Enterro ou cremação?

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Octávio Caumo Serrano

O que nos ensina o Espiritismo?

No passado disseminou-se a ideia de que a cremação deveria ser precedida de uma espera de setenta e duas horas, tempo que a alma precisaria para abandonar totalmente o corpo. Opinião encabeçada por Emmanuel, mentor de Chico Xavier.

Vamos nos socorrer de Allan Kardec. Pergunta 164. Todos os espíritos experimentam no mesmo grau de intensidade, a perturbação que sucede a separação da alma e do corpo?” Resposta, “não, depende da sua elevação. Aquele que já está purificado, se reconhece quase que imediatamente, porque já se desprendeu da matéria durante a vida corpórea, ao passo que o homem carnal, cuja consciência não é pura, conserva por muito mais tempo a impressão dessa matéria.” Na questão seguinte, foi perguntado se “o Espiritismo exerce uma influência sobre a maior ou menor duração sobre a perturbação.” E os veneráveis responderam que sim. “Uma grande influência, pois o espírito compreende, antecipadamente sua situação; mas a prática do bem e a consciência pura exercem maior influência.” Segue-se longo e esclarecedor comentário do Codificador.

Aprendemos que o desprendimento das coisas materiais é fundamental para o crescimento espiritual. “Viver no mundo sem ser do mundo” dizem os espíritos. Como cada um de nós está numa escala evolutiva, uns são mais desprendidos do que outros. Como determinar, portanto, que após setenta e duas horas todas as almas estariam livres dos laços materiais. Exemplos e depoimentos de espíritos nos ensinam de maneira diferente. Quem trabalha com doutrinação ou esclarecimento de espíritos em reuniões mediúnicas comprova que há os que se imaginam vivos mesmo após décadas ou séculos. Não se desprenderam dos laços materiais apesar do tempo, essa medida quimérica que só tem função no mundo físico para administrar a vida humana.

Para que houvesse a certeza do desprendimento total da alma do seu corpo físico, haveria necessidade de exame por um vidente. Aí outro problema. A existência e a seriedade que pudesse dar confiabilidade a esse vidente. E para os que não acreditam na vida após a morte isso não faria o menor sentido. Haveria ainda um outro perigo, o de estabelecer-se uma nova taxa para fornecimento do atestado de VCDT – Vidência Comprobatória de Desenlace Total, conferida por vidente especializado nessa prática sem a qual a cremação não seria autorizada. Mais uma fonte de renda para os aproveitadores da boa fé alheia.

Não queiramos explicar as Leis de Deus pela inteligência dos homens.  O raciocínio das setenta e duas horas, se verdadeiro, deveria aplicar-se também aos sepultamentos, para evitar enterrar pessoas vivas. Quantos letárgicos foram sepultados e ao abrir o caixão para exumação dos ossos estavam de bruços.

De todo este relato, o mais importante é sermos desprendidos do mundo material ainda em vida biológica, usando o corpo e tudo o mais do mundo físico para o crescimento da alma, porque enterrada ou cremada ela continua intacta porque ao voltar para o mundo espiritual ela é o espírito imortal que prossegue vivendo eternamente. É, portanto, indestrutível.

Quem optou pela cremação do seu ente querido não se preocupe se a alma já estava separada ou se ainda sentia desconforto diante do calor. Tudo é efêmero e rapidamente superado pela misericórdia de Deus. Guardemos sempre as melhoras lembranças da boa convivência e se mágoas ficaram que elas sejam perdoadas e esquecidas. Tudo fez parte de mais uma etapa de aprendizado.

Jornal O Clarm – novembro 2019

A veste para o templo

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Octávio Caumo Serrano

Para cada lugar e cada momento, o traje adequado.

Ninguém toma banho de mar de terno e gravata nem vestido de gala.  Para ir à praia as pessoas mais se despem do que se vestem. Vai refrescar-se, ficar ao sol para colorir a pele e quanto mais exposto o corpo mais se atingem os objetivos. No trabalho não vamos de bikini ou sunga, nem com camiseta regata ou chinelo de dedos. Vamos adequadamente compostos, como exige o cargo que ocupamos. Especialmente se lidamos com o público.

No nosso momento religioso, vamos ao templo para cuidar do espírito e não é momento nem lugar para exibicionismo ou desfile de moda. Quanto mais recatados estivermos menos chamaremos à atenção. Isso vale para qualquer religião, embora muitas não vejam a devida gravidade da exposição física sem escrúpulos. E que ninguém use a desculpa de clima quente, porque o calor é igual para todos e, nesses casos, há sempre ar e ventilação suficiente ou suportável.

Como espíritas, sabemos do mundo espiritual que povoa todos os espaços à nossa volta, e se há espíritos ajustados há os que viveram experiências de desequilíbrio sexual quando encarnados e que não modificaram seus gostos apenas porque deixaram a matéria. Resultado, quando alguém exibe sua sensualidade numa reunião desse tipo, por mais que ore e peça ajuda para a solução dos seus problemas, vai sintonizar com maníacos sexuais desencarnados, além de desviar para si a atenção dos que ali estão para ouvir sobre o Evangelho.

Por mais evoluídos que sejamos, ainda somos reféns do mundo material e olhar um corpo provocante nos desequilibra, fazendo-nos desviar dos objetivos buscados no centro. Pessoalmente, já tive que fazer uma palestra com uma jovem bem-dotada sentada na primeira fila do auditório, que portava uma mini-mini-saia e ainda teve o desplante de cruzar as pernas deixando aparente suas roupas íntimas, que quase nada cobriam. Falamos o tempo todo (45 minutos) olhando para o alto como se procurássemos o céu ou as estrelas. É do ser humano essa falta de controle; e que ninguém diga que já superou essa fase porque não cremos.

Por mais inferiores que estejamos espiritualmente, se formos a uma reunião buscar ajuda e estivermos compostos, recatados, sem chamar a atenção por excessos ou ridículos, certamente além de receber ajuda também colaboramos para não desviar o pensamento dos demais que também devem se concentrar em objetivos elevados, sem que nada os afaste. Quando colaboramos para o insucesso de alguém, colheremos em nós as nossas faltas e as que provocarmos. Não se aborreça, portanto, se o dirigente espírita ou o responsável por qualquer igreja, o censure e até o impeça de participar do culto. Ele é o representante e zelador da sua religião dentro da sua igreja. Se for omisso será cúmplice dos atos provocados pelas pessoas que compõem o seu público e responderá também por sua omissão. Isso vale também para outros vícios e defeitos, como o alcoolismo e demais drogas.  Deve tomar atitude e censurar o faltoso, sob pena de ele se retirar da reunião. Não podemos deixar que uma batata podre estrague todas as outras do mesmo saco.

Desculpem se trato deste assunto tão antipático, que muitos chamarão de careta, mas o orai e vigiai se aplica também nestes casos. Pensem nisso com carinho e racionalidade.

Jornal O Clarim – outubro 2019

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Os vários espiritismos

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Octávio Caumo Serrano    caumo@caumo.com

Não falamos de umbanda, quimbanda ou candomblé. Nem poderíamos porque são doutrinas espiritualistas, não Espiritismo. Como todas as demais que acreditam em algo depois da morte, o que é próprio de todas as religiões porque todas agrupam pessoas que não são materialistas. São espiritualistas, sem ser espíritas.

Se o Espiritismo é a doutrina que nasceu em 18 de abril de 1857, com o lançamento de O Livro dos Espíritos, quando foram criadas as palavras espírita e espiritismo, neologismos que identificariam a nova doutrina e seus seguidores, só os que a praticam são espíritas. Por que perguntamos, então, quantos espiritismos existem? Porque cada um o entende de um jeito. Existe o espiritismo das federativas, o espiritismo dos dirigentes de centro, o espiritismo dos palestradores e passistas, o espiritismo do público desinformado que acredita que todos os que praticam a mediunidade ou apenas vão ao Centro uma vez por semana, são espíritas e, além de outros mais, o espiritismo de Allan Kardec. Até o dicionário do Sr. Aurélio Buarque de Holanda é falho em sua definição quando diz que Espiritismo é a “Doutrina baseada na crença da sobrevivência da alma e da existência de comunicação, por meio da mediunidade, entre vivos e mortos, entre os espíritos encarnados e os desencarnados”. Isso muitas outras também afirmam, inclusive as doutrinas afro-brasileiras. Nessa definição enquadram-se os fenômenos espirituais, apenas, porque a essência do Espiritismo, seu principal objetivo, é auxiliar o homem na sua transformação moral, estimulando-o a esforçar-se na luta contra as suas más tendências; atue ou não como médium.

Qual a razão de tantas variantes? Certamente o desconhecimento pela falta de estudo para saber o que o Espiritismo pode oferecer às pessoas. Ou seja, umas por ignorância, outras por interesse em tirar dele alguma vantagem. Dão com a direita, mas a esquerda assiste a tudo o que ela faz. Desejam usar o Espiritismo para curar-se ou livrar-se de problemas cuja solução é da alçada de cada um. Como o Espiritismo é a própria doutrina de Jesus, observemos que Ele ensinou muito mais do que curou. Não como certas religiões cristãs que ora seguem o Novo Testamento, ora o Velho, segundo capítulo e versículo que mais atenda aos seus interesses.

O verdadeiro espírita, portanto, é o que pratica a caridade em favor do próximo e, também, em seu favor, como gratidão a Deus pelo dom da vida. Não se suicida pouco a pouco com preocupações e revoltas que não lhe dizem respeito, amam e descartam o ódio. Enfim, procura ser hoje melhor do que ontem e amanhã melhor do que hoje. Crê que estamos no mundo material para solucionar problemas do passado visando o seu próprio progresso.

Fica claro que se alguém lhe disser que você está perturbado, com obsessão e precisa ir a um centro para tomar “uns passes”, não acredite. Você precisa ir a um Centro sério não apenas pelos passes, mas para esclarecer-se quanto ao que você mesmo pode fazer pela sua cura. Viva segundo os conselhos do Espiritismo, que é o próprio Cristo falando em linguagem mais atual, sem parábolas ou fantasias. “Faz que o Céu te ajuda.”

Jornal O Clarim – setembro 2019

 

 

Doutrinas e praticantes

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Octávio Caumo Serrano  caumo@caumo.com

Quando estamos atentos, aprendemos com qualquer pessoa, em qualquer situação, num anúncio de propaganda ou numa canção inspirada.

Lá pelos anos 1980, assistia eu a uma reportagem na TV Cultura de São Paulo quando um repórter entrevistava moradores de rua da nossa cidade. Dirigiu-se a um deles que estava sentado numa mureta, bem vestido, calça social e camisa branca, e lhe perguntou as razões de viver na rua. Após explicar, entre lamentos e prazeres, o repórter apontou um travesti de short, imundo, que tirava comida do lixo. – E aí, o que você pensa sobre aquele irmão? – Que ele está errado e afrontando sua própria dignidade, respondeu; ele deveria tirar do lixo algo para vender e comprar o alimento. Mas ele não sabe. Só sabe viver assim.

Após mais alguns comentários, o profissional indagou: – E o senhor acha que ainda assim vale à pena viver? O homem soltou sonora gargalhada e saiu com esta: – Não é questão de valer à pena, meu caro. O senhor tem que viver porque a vida que o senhor tem não pertence ao senhor! Decretava que sabia da nossa imortalidade como espíritos da qual não escapamos nem pelo suicídio porque o espírito é imortal. O repórter surpreso lhe perguntou: – Onde o senhor aprendeu essas coisas. E ele, estufando o peito envaidecido, respondeu: – Sou autodidata. E prosseguiu: – Se esses magnatas do mundo, fazedores de guerra, soubessem a verdade não ficariam semeando cadáveres na atmosfera, poluindo os ares. Mas eles são ignorantes; não conhecem a Lei Maior…

Em outra oportunidade, conversando com uma pessoa simples, de poucas letras, falávamos dos problemas do mundo e ele questionou sobre Deus. – Por que tanto sofrimento e tanta desigualdade no mundo? Disse-lhe que Deus nos criou, todos igualmente, como espíritos sem nenhum conhecimento e nós fazemos o aprendizado nascendo muitas vezes em mundos materiais, quando vamos crescendo pelo conserto do que fizemos de errado e colhendo bons frutos de nossos acertos. Mas a partir do momento que ele nos criou vamos viver para sempre. Surpreendi-me quando ele se voltou para mim e disse: – Então quer dizer que eu já estou na vida eterna?

No nosso convívio com o próximo o aprendizado e constante. Ora ensinamos, ora aprendemos, mas não há contato inútil. Importante é que estejamos atentos para os sinais que são enviados por Deus, servindo-se do próximo, da mídia, do cartaz, da canção, do inusitado ou do trivial. Isso vale para a rua, a escola, o lar, a igreja ou o local de trabalho. Cada segundo vivido é uma aula para o entendimento da vida. Prestemos atenção para não perder a lição.

Se você está de acordo com o que afirmamos, imagine o que podemos aprender com o Evangelho de Jesus. E nós, os espíritas, quando temos essas lições explicadas por Kardec e pelos Espíritos! “Espíritas, uni-vos; espíritas, instrui-vos.” E como ensinou o Cristo, “conhecereis a Verdade e a Verdade vos fará livres.”

Jornal O Clarim – agosto 2019

A força de uma oração

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Octávio Caúmo Serrano – caumo@caumo.com

A prece sempre estabelece uma ligação do homem com o mundo espiritual e jamais deixa de ser atendida, ou aproveitada, quando é dita de coração puro, sem interesse de favorecimentos; particularmente os imerecidos. Quando nos foi ensinado que se pedíssemos obteríamos, está implícito que depende do que pedimos. Há quem peça números que o favoreçam numa loteria e nunca é atendido.

Algo que parece tão simples e que fazemos de hábito mecanicamente, é mais profundo do que imaginamos porque não podemos mudar leis simplesmente recitando palavras que muitas vezes nem sentimos. Quantos rezam terços caminhando na praia ou durante o cooper, cumprimentando quem passa, sem perceber que sua prece está sendo dita automatizada sem que as expressões venham da alma. De nada valem todos os “Pais Nossos” ou as “Ave Marias” porque não nasceram da mente e do coração ao mesmo tempo. Uma lição decorada sem sentido. Há quem confunda oração ou frequência aos templos com fé. Sem que se estabeleça uma íntima ligação entre a criatura e o criador, mesmo por seus prepostos, essa prece não sai do chão nem chega a lugar algum.

É preciso, também, que ao rezar não procuremos derrogar as Leis de Deus e, portanto, aprender a orar é importante. Diante do infortúnio de alguém que goza de nossa estima, oramos pedindo que seja poupado do sofrimento, quando ignoramos a importância eventual que aquele desconforto tem para quem passa pela provação. Quando alguém está enfermo, mesmo que sinta dores lancinantes, nunca roguemos para que Deus o leve porque não somos donos da vida do outro e não sabemos se para ele é melhor morrer ou curar-se. Entreguemos o destino dele ao Criador, Ele sim o dono da vida de todos nós. Difícil? Muito. Nunca dissemos que tais momentos são fáceis.

Para exemplificar, lembremos de Eurípedes Barsanulfo, o apóstolo de Sacramento-MG, que contraiu a gripe espanhola em 1918 durante o tratamento da população infectada, porque era farmacêutico. Sua mãe e outras pessoas oravam ao lado de seu leito, onde ardia em febre, quando ele disse: – Graças, Senhor, estou salvo. Imediatamente as pessoas se afastaram do leito para comemorar e, logo depois, ao voltar, o desenlace tinha se consumado. Enquanto uma corrente de orações o prendia a este mundo, a equipe encarregada de desatar os laços que ligavam o espírito ao corpo físico não conseguia realizar o desligamento. Com a notícia da cura, eles se afrouxaram e a espiritualidade pode completar o trabalho.

Este tipo de comportamento é fácil de ser compreendido pelos espíritas que sabem da continuidade da vida e que novas encarnações nos serão oferecidas para a aquisição de mais experiências e conhecimentos. Para os cristãos de outras doutrinas tal comportamento é mais raro, porque veem na morte uma perda irremediável, sem qualquer oportunidade de reencontro ou aprimoramento para aquela alma que agora retorna ao mundo real. Mas todos, uns mais outros menos, se não acreditam nessa continuidade têm dúvidas se não é assim que funciona. Esta vida que levamos na matéria é muito pequena se comparada ao que a inteligência de Deus pode nos oferecer. Vamos pela rua e um louco dispara uma arma e nós, que não éramos o seu alvo, somos atingidos e “morremos”. Nessa altura o máximo que esperamos de Deus é que nos diga: “Desculpe, falha minha!  Eu estava distraído.” Não, meus amigos, seria uma vida frágil demais para ser tudo o que a inteligência suprema teria para nos oferecer. Afinal, a minha única culpa era estar passando pelo local naquela hora! Não; recuso-me a admitir que tudo seja tão simplista. Até aceito que o episódio fizesse parte de um plano de resgate. Mas que eu desaparecesse para sempre, não consigo aceitar.

Resumindo, a oração mais sábia é aquela que roga a Deus para que nos dê discernimento, sabedoria, aceitação e força para suportar a dificuldade. Em vez de uma cruz leve, devemos pedir ombros fortes.

Jornal O Clarim julho 2019

 

Já é novo tempo

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Octavio Caumo Serrano

De que tempo estamos falando?

Quando eu tinha dezessete anos, lá por 1951, trabalhava na Rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo. Nos sábados o expediente ia até 13 horas, quando me encontrava com um amigo e duas meninas conhecidas para lanchar e bater papo; até umas quatro da tarde. Atravessava o Viaduto do Chá, Praça do Patriarca e seguia pela rua Direita porque ia para a Praça João Mendes pegar o ônibus para o Jabaquara, porque às sete e meia eu entrava do Colégio Roosevelt da Rua São Joaquim, no bairro da Liberdade. Curso científico.

Na rua Direita, antes da Praça da Sé, no largo da Misericórdia, havia sempre um pregador que ali estava elegantemente vestido, de paletó e gravata, de Bíblia na mão dizendo que os tempos eram chegados. Muitos que passavam faziam pouco caso do homem e lhe dirigiam gracejos, o que me constrangia, embora eu, nos minutos que parava para ouvi-lo, nada entendia do que ele falava. “Meus irmãos, os tempos são chegados!” E eu me perguntava que tempos seriam aqueles. Matriculado no catolicismo por tradição brasileira, nunca havia tido contato com uma bíblia e, portanto, nada entendia.

Vinte anos depois, pelo simples desejo de encontrar explicações para perguntas que minha religião não respondia, descobri, ocasionalmente, o Espiritismo, doutrina que abracei porque, de pronto, a sua lógica me fascinou e eu podia entender, a partir de então, as desigualdades entre os humanos, todos filhos do mesmo Pai. Fui informado que cada um de nós vivia as consequências de encarnações anteriores quando, na maioria das vezes, não tivemos bom comportamento. As dores já não representavam castigo, mas oportunidade para que, repetindo-as, pudéssemos agir de maneira mais acertada. Afinal, aprendi, somos seres espirituais e o corpo carnal é circunstancial e provisório. Foi descerrado o véu da minha ignorância e tudo passou a fazer sentido.

Comecei a entender que os tempos já chegaram e que estão com pressa. Os bons não podem mais ficar à mercê da maldade. E como o Apocalipse está fervilhando, a seleção está sendo feita em regime de urgência. Por isso os desencarnes já não são de um em um, mas resultam de grandes e sucessivas tragédias coletivas, umas por acomodação da natureza que está se ajustando à topografia da nova Terra que se prepara para abrigar humanidade maior que a atual, outras pela invigilância dos homens que as provocam por suas ganâncias. Mesmo os desencarnes individuais estão atingindo as pessoas mais intensa e prematuramente. A vida está banalizada e mata-se para roubar ou por não aceitar a perda da posse do outro. A mulher, especialmente, que não queira mais conviver com o companheiro arrisca-se a morrer.

Segundo aprendi também com esta doutrina, os que estão desencarnando e não reúnem condições para renascer na Terra de Regeneração, estão sendo exilados em espírito para mundos mais atrasados onde poderão usar seu intelecto para ali minorar as desgraças, crescendo, assim, em moral e bondade. Só ficarão na Terra, mesmo os desencarnados que estagiarão na sua esfera espiritual, os que já reúnem um mínimo de condições para ficar distante dos vícios, das falcatruas, da insensibilidade porque no novo período do nosso planeta o que identificará seus habitantes será a solidariedade em forma de amor entre as pessoas. Serão os cristãos da Nova Era.

Todas as oportunidades já nos foram dadas e chegaram mesmo a ser prorrogadas, sem que a maioria se desse conta ou agradecesse. Agora, salve-se quem puder. Tratemos de preparar, com prioridade, a nossa vida futura, porque nesta, a maioria de nós faliu. Mas que ninguém perca a tranquilidade porque somos todos filhos de Deus. E, no final, como garantiu Jesus, “nenhuma ovelha do rebanho se perderá”. Estamos todos condenados à angelitude. Demore mais ou demore menos!

Jornal O Clarim – junho 2019

Um tempo chamado saudade

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Octávio Caumo Serrano caumo@caumo.com

A física moderna procura explicar-nos que o tempo é uma ilusão.

Passado e futuro não passariam de locais do mesmo espaço, conforme a posição em que nos colocamos. Provavelmente, está aí a explicação para o apocalipse e seus mistérios. Como e para que João foi trazido ao futuro para ver o caos em que se encontrava a humanidade e depois voltar para alertar os seus a fim de que não cometessem os mesmos erros para não ter sofrimento semelhante, quando chegasse a hora de eles viverem nesse mesmo “futuro”. Explicava, portanto, que vamos realizando hoje e construindo, por consequência, novos acontecimentos. Aplicação instantânea da lei de ação e reação. Não fora isso, não pudesse João mudar o “futuro”, por que o Cristo haveria de entristecê-lo mostrando o caos a que chegaram seus conviventes?

Como explicar o dia do juízo final quando nossa história nos é revelada, causando alegria ou infelicidade pelos nossos atos do “passado”? Foi o que descobriu o pesquisador Raymond Moody relatado no seu livro “Vida depois da Vida”, do original “Life after life”. Fê-lo por meio de pesquisa com letárgicos, por traumas ou comas em hospitais, quando relataram o túnel escuro, a chegada a um local luminoso e o filme de suas vidas que era ali exibido, deixando-os tristes ou alegres, conforme o comportamento que tiveram durante a sua existência. Onde estavam guardadas essas imagens? Seria na consciência de cada um, como diz o Livro dos Espíritos na questão 621 sobre a Lei de Deus?

Aceitando que os diferentes tempos não passam de ilusão, conforme as ciências atuais, só há um tempo real: O AGORA, porque daqui a um átimo já não é mais AGORA. E não podemos viver nem antes nem depois do AGORA. A nossa vida é feita de acontecimentos que nos dão alegrias ou decepções. Costumamos ter lembranças deles, ficando felizes com os que nos deram prazer e lamentando os dias de infortúnio. Vem a saudade acompanhada de contentamento ou trauma. Segundo o dicionário, “saudade é essa lembrança melancólica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoa(s) ou coisa(s) distante(s) ou extinta(s)”. Relembrar um triste acontecimento é sofrer novamente. Recordar um fato feliz traz-nos a tristeza de não poder vivê-lo de novo.

É por isso que não gosto de ter saudade. Nunca. Os bons momentos procurei desfrutá-los da forma mais intensa que pude. Extrai deles todo o êxtase que podiam me oferecer. Passado o evento, já não posso tê-los. Os maus incorporei naturalmente ao meu saber, transformando-os em experiências para não revivê-los com lembranças do momento desagradável, de situações, coisas ou pessoas.

No que diz respeito aos assuntos de natureza espirituais, cresci com o bem que eventualmente fiz, numa compensação automática das leis divinas, e registrei enganos a serem reparados, segundo a mesma justiça. Já nos valores materiais, procurei fugir da avareza, da ganância, da carência irrefletida, aproveitando experiências dos que afirmavam que “rico não é quem tem muito, mas quem precisa de pouco”. Como o grego, Diógenes, que vivia de camisolão pelas ruas de Atenas dentro de um barril e que jogou fora uma caneca quando viu um menino fazer com as mãos uma concha para beber água num riacho. “Quanta coisa supérflua ainda carrego comigo”, disse o filósofo.

Na vida recebi muitos elogios. Analisava-os para ver se expressavam meus reais méritos ou se buscavam agradar-me com segundas intenções. Filtrei-os, cuidadosamente, aproveitei, ou não, e segui. Recebi também ofensas, ingratidões e o que considerei injustiças. Desculpei todos os meus ofensores porque tais atos vêm de pessoas enfermas da mente ou do corpo. Perdoar sempre faz bem e evita que se acumule detritos na alma. Faço-o, graças a Deus, com certa facilidade. Aprendi com Gandhi que ninguém nos ofende se nós mesmos não nos ofendermos.
Para concluir, cito uma sextilha que diz: “Esta palavra saudade, conheço desde criança. Saudade de amor ausente não é saudade é lembrança. Saudade só é saudade quando morre a esperança!” – Pinto de Monteiro-PB.

Xô, saudade.

Jornal O Clarim – Maio 2019

 

 

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