Quantidade e qualidade

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Octavio Caumo Serrano  ocaumo@gmail.com

Dirigente espírita e casa cheia.

É comum se ver nas organizações espíritas situações que favorecem a afluência de público, mesmo que contrariem os princípios mais elementares da doutrina. Atrações artísticas impróprias, artes mediúnicas, chás, bingos, rifas e mesmo bazares e comércios que estimulam vícios, ganâncias e disputas. Há os que precisam de sócios para a sobrevivência e ficam reféns dos frequentadores até com “almoços fraternos” regados a aperitivos e cerveja, entre outras aberrações.

A verdade é que o dirigente busca todos os recursos para ver o centro cheio, independentemente da qualidade do público e do interesse que o levou até ali. Poucos estão na casa com o espírito cristão, com desejos de aprendizado para autoaprimoramento ou oferecendo-se para ser um auxiliar no campo da caridade. A maioria se encanta com a palestra bonita, com o orador de fala fácil e argumentação cheia de sabedoria, mas logo que saem do centro esquecem o que ouviram ou como usar as orientações em suas vidas. Foram ali mais em busca do passe milagroso, crendo que ele soluciona todos os problemas.

Uma parcela, oriunda de outras religiões, imagina que também no Espiritismo existe a “salvação” que se obtém com promessas, ofertas ou a simples presença no templo, ao menos uma vez por semana. Nada sabem da mensagem dos Espíritos porque nunca participaram do estudo que ensina os mecanismos que regem a espiritualidade para aprender que a cada um é dado exclusivamente segundo suas obras e merecimentos. Já afirmou o apóstolo Tiago (2:14-26) em sua epístola que a fé sem obras é morta. Diz ele: – “Poderão até dizer tu tens a fé, mas eu tenho as obras. Mostra-me então a tua fé sem as obras, porque eu te dou a prova da minha fé através das minhas obras”. Em 26, ele reforça:-Tal como o corpo que está morto se nele não há espírito, assim a fé sem obras está morta”.

Como obras devem ser entendidas não somente a esmola ou qualquer ajuda material, mas também a própria modificação para servir de exemplo e estímulo aos que estão desesperados, inclusive entre familiares, mostrando a confiança que temos em Deus. É a vivência do Evangelho na prática e não apenas no discurso com mera citação de capítulos ou versículos, decorados e não vividos. A comprovação do que dissemos se pode ter quando examinamos a quantidade de pessoas nos eventos e reuniões de assistência espiritual (passes, palestra) e as presentes nos estudos que, aliás, não faz parte de todas as casas espíritas nos moldes corretos, com troca de ideias para correta interpretação dos textos evangélico-doutrinários.

A voz do Cristo ainda ressoa nos ventos: “Conhecereis a verdade é ela vos fará livres.”  O entendimento do Evangelho corresponde ao entendimento da vida, tal a sua lógica. A mensagem de Jesus, embora muito simples, é tão real que os homens não conseguem acrescentar um ponto ou uma vírgula. Ela é a lei da física de ação e reação aplicada ao nosso cotidiano! Todo efeito nasce de uma causa.

Certa vez alguém argumentou comigo que para ele Jesus era uma invenção das religiões; é, como Sherlock Holmes, o personagem fictício criado por Sir Arthur Conan Doyle. Não há provas “científicas” da existência de Jesus. A maioria não percebe que quase sempre o bom senso prova mais que a ciência. Eu, por exemplo, creio na reencarnação mais pela lógica do que por provas.  Se Jesus não existiu na figura como nos é mostrado, então é um fenômeno ainda maior; se alguém que não existia deixou uma mensagem perfeita, irretocável, é ainda mais fantástico do que se houvera sido pronunciada por alguém de verdade!

Caro irmão espírita: – Estamos no mundo em tarefa de auto aprimoramento; embora dediquemos a maior parte do nosso tempo à preocupação de melhorar os outros e apontar suas faltas, não esqueçamos que cada um é seu próprio salvador; nós, divulgadores religiosos, apenas mostramos os caminhos. Logo, roguemos para que nossas palavras tenham sabedoria, mas que sejam comprovadas por nossas ações. Já aprendemos que um só exemplo ensina mais que um milhão de conselhos.  E nestes tempos difíceis somos cada vez mais responsáveis pelos nossos atos. Não podemos destruir a casa espiritual para edificar o templo material.

Jornal O Clarim – junho 2021

Olhando por vários prismas

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Octávio Caumo Serrano ocaumo@gmail.com

Tenho dificuldade para entender as doutrinas cristãs; refiro-me ao catolicismo e às nascidas de suas cisões, hoje desdobradas em dezenas de denominações. Afirmam seguir Jesus, mas negam claros ensinamentos do Cristo.

Em 18 de abril de 1857 foi criada nova doutrina cristã, o Espiritismo, fundamentada no Evangelho de Jesus, e enfatizando uma das principais leis humanas e divinas: A preexistência do Espírito antes de nascer no mundo material e a reencarnação, para aprimoramento da alma, lei que fazia parte do clero romano e que foi revogada pelo Concílio Ecumênico de Constantinopla em 553 d.C, a pedido do Imperador bizantino Flávio Justiniano, O Grande, (483 a 565) por pressão de sua esposa Teodora, que fora dançarina e temia reencarnar para resgatar suas faltas, incluindo-se o assassinato de  meretrizes que poderiam denunciá-la; registre-se que os Imperadores mandavam na igreja mais do que os Papas. Todavia, já no Velho Testamento, Jeremias 1:5, e no Novo Testamento, João 14:2 e 8:58, havia menções desse assunto.  Também o profeta Malaquias, em 4:5, fala da volta de Elias como o Batista, como Jesus ensinou aos discípulos além de informar a Nicodemos que ninguém veria o reino de Deus sem nascer novamente. Os poderosos Imperadores eram tão pretenciosos que só faltou revogarem as Leis da Gravidade e a da Ação e reação!

Apesar de a grande maioria do planeta, incluindo os selvagens, serem defensores desta lei, em 1500 anos não houve um Papa que tivesse a coragem de restaurar a reencarnação na Igreja, embora o Papa Gregório Magno (590 a 610), que gozava de grande prestígio entre os cristãos, ter sido defensor dessa lei de vidas sucessivas como recurso de aprimoramento do espírito. Mesmo depois de Justiniano cancelar a reencarnação.

Embora católico, por simples tradição do nosso país, até os 36 anos, há mais de cinquenta anos optei por viver a fé do bom senso e não a do misticismo ininteligível que afronta os mais elementares princípios da razão. Só o Espiritismo me explica o que a igreja esconde. E é com base na fé raciocinada, aquela que pode encarar a verdade frente a frente em todas as épocas da humanidade, que desejo analisar a atuação da pandemia global. Como cristão, fico com Jesus.

Quero crer que essa tragédia globalizada tem por finalidade apressar a modificação do planeta, com diferentes intenções, acelerando os tempos de mudança da Terra de mundo de provas e expiações para planeta de regeneração. Então, pergunto, para onde estão sendo enviados os espíritos desencarnados pela covid 19, ou por outras doenças, neste tempo de expurgo para transição planetária? Meditemos.

Grande porcentagem desta humanidade fracassada é constituída de espíritos impuros cuja característica é a maldade e a ignorância. Mas não podemos descartar que há muita gente boa que já se compraz na prática da caridade e do amor ao próximo. Penso que somos a última humanidade inferior da Terra nesta etapa de planeta expiatório porque a nova sociedade deverá ser mais evoluída. Logo, as naves que transportarão os espíritos desencarnados neste momento seguirão por rotas diferentes. Os que já tiveram todas as oportunidades e não aproveitaram serão exilados para planetas primitivos ou de provas, para ensinar a sua ciência e com isso desenvolver o lado moral. Uma reedição do episódio vivido pelos exilados do planeta Capela, quando foram trazidos para a Terra. E os que já aproveitaram seu tempo por aqui para sedimentar sua bondade, o que entre nós nem sempre encontra eco, serão levados para as colônias da erraticidade terráquea por algum tempo para estágio de treinamento e preparação para retorno dentro de curto prazo (trinta a cinquenta anos) quando a civilização do planeta regenerado já se fizer sentir. Portanto, enquanto o desencarne é punição para uns é prêmio para outros. É provável que muitos de nós choramos mortes abençoadas porque o espírito foi distinguido pelo plano divino para preparar-se mais um pouco e voltar para viver num mundo mais feliz. Imaginamos que sua morte foi castigo, quando foi prêmio! Lembrando Paulo de Tarso, que sensibilizou o carrasco que ia decapitá-lo, pela serenidade como encarava a sua sorte, talvez nossos mortos estejam também nos dizendo: – Não chore por mim; chore por você. Já cumpri minha missão e agora vou ter com Jesus!

A pergunta que certamente nos farão é: – Como saber para onde vai um e outro? Muito simples; basta ver como viveram e saberemos como estão na espiritualidade. A Lei já diz que “a cada um será dado segundo suas obras.” No plano de Deus cada um é o seu próprio juiz. Não há privilégios nem interferência de amigos. E quem julga não é Deus. Ele é o criador da Lei, mas o julgamento do homem é feito pela sua própria consciência!

Os espíritos já ensinaram: “Deus que te criou sem a tua ajuda não poderá salvar-te sem a tua colaboração”. Mas os religiosos venais sonegam de nós as informações que devemos viver muitas vezes em planos físicos para corrigir falhas porque desejam transformar-se em nossos intermediários na obtenção das benesses do Reino Celestial, recomendando-nos promessas, novenas, penitências e donativos. Para eles vale mais um desonesto que ora do que um ateu que é decente. E assim cuidam da sua sobrevivência impedindo-nos de lutar pela nossa emancipação moral. Mas, diante do livre arbítrio, cada um faça como melhor lhe pareça. A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória!

Jornal O Clarim – maio 2021

Não há vidas passadas

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Não há vidas passadas      Octavio Caumo Serrano    O Clarim abril 21

Como também não há vidas futuras

Quando fomos criados por Deus, sem nenhum conhecimento, destacando-nos da coletiva mônada celestial para adquirir individualidade, iniciamos a jornada da nossa vida eterna e única, que precisaria ser vivida em mundos primitivos, inicialmente, e depois em outros mais desenvolvidos, onde deveríamos reencarnar com corpos mais densos ou mais leves, se passássemos a ser mais espírito que matéria.

Os mundos materiais onde fazemos as mais difíceis experiências da nossa mesma e única vida, são locais de sofrimento, maior ou menor, conforme a vibração conjunta de seus habitantes. O Espiritismo os classifica, de forma genérica, como mundos primitivos, de provas e expiações, de regeneração e felizes. No primeiro a vida e quase totalmente material e no segundo a espiritualização já começa a ser alcançada, sempre dependendo do esforço individual que se vive no coletivo. Nestes encarnamos e desencarnamos por longos períodos, mas sempre como etapas da nossa mesma vida eterna.

Vencida esta fase, após dezenas, centenas, milhares, ou sabe Deus quantas encarnações, poderemos pilotar um corpo material em mundos menos densos, onde nosso peso específico atual de 5,51 g/c3 (densidade da Terra) poderá baixar para 3,96 como Marte, 1,33 como Júpiter, 1,64 como Netuno o que resultaria em peso bem menor para o nosso corpo, de igual volume, permitindo-nos deslocamento muito mais fácil. Se nascêssemos, por exemplo, em Júpiter com esta mesma silhueta exterior pesaríamos menos de 20 quilos!

O que conhecemos como morte, que na verdade é o nosso desligamento do corpo físico e que o Espiritismo define como desencarnação, para voltar por um pouco à vida espiritual, não interrompe a sequência da nossa vida que prossegue, como se nossa chegada à espiritualidade fosse o dia seguinte. Nosso “eu” não termina com esse desenlace, porque nossa mente continua a pensar na mesma sequência e tem como conhecimento tudo o que aprendeu até então. Qualquer pequeno bloqueio temporário assemelha-se a uma internação hospitalar, a uma anestesia, para tratamento, ou a uma viagem para país estranho onde recomeçamos sem perder a nossa identidade.

Haverá quem pergunte por que não nos lembramos desses detalhes. Porque fatos dolorosos ou acidentes de percurso poderiam traumatizar-nos ou envergonhar-nos, comprometendo-nos ante acontecimentos já superados que só serviram como aprendizado e prova ou resgate. Não nos dizem mais respeito e ficar presos a eles seria atrasar-nos.

Já disse Kardec que o ideal seria que houvesse um idioma no qual cada palavra expressasse claramente a ideia, o que não se vê nas línguas da Terra. Só uma linguagem mental poderia expressar fielmente a imagem pensada. Por isso é natural que haja tanta dificuldade para nos entendermos pela palavra articulada. Daí definirmos que fomos isto ou aquilo em vida passada e o que esperamos para a vida futura, quando deveria ser o futuro da vida.

Ao nos referimos ao que fomos como vida passada, fica a impressão que foi um período que acabou e está dissociado do nosso presente, quando este é o único tempo real; só existe o agora. Vivemos uma coleção de presentes que formam nossas experiências nesta nossa vida eterna e única!

Jornal O Clarim – abril 2021

O homem no mundo

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Octávio Caumo Serrano  ocaumo@gmail.com

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Só a reencarnação explica.

Essa pergunta expressa uma das maiores dúvidas do ser humano e tem respostas diferentes conforme a doutrina que ele professa. Para os tradicionalmente “cristãos”, católicos e protestantes, nascemos e morremos uma só vez e, após morrermos, vamos definitivamente para um mundo etéreo e mal definido, onde seremos separados entre os que habitarão o céu e ficarão contemplando a face de Deus em completa ociosidade e os que viverão no inferno, para todo o sempre, segundo as obras que tiveram durante a vida material.

Nesse julgamento, porém, não cogitam porque a uns foram dadas condições para fazer o bem, seja pela maior inteligência e discernimento, seja pelos recursos materiais mais abundantes, sem que possam explicar por que Deus, que teria criado seus filhos à Sua imagem e semelhança os houvesse aquinhoado de maneira tão diferente, sem qualquer justificativa. A uns deu beleza, a outros aleijões e doenças crônicas; a uns abundância e a outros a miserabilidade; a uns as ideias claras e a outros a atrofia mental. Culpam o DNA e a ancestralidade, mas não dizem por que numa família de cinco filhos encontramos cinco universos distintos, com índoles, temperamentos e tendências totalmente diferentes.

Só há uma doutrina capaz de explicar essas diferenças; a da reencarnação, presente na maioria das pessoas do planeta, independentemente de suas religiões. É algo tão lógico que em 1940 era crença de 2% dos brasileiros passando a 90% na atualidade, não importando a religião professada. Entre estes, há os que não creem totalmente, mas têm dúvidas sobre o assunto.  Como setenta e cinco por cento dos povos da Terra professam doutrinas que creem na reencarnação, encontramos hoje até católicos e protestantes que aceitam a ideia pela sua lógica. Muitos que se dizem ateus admitem a reencarnação; os índios, que não têm religião, são adeptos da reencarnação porque creem na justiça do Criador.

A morte nada mais é do que o dia seguinte. Não há interrupção na caminhada do espírito quando sai do mundo material para o mundo dos espíritos. É como quem viajou e dormiu no avião despertando noutro país. É o mesmo ser com sua mesma vida. Nada cessa; há somente alteração de planos e objetivos, caso o “morto” se dê conta do desencarne!  

Se não houvesse essa continuidade, não teria sentido tanto sacrifício para sermos melhores, ajudar o semelhante, combater defeitos e incorporar virtudes para tudo se acabar melancolicamente. Tanto sacrifício em troca do nada! O que acontece é que padres e pastores querem cobrar pedágios nesta viagem que fazemos rumo ao tal juízo final e tentam nos convencer que a salvação depende da intervenção deles para nossa condução ao encontro com o Criador, quando isso só depende das nossas próprias obras. As igrejas servem para nos orientar com base no Evangelho, não para nos salvar. Isso fica por conta das nossas ações. A cada um segundo as suas obras. (Mt 16:27)

No capítulo XVII de O Evangelho Segundo o Espiritismo, item 10, um espírito protetor que não se identifica, por ser desnecessário, nos estimula a viver no mundo com os prazeres que o mundo nos oferece. Diz que devemos procurar ser felizes, com o cuidado de não infelicitar o semelhante, mas repartindo com ele o máximo da nossa felicidade; material ou espiritual. Por isso é que o Espírito Georges, no item 11, nos recomenda cuidar do corpo e do espírito, porque um depende do outro. As ideias vêm da mente, que é o próprio espírito, mas as ações precisam dos gestos materiais: o sorriso, a oferta, o apoio, o consolo, que têm sua ação na boca, no braço, nos olhos, nas mãos. Com os órgãos é que se executam os trabalhos idealizados e planejados pela mente (espírito). Portanto, devemos ter o corpo o mais sadio que nos for possível para sentir alegria e estímulo na prática do bem.

O corpo, já nos foi ensinado, é o templo onde vive a alma para a sua caminhada de experiências, aprendendo e ensinando por meio de observações e ações. O uso harmônico dessa dupla é o que nos permite o crescimento espiritual que fará com que saiamos daqui para a nova etapa em condições melhores do que aqui chegamos.

Como fecho desta exposição, diríamos: – Salve-se que puder; ou melhor, quem souber!

Jornal O Clarim – março 2021

As máscaras da igualdade

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ocaumo@gmail.com  Octávio Caumo Serrano

Embora Jesus nos recomendasse amar o próximo como a nós mesmos, nem os que se dizem seus seguidores procedem conforme a recomendação do nosso Cristo. Agressões, discriminações e dissenções de toda ordem é o que mais se vê. Na própria Constituição brasileira, pelo artigo 5º está estabelecido que todos, brasileiros e estrangeiros residentes no país, são iguais perante a lei, tendo garantidos todos os seus direitos constitucionais. Mas, na prática, não é o que acontece, A própria desigualdade social, a diferença entre os salários dos privilegiados e o mínimo pago ao trabalhador, quando chega lá ou tem emprego, é no Brasil uma das mais alarmantes do planeta. A miséria é assustadora! Até a aposentadoria, produto de descontos mensais compulsórios, perde a cada ano seu poder aquisitivo. Não é desonesto com quem ajudou a construir o país e confiou que o ganho lhe garantiria a velhice?

De repente, não mais que de repente, aparece um vírus para nos ensinar na prática o que não aprendemos com as lições de Jesus. Escondeu-nos todos atrás de panos brancos, pretos e coloridos, alguns com mensagens, sempre dirigidas aos outros, transformando-nos em mensageiros da paz, o que não é realidade. Por detrás, quase nada mudou em nós. Temos as mesmas enfermidades de caráter que os acessórios não conseguem esconder porque tapam os rostos, mas não as almas que continuam egoístas, fechadas nos seus redutos e cada um preocupado mais consigo mesmo do que com o semelhante. Protejo-me mais para me defender do outro do que para evitar prejudicá-lo.

A receita habitual do “salve-se quem puder”, segue imperando. As possíveis vacinas que evitarão ou atenuarão as ações do vírus já estão sendo adquiridas pelos países ricos sem que eles se importem com os mais sofridos que continuam sendo tratados como animais. Nem mesmo comprovaram a eficiência do tratamento, mas já correram comprá-las porque dinheiro para eles não é problema. Preocupam-se mais em conservar e ampliar os monopólios do que com a vida das pessoas.

Há, porém, muitos outros vírus a ser combatidos: o da ganância e egoísmo, o da indiferença e falta de solidariedade e o da ingratidão e grosseria. Contra esses já existe vacina eficiente: A educação e respeito ao próximo, tão esquecida e em desuso nestes dias. Comprovam-no a violência nos lares, a expansão do tráfico, o aumento da criminalidade e do marginal que nos ataca nas ruas. Tudo aliado à corrupção nos altos poderes que comandam os países e no desrespeito dos filhos pelos pais, dos alunos pelos professores, dos patrões pelos empregados e vice-versa. A própria Covid 19 tem servido para o enriquecimento de muitos inescrupulosos que superfaturam produtos aproveitando-se da fraqueza e medo do povo. O mesmo povo mais simples massacrado pela carga tributária que tira dele parte preciosa do seu salário de sobrevivência. Monopólios e estatais de gás, de combustíveis, de bancos, de remédios, sugando o sangue do trabalhador. Muitas vezes acompanhados das igrejas que se servem do povo quando deveriam consolá-lo, orientá-lo com mensagens verdadeiras e não com a venda de favores espirituais que prometem indulgências ou lugares privilegiados depois da morte.

A reforma planetária está em processo há mais de meio século e brevemente chegará ao apogeu. Mais trinta ou quarenta anos e já se fará sentir por inteiro. Mas não acontecerá sem muito choro e ranger de dentes, conforme já nos foi advertido. Se hoje queixamos da pandemia, saibamos que ela é a parte suave do que nos espera. É triste, mas necessário. O que não aprendemos pelo amor só pode ser completado com a dor. E como já disse o bom Bezerra de Menezes, “os tempos são chegados e os bons não podem pagar pelos pecadores”. O joio começa a ser separado do trigo. E será arrancado com violência porque o tempo dos disfarces está no fim. Chega, enfim, a hora da verdade. O planeta tem pressa em progredir e nós, pigmeus em moralidade, não seremos impedimento. Todavia, como até agora mantivemos os olhos cerrados e ouvidos tapados, que Deus se apiede de nós!

JORNAL O CLARIM – FEVEREIRO 2021

Enquanto estás a caminho

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Enquanto estás a caminho      janeiro 2021  Octávio Caumo Serrano ocaumogmail.com

Será o tempo que passa ou somos nós que passamos?

Quando aqui chegamos, viemos trazendo uma certeza: Um dia morreremos; com muitos anos ou poucos, mas o final já é conhecido. Voltaremos ao mundo de onde viemos, que para nós é ainda um mistério. Não conseguimos descrever o lugar onde vivíamos antes de nascer na Terra, se é, como ensina o Espiritismo, que já existíamos antes de nos tornar ser humano. Os espíritas denominam erraticidade a esse lugar e seria onde aguardamos a programação para nova oportunidade de vida nos mundos de matéria densa.

A pergunta é o que fazer nesse período que vai do nascimento à morte. Ou, como preferem os espíritas, até o desencarne.  Como nos comportar e conviver com os parceiros de jornada? Podemos ser aquele que é zeloso com sua própria vida ou o tipo que só presta atenção nos outros e para quem ninguém tem valor. Tem um relacionamento com uma dúzia de pessoas, apenas, mas vê defeitos em cada um. Não respeita, mas quer ser respeitado; não ama, mas quer ser amado; não desculpa, mas quer ser desculpado; não dá atenção a ninguém, mas quer ser cercado de carinho e cuidados; só denigre, mas quer ser elogiado! É extremamente exigente, cobra muito e nada dá. Transforma os amigos de seus inimigos em inimigos, sem analisar possíveis qualidades, porque julga por incontrolável instinto de rancor. Ofende com facilidade e não percebe que o ódio que destila se volta contra ele mesmo, gerando depressão, insônia, ansiedade, fibromialgia e que tais que provocam dores generalizadas, exigindo o uso de analgésicos, ansiolíticos e antidepressivos. A cada dia, em dose maior.

A pessoa desse tipo, exigente quanto ao comportamento dos outros, acaba negligenciando seu autoaprimoramento porque está sempre preocupada em consertar o mundo sem perceber que isso é impossível se o concerto não começar por ela mesma.  Não desculpa, não releva faltas alheias, não dá ao outro o direito de ter as imperfeições que nela são comuns, porque nem percebe que as tem. Agredindo pensa que consegue camuflar suas falhas e não se dá conta que é ainda pior do que os que ataca.

Ouvi certa vez que a inveja é a homenagem ao valor. Ninguém atira pedras em árvores mortas ou sem frutos. Se o outro provoca em você tanta atenção é porque tem algum valor. E você tenta denegri-lo com a intenção de fazê-lo menor. Mas quem estaciona na inveja vê o outro se distanciar tanto que fica impossível alcançá-lo. É preciso ter em mente que só podemos viver uma vida: a nossa! E mais, aqui e agora; até o agora tem uma duração tão curta que já se acabou enquanto escrevíamos esta frase.

Na convivência com o semelhante não pode haver espaço para mágoas, rancores, melindres ou qualquer sentimento que nos atrase. São pedras no caminho. Procuremos conviver com quem possa nos ensinar algo ou aprender conosco alguma coisa. O resto é tempo perdido e o tempo não é algo a ser desperdiçado. Jesus já ensinou que deveríamos nos reconciliar com os adversários enquanto estamos a caminho. Perdoa e segue, porque isso purifica o coração e liberta do atraso. Não devemos ser cúmplices ou estimular o erro. Mas se a culpa não é nossa, não nos diz respeito. Atrasar-nos na caminhada por ficar atrelado às falhas alheias não é inteligente. Quem mergulha no charco acaba se sujando.

Atitude sábia é tirar da nossa vida as pessoas negativas e embromadoras. Aquelas que falam uma hora sem parar e do discurso não se aproveita um minuto. Vivem denegrindo os outros, queixando de suas doenças e fracassos e não percebem que apenas colhem do próprio plantio.

O primeiro ano da terceira década de 2021 está começando e é tempo de elaborarmos nossa programação para um futuro de no mínimo vinte anos. Claro que falo dos jovens que ainda têm estrada pela frente. No meu caso, se o planejamento for para cinco anos já valeu a pena.

Lembro-me que certo dia alguém perguntou a Galileo; “- Quantos anos tens? – Oito ou dez, respondeu em evidente contraste com sua barba branca. E logo explicou: – Tenho, na verdade, os anos que me restam, porque os já vividos não os tenho mais.”  É como saudar o aniversariante por mais um ano de vida, quando, na verdade, trata-se de menos um!

A vida corre célere e quando menos nos damos conta estamos, barrigudos, flácidos, enrugados, banguelas, carecas, cardíacos e trôpegos pelas lesões da coluna e ciático. E o pior, esquecidos, caducos e ranzinzas. O tempo de preparar a alma para viver dias melhores chama-se presente. Quem perde a oportunidade não recupera. Temos de valorizar cada gesto e cada minuto vivido para que nos sirva de aprimoramento espiritual. Se deixarmos passar, a fita da vida não volta.

Os tempos chegaram e estão se escoando. 2021 é o primeiro passo para o nosso novo projeto de crescimento. Temos de planejá-lo bem para que tenhamos um feliz Ano Novo, com sucesso nos próximos 365 dias e 6 horas! Como todos os outros, também vai passar voando… E se dormirmos, como as Virgens da parábola, perderemos o trem da história!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – janeiro 2021

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