Análises e meditações

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Octavio Caumo Serrano dia a dia de julho 18

Conselho da pergunta 919 de O Livro dos Espíritos; “Conhece-te a ti mesmo”.

Uma das minhas habituais preocupações é analisar-me para verificar como estou agindo no movimento espírita. Em relação aos outros, a mim mesmo e à casa onde colaboro com meus limitados e atuais recursos.

Também tenho cuidado com as palestras que faço quando convidado a ir numa casa congênere ou quando escrevo nos espaços que, gentil e generosamente, os veículos, espíritas ou não, me oferecem. Geralmente, temos em mente que somos trabalhadores do Espiritismo quando, sem perceber, somos atrapalhadores do Espiritismo, fazendo mais mal à nossa crença do que todas as demais doutrinas concorrentes juntas. Pretenciosos, pseudossábios, respondemos apressadamente a qualquer questionamento, sem nos dar conta que estamos aconselhando mal, provocando desacertos ou falsas esperanças. Imaginamos saber tudo sobre o comportamento dos espíritos e nos consideramos doutores em Espiritismo distribuímos ilusões.

Utilizo com frequência a expressão “não sei”, sem constrangimento, toda vez que não me sinto em condições de dar uma orientação correta. Mesmo que desagrade. Quando se fala de Jesus e as pessoas dizem que o Cristo salva, enfatizo que o homem é salvo por si próprio. O que Jesus disse é que para sermos felizes é preciso segui-Lo, porque Ele é o caminho, a verdade e a vida. Mas não prometeu carregar-nos no colo nem nos brindar com dádivas imerecidas, porque não condiz com a justiça divina.

Como espíritas aprendemos que “fora da CARIDADE não há salvação”. Kardec não disse que só o Espiritismo salva, nem que alguém mais salva, a não ser o bom comportamento e a boa utilidade do homem. Salvação individual e intransferível. Nem mãe salva filho, nem esposa salva marido. Precisamos de dois para reencarnar, mas o desencarne fazemos sozinhos, com nossas obras. Apenas amparados por Espíritos, bons ou maus!

Nunca prometi a um amigo, ou pessoa a mim encaminhada, que frequentando nossa casa espírita, recebendo passes, ouvindo palestras e estudando, teria alguma garantia de que seus problemas estariam resolvidos. Evidentemente que o Evangelho de Jesus é a grande receita para o homem libertar-se do sofrimento. Estando agora reforçado pela orientação lúcida da Doutrina Espírita, há mais condições para utilizá-lo na solução de seus desajustes e infelicidades. Mas certamente, a simples frequência a um templo, seja de que doutrina for, não garante o Céu a ninguém.

Em se tratando da nossa Doutrina que recomenda tudo oferecer de graça, especialmente o conhecimento e a mediunidade, tudo fica mais fácil de entender. Não precisamos enganar as pessoas para agradá-las com falsas promessas a fim de que colaborem com a casa. Há vezes que doações são necessárias, mas que sejam espontâneas. No nosso centro, felizmente, até agora nunca dependemos de ajuda financeira externa. Uma felicidade.

Constantemente damos oportunidade a novos trabalhadores para que se engajem na equipe da casa, deixando-os à vontade para que colabores nos trabalhos que se sintam  bem e, se desejarem, que aprendam outros trabalhos. A reencarnação se destina à obtenção de novos conhecimentos. Se só fizermos o que já sabemos sairemos daqui sem nenhum acréscimo. Perdemos tempo. E é preciso aproveitar cada minuto.

O que ninguém deve é assumir compromissos para os quais não tem vocação e habilidade, nem assumir compromissos que não deseja ou não pode cumprir com responsabilidade e prioridade. Se não quiser ser trabalhador não seja atrapalhador.

Jornal O Clarim – julho 2018

 

 

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Trabalhos num Centro Espírita

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Existe padronização nas atividades que devam existir em um Centro Espírita?

Em nossa maneira de ver, a resposta é NÃO.

Como então organizar uma instituição dessa natureza se não há uma regra que oriente quanto às atividades que devam ser exercidas num caso como esses? Vai depender de localização, tipo de público e suas necessidades. Muitas vezes nos confundimos até na prática da caridade, imaginando que precisamos distribuir bens materiais indiscriminadamente.

Quando Kardec codificou o Espiritismo e lançou o livro básico, O Livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1857, logo depois, em 1 de janeiro de 1858 começou a editar a Revista Espírita e em 1 de abril fundou, numa pequena sala para 20 pessoas, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, o primeiro Centro para estudo regular desta doutrina reveladora e restauradora de um cristianismo que se perdeu no caminho, pois estava se afastando da mensagem do Cristo. Espiritismo, já disse ele na introdução de O Livro dos Espíritos é para ser estudado sempre. Definiu-o como a Ciência do Infinito.

Se o centro se localiza próximo a uma sociedade carente no aspecto material, será justo oferecer a ela algum tipo de alimento como habitualmente se faz com a sopa fraterna. Igualmente, podemos facilitar ao público a aquisição de roupas com os conhecidos bazares espíritas onde os preços são meramente simbólicos. Além disso, há o pobre que precise da cesta básica ou a gestante que carece de um enxoval. Há o deficiente físico que precisa dos aparelhos para higienizar-se ou caminhar e o Centro pode ser um ótimo ponto de apôio para esses irmãos menos afortunados. Mas num local onde não haja pobreza, o Centro pode se limitar a pedir ajuda para que as pessoas se habituem a dar, despertando para o fato de que se a sua vida é relativamente boa, há no mundo muita carência e não devemos ficar de braços cruzados diante dos fatos.

O que o Centro não pode e não deve é criar trabalhos indiscriminadamente sobrecarregando seus colaboradores ou frequentadores com despesas que não desejam ou não podem ter. Desde a fundação da casa, seus dirigentes devem avaliar se podem mantê-las às suas expensas ou de uma diretoria disposta a encarar esse tipo de ônus, não estruturando sua organização na incerteza quando não tem uma equipe compromissada com o orçamento que possa manter a casa funcionando regularmente.

Fica claro, portanto, que um trabalho ou prática que nunca pode faltar num Centro Espírita é o estudo regular e permanente do Espiritismo. Lembrando Jesus, “conhecereis a verdade e ela vos fará livres”. Com as revelações da vida além da morte e os sucessivos nascimentos em mundos materiais, fica definida a nossa responsabilidade com a evolução espiritual, porque é esta a nossa verdadeira essência. Somos eternos e ocupamos de quando em quando organizações animais humanas, aproveitando com cada uma para adquirir conhecimentos e virtudes que nos permitam combater nossas deficiências para sermos cada vez melhores.

No estudo o ideal é que haja um coordenador com preparo doutrinário para dirigir a reunião. Mas na falta, que haja o estudo interpretativo dos livros da codificação e com o tempo o aprendizado amadurece. Atualmente, com a internet, há o recurso de assistir às palestras de bons orientadores. E mesmo em tais casos, podemos fazer comentários pessoais. O importante é a nossa melhora como pessoas. Diz Emmanuel que a tarefa mais importante que temos nesta encarnação é a do auto-aprimoramento. Isto pode ser feito até num centro em que não haja médiuns com tarefas específicas porque pode ser feito bom trabalho no esclarecimento do Evangelho.

Em síntese, os trabalhos assistenciais podem variar, mas o estudo da Doutrina jamais. É básico em qualquer casa espírita. De nada vale encher o centro de trabalhos variados e não dar conta por não ter pessoas para executá-los. E há trabalhos que não podem ser feitos com voluntários sob pena de ter de ser cancelados. Será preferível não criar novas atividades, mas dar boa conta dos trabalhos básicos da instituição. As pessoas têm muitos compromissos em suas vidas pessoais e não devemos sobrecarregá-las com um fardo que não podem suportar. Melhor fazer menos e bem feito.

Jornal O Clarim – junho de 2018

 

 

Aprendendo a pensar

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caumo@caumo.com

Diferente do que ocorre com os bichos que se orientam pelo instinto, apesar de que haja indícios de uma inteligência rudimentar que também nalguns deles se desenvolve, nós somos dotados de razão. O animal geralmente se orienta por experiência já vividas, como comprovou Pavlov, enquanto nós somos capazes de criar conceitos pela manipulação das ideias, sempre buscando seguir uma lógica com resquícios de bom senso.

Convém saber que a terceira lei de Newton que diz que “a toda ação corresponde uma reação, igual e contraria da mesma intensidade” e que está claramente comprovada no campo material, se estende e se amplia no terreno da mente e dos planos extra físicos. Daí, somos o resultado dos nossos pensamentos e das nossas atitudes. O que fazemos colhemos. De bem ou de mal. Somos o que pensamos porque é daí que nascem os esboços para as nossas ações. O pensamento é matéria e tem força criativa. É, inclusive, o indício de que há vida, se fundar-nos na expressão de Descartes “cogito, ergo sum”; penso, logo sou.

A grande culpada do sofrimento humano é a recusa que o homem tem de pensar. Incomoda-o conhecer a verdade porque será obrigado a segui-la ou, pelo menos, leva-la em consideração ao ter de decidir sobre sua vida. Prefere entregar sua sorte a terceiros (ao governo, ao padre, ao pastor, ao patrão, ao presidente do centro espírita) a lutar por si mesmo e raciocinar com bom senso sobre a sua vida; o bem mais precioso entre todas as suas heranças. Se pode pagar ao templo para que sua salvação seja conseguida, preferirá este caminho a ter de se submeter a um esforço de reforma moral. Por que só ele deverá modificar-se se há toda uma sociedade que faz o caminho inverso e consegue sucesso? Por que ser decente, honesto, em uma conjunção corrupta em que a maioria se dá bem?

Acontece que a quem muito é dado muito será cobrado. Quer dizer, “conhecereis a verdade e ela vos fará livres”, como ensinou Jesus. Uma vez tendo acesso ao conhecimento, ignorá-lo é covardia e querer fugir do óbvio e da razão com desculpa inaceitável. Desejar merecer as honras do céu mediante doações ou sacrifícios pessoais de autoflagelos sem aproveitamento é uma das facetas que retratam a ignorância humana. Se imaginam comprar a felicidade com dinheiro, marginalizando os que não têm recursos, demonstram ignorância e pretensão. Se assim fosse, os pobres estariam condenados ao inferno simplesmente por sua condição social. Mas nunca indagam por que há ricos e pobres. Letrados e analfabetos. Inteligentes e idiotas. Saudáveis e doentes. Velhos e moços. Religiosos e ateus. Patrões e empregados. Honestos e desonestos. Pesquisar a razão dessas diferenças, só é possível aos que aceitam a lei da reencarnação e sabe que vivemos hoje as consequências do ontem. Que colhemos agora a lavoura que plantamos. Que somos donos da herança que produzimos em outra vida e da qual somos o único herdeiro.

O esperto de hoje é o tolo de amanhã; o malandro de agora é o otário do futuro. Quem semeou ventos vai colher tempestade, diz o adágio popular. A qualquer um podemos dar o direito de equivocar-se neste aspecto. Mas nunca poderemos dar esse mesmo direito ao praticante espírita que já conhece pelo menos o básico. Querer comerciar com Deus é o maior equivoco que o homem pode cometer.  Quem se recusar a pensar porque prefere o comodismo pagará alto preço pela sua incúria. Só que nunca poderá dizer que não sabia. A vida cobra até o último centavo.

Jornal O Clarim – maio de 2018

 

 

Sogras & sogras

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Octavio Caúmo Serrano – caumo@caumo.com

Há sogras de genros e sogras de noras. Qual é a diferença?

Embora não devamos generalizar, há diferença entre o comportamento da mulher que casa seu filho daquela que casa a filha. Quase sempre a que ganha um genro diz que tem agora mais um filho. Mas a mãe que ganha uma nora, verá nesta mulher uma concorrente que vai dividir o amor que seu filho lhe dedicava com esta outra mulher. Ela não saberá cuidar dele com o mesmo amor como a mãe o fazia. E o ciúme se instala.

Por que isso acontece? Sem que possamos dar resposta igual para todos os casos, para nós os espíritas isso tem a ver com encarnações passadas. Numa trova, já diz Cornélio Pires espírito, o poeta de Tietê-SP, pela escrita de Chico Xavier que: “Quase sempre nesta vida/ sogro, sogra, genro e nora/ é o amor de Deus unindo/ os inimigos de outrora.” Sem ser regra, é muito comum que os desafetos de uma encarnação retornem como parentes para novo exercício de entendimento, agora sem os requintes da paixão carnal, mas para desenvolver o amor espiritual. Todavia, ainda presos à libido da encarnação anterior, da qual não nos livramos com facilidade, vem à tona a experiência vivida noutros tempos.

Disso resulta que o filho ou a filha desta encarnação pode ter sido o amante que formou o triângulo amoroso e agora ao se reencontrarem esse sentimento humano aflore porque está vivo na mente das pessoas. Daí o ciúme que muitas vezes os filhos têm da mãe ou do pai, a ponto de, caso haja viuvez, nem mesmo aprovarem nova união do cônjuge como outra pessoa. Lhes soa como traição; quase que adultério.

Embora isso seja explicação do Espiritismo, a psicologia fala do complexo de Édipo e de Electra. Segundo Freud, vai desde o desejo sexual pelo cônjuge do outro sexo até o desejo de morte do que é do mesmo sexo, porque é o rival. O próprio psicanalista relata “ter descoberto em si mesmo impulsos carinhosos quanto à mãe e hostis em relação ao pai, estes complicados pelo afeto que lhe dedicava”. Mas como a lei da reencarnação não faz parte da psicologia, tudo fica por conta do inconsciente sem maiores explicações. Freud apenas manteve sua posição de que o conflito se desenrolava verdadeiramente na adolescência, ou melhor, na puberdade, como expresso nas conferencias do Congresso Internacional de Psicanálise de março de 1910, ainda que neste texto e nas Teorias Sexuais Infantis, Freud já estabelecesse a relação entre pais e filhos como “complexo nuclear das neuroses”.

Segundo os mentores espíritas que trataram do assunto, entre eles Emmanuel em seu livro Vida e Sexo ou André Luiz em Sexo e Destino, tudo decorre de experiências ou conflitos de vidas passadas. Daí que cada sogra reage de um jeito quando vai casar filho ou filha. Não é uma regra, mas os leitores que eventualmente tiverem o problema já têm material para analisar e tentar descobrir as razões de certas atitudes; de amor, indiferença ou agressividade.

Jornal O Clarim – abril de 2018

As molduras do caráter

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Octávio Caumo Serrano  caumo@caumo.com

Muitas vezes uma bela pintura perde seu encanto porque a moldura não a realça.

Assim é o caráter do homem. Não é incomum que alguém seja altamente competente na sua profissão e se perca nos desajustes do comportamento.

De que vale ser um médico que se destaca na sua especialização, que faz diagnóstico como ninguém, que é, inclusive, inspirado pelos colegas do outro plano, se é um revoltado contra o salário, o excesso de trabalho e deseja ser incensado a todo momento como herói da humanidade e ponto de destaque na sociedade em que vive. Enfim, se é um presunçoso.

De que serve ser um professor com vocação para a mais importante cátedra, inspirado e com sentido de observação para qualificar a diferença entre os alunos, se não tem paciência com aquele que demonstra dificuldade para assimilar as lições.

De que vale um Magistrado cheio de conhecimento, de diplomas, de pós-graduações, se ele aplica a lei de forma injusta, parcial, interesseira, para tirar proveito para si ou seus amigos, contrariando o princípio básico de que todos somos iguais perante a lei.

De que vale um governante eleito pelo povo se ao legislar ele o faz em benefício próprio, adulterando documentos, exigindo participações nos lucros da contratada para prestar serviço ao seu estado, ignorando que é um empregado da sociedade e não o explorador dela.

Assim são os homens de qualquer profissão. Para que se aproveita um religioso que traz o Evangelho decorado, sabe capítulos e versículos, mas só para apresentar-se ao fiel como salvador e senhor da solução para que os outros sejam felizes, se em vez de servir ao próximo se serve dele, extorquindo-lhe muitas vezes até as migalhas da sobrevivência com falsas promessas de felicidade. Afirma que está dando para Deus quando o donativo é para enriquecer ainda mais o falso salvador, o falso profeta.

Se quisermos ser felizes só há um caminho a seguir. Já nos ensinou Jesus que é amando o próximo como amamos a nós mesmos e fazendo aos outros o que desejamos que nos façam em situação semelhante. Cada vez que enganamos o outro enganamos a nós próprios; cada vez que agredimos o outro é a nós que estamos agredindo, porque nossa consciência vai ficando tão recheada de culpa que somos incapazes de ouvir as vozes do Céu. Jamais conseguiremos construir nossa alegria sobre a infelicidade dos outros. Esta é a razão do sofrimento humano. Tentamos nos desvencilhar das dores e não conseguimos porque usamos métodos errados. Para não sofrermos, primeiro temos de acabar com o sofrimento dos outros. Enquanto houver um ser humano chorando, todos choraremos. Nunca diga “não me importa”, porque tudo nos importa; nunca afirme que o problema não é seu porque todos os problemas do mundo são nossos também.

A pior coisa para o homem desonesto é ter de dormir com cobranças da própria consciência. Ninguém pode ser feliz se carrega culpa em sua alma.

Jornal O Clarim – Março de 2018

O moderno São Francisco

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Octávio Caumo Serrano  caumo@caumo.com

Muito inspirado o novo papa da igreja católica quando adotou o nome de Francisco, homenageando o “poverello” de Assis.

Há muito que nós defendemos a importância da disciplina nas reuniões do nosso Centro Espírita, porque não se trata de um evento social, mas uma confraternização espiritual, onde certos detalhes devem ser observados com rigor. Por exemplo, a indumentária que usamos nessas ocasiões, onde não deveríamos ir de shorts, regatas, chinelo, bermudas, decotes ou assemelhados, bonitos e próprios para outros locais. Temos também combatido o uso do famoso celular, pelo menos no curto período em que estamos no centro, porque se estamos mais preocupados com ele do que com os nossos problemas espirituais, melhor ficarmos em casa. Nada temos a fazer no centro porque nem doaremos nem receberemos. A simples presença física, com a alma alienada ante os acontecimentos, nada nos acrescenta.

Agora, também Francisco censura os celulares na missa, dizendo que a Igreja não é um museu e que os fiéis não são paparazzi para ficar fotografando a missa sem manter atenção à cerimônia religiosa. Reclama que chegam na igreja cinco minutos antes e em vez de recolher-se em silêncio conversam de tudo e com todos. Como numa festa mundana. No nosso centro não é permitido conversar enquanto esperamos o início da palestra. Distribuímos mensagens, revistas, temos biblioteca de livros espíritas, tudo para que o participante torne a espera menos cansativa, já que todos nós somos meio ansiosos e esperar nos causa desconforto.

Temos, encantados, acompanhado as atitudes do Papa Francisco que se mostra pleno de humildade no cargo que ocupa, a ponto de transformar em doação aos necessitados o valor de um carro de alto luxo que recebeu de presente. Lembrou-nos o episódio Chico Xavier, muito mais modesto, mas igualmente representativo, quando recebeu um Volkswagen zero Km e trocou-o com um fornecedor do centro por alimentos para os pobres.

Outro assunto que temos enfatizado é que não devemos nos aborrecer nem irritar com a desonestidade de bandidos, políticos corruptos ou qualquer outra coisa contra as quais não temos força para lutar. Devemos ter sabedoria para mudar o que pode ser mudado e também para aceitar o que não pode ser mudado. Nossa revolta insensata nos adoece e nada soluciona. Vimos o papa na sua última fala dizer que está a par da corrupção que existe na sua igreja, com dinheiro e problemas de pedofilia, homossexualidade e que tais, mas que ele depois que foi morar na Itália aderiu um pouco ao estilo italiano de vida. “Na Argentina, disse ele, eu era radical e vivia estressado, querendo consertar tudo. Aqui na Itália aderi ao “menefreguismo”, derivado da conhecida expressão fascista italiana “me ne frego” (que me importa), porque o que vale é seguir em frente no combate para que superemos qualquer risco.”

Ele demonstra estar convicto que somos parceiros de Deus na melhora do mundo, mas não devemos querer resolver os problemas que só a Ele competem. Quando o Criador se dá conta de que um filho seu está perdendo as oportunidades de crescimento e ainda prejudica o semelhante, Ele o afasta da sociedade usando uma doença, um acontecimento fortuito, ou mesmo desligando-o do mundo material fazendo-o voltar à espiritualidade para avaliar-se e recomeçar.

Observando a humanidade destes tempos finais, concluímos que tudo é irreversível. É impossível transformar a maioria dos homens de agora em pessoas de bem. Atuem onde atuarem, especialmente nos altos cargos onde a desonestidade é padrão de conduta. A melhora só vira com a substituição paulatina deles com a reencarnação de espíritos mais comprometidos com o bem. O que nos compete, como afirmou o Papa, é não sermos nós um desses desonestos. Se nossas convicções já nos levam a isso, menos mal. Mas se ainda invejamos a esperteza dos outros e desejamos também levar vantagem ilicitamente, é só deixar as águas rolar. A opção é pessoal e intransferível. Só que no final ninguém se queixe. A cada um segundo suas obras.

Vida longa ao Papa. Que ele sobreviva às máfias, inclusive a religiosa, e possa seguir como homem de bem. Agradecemos, Francisco, por seus exemplos de retidão de conduta.

Jornal O Clarim – fevereiro de 2018

Assuntos de gratidão

2 Comentários

Octávio Caúmo Serrano   dia a dia 1/18 caumo@caumo.com

Os espíritos disseram a Allan Kardec que nós nos perdemos nas palavras. Que o ideal seria existir um idioma no qual cada palavra identificasse claramente uma ideia, sem subterfúgios ou divagações interpretativas.

Ao analisar as palavras humildade, resignação, paciência e outras tantas, vemos que cada pessoa lhes dá uma conotação. Humildade, uma das maiores virtudes espirituais que podemos encontrar em ricos e pobres, é confundida com a miserabilidade. Usa-se para definir uma pessoa sofrida, malvestida, sem recursos.

Resignação é entendida como acovardamento porque nos induz a aceitar tudo sem contestação. Na verdade, é o entendimento de que passamos por aquilo que precisamos, merecemos ou construímos e que, portanto, exige de nós luta sem revolta e não acomodação.

Paciência é entendida como calma passiva, contemplando o caos sem tomar qualquer ação. Mas não é. Paciência é equilíbrio, mas com enfrentamento contra o que nos desagrada, de maneira serena e sem perder a fé. Acreditando que passaremos por mais uma provação.

A gratidão também é entendida como a retribuição ao que nos fez o favor, com simples agradecimento, mas, sempre que possível, com algum bem ou favor. Exemplo dos mais simples é o da senhora que recebe da vizinha uma vasilha com doce e não consegue apenas lavá-la e devolver vazia, agradecida. Precisa pôr, também, algum presente como troca. Segundo os psicólogos essa atitude é feita para quitar a dívida e não ficar em posição inferior. Paga e já não deve nada. Embora aleguem que é apenas pagamento de gentileza com gentileza, o gesto esconde algo mais profundo.

A gratidão consiste em não ser mal-agradecido com quem nos ajuda, mas não há necessidade de ser retribuída para a mesma pessoa, desde que ela não precise. Podemos demonstrar nossa gratidão, ao fazer um favor a quem dele realmente necessite, mostrando que entendemos a possibilidade de ser fraternos. Se gostamos de receber, certamente o outros também se alegrarão com nosso gesto.

Não tenha pressa em se livrar da dívida de gratidão. Mantenha-a viva em sua alma feliz por ter quem preste atenção em você e desfrute o prazer de ter amigos desinteressados. A vida é troca permanente, mas não necessariamente entre as partes envolvidas apenas, mas num leque que abrange toda a sociedade. Já fui menino muito pobre e recebi ajuda de todos os lados, de pessoas às quais nunca pude retribuir. Estudei com desconto na mensalidade do colégio, vesti muita roupa doada, me alimentei de muitas sobras que a mãe, empregada doméstica, levava no final do seu trabalho. Mas depois disso, já ajudei muita gente. E o melhor, tenho vivas na memória todas as ajudas recebidas desde os meus sete anos de idade até hoje. Especialmente até os quarenta quando minha vida começou a estabilizar-se e pude dar mais que receber. Aos oitenta e três continuo na minha proposta de fazer o bem de todas as maneiras.

Gratidão à vida, em primeiro lugar. As pessoas são emissárias de Deus para ajudá-Lo na construção de um mundo cada vez melhor, do qual somos co-criadores. Dando e recebendo, permanentemente, sem sentir-nos humilhados ou envaidecidos. Tudo muito natural.

Se fôssemos nos aprofundar no assunto, veríamos que temos muito mais a agradecer do que a pedir. Gratidão por mais uma encarnação, pelo corpo, pelo lar, pelo trabalho, pelo alimento e pelas oportunidades de servir que passam à nossa frente a cada minuto e que geralmente não percebemos. É precisa que estejamos atentos.

Feliz 2018 e que Deus cuide de nós!

Jornal O Clarim – Janeiro  de 2018

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