a tudo e todos, vemos que seremos mais felizes e passamos a precisar cada vez de menos para ser felizes porque a felicidade não está nas coisas que temos, mas naquilo que somos. Já se disse que o verdadeiro rico não é quem tem muito, mas quem precisa de pouco. Ensina o Espiritismo que é sabedoria saber viver com o necessário. A conquista do supérfluo é desgastante, difícil e quase nunca compensa. Vem acompanhada da doença, inimizade e, em certas situações,  até da desonestidade.  O esforço não vale a alegria que venha a proporcionar.  Temos direito ao progresso, mas que seja com equilíbrio.

Jornal O Clarim – Setembro 2017

 

Para que serve viver

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Octávio Caúmo Serrano  Dia a Dia 8/2017

O que é, na verdade, a vida? A vida pequena e a vida maior?

Buscamos no outro a nossa razão de viver, porque parece que sem ele tudo é impossível, mas na realidade é para nós e por nós que vivemos, embora o outro sirva como instrumento para nossas ações.

Que certeza podemos ter dessa afirmativa se não perguntarmos quem somos, o que queremos do mundo e como podemos realizar nossos anseios? Consideramos somente este instante pequeno em que estamos rodeados de mentiras, de maldades, de desamor e desonestidade ou temos certeza de que somos filhos de Deus, criados à sua imagem e semelhança? Acreditamos que o caos é mais forte que o Plano Divino ou já entendemos que somos apenas testados para aferição da nossa coragem e discernimento?

Não podemos pensar com a mente alheia nem ter as dores que o outro sente ou cultivar o ódio ou o ranço do egoísmo que não nos pertence.  Já nos convencemos de que “a cada um segundo suas obras” não é um enunciado filosófico, mas um artigo da Lei de Deus, soberana e universal?

Por isso é que o Espiritismo nos informa sobre a reencarnação e deixa claro que nossas conquistas se incorporam à nossa alma, indelevelmente. Toda virtude conquistada é para sempre e um defeito corrigido fica extirpado definitivamente. Sem deixar sequela. Por isso somos diferentes uns dos outros e porque o que um faz em dez encarnações o outro realiza numa única. Então vale à pena o nosso esforço. Se fosse para uso provisório, só nesta vida, talvez considerássemos um trabalho grande para uma compensação pequena. Mas como vai ficar por toda a eternidade, qualquer sacrifício momentâneo é grandemente valorizado.

Sendo a Doutrina Espírita e revivescência do cristianismo, ou seja, sendo ela Jesus nos falando novamente, com a simplicidade que os homens adulteraram ao longo do tempo, é fácil entender porque o Cristo se preocupa tanto com seus irmãos da Terra. As pessoas do seu tempo, devido ao vaivém das encarnações, são hoje mais eruditas e têm um alcance mental maior o que lhes permite interpretar até mesmo as parábolas de maneira mais inteligente. Naquela época Jesus informou que mais não adiantaria informar porque não entenderíamos. Mas agora que já somos diferentes Ele repete porque sabe que entenderemos com mais clareza. Já repetimos as experiências tantas vezes que pelo menos um mínimo já crescemos como espíritos eternos.

Apesar de toda evolução, somos ainda criaturas muito limitadas e por isso temos de viver ainda num mundo inferior de constantes provações e de resgates aparentemente intermináveis, tantos são os equívocos a serem corrigidos. Mas estamos caminhando aos poucos e ser espírita nos dá uma vantagem porque sabemos que nada do que passamos é por castigo, mas por renovação de oportunidade, devido à misericórdia do Criador. E só o fato de termos Jesus como tradutor das Leis de Deus para facilitar nosso entendimento já nos define como filhos diletos do Pai que só deseja que sejamos felizes.

Não devemos perder a fé ou nos desgastar por valores miúdos, ouropéis descartáveis que só nos iludem. Isso se traduz por juntar tesouros no Céu em vez de acumulá-los na Terra onde a ferrugem corrói e o ladrão rouba. Todos os dias as enxurradas inesperadas destroem conquistas materiais de uma vida inteira, desiludindo as criaturas que colocaram nelas toda a sua esperança. E são obrigadas a começar de novo porque não há alternativa.  Amiúde a ganância simbolizada no terror deixa milhares de desabrigados e aleijados que imaginam estar fazendo justiça ou defendendo algo bom. Mas tudo passa porque tudo é por um pouco. Terminado um período escolar, começa outro. E a Terra não passa de uma grande escola.

Oremos pelos que cometem erros e pelos que são vítimas deles. Combatamos o que nos for permitido, mas não nos esqueçamos de começar por nós mesmos, porque aí reside a nossa maior responsabilidade. A cada um segundo suas obras, ensinou o Messias.

Jornal O Clarim – agosto 2017

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