Diferentes corpos celestes

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Diz o Espiritismo que logo a Terra será um planeta de regeneração

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Classificação feita por Allan Kardec define as diferentes categorias de mundos pela sua finalidade e de acordo com o estágio evolutivo dos Espíritos que o povoam. Determina, igualmente, a densidade material de cada mundo, que é o que define o tipo de corpo necessário para viver nele, qual seja mais pesado ou mais leve.

Quando se diz que a Terra é um mundo de provas e expiações, pressupõe-se que ela é habitada por Espíritos imperfeitos que carecem de aprimoramento cultural, moral a espiritual. Essa imperfeição nem sempre está relacionada com a maldade dos seres, mas, principalmente, com a ignorância que ainda apresentam. Nossos erros são cometidos muito mais por desconhecimento do que por malignidade.

Os que fazem mal propositadamente são minoria em nossa sociedade. O mais comum é alguém bem-intencionado imaginar que está certo quando, na realidade, age equivocadamente. Às vezes, excessivamente moralista, prejudica as pessoas mais simples, de boa-fé, e que ainda não têm condições de ser como ele gostaria. Exige do outro o que nem mesmo ele pode compreender. Para defender a disciplina, deixa até de praticar a caridade.

Com a passagem da Terra de mundo de expiações para mundo de regeneração, um pouco menos imperfeito do que está o planeta atualmente, quem desejar viver na Nova Terra terá de ser bem melhor do que é agora. Mas o que significa ser melhor, segundo esta definição?

A nós parece que bastam algumas virtudes fáceis de serem conseguidas. Por exemplo: honrar a palavra dada como respeito ao semelhante, pontualidade, assiduidade, perdoar as ofensas, vencer o orgulho e o egoísmo, ter paciência. Não se concebe que um espírita, que se diz candidato a viver no mundo novo, seja leviano em suas atitudes. Assume um trabalho e não comparece para executá-lo; matricula-se num grupo de estudos, porém falta mais do que comparece; chega habitualmente atrasado aos compromissos, incluindo a reunião espírita que tem horário estabelecido para início; entre outras coisas mais graves.

Não se pode, igualmente, testemunhar atitudes de extremo desequilíbrio, melindre, ira incontrolada, vaidade pueril e egoísmo contumaz naquele que se diz candidato a viver no mundo novo, na Nova Terra. Assim como o apego às posições e honrarias do mundo que ficarão por aqui quando formos embora, porque não têm valor.

A propalada reforma íntima e o desprendimento dos bens terrenos, tão apregoados pelo Espiritismo, têm por finalidade aconselhar-nos a sermos melhores enquanto caminhamos. Quem não se libertar dos defeitos mundanos agora, não terá acesso ao mundo mais purificado, porque ele será habitado por pessoas mais simples, mais humanas, mais fraternas, quando a solidariedade, que é exceção no mundo atual, será a regra da nova sociedade terráquea.

Quem pode provar que isso é verdade e vai realmente acontecer?

Jesus disse que seu reino não era deste mundo, que nós somos deuses e quando quiséssemos seríamos tão bons e perfeitos quanto Ele. Completando, Kardec faz a escala dos mundos e explica que eles se aprimoram como as pessoas e a natureza determina o novo ambiente de vida. Se nos foi advertido que deveríamos guardar tesouros no céu, os que forem guardados na Terra perderão seu efeito e serão imprestáveis para uso no ambiente renovado do mundo de regeneração.

Para os que acreditam na existência única e que tem na morte o final da vida, mesmo que ainda aceitem a sobrevivência da alma, este comentário é pueril. Para nós que cremos na orientação dos Espíritos e testemunhamos diariamente, inclusive por vasta literatura, que tudo segue um processo de aperfeiçoamento, ser negligente diante dessa possibilidade de crescer agora pode nos custar dores inimagináveis. A quem mais for dado, mais será pedido. Se temos o conhecimento e ele representa a verdade que liberta, desprezar essa advertência será pura infantilidade; uma nova oportunidade poderá ser demorada e dolorosa.

É bastante conhecido nos meios espíritas o episódio envolvendo o planeta Capela, da Constelação do Cocheiro. Muitos foram extraditados para a Terra para ajudar os habitantes do nosso planeta com seus conhecimentos técnicos e científicos, ao mesmo tempo em que aprendiam com os trabalhos de caridade a amansar seus corações e domar seu orgulho. O intercâmbio é perfeito e as oportunidades são dadas aos que as conquistam por esforço e determinação.

Não há benesses para quem não merece, porque a cada um será dado segundo suas obras. Se quiser morar na Nova Terra, construa desde já seu lar no novo mundo. Ainda que seja, provisoriamente, um lar fluídico de característica espiritual. Mais tarde, no tempo certo, ele será materializado e lhe dará grande prazer. É questão de justiça!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – julho 2018

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Cuidemos do desencarne

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RIE junho 2018

A oportunidade nos foi dada, uma vez mais, e a jogamos no lixo

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

“A morte é um nascimento / da matéria pra energia. / O inverso daquele evento / que nos trouxe aqui um dia.” (Octávio Caúmo Serrano – “Salvemos o que é eterno”)

Começamos pedindo licença à filósofa russo-americana, Ayn Rand, judia, fugitiva da Revolução Russa de 1917, que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920 para divulgar sua visão sobre o movimento revolucionário com conhecimento de causa: “Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia, não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais do que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, ao contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada e a honestidade se converte em autossacrifício, então poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada.” E nós reforçaríamos: apodrecida.

Esta verdade, prestes a completar cem anos, é retrato da sociedade do nosso planeta, de leste a oeste e de norte a sul, sem excetuar um só país, uma única civilização, de qualquer tempo conhecido. O que podemos esperar, então, de um futuro a curto prazo? Resposta: com base na fé raciocinada, o caos social, porque não há a menor possibilidade de que esta coletividade planetária saia da desonestidade contumaz para a reforma moral num piscar de olhos. Como disse Ayn, somos uma sociedade condenada que nenhum exemplo histórico bom vai deixar, no campo da moral, para as povoações futuras. Avançamos cada vez mais em tecnologias que usamos para ofender, fraudar, corromper, punir e, esporadicamente apenas, para ensinar, salvar, ajudar e produzir. O tráfico de drogas expande; o prisioneiro comanda da cela a criminalidade das ruas; o trânsito mata cada vez mais e andar na rua ou ficar em casa são hoje dois fatores de risco na preservação da vida; hackers invadem nossa privacidade. É o mínimo! Poderíamos citar uma infinidade de problemas.

Dirão que este relato é pessimista, mas afirmamos que é só uma análise fria do quadro em que vivemos. A cada dia um novo senhor, outrora respeitável, é incluído na lista dos delinquentes, párias da sociedade, que emporcalham a raça humana, tida como o suprassumo da criação divina. Uma viagem sem volta que não pode ser completada em uma encarnação. A oportunidade nos foi dada, uma vez mais, e a jogamos no lixo.

Qual deverá ser, então, o comportamento dos que já defendem a decência, que lutam para melhorar, apesar de suas falhas? Perseverar. Para os espíritas, principalmente, as razões são claras. A reencarnação se destina ao crescimento espiritual, quando temos novas oportunidades para aprender e reparar equívocos do passado pela renovação da experiência que não foi devidamente assimilada. A Terra é uma escola, não um parque de diversões, embora tenha momentos de recreio, porque para os justos e bons a felicidade já faz parte deste mundo. Mas o fundamental é crescer moralmente para fazer jus à encarnação neste planeta quando ele for promovido a mundo de regeneração. Será um prêmio morar aqui, onde presenciaremos uma sociedade honesta, fraterna, competente e avançada. Vamos promover-nos junto com o nosso mundo. Se assim não fizermos, seremos banidos daqui numa reprise do episódio com a estrela Capela. “Quem perseverar até o fim será salvo”; palavras de Jesus. Nossa maior tarefa, portanto, é o aprimoramento próprio. Estamos no mundo para salvar-nos. E isto significa trocar cada defeito por uma nova virtude, antagônica. Vencer o orgulho pela prática da humildade; vencer o egoísmo pela prática do desprendimento; vencer o ódio pela prática do perdão. E assim sucessivamente com cada defeito que nos atrasa. Impaciência, inconformação, descrença etc., sabendo que nenhuma ovelha do rebanho se perderá.

Esperar a ajuda do pastor, contudo, não é o suficiente. Devemos nós mesmos procurar o caminho certo de retorno para o Pai. “Faz que o céu te ajuda” é outra marca registrada do Evangelho do nosso amorável Jesus Cristo.

Como crer em Deus se não cremos nem em nós? Ninguém imagina que tudo aconteça à revelia do Criador. Mas a verdade é que o livre-arbítrio é soberano no homem. Nem o anjo da guarda nos ajuda nem o obsessor nos derruba a não ser que contribuamos com nosso desejo. Nossa vontade e intenção traçam o roteiro do que desejamos para nós. É quando se aproximam mentor ou obsessor para ajudar-nos na execução dos nossos planos. Como na cantoria nordestina: nós damos o mote e eles criam as rimas.

Que ninguém desanime diante de nossas palavras, porque este é um momento cíclico que se repete de tempos em tempos. Hora de saneamento, separação de trigo e joio, que acontece sempre no mundo para o avanço do conhecimento moral e tecnológico. Quem viver na Terra daqui a cinquenta anos poderá regozijar-se com o planeta renovado. Mas é preciso merecer tal oportunidade. Se a felicidade não é deste mundo, podemos comprar agora as passagens para a grande viagem em direção ao tempo ditoso que já está próximo. Por enquanto, perseverar no bem, ajudando o quanto puder, livrando-se dessa malha de corrupção evolvente, da qual pouca gente escapa. A desonestidade, que parece esperteza e inteligência, não passa de ouro de tolo. Tem aparência dourada, mas por dentro é metal enferrujado.

Cuidemos da nossa encarnação para ter um produtivo desencarne. Esta vida na matéria é um presente que o Céu nos oferece. Saibamos ser gratos e aproveitá-la. Em O Livro dos Espíritos, questão 86, está escrito que o mundo material nem precisaria existir; André Luiz, por Chico Xavier, nos informa, porém, que esta vida serve como catalisador (acelerador) para o progresso espiritual. Em Evolução em dois mundos, capítulo 19: Alma e Reencarnação – Depois da morte, ele diz: “Ao morrer fisicamente, o homem que tenha culpas acumuladas sofrerá muito para delas se libertar, sendo que tão logo se conscientize e se arrependa, abreviará o sofrimento, iniciando estágios de elevação e reeducação. Ficar preso ao leito como doente, por longo período antecedente à morte é bênção, embora não apreciada, desde que tal tormento seja vivenciado resignadamente. Esse é abençoado tempo de autoanálise, que do contrário, carreará remorsos pós-desencarne. Todos os que agem com maldade, os viciosos em geral, caluniadores e demais criminosos, sem tempos de autoexame e arrependimento, após a morte física purgarão largos e difíceis tempos nas zonas espirituais tristes e altamente desconfortáveis. Experimentarão agora os mesmos males que causaram a outrem.”

Acreditemos e sigamos em frente.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho 2018

Para que serve o Centro Espírita?

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Cada dia nos desencantamos mais com os espíritas

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

A pergunta acima é de difícil resposta, porque cada um terá seu próprio ponto de vista. O comum é imaginar que o centro espírita existe para resolver problemas que outras doutrinas não conseguem. São pessoas que vivem desfilando nos templos cantando e louvando e dando uma contribuição para a prestação do terreno no céu, ou para que seus negócios prosperem. Quando percebem, após anos, que estão paradas no tempo e começam a ter dificuldades de toda ordem, correm para o centro espírita e levam seu pacote de problemas para que os Espíritos resolvam. Afinal, foi Jesus quem ensinou que “pedindo obteríamos”. Só que Ele disse também: “faz que o Céu te ajuda.”

Em suma, pedimos muito e fazemos quase nada.

Este primeiro grupo é composto por pessoas que chegam ao centro espírita e querem fazer consulta com médiuns incorporados, se há psicografia para receber informações diretamente dos mortos, não importa quem sejam, já que consideram todos os Espíritos sábios. Alguém lhes disse que seus problemas só podem ser produto da perseguição de obsessores. Acreditam que com meia dúzia de passes e palestras, acompanhadas de um cálice de “água benta espírita”, poderão resolver suas dificuldades e não percebem que nunca fizeram a parte que lhes cabe; frequentam alguma instituição por um ou dois meses e depois desaparecem. Por isso o centro é conhecido também como casa transitória onde muitos vão e poucos ficam. Se não estão no tempo de despertar, desaparecem. Se resolvem seus problemas, vão embora. Caso as dificuldades persistam, desistem porque o centro não funcionou no caso deles, e correm para outro centro ou outras doutrinas em busca de milagres.

Outro tipo de participante da plateia espírita é aquele que já nutre alguma simpatia pela doutrina e vê nela uma lógica que não encontrou em sua religião. Gosta do passe semanal e da palestra, embevecendo-se com encontros, seminários e congressos espíritas, encantando-se com as receitas que os competentes conferencistas espíritas oferecem nessas reuniões extremamente concorridas. Adquire muitos livros e vamos encontrá-lo no centro com o rigor de quem vai ao culto semanal da qualquer igreja. Entra no centro e sai da mesma maneira, sem saber o que acontece na casa, como pode contribuir ou trabalhar por sua própria melhora. Se chover, chegar visita, for feriado, houver atração especial na TV ou festa em família, o centro fica para depois. Esta é uma maioria expressiva.

Há também aquele tipo de participante que chegou a um despertar mais intenso, levado por problemas ou vazios existenciais, e decide engajar-se nas tarefas da casa. São palestrantes, passistas, atendentes, que já se dispõem a fazer algum curso para aprender mais sobre o Evangelho e tentar vivenciá-lo. É a comunidade espírita que forma a estrutura de cada centro. Pena que ainda muito morna, pois fazem o estritamente necessário. Ao sair nem lembram de apagar uma luz, fechar uma janela ou desligar o som. Terminado o trabalho fogem na velocidade de um raio, como se na casa houvesse algo peçonhento. Nunca se oferecem para nada além das atribuições que a casa lhes deu. Por isso o movimento espírita ainda cresce de maneira acanhada e toda instituição tem nas costas de dois ou três toda a carga de trabalho. Analise o centro que você trabalha e diga se o que afirmamos é mentira. Se a casa tem campanha de arrecadação de alimentos ou qualquer outra utilidade, nunca se lembram de trazer um pacote de arroz, um rolo de papel higiênico ou copos descartáveis que usam toda vez que vão à casa. Veem que o relógio parou, mas nunca oferecem uma pilha. Nem falamos da manutenção com limpeza e reparos físicos. Afinal, já são contribuintes com seu importante trabalho espiritual. Já dão de si, não precisam dar do seu.

Por fim, existem os participantes que têm o ideal espírita já muito arraigado e se dedicam à causa e à casa com grande interesse. Pena que muitos deles desejam cargos e postos de relevância, porque como presidente ou diretor do centro podem ostentar uma autoridade que nunca tiveram na vida social ou pessoal, já que suas vozes não são respeitadas, muitas vezes, nem no próprio lar. Pena que sejam mais teóricos que verdadeiros. Ainda pecam pela leviandade do não cumprimento da palavra empenhada, ainda discriminam confrades da sua ou de outras instituições, formam clãs pessoais, apegam-se às posições que não suportam deixar. Perpetuam-se nos postos e, como num reinado, só abdicam por desencarne ou grave enfermidade. Não passam de pessoas comuns rotuladas como espíritas. E são quase sempre muito respeitadas. Transformam-se em gurus que não conseguem guiar nem a si próprios.

Perdoem-nos o rigor da análise, na qual tentamos não nos incluir, sem conseguir, mas o movimento espírita poderia ser muito mais dinâmico, atuante, se fizéssemos do Espiritismo nossa prioridade de vida e não fôssemos espíritas de fachada apenas – e muito mal – dentro do centro. Se fôssemos exemplos de conduta e lisura e nossos interesses pessoais fossem secundários diante dos interesses da causa que professamos, se dispensássemos os incensos e cuidássemos mais do nosso caráter, a fim de exemplificar nas ações com a mesma ênfase que empregamos nos discursos, com certeza contribuiríamos expressivamente para o fortalecimento do movimento espírita.

Em qual desses grupos se enquadra o caro leitor no movimento espírita da sua comunidade?

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – maio 2018

Um presente de Deus

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“E eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador.” – João 14:16.

Octávio Caumo Serrano | caumo@caumo.com

Tendo chegado dia desses, precisamente aos 18 de abril de 1857 – porque 160 anos é nada quando se analisa o contexto da história –, o Espiritismo, doutrina organizada pelo pedagogo Denizard Rivail, o nosso Kardec, não foi ainda assimilado pelo homem do nosso tempo.

Equivocado, ele imagina que está na Terra para resolver problemas financeiros e materiais de toda ordem, incluindo os de saúde. Busca o Espiritismo para beneficiar-se das curas mediúnicas, porque ainda não compreendeu que a doença é reflexo de um desajuste do Espírito que anima o seu corpo. Se soubesse, compreenderia que cada um pode ser seu próprio médico e que os maiores males da humanidade não estão no clima, nos alimentos impróprios, na poluição de águas e ar ou nas pragas, mas na própria mente, porque é o pensamento que nos faz saudáveis ou enfermos, felizes ou infelizes.

Quando Jesus rogou ao Pai que nos enviasse o Consolador, e foi atendido quase vinte séculos depois, sabia que tudo precisa vir no tempo certo. Longos períodos se passaram entre Moisés e Jesus, sem levarmos em conta as primeiras revelações a Abraão e demais patriarcas, pois Moisés já encontrou o Deus Criador assimilado pelo seu povo. O materialismo dogmático dos deuses mitológicos da Grécia e das idolatrias do Egito já estavam superados. O Deus Espírito já havia sido compreendido, apesar de ser considerado um protetor particular do povo judeu. Nem mesmo o patrício da Samaria tinha direito à proteção que tinham o judeu e o galileu. Deus não era de gentios. Postura pretensiosa, mas compreensível. Se até hoje há quem afirme que só na sua igreja é possível encontrar a salvação, fácil imaginar como seria há vinte séculos.

O Espiritismo veio trazer lucidez para a compreensão da Lei de Deus, que nos foi claramente relembrada por Jesus, já que ela está desde sempre gravada no nosso inconsciente, como afirma a questão 621 de O Livro dos Espíritos. Não entendemos corretamente como se processa em nós mesmos a lei de causa e efeito, porque se houvéssemos entendido não nos causaríamos tanto sofrimento com o desajuste dos nossos pensamentos.

Sofrendo pelos males que os outros nos causam, não percebemos que nossa defesa consiste em pairar acima dessa lama, para que a sujeira não respingue em nós. O mal da ofensa não está na carga de maldade que o outro nos atira, mas na receptividade que damos à atitude dele. Se decidirmos que não é conosco e não assimilarmos a agressão, ela não nos fará mal, mas se somos equivocados quanto a nós mesmos, iremos valorizar e ampliar o mal que ela pode provocar. Vamos sofrer não pela atitude do agressor, mas pela nossa própria insegurança.

O Espiritismo não exige de nós santificação da noite para o dia, porque sabe que não temos condição de consegui-la. O Plano de Deus respeita o habitante da Terra e sua inferioridade por ser morador de um mundo de provas e expiações, que não é residência de santos. Quer apenas que tenhamos boas intenções e vontade de crescer, propondo-nos recursos para ser a cada dia um pouco melhores. Sem pressa, porque se tentarmos atropelar o tempo e as condições vamos tropeçar e não sairemos do lugar. Dia a dia, mês a mês, ano a ano, encarnação a encarnação. Devagar, mas sempre. Para a frente e para o alto.

Em vez de pretendermos ensinar sempre, já que sabemos quase nada, vamos usar o maior tempo para aprender. O que sabemos, naturalmente distribuímos por exemplos e atitudes que nos identifiquem como pessoa diferente diante das dificuldades. Não perderemos a calma, apesar de haver motivos para tanto. Saberemos que tudo é só por um pouco. Se até a reencarnação é efêmera diante da eternidade, imaginemos os pequenos percalços do dia a dia. São átimos, milésimos de segundos no tempo de Deus.

Nada vale a nossa tristeza, o nosso sofrimento, a nossa angústia. Nada acaba, nada perece; tudo simplesmente se transforma. E nós, homens comuns, estamos caminhando para a angelitude. Podemos acelerar esse tempo se apenas valorizarmos o que tem valor real e não o que simplesmente serve de ornamento fútil para a vida na Terra. Toda uma reencarnação representa alguns minutos espirituais. Os tesouros da Terra, já ensinou Jesus, o ladrão rouba, a traça corrói e a ferrugem consome. Quando formos para a espiritualidade serão valores retidos como contrabando na fronteira do plano espiritual. Por que, então, nos desgastarmos tanto na sua conquista? Vamos usá-los na medida que tenham utilidade. E caso possam se transformar de tesouros da Terra em tesouros do Céu!

Concluindo, o melhor processo de tratamento e cura para uma pessoa é o estudo. Foi o que nos ensinou Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8:32). De que verdade nos falava Jesus? Certamente a que nos informa quem somos, de onde viemos, por que, para que e para onde iremos como seres eternos! Entendido isso, as dores perdem o poder e passam a ser recursos de crescimento. Mais importante que curá-las é entende-las e aproveitá-las. E, ao final, curarão por si mesmas!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – abril 2018

 

Uma boa religião

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“A melhor religião é aquela que te faz ser uma pessoa melhor.” (Dalai Lama)
Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Em O Livro dos Espíritos foi perguntado aos orientadores, na questão de número 842, qual seria a melhor religião. Na íntegra a pergunta formulada foi a seguinte: “Por que indícios se poderá reconhecer, entre todas as doutrinas que alimentam a pretensão de ser a expressão única da verdade, a que tem o direito de se apresentar como tal?”

A resposta, fundamentada no bom senso, foi a seguinte:

“Será aquela que mais homens de bem e menos hipócritas fizer, isto é, pela prática da lei de amor na sua maior pureza e na sua mais ampla aplicação. Esse é o sinal por que reconhecereis que uma doutrina é boa, visto que toda doutrina que tiver por efeito semear a desunião e estabelecer uma linha de separação entre os filhos de Deus, não pode deixar de ser falsa e perniciosa.” (grifo nosso)

Por que buscamos uma religião? Há várias respostas, mas as principais seriam: temos problemas e vamos procurar soluções para os nossos males; ou em razão de um vazio interior que nos leva a querer um pouco de paz. Pode ser também pelo temor a Deus, sem sentido, crendo que seremos punidos por não professar alguma doutrina. No entanto, a religião é um meio, não um fim. Deve orientar para a luta e não resolver nossos problemas de maneira milagrosa, porque é ao lutar contra nossas imperfeições que nos modificamos para melhor.

Conclui-se que todo crente que afirmar que só na sua igreja está a salvação é um equivocado. Seria como garantir que só a sua profissão é boa, só a sua verdade é certa, só a sua inteligência é superior ou só o seu clube pode ser campeão. Como habitantes de um mundo de provas e expiações, o que nos identifica como de pouca evolução, não se pode pretender homens perfeitos neste habitat. Referimo-nos também aos ídolos venerados na Terra, não importa o segmento a que pertençam. Os sábios do mundo têm apenas fragmentos da sabedoria que alcançarão um dia dentro das Leis Universais.

O Espiritismo ganhou, graças à sabedoria do seu organizador, Allan Kardec, um slogan de total bom senso: “Fora da caridade não há salvação.” Tal afirmação deixa claro que a crença é secundária, porque o importante é fazer o bem. Fundamental é o homem ser bom e honesto, inclusive consigo mesmo. Podemos enganar os outros homens, mas não a Deus e a nós mesmos. Leiam a mensagem do Espírito José Bré, em O Céu e Inferno, Capítulo III, sobre a verdadeira honestidade. Vale a pena.

O Espiritismo não tem como meta angariar prosélitos, mas sim divulgar o Evangelho de forma objetiva, repetindo as lições de Jesus numa linguagem inteligível à qual todos, independentemente do grau de instrução, tenham acesso. Não é intensão do Espiritismo ampliar o número de frequentadores de centros para igualar-se às massas de outras religiões, mesmo porque é uma doutrina que nada cobra por serviços que oferece. Dá de graça o que de graça recebeu. Se o movimento vem crescendo é porque a sua mensagem faz sentido.

O Espiritismo convida a conhecer seus postulados todo aquele que não encontra, na sua doutrina atual, as respostas para as questões que o incomodam. Não lhe pede que seja espírita nem que abandone a sua crença, herança, muitas vezes, de tradição familiar. Pede-lhe apenas que seja um investigador das lições que ele lhe oferece e raciocine a respeito. Confira, ele mesmo, se o Espiritismo o atende e esclarece suas dúvidas. Conhecendo, pelo menos, terá mais condições de ser criterioso quando decidir combatê-lo ou criticá-lo.

Nesse contexto, Erasto é um daqueles a quem podemos chamar de sábio e grande conhecedor da fenomenologia mediúnica. É considerado por Allan Kardec como um Espírito que produziu comunicações de muita lógica, muitas delas presentes em O Evangelho Segundo o Espiritismo e por todo O Livro dos Médiuns. Ao aparecer uma nova opinião, disse Erasto, por menos que vos pareça duvidosa, passai-a pelo crivo da razão e da lógica. O que a razão e o bom senso reprovam, rejeitai corajosamente. “Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa.” Isto deixa claro que o Espiritismo não deseja impor-nos conceitos dogmáticos, baseados em fé cega, mas nos quer discutindo até entendermos com clareza e concordarmos pela lógica e pelo bom senso. “Se um dia a ciência provar que o Espiritismo está errado, fiquemos com a ciência”, já nos aconselhou o Codificador. Disse ele que o Espiritismo se ajustará à ciência porque o “Espiritismo está longe de ter dito a última palavra, quanto às suas consequências, mas é inabalável em sua base, porque ela se assenta sobre os fatos.”[1] É a doutrina que melhor responde nossos atuais questionamentos, mas como tudo avança, o Espiritismo também é uma doutrina evolutiva. Ele só disse o que já podemos entender.

Por esta razão, no prefácio de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec disse que esta é uma doutrina para ser muito estudada. “Anos são precisos para formar-se um médico (…). Como pretender-se em algumas horas adquirir a Ciência do Infinito?” Assuntos sérios devem ser tratados com seriedade. “Espíritas!, amai-vos, eis o primeiro ensinamento. Instruí-vos, eis o segundo. Todas as verdades são encontradas no Cristianismo; os erros que nele criaram raiz são de origem humana. E eis que, além do túmulo, em que acreditáveis o nada, vozes vêm clamar-vos: Irmãos! nada perece. Jesus Cristo é o vencedor do mal, sede os vencedores da impiedade!”[2]

Se você não estuda não é espírita; é mero simpatizante da doutrina e merece ser enganado. Boa sorte a todos!

  1. KARDEC, Allan. Revista Espírita. Fevereiro de 1865. “Da Perpetuidade do Espiritismo”, § 13.
  2. KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Pelo Espírito de Verdade. Cap. VI, item 5. Paris, 1860.
  3. RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Março 2018

Pela árvore se conhece o fruto

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 O capítulo XXI de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” trata deste assunto.

Octávio Caumo Serrano | caumo@caumo.com

A forma de Jesus ensinar mostrava uma didática que poderia ser aplicada para todos os tempos. Quando Ele falava, doutores e pescadores o entendiam igualmente. Por isso, geralmente se servia de assuntos conhecidos por todos, como a natureza, a família e os costumes da época.

Ao ensinar que quando vemos um fruto saudável podemos deduzir que ele veio de uma boa planta, quis comparar-nos à natureza, mostrando que uma pessoa com hábitos cordiais, atenciosos e generosos só pode ser uma pessoa boa. O inverso também é verdade. De uma pessoa bruta é mais justo que esperemos gestos grosseiros, mal-educados, agressivos. Cada um age conforme a sua índole, que é resultado do progresso que já tenha alcançado e dos valores que realmente lhe importam.

O capítulo XXI de O Evangelho Segundo o Espiritismo aborda a questão dos falsos profetas e adverte para que nos cuidemos contra seus atos. Informa que eles são astuciosos e conseguem enganar até os escolhidos, ou seja, até os mais prudentes e esclarecidos.

Vivemos rodeados deles, quando não, também, mesmo sem perceber, somos um deles. Quando agimos como um falso profeta, indagarão? Quando nos apressamos em dar conselhos sobre assuntos que desconhecemos, ou sabemos apenas superficialmente, ou quando induzimos uma pessoa a erros ou a engodamos com falsos elogios. Também quando matamos a esperança e a ilusão de alguém, desencorajando-o de tentar algo que represente progresso ou esperança em sua vida, porque também já fomos malsucedidos. Se nos demos mal, decidimos que todos os demais também terão insucesso em casos semelhantes, o que não é verdade.

Sem dar-nos conta, somos mais previsíveis e vulneráveis do que imaginamos. Alguém que conhece a índole humana é capaz de fazer revelações a nosso respeito que nós mesmos ignoramos. Já disse um pensador: “O que ele é grita tão alto que nem escuto o que ele diz.” Um exemplo:

Vamos consultar uma senhora que lê a sorte pelas mãos, pelas cartas, pelos búzios ou pela bola de cristal, e ela logo de início já revela que estamos vivendo um tempo de aflição, insegurança e desarmonia no lar – se portamos uma aliança que facilite a observação dela. Diante da afirmativa, contamos para todos que aquela senhora é um prodígio e que adivinha a vida das pessoas. Mas ela apenas disse que vivemos aflitos! Quem não vive? Que temos desentendimentos no lar. Mas onde encontramos um casamento de perfeita harmonia? Inseguros? Quem vive com segurança nestes tempos de corrupção, desonestidade, desemprego, criminalidade desenfreada? E o simples fato de procurá-la para aconselhamento já nos identifica como uma pessoa que está passando por problemas ou precisa de orientação.

Cuidemos para não ser esse falso profeta. Temos um dia de Espiritismo e fazemos discursos doutrinários, querendo converter a humanidade, quando ainda não convertemos nem a nós mesmos. Queremos doutrinar o mundo, para salvá-lo, mas sequer conseguimos salvar a nós mesmos. Se nem Jesus foi unanimidade, por que pretender ser mais competente que Ele? Respondemos precipitadamente a qualquer pergunta porque temos dificuldade para dizer “não sei”, como se fôssemos obrigados a entender de tudo.

Lembro-me de certa passagem com o médium Divaldo Pereira Franco, em São Paulo, lá pelos anos 1970. Ele era o orador oficial do evento que comemorava o aniversário da prática do Evangelho no Lar.

Hospedado no centro da capital, já que ia fazer a palestra no Palácio Mauá (Viaduto Dona Paulina, 80), próximo à Praça João Mendes, decidiu passear no sábado à tarde na rua chique do Centro: a Barão de Itapetininga. Ainda não existiam shoppings centers. Caminhando (naquele tempo se podia fazer isso), ele olhava as lojas, quando viu uma senhora muito elegante e se encantou com a figura. Olhou-a, admirado, quando ela se virou e lhe disse:

– O que está olhando?

– Nada, senhora.

– Se ficar me olhando, dou-lhe uma guarda-chuvada.

Imediatamente ele lhe pergunta:

– Por que a senhora briga com seu marido e quer descontar em mim?

Surpresa, a senhora indaga como Divaldo poderia saber que ela se desentendera com o marido. Ele lhe diz que é por ser espírita, baiano, e estava em São Paulo para uma palestra sobre religião e espiritualidade; que ela fosse assistir, porque andava muito nervosa e lhe faria bem. Em seguida, cada um seguiu seu rumo.

Contando o episódio a amigos, eles perguntaram se foi a mentora Joanna de Ângelis que o informou sobre o problema da senhora.

– Não – disse o médium –, não precisou. Foi mera questão de observação. Apenas três coisas definem todos os traumas do ser humano: problemas de saúde, de dinheiro e de amor. A humanidade inteira tem suas dificuldades ligadas a esses três flagelos. Observei a senhora, corada, saudável, não me pareceu que seu problema fosse com a saúde. Elegante, com casaco de pele, joias; o problema seguramente não era dinheiro. Só podia ser o amor. Olhei na mão esquerda e vi a aliança. Deduzi: é o marido. Chutei e acertei.

Este exemplo de Divaldo nos serve de alerta para que saibamos que, enquanto conversamos, um bom observador lê nossos olhos, nossa face, nossos gestos, nosso corpo e faz nosso retrato com grande fidelidade, sem precisar usar as informações que lhe damos.

Cuidado com os falsos profetas. Mas, principalmente, cuidado para não ser um deles!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – fevereiro de 2018

Permitam-me ser espírita

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Dada à diversidade de pensamentos é normal haver diferentes religiões.

Octávio Caumo Serrano | caumo@caumo.com

Vivemos uma fase de grande desenvolvimento científico e tecnológico. As descobertas e atualizações de processos e conhecimentos evoluem numa velocidade que a maioria de nós não pode acompanhar. Daí o grande desajuste entre as pessoas e a facilidade como somos convencidos e enganados por aqueles que melhor manipulam palavras e conceitos.

Embora haja muitas pessoas desencantadas com os métodos de divulgação religiosa – e este número cresce dia a dia –, somos de opinião que ter fé é importante para consolo nos momentos de maior provação. Se não crermos que há um poder acima dos homens, que tudo organiza e tudo governa, o desânimo tomará conta de nós porque nos sentiremos impotentes para combater, por nós mesmos, todo o mal que há na Terra.

Ocorre que há doutrinas que nos proíbem de pensar, exigindo a aceitação de dogmas, e outras que condicionam nossa felicidade ao valor das contribuições pecuniárias que ofertemos ao nosso Deus. Por outro lado, há também as que desejam que nossa fé seja produto da razão e de nós nada cobra para que dela participemos.

Em todas elas há diferentes tipos de adeptos. O passivo: vai ao culto da sua instituição uma vez por semana, convicto de que atendeu a todos os seus deveres religiosos; não se envolve na organização. O descompromissado: aparece vez ou outra e, geralmente, quando enfrenta algum tipo de problema. Por fim, o atuante: participa das atividades da entidade, doando-se dentro da sua capacidade e dentro das oportunidades que a própria instituição oferece. São os zeladores do templo, os auxiliares nas cerimônias, os bons propagandistas da sua fé e estão sempre prontos para o que deles precisar.

O que se vê atualmente, porém, é um compromisso mercantilista que supera em muito o espiritual. As diferentes doutrinas procuram recrutar fiéis, dissuadindo-os de uma “rival”, como se fosse uma concorrente que trouxesse prejuízo, o que transforma as correntes religiosas em inimigas. E para isso não estabelecem pudor nem critério. Mentem e adulteram, porque os objetivos devem ser atendidos acima de qualquer meio.

Já passei por situações estranhas ao declinar minha corrente de fé, porque as pessoas têm grande preconceito contra o Espiritismo, sem ter sequer vago conhecimento dos postulados doutrinários. Certa vez, um profissional que fora realizar trabalhos de manutenção no nosso centro estranhou quando viu cadeiras no salão. Ele imaginava, pelo que seus líderes lhe ensinaram, que ali seria um terreiro. Ele não sabe que o Espiritismo não usa danças, bebidas, oferendas, uniformes, velas, incensos, galinha preta, búzios ou bola de cristal. Quem usa esses aparatos em seus rituais são as doutrinas afro-brasileiras, que existiam antes do Espiritismo. Esta palavra foi usada pela primeira vez por Allan Kardec, o Codificador da doutrina, no prefácio de O Livro dos Espíritos, lançado em 1857. Antes existia apenas espiritualismo e seus adeptos eram os espiritualistas. Não eram espíritas porque esta palavra também não existia. É outro neologismo criado por Kardec. Até mesmo entre os espíritas observamos alguns dizerem que a Bíblia não proibia o Espiritismo. Não podia proibir nem aprovar porque o Espiritismo não existia quando ela foi elaborada. Querem falar de “mediunismo” (primitivo) e dizem Espiritismo.

Nós, os espíritas, devemos dar aos outros o direito de professar a fé que mais sintonize com suas aspirações e que sirvam para melhorá-los como seres humanos. Da mesma forma, cabe-nos exigir que nos permitam ter nossas próprias convicções. Se profissionalmente cada um apresenta sua vocação, espiritualmente dá-se o mesmo. Não cometamos os erros dos ultrapassados currículos escolares que dão aulas sobre o corpo humano para quem deseja ser contador e explicações de geografia para quem vai estudar medicina. O mundo atual exige que sejamos práticos, objetivos e racionais. Quem quiser preencher-se de cultura inútil, busque a internet que irá encontrar de tudo. Todavia, para um preparo sério do que usaremos na profissão que escolhemos, temos de ter mais rigor.

Não tive a sorte de nascer espírita. Só descobri o Espiritismo há quarenta e cinco anos, com trinta e oito de idade, por curiosidade, para ver se encontrava respostas que a minha doutrina, onde fui matriculado por mero tradicionalismo, não me dava. E então encontrei o verdadeiro sentido da vida, a razão das desigualdades humanas, a diversidade de caráter das pessoas, tudo explicado com lógica irrefutável que cultivo, divulgo e estudo cada vez mais, sem qualquer fanatismo. Não trombeteio sobre a minha crença sem que seja solicitado ou indagado, mas também não me furto de dar todas as explicações e testemunhos sempre que minha fé é posta à prova ou é indagada.

Deixem-me ser espírita! Agradeço aos que tentam me salvar, aconselhando a transferência para a sua igreja, mas por enquanto fico por aqui, embora saiba que o próprio Espiritismo, e já nos advertiu Allan Kardec, é uma doutrina evolucionista e, portanto, não está pronto e acabado. Assim como Jesus falou pouco para os do seu tempo, usando inclusive as parábolas, porque eles não podiam entender mais sobre as coisas do céu, também a doutrina dos Espíritos nos trouxe as informações que podemos compreender com a nossa atual inteligência e conhecimentos básicos. Até que vivamos tudo o que ela nos ensina, ainda séculos passarão. Mas dia chegará que tudo precisará de nova atualização e o Pai, assim como enviou o Consolador Prometido, na figura do Espiritismo, mandará um upgrade com detalhes mais avançados sobre a doutrina de Jesus.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – janeiro 2018

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