Para vencer o racismo

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Octávio Caumo Serrano   ocaumo@gmail.com

A maior razão do preconceito é a ignorância

Não me refiro à ignorância convencional que todos carregamos em maior ou menor escala, mas a ignorância da Lei de Deus, o criador das almas, todas com a mesma essência. Um espírito imortal que nasceu simples e sem qualquer conhecimento, para desenvolver-se e adquirir virtudes por meio de múltiplas vidas em diferentes tipos de mundos e que não é masculino nem feminino. É assexuada.

O início se dá em mundos primitivos e a seguir nos de provas e expiações, situação atual da Terra, onde por meio de testes e renovação de experiências adquirem sabedoria. Uns caminham mais rápido enquanto outros vão mais devagar, até chegar aos mundos felizes. Isso se deve a um direito inalienável que Deus concede aos seus filhos e se chama livre-arbítrio.

Para o bom aproveitamento das experiências, é necessária a crença numa lei que atinge todos os espíritos: a reencarnação, que, num gesto infeliz, a igreja romana baniu de sua doutrina. O homem não chegará ao progresso espiritual que o aproxima da perfeição sem realizar todas as experiências possíveis de serem feitas nos mundos físicos, por mais diferentes que sejam suas densidades. Em seus múltiplos renascimentos, virá a cada vez de forma diferente. Ora nascerá homem, ora mulher; ora num país, ora noutro; ora será de uma raça, ora de outra. Por isso, homens ou mulheres, brancos ou negros, nativos ou estrangeiros, ricos ou mendigos, sábios ou alienados, árabes ou judeus, latinos ou saxônicos, são todos animados pelo mesmo tipo de alma e a cada vez que nascem vêm diferentes. Geralmente são os próprios preconceitos que induzem ao tipo de nascimento. Quem odeia precisa aprender a amar, incondicionalmente. Por isso renasce para conquistar experiências na condição que mais abomina.

Este conhecimento faria com que nem brancos nem negros tivessem preconceito um contra o outro, porque pode ter sido um deles; para completar o ciclo de conhecimentos, todos os homens já foram ou serão mulheres um dia. Dentro da carcaça física de todos nós há uma alma da mesma natureza lutando para ser melhor. Logo, machismo e feminismo, como qualquer outro fanatismo, são evidências de ignorância quanto às leis da vida e do progresso.

O que cria tais situações de afastamentos na sociedade e faz com que ninguém se preocupe com o outro é a ideia de que a vida é uma só. Ela é realmente uma só, a da alma, desde que fomos criados como espíritos, mas vivida em diferentes etapas de vivência física para aprimoramento e aprendizado. Fomos informados que é preciso aproveitar a vida porque morremos e fica tudo aqui. Afirmam que depois da morte vem o nada ou fantasiosas promessas de ficar ao lado de Deus em permanente contemplação, sinônimo de ociosidade. Há 1500 anos nos dizem mentiras e querem consertar as personalidades sem nos dar motivos para sermos melhores. Se vamos morrer e tudo vai se acabar, por que aprimorar-nos, por que ser solidários, por que ser honestos?

Vamos torcer para que alguém lúcido da cúpula dessas doutrinas reveja seus conceitos e recoloque a reencarnação entre os seus dogmas como indiscutível verdade. Ficam dispensados até de um pedido de desculpas. Só assim o homem sentirá que vale a pena aprimorar-se porque não vai desaparecer no túmulo, debaixo de uma pedra fria legendada com um belo epitáfio, na maioria das vezes mentiroso ou bajulador. Que, como cristãos, se lembrem de Jesus quando disse aos discípulos que Elias havia voltado como João Batista sem que eles o reconhecessem. Falava, é claro, de reencarnação, o que já ensinara a Nicodemos. (João 2.23/3.21). Por que eles se dizem cristãos, mas não creem em Jesus?

Senhor, escutai a nossa prece!

Nota – Para maiores esclarecimentos leiam texto da RIE de outubro de 2019 – https://essenios.wordpress.com/category/octavio-caumo-textos-na-rie/

RIE-Revista Internacional de Espiritismo – Agosto 2020

 

 

A quem estamos servindo?

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Para os colaboradores de centros espíritas; uma advertência.

Começamos nosso trabalho de expositor do Espiritismo lá pelos idos de 1973. Falávamos cinco vezes por semana para diferentes públicos em várias instituições de São Paulo.

Ao terminar o ano com uma classe, um aluno veio conversar conosco e argumentou: – Sabe, professor. Agora que terminou o curso, não venho mais às quintas-feiras. Passarei a vir apenas às segundas porque pretendo dar somente um dia para o Espiritismo. Afinal, tenho outros compromissos com a família e dando um dia já está bom. O senhor concorda?

– Claro meu caro confrade. Mas confesso-lhe que estou decepcionado… – Comigo? – Não, meu caro; comigo mesmo. A única coisa que me incomoda e mostra a minha incompetência é como pude dar aula para você durantes três anos e não consegui lhe informar corretamente o que é um trabalhador espírita. Não lhe expliquei que nada damos ao Espiritismo, porque ele é que tudo nos dá, a ponto de aceitar que sejamos participantes de sua doutrina apesar da nossa pouca capacidade, incompetência, pretensão e indisciplina. Não damos ao Espiritismo, nem a Jesus, a Deus, aos Espíritos ou à instituição que nos forma para o trabalho. Tudo o que damos é somente a nós e à nossa consciência que damos. Nossa prestação de contas não é com Deus, mas conosco mesmos. Deus não perdoa nem castiga; Ele fez a Lei e convidou-nos a viver mergulhados nela. O resto é decidido pelo nosso livre-arbítrio.

Por esse pouco entendimento é que raríssimas vezes encontramos trabalhadores espíritas comprometidos com a causa, já que nem se comprometem com a casa. A festa, o passeio, a visita, o feriado, a tv, ganham sempre do compromisso que o trabalhador assumiu, espontaneamente, com a instituição que frequenta. A garoa, o cansaço ou a preguiça, a indisposição física, ainda que ligeira, o trânsito, são argumentos poderosos para justificar a ausência no trabalho do centro. Mas oram pedindo ajuda e cura, invocando a fé que dizem ter; repetem o pedido de passes intensamente, querendo soluções milagrosas e imerecidas pelo comportamento. E note-se que a participação é de uma a duas vezes por semana! Somos frequentadores de centro espírita e, equivocadamente, nos julgamos Espíritas.

Não sei lhes informar que repercussão teve nosso argumento no dito “trabalhador”. Mas ele depois disso ficou informado um pouco mais sobre o que é ser espírita. Pena que a maioria que tem contato com este tipo de informação se rebela e se aborrece; detestam ser cobrados, embora o dirigente, como guardião da doutrina no seu Centro, tenha o dever de alertar as pessoas quanto ao seu comportamento descompromissado. Julgam-se, por ser colaborador voluntário e “gratuito”, com o direito de fazer o que lhes apraz, da maneira que mais gostam.  Por isso que há os que em vez de ser trabalhadores espíritas são atrapalhadores do Espiritismo. De minha parte, esforço-me para não ser mais um desses!

Jornal O Clarim – abril de 2020

Paradoxos

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Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Orgulhosos e egoístas, nos recusamos a fazer aquilo que nos liberta da mágoa e da insensatez.
Nunca houve no mundo tantas igrejas, tantas religiões, tantas seitas… Só seguidores da Bíblia, com destaque para o Evangelho do Senhor Jesus, há em nosso país inúmeras, com as mais variadas e exóticas denominações, que são concorrentes sem jamais se completarem. Cada uma com sua doutrina “à la carte”, pregando o que lhe convém. Seus líderes analisam a situação do país e cada membro de sua igreja é apologista de seus pontos de vista, usando o mesmo templo para enaltecer-se e para denegrir o desafeto. Para os amigos, as benesses; para os adversários a calúnia, a crítica mordaz e a ofensa. A minha religião salva e as dos outros conduzem-nos ao inferno. Ou vem para a minha ou está perdido; só ela detém o monopólio da salvação!
Quando analisam os políticos, aí, então, a cegueira e a incoerência são brutais. O partido de um é o único que vai fazer progredir os países e o mundo. Vivemos de PIB e superávit na balança comercial. E ai do adversário que fez algo errado, perdendo-se no cargo para o qual foi eleito. Será execrado sem direito a defender-se. Aí serão incluídos seus amigos, mesmo os que são corretos, e sua família até a última geração.
E nós, os espíritas, como nos comportamos diante desses fatos? Parece-me que exatamente como todos os demais. Não consigo perceber diferença quando se trata de análises e comparações. Um erro de um político do partido do outro e jogamos sobre ele toda a nossa ira.
Mas, qual deveria ser nossa conduta, se realmente nos norteássemos pelo Evangelho? Como resposta, citamos algumas orientações de Jesus, a quem tanto admiramos e temos como Guia e Modelo Maior: “Ama o próximo como a ti mesmo.” “Não julgue pra não ser julgado.” “Perdoa setenta vezes sete.” “Faça aos outros o que gostaria que eles lhe fizessem em situação semelhante.” “Com a mesma vara que medirdes, sereis medidos.” “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.”
E, no Espiritismo, no Evangelho escrito por Allan Kardec, há ainda uma recomendação de caridade com os criminosos (Cap. XI, item 14) e prece por um criminoso (Cap. XXVIII). Nossa atitude, porém, é totalmente contrária a tais recomendações. Com isso, somos obrigados a refletir sobre outra importante recomendação de Jesus: “Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado.”
No Cap. XI, item 14, lê-se ainda: “A verdadeira caridade não consiste apenas na esmola que damos, nem mesmo nas palavras de consolação com as quais as acompanhemos. Não é isso apenas que Deus exige de nós. A caridade sublime ensinada por Jesus, consiste também na benevolência constante para com o próximo.” Palavras que perdoam e incentivam também são caridade.
Os criminosos devem ficar sem punição? Esta é uma afirmativa que não fizemos. Cumpra-se a lei. Mas que ela parta de uma justiça institucionalizada, justa, lícita, imparcial e sem interesses escusos e não do julgamento de pessoas tão ou mais levianas do que o réu e que ao julgar defendem, por detrás, interesses escusos. Nenhum de nós passa pelo crivo da razão quando julgados por nossos atos ou pensamentos. Temos consciência pesada e só não aplicamos golpes para levar vantagens e ficar em evidência por medo ou incompetência. Não é, certamente, por honestidade; quer diante de nós, diante do próximo ou diante de Deus. Para orientação e confirmação, leiam no livro O Céu e o Inferno a mensagem do espírito José Bré, que é autoexplicativa.
O discípulo Pedro, em sua epístola 1, 4:8, ensinou: “Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns pelos outros, porque o amor cobre multidão de pecados.” Paulo, na epístola aos Gálatas, 5:20, condena falhas da carne e os pecados das “discórdias, dissensões e facções”. Já lá no Velho Testamento, em Provérbios, 10:12, está dito: “O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões.”
Textos, lições, orientações nunca nos faltaram. O problema é que somos cabeça dura e, por ser orgulhosos e egoístas, nos recusamos a fazer aquilo que nos liberta da mágoa e da insensatez. Por mais emissários que o Plano Divino envie ao planeta, são sempre insuficientes para que vençamos nossas turras e nos livremos dos atrasos. Por isso a reforma planetária, que já está próxima, virá do Alto, de fora, e não das massas desta humanidade fracassada, que precisa ser mais uma vez substituída. Sejam quem forem os nossos governantes, não passam de uma plêiade de equivocados. Não veem um palmo adiante do nariz. Não são diferentes de nós nem uns dos outros. Como diz o povo, “somos todos farinha do mesmo saco”. De batina, fardados ou à paisana; de fala mansa ou austera. E, lamentavelmente, nós também! O mundo não é composto de melhores. Por enquanto, apenas de piores. O fogo que está queimando as matas e sufocando a vida no planeta é o mesmo que vem incinerando as nossas almas. Viram por que estamos num despenhadeiro sem volta? Nossas ações não condizem com a nossa “fé”!
Perdoa-nos, Senhor, por mais este fracasso e tenha piedade de nós! E que sejamos resignados diante das nossas dores.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – março 2020

A química dos fluidos e a sintonia

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Octávio Caumo Serrano

O ambiente de uma reunião é determinado pela soma dos pensamentos dos presentes. Como o mundo é a soma das consciências dos homens. Em se tratando de Centro Espírita, é a harmonia ou distonia mental dos participantes do conjunto, o que criará uma atmosfera espiritual elevada ou de baixa qualidade, com consequentes elevações ou perturbações.

No Centro Kardecista Os Essênios, nossa casa de São Paulo, fundado em 1982, fechávamos a porta no início das tarefas e só depois fazíamos a prece preparatória para harmonizar o ambiente com vista ao trabalho a realizar. A partir daí ninguém mais adentrava o recinto. Houve até quem escrevesse na imprensa espírita taxando o gesto como falta de caridade. O certo é que muitos nos copiaram por acreditar que fazia sentido e era disciplina sem o que nada pode ter sucesso.

Por muito tempo fomos expositores de aulas nas Escolas de Aprendizes do Evangelho, criação de Edgard Armond na Federação Espírita do Estado de São Paulo. Certa vez fomos a um centro fazer o trabalho e era uma casa que, inspirada na nossa iniciativa, fechava a porta da sala às 20 horas para preparar o ambiente. Uma bela e sentida prece, com convocação de toda a corte celeste para nos ajudar e proteger. Uma classe de uns quarenta alunos. Como o gesto tinha convicção relativa e titubeante, terminada a preparação a porta era aberta para os retardatários. Nesse dia, oito pessoas adentrara a sala, intempestivamente.

Quando nos deram a palavra, antes de expor a aula do dia, na condição de também dirigente espírita, pedimos licença para fazer uma pergunta: – A entrada desses retardatários não desarmonizou o ambiente? Se a resposta for sim, desarmonizou, eles não deveriam ter entrado. Se a resposta for não, então por que perder tempo com longa preparação? O silêncio foi a resposta, enquanto os olhares fulminantes dos retardatários nos endereçavam suas pesadas vibrações. Sentiram-se ofendidos.

Defendemos que cada participante da reunião, aluno, professor, médium, dirigente ou visitante pode ser um trabalhador de quem a espiritualidade se serve quando há sintonia. Ao adentrar o Centro, somos todos parceiros dos espíritos desencarnados nos trabalhos de assistência, quando doamos ou recebemos conforme nossas condições físicas e espirituais. Daí a importância da oração e vigilância do pensamento e do tipo de conversação. Há que haver silêncio físico e mental.

Quando chegamos ao centro, devemos deixar do lado de fora nossas preocupações do cotidiano, nossas aflições, usando oração e vigilância para exercício de fé. Se em vez de fazer silêncio e nos concentrarmos nos objetivos do dia, no Evangelho, tratamos de receitas de bolo, encontros em festas mundanas, resultado do futebol, navegar nas redes sociais do celular, crises políticas ou outras divagações, ficaremos isolados na reunião e não faremos parte da equipe socorrista. Nem como doador nem como receptor. Estarmos lá ou não é indiferente. Para a espiritualidade somos agentes de perturbação mais do que de harmonização.

Não podemos e não devemos transformar o salão do centro espírita num local de reunião social. Quem gosta de conversar, convide o confrade para ir à sua casa e ofereça-lhes um cafezinho com bolo; ou o que mais lhe agradar. As conversas no centro, quando necessárias, devem versar sobre o Evangelho e a organização da casa, orientação aos trabalhadores, especialmente aos mais novos, alertando-os para que tais mecanismos não sejam rompidos pela frivolidade dos gestos e palavras que não cabem nesse raro momento de nossa vida quando podemos sair do mundo para entrar numa atmosfera mais espiritualizada. Mesmo que por breves instantes.

Os dirigentes do Centro não devem ter medo de orientar ou corrigir o candidato a trabalhador, com medo que ele se afaste da instituição. Se em vez de trabalhador é um atrapalhador espírita, melhor um a menos para que o conjunto não se desarmonize. Se for colaborador antigo, pior ainda. Além de perturbar o conjunto serve de péssimo exemplo aos novatos. Nunca esquecer que o dirigente espírita é o guardião do Espiritismo no centro que ele comanda. As falhas, desarmonias ou perturbações que ocorreram no Centro são ônus para o próprio Espiritismo que será alvo de críticas quanto à qualidade da Doutrina que abraçamos. Não temos o direito de fazer isso, traindo Jesus e Kardec que tantos sacrifícios fizeram para nos deixar O Consolador Prometido. Já diz um adágio popular: – Muito me ajuda quem não me atrapalha.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – fevereiro 2020

 

Aquilo que mais me encanta

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Octávio Caumo Serrano

Sou agradecido a Deus por ter-me colocado frente a frente com a Doutrina dos Espíritos lá pelo início da década de 1970, quando eu passava dos 37 anos de idade. Já era um quase coroa!

Minha vida transcorria normalmente e não havia problema que me levasse a buscar apoio religioso, a não ser o desejo de conhecer respostas para as eventualidades da vida. Afinal, todos queremos saber quem somos, de onde viemos, por que razão estamos aqui e o que teremos a seguir. Não faz sentido tanto esforço e tanta dor para tudo se acabar no nada. Além disso, desejamos explicações e justificativas para a desigualdade das pessoas. Uns tão felizes e outros tão sofridos; uns ricos e outros pobres; uns saudáveis e outros enfermos; uns que vivem muito e outros que morrem cedo, quando não são abortados naturalmente. Se todos procedemos da mesma origem divina por que tanta diferença?

Descoberto o Espiritismo comecei a trabalhar na velha sede da Federação Espírita do Estado de São Paulo onde organizei em Kardex (sistema de fichário em gavetas) o cadastro dos centros ligados à casa. Tínhamos visitadores que traziam relatórios do que viam nas Casas Espíritas, se as atas estavam atualizadas, etc., se havia crianças em reuniões inadequadas, se usavam uniformes, símbolos e que tais, para que fossem orientadas.

Era comum, às sextas-feiras, depois do trabalho que terminava às 22 horas, alguns companheiros irem a locais onde se praticava materialização de espíritos. Fui muitas vezes convidado, mas nunca tive interesse por esses tipos de reunião. Percebi logo que cheguei à doutrina que o que menos me interessavam eram os fenômenos, incluindo as comunicações mediúnicas. Percebi logo de início que o Espiritismo veio para curar almas e não corpos e que era efetivamente o Consolador prometido, segundo o Evangelho de João, sendo, portanto, a volta de Jesus que repetia tudo o que havia divulgado para o povo de Israel, agora sem metáforas, sem parábolas, sem mistérios. O Evangelho chegava até nós pelo Espiritismo com linguagem inteligível para doutores e analfabetos, sendo muitas vezes mais bem compreendido por estes do que pelos acadêmicos.

Conclui que o Cristo jamais voltaria ao planeta porque daqui ele nunca saíra. Está presente nas suas lições. No seu Evangelho. Soube mais tarde que o próprio Emmanuel, mentor do nosso Chico, lá pelos anos 1970 sugeriu que se interrompessem as materializações em Minas Gerais e que, em vez disso, fossem escritos livros para ensinar as pessoas a fim de conscientizá-las. E só o Chico o fez em mais de 400 obras.

Por que precisamos de missionários que repitam as lições de Jesus? Por que a Lei de Deus, que está escrita na consciência de cada um de nós é esquecida e negligenciada (LE P 621 e seguintes). Por isso os Espíritos repetem por livros, mensagens e palestras as mesmas coisas com frases às vezes novas para ver se conseguimos o milagre de gravá-las. E quanto aos milagres, o próprio Jesus fê-los tão poucos que para mim seus maiores milagres foram a transformação de Zaqueu e Saulo de Tarso. Como Irmã Dulce, canonizada no último 12 de outubro pela cura do olhos de um homem e de uma parturiente, de comprovação subjetiva, quando seus grandes milagres foram viver até quase os oitenta anos com saúde comprometida, insuficiência respiratória por deficiência cardíaca que a levava a ter noites mal dormidas e ainda assim atender à comunidade carente em hospital criado por ela em sua cidade, com verbas insuficientes vindas do governo e complementadas pela generosidade do seu povo, o que continua com gestão de sua sobrinha. A cada um seu próprio conceito de milagre. Como os milagres de Chico Xavier que com angina e outros males foi até os 92 anos servindo sem parar. Estancando o choro de muitas mães com a revelação da continuidade da vida, além da vasta obra escrita e vertida para diferentes idiomas.

É por isso que há trinta anos escrevo artigos para esta revista. E me lembro da poeta goiana Cora Coralina. “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Portanto, é para mim que escrevo, a priori. E para os leitores que, como eu, querem aproveitar esta encarnação. Feliz 2020!

Revista Internacional de Espiritismo – RIE – janeiro 2020

Melindre e Espiritismo não combinam

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Octávio Caumo Serrano – caumo@caumo.com

Depois de conhecer rudimentos da nossa Doutrina, há os que se julgam pós-graduados em religião. Verdadeiros doutores da Lei. Fariseus da era moderna!

Quem nos fez importante alerta sobre o tema foi o lúcido Herculano Pires. Disse-nos esse mestre: “Estude o Espiritismo e não se deixe levar por tolices. Dedique-se ao estudo, mas não queira saltar de aprendiz a mestre, pois o mestrado em Espiritismo só se realiza no plano espiritual. Na Terra somos todos aprendizes.”

Chegando ao centro desequilibrados e percebendo alguma melhora, há os que se encantam com os conhecimentos e supõem-se em condições de ser colaboradores na Seara do Cristo. Como teóricos chegam a avançar bastante, mas nos fundamentos mais íntimos que identificam o verdadeiro cristão, progridem muito pouco. Continuam desprezando a assiduidade, prometem muito e cumprem pouco, e permanecem equivocados sobre si mesmos, camuflando defeitos que guardam embutidos na personalidade o que os impede até de ser orientados e corrigidos. Não estão preparados porque o orgulho ainda permanece aflorado. Ninguém se atreva a lhes dizer que está errado ou que fez um trabalho de maneira incorreta. Nesses casos, defendem-se magoados ou irados, porque o dirigente chamou à sua atenção. São os “perfeitos” que jamais admitem cometer um erro. Justificam-se, explicam, mas não admitem a falha. Os mais radicais chegam a se afastar do serviço e até mesmo abandonar a instituição.

Como se trata de um “trabalho voluntário”, creem que tudo dão de graça e a casa tem de tolerá-los como são. Esquecem-se que foi espontaneamente que se ofereceram ou aceitaram a tarefa e que devem enquadrar-se na disciplina exigida para todo colaborador da Doutrina dos Espíritos ou de qualquer outra associação beneficente sem interesses financeiros. É um trabalho de caridade e a disciplina é a grande caridade em favor dos outros e de nós mesmos.

O dirigente, que é o guardião da doutrina no cento, deve ter em mente que, antes de agradar o confrade ou a confreira, deve ser fiel ao Espiritismo. A causa vem antes da casa. Lembro-me da lúcida orientação de José Raul Teixeira: “Não temos de trazer os hábitos da rua para o centro, mas educar as pessoas no centro para que ajudem a transformar a sociedade.” Se esta não é a frase correta usada pelo ilustre conferencista, a ideia está claramente expressada.

Não defendemos a repreensão pública descaridosas, mas a orientação fraterna deve ser feita. Se for num grupo de estudo, até mesmo detalhes de problema podem ser expostos para servir de diretriz aos demais. Sempre com respeito, não fazendo aos outros o que não desejamos que nos façam. Regra simples, mas infalível.

Você, trabalhador da última hora, não perca a oportunidade porque foi censurado pelo dirigente quanto a algum procedimento, abandonando o trabalho. Se a censura foi merecida, agradeça e corrija-se; se foi injusta, desconsidere e perdoe, porque sua consciência está em paz.

Todo aquele que se melindra com a reprimenda ou conselho, é alguém que ainda precisa estudar muito o Espiritismo, sem pretender ser mais uma estrela de uma constelação sem luz. Se somos trabalhadores antigos, já com expressivo conhecimento, os defeitos realçam em nós mais do que nos noviços. Cabe-nos analisar que se sabemos muito, tudo isso é ainda uma parte ínfima do que nos compete saber e, principalmente, viver. Fiquemos felizes por já ser orientadores, sem esquecer, porém, que somos ainda necessitados de muita orientação e prática no campo das virtudes. Raros de nós pode, diante de uma verificação verdadeira, afirmar que estamos em condições de ingressar no “reino dos céus”. Nós mesmos nos reprovaríamos diante de uma sincera autoanálise.

Não poderia ser diferente, caso contrário não estaríamos encarnados num planeta de tantas dores e sofrimentos. O Espírito que somos precisa deste tempo para aprimoramento de caráter. Nunca fomos tão cultos em conhecimentos científicos e tão atrasados em dotes morais. Uma asa pronta e a outra implume. E ninguém voa com apenas uma asa.

Está terminando mais um ano. O chamado ano da renovação pelo término da oportunidade concedida por Jesus. Preparemo-nos para dores mais intensar porque nossa casa mãe está em reforma. Aliás, pegando fogo, literalmente,  como nunca se viu antes. Preparemo-nos enquanto há tempo, mesmo dolorido, para crescer como espíritos e qualificar-nos a voltar para a Terra após seu período de renovação para ser mundo de regeneração. Amemos mais, trabalhemos mais, sirvamos mais porque o prazo é pouco e o esforço para o crescimento é grande e penoso. É para os corajosos que tem fé e bom senso, porque a cada um será dado segundo suas obras.

Feliz Natal e produtivo 2020.

RIE = Revista Internacional de Espiritismo – dezembro 2019

 

 

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