Há muito que nos enganam

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caumo@caumo.com   Octávio Caúmo Serrano

Os cristãos são seguidores do Evangelho de Jesus, a Boa Nova, que está entre nós há cerca de vinte séculos, e devem vivenciá-lo em todos os atos do cotidiano.

No Brasil, católicos, protestantes e espíritas são os componentes dessa facção religiosa. Mas percebe-se claramente que os espíritas são os que absorveram melhor os mecanismos dessa revelação, graças à lucidez do Codificador Allan Kardec que desvinculou a salvação dos homens dos templos e das práticas fantasiosas, afirmando apenas que “fora da caridade não há salvação”. Mas que ninguém descarte, também, a prática da caridade consigo mesmo. Afirma que a fé espírita é raciocinada, não dogmática, e por isso não aceita o que, apesar de saber, não pode compreender, porque é isto o mais importante.

Deixa claro que um ateu pode adiantar-se espiritualmente até mais que um religioso se amar o próximo com a si mesmo, sendo fraterno, solidário e indulgente com o semelhante. Disse Jesus aos seus discípulos certa vez que “em verdade publicanos e meretrizes os precedem no reino de Deus” (Mateus 21:31). Ao praticar a auto caridade, o homem aprende a desvincular-se de atitudes que lhe causam mal, como a revolta contra situações políticas, sociais  ou econômicas que o levem a odiar o semelhante e ter desejos de vingança, maculando sua pureza espiritual. Se puder corrigi-las por lutar contra elas ainda faz sentido; mas aborrecer-se sem ter condições para mudar o estado das coisas é causar a si mesmo um sofrimento desnecessário. O caminho é o perdão, a oração pelo faltoso, sem jamais ser conivente com os erros alheios.

O Evangelho Segundo o Espiritismo foi escrito para registrar, analisar e comentar a parte moral da vida do Cristo, sem ater-se às práticas exteriores ou rituais de qualquer tipo. Por isso é mencionado o texto sagrado básico, extraídos noventa por cento do Novo Testamento, seguido do comentário de Kardec e, finalmente, a opinião dos Espíritos que complementam as lições ou dão testemunhos de vida, sucessos e fracassos, para nos servir de orientações.

Jesus jamais fez promessas de salvação fácil ou com base em privilégios. Nunca disse que Ele ou Deus nos carregariam no colo. Enfatizou que seria como “O Caminho, a Verdade e a Vida” para nossa aproximação com o Criador. Aceitou que se fizessem as oferendas para não criar maiores conflitos com os homens da sua época, mas recomendou que antes nos reconciliássemos com os adversários. Sintetizou os mandamentos de Moisés recomendando que deveríamos “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo com a nós mesmos”. E disse, também, que todos seremos medidos com a mesma vara. Sempre censurou os que sabiam mais, como fez com os fariseus aos quais chamou túmulos caiados. Brancos por fora e podres por dentro. “Não são os que dizem Senhor, Senhor que entrarão no reino dos Céus, mas os que fazem a vontade do Pai que está nos Céus.”

No entanto, o que nos ensinaram nossos templos? Que devemos orar, acender velas, oferecer flores, fazer novenas, cantar hinos, sacrifícios físicos com caminhadas de joelhos ou longos percursos, que só servem para agredir nossa saúde, ou promessas que serão trocadas por favorecimentos imerecidos. E quanto mais ofertas e maiores os valores que doarmos aos templos, mais benefícios receberemos. Muitas delas encheram seus divulgadores de roupas exóticas, coloridas e enfeitadas, esquecendo que Jesus pregava no Templo, nas Sinagogas ou nas ruas sempre vestido com a mesma roupa simples. No entanto, ao mostrar o exemplo da viúva que deu seu óbolo, Jesus disse que ela foi quem mais deu porque deu do necessário para a sua sobrevivência.

Graças ao Espiritismo podemos compreender que devemos empregar o valor a ser gasto com uma vela, que não ilumina alma, porque o que a ilumina é o amor, na compra de um pão ou de um prato de comida para aliviar a fome de um irmão. Se não tem bens para oferecer, estenda sua mão para erguer um caído, dê um dia de trabalho num lugar de dor e miséria (asilo, orfanato, hospital) ou uma palavra de alento que pode levar alguém a modificar suas ideias ajudando-o, muitas vezes, até a desistir do suicídio. Mas temos de ter em mente que nada colheremos de bom de atitudes que a ninguém beneficie. Quando nada pudermos oferecer ao outro, vamos endereçar-lhe boas vibrações com desejos de que possa superar suas fraquezas. Foi o que disse Jesus quando lhe perguntaram quando O haviam visitado, curado, alimentado, que ao fazer isso a um de seus irmãos menores era a Ele que o faziam. Somos auxiliares de Deus e de Jesus na reforma e melhoria do mundo. Não desperdicemos esta honrosa tarefa.

Nosso comportamento é sempre o inverso. Em vez de sermos auxiliares de Jesus na melhoria do mundo, nós O transformamos em nosso empregado incumbindo-O de arranjar emprego para nossos filhos, marido para nossas filhas, recursos para quitarmos dívidas e médico gratuito para livrar-nos de enfermidade que vivemos produzindo pela nossa invigilância.

É hora de repensar nosso entendimento sobre o Evangelho e baseá-lo na Lei de Ação e Reação. Esperar receber só aquilo que por méritos construímos. “Faz que o Céu te ajuda”. A mil por um ou como na multiplicação dos pães e peixes que oferecermos. Zero vezes zero sempre será zero. Nunca tenhamos falsas ilusões. Boa sorte!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – setembro de 2019

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Simulando uma entrevista

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Octavio Caumo Serrano  caumo@caumo.com

Assuntos do cotidiano do movimento espírita.

01 – O que podemos entender por um centro espírita de “mesa branca”?

A expressão mesa branca é usada por quem não tem ideia do que é o Espiritismo. A mesa no Centro é só para acomodar os participantes, palestrantes, médiuns. Pode nem existir. Essa confusão é feita pelos que imaginam que Umbanda, Candomblé, etc., sejam um tipo de baixo espiritismo, o que não é verdade. Até o dicionário do Sr. Aurélio define o Espiritismo de maneira incompleta. Diz que é a doutrina que acredita na continuidade da vida e da comunicação entre vivos e mortos pela mediunidade. No entanto, a sua maior meta é a transformação moral do ser humano.

02 – Existe algum espírita que não seja Kardecista?

Não. Espírita e kardecista são sinônimos. São os que estudam, seguem e praticam no dia a dia a Doutrina dos Espíritos, organizada por Allan Kardec, que teve seu marco com o lançamento de O Livro dos Espíritos em 18 de abril de 1857, ocasião em que criou também as palavras Espírita e Espiritismo, porque Espiritualista e Espiritualismo já estavam sobrecarregados. Espiritualistas são todos os que não são materialistas. Católicos, protestantes, budistas, hindus e todos os religiosos são espiritualistas. Inclusive nós que somos espiritualistas espíritas.

03 – Qual a sua opinião sobre os chamados “espíritas progressistas”?

Como em todos os movimentos, sejam políticos, sociais ou religiosos, há os pretensiosos renovadores que pretendem saber mais do que os outros. O Espiritismo não escapa dessa regra e por isso vemos confrades querendo reformar até o Livro dos Espíritos dizendo-o superado e necessitando atualização. São como outros religiosos que conhecem de cor cada capítulo e versículo da Bíblia, mas que não confirmam esse conhecimento com a sabedoria da vivência. Na Terra, já dizia Herculano Pires, não há Mestres em Espiritismo. Somos todos aprendizes. Fiquemos com Kardec que por ora é só o que nos compete. E para entendê-lo por inteiro ainda nos falta muito.

04 – Qual a importância do estudo na casa espírita?

Na introdução de O Livro dos Espíritos Allan Kardec adverte que se são precisos muitos anos para formam médicos, advogados e engenheiros que cometem falhas, quantos anos imaginamos que devemos estudar para aprender a ciência do infinito. O Estudo do Espiritismo é tarefa para muitas encarnações, falando só do básico, e não tarefa para um ou dois dias de uma hora por semana, quando geralmente ouvimos a palestra sem a devida atenção. Centro espírita onde não se estuda é mero clube que reúne simpatizantes do Espiritismo. Só o estudo nos conduz à Verdade que liberta.

05 – Quais atividades não podem faltar no centro espírita?

A primeira e fundamental é o estudo regular da doutrina dos espíritos. Ela pode ser complementada com o atendimento fraterno, que ouve as pessoas para orientá-las como superar suas dores, a aplicação de passes, como recurso para melhorar sua energia e, quando possível, reuniões mediúnicas para desobsessão ou voltadas para a espiritualidade deixando a cargo dos espíritos o convite às entidades que devam ser trazidas para doutrinação e esclarecimento.

06 – O que significa educar a mediunidade?

Quando a pessoa sente desconforto psíquico, deve procurar um tratamento num Centro, imaginando que se trate de alguma perturbação espiritual. Caso o problema persista, é possível que a pessoa tenha tarefas no campo mediúnico por compromissos assumidos antes de encarnar e essa mediunidade precisa ser disciplinada com a participação em um grupo sério onde haja uma equipe capacitada a orientá-la. Isso demandará entrega total, disciplina com o compromisso assumido porque vai participar de um trabalho que envolve a espiritualidade que fará programações com base na sua participação responsável. Só assuma se estiver disposta.

07 – Todo aquele que crê na reencarnação pode considerar-se espírita?

Não. Até o ano 500 todas as pessoas religiosas eram reencarnacionistas. Espera-se que muito em breve também católicos e protestantes voltem a sê-lo, mesmo sem abandonar a sua religião. Convém mencionar que a grande maioria, mesmo sem ser declaradamente espírita, crê na continuidade da alma e em outras vidas. Mas não basta crer na reencarnação para ser espírita. “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelo esforço que emprega para combater suas más inclinações.” Por isso Kardec não prometeu a salvação pelo Espiritismo, mas pela caridade, independentemente de religião.

08 – Ir ao centro espírita é garantia de que dias melhores virão?

Não. Sem que isso seja acompanhado da modificação moral e de conduta, não adianta ir a qualquer tipo de igreja. O que nos modifica não é o lugar; são as ações. O Centro espírita é onde ouvimos o Evangelho de Jesus de maneira mais objetiva para aplicá-lo em nossa vida. Mas sem vivenciá-lo o lugar de nada serve. Isso vale para qualquer religião.

09 – O que a doutrina espírita fala sobre a mediunidade de cura?

Convém entender que é o homem quem se cura como é ele também quem se adoece, pelos desequilíbrios. A alma enferma adoece o corpo. Há horas que estamos enfraquecidos e podemos receber da espiritualidade ajuda fluídica para fortalecer-nos temporariamente. O conhecido passe e as vibrações. Mas a cura verdadeira é tarefa nossa, mesmo porque o que importa é a cura espiritual e não apenas a do corpo e isso leva em conta resgates e merecimentos. Para o corpo Deus criou os médicos e os remédios, a par das tecnologias, a cada dia mais avançadas.

10 – Como o espiritismo pode conviver com outras religiões?

Com harmonia e respeito. E as outras religiões, se não tiverem preconceitos, poderão se beneficiar do conhecimento espírita, incorporando-os à sua doutrina para complementá-la e aprimorá-la, sem precisar mudar de igreja. Conheça. Se não concordar, descarte e siga em frente. Se a lição fizer sentido incorpore-a ao seu conhecimento e viva-a. Fiquem com Deus.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – agosto de 2019

Espíritas mais ou menos

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RIE_07_2019

Caminhos que levam o homem ao Espiritismo

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

São múltiplos os motivos que impulsionam o ser humano a buscar a nossa doutrina. Alguns deles: curiosidade, sofrimento, vazio existencial, respostas para dúvidas, confusão mental com perturbação espiritual etc.

Somos um país de tradição católica, com crescimento do protestantismo. São as religiões predominantes nestes dias, mas não podem ser consideradas oficiais, até mesmo por regimento constitucional. Há adeptos de todas as doutrinas, como as afro-brasileiras e as orientais de diversos segmentos (budismo, xintoísmo, hinduísmo, judaísmo, messiânica, Seicho-No-Ie, islamismo, umbanda, candomblé etc.).

A clareza singular do Espiritismo, contudo, sempre provoca curiosidade nos que buscam respostas e soluções para seus questionamentos e problemas. Uma prova disso é que a mídia não perde oportunidades de explorar o tema. Procura não se envolver ou tomar partido, mas enche seus espaços com notícias, filmes, debates etc., confiante na audiência e no interesse popular.

Os desinformados imaginam que depois de serem religiosos mornos em suas crenças, obterão soluções imediatas para seus problemas indo a um centro espírita, ignorando que a salvação e o milagre não moram ali. O que poderão encontrar numa instituição séria, onde se estuda o Evangelho do Cristo segundo a interpretação dos Espíritos e do próprio Codificador, Allan Kardec, são orientações seguras para aprenderem a administrar suas vidas. Nada mais precioso para o ser humano que a oportunidade de nova existência na Terra para reaprender o que ficou mal resolvido em seu passado espiritual. E quem não acredita em reencarnação terá de acreditar, porque senão continuará sem entender nada. Com a crença da vida única nada pode ser explicado. Tudo é injustiça.

Sabemos que há pessoas encantadas com suas religiões e que não admitem a ideia de mudar para outra. Creem que sua igreja detém toda a verdade, apesar de isso não se refletir em suas vidas, porque seus problemas perduram sem solução. Temem ser castigados por Deus como desertores. Pois que continuem nas suas missas ou nos seus cultos, sem ficar impedidos de se esclarecerem.

Quando Kardec lançou O Evangelho Segundo o Espiritismo, em 1864, os Espíritos lhe disseram que chegara o momento de apresentar o Espiritismo como a única doutrina genuinamente humana e divina. Seria a religião que assessoraria todas as outras que se dispusessem a estudá-la sem preconceitos ou más intenções.

Fica claro, portanto, que nada impede que um católico estude O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Céu e o Inferno, A Gênese, O que é o Espiritismo etc., quando não entende por que os humanos têm sortes tão diferentes, apesar de filhos do mesmo Deus misericordioso, se vão viver uma única vida. Irá surpreender-se com a lógica e a clareza do trabalho de Kardec quando conversou com os mentores da Espiritualidade Superior. E depois de estudar, de preferência com um grupo no centro espírita, onde pode aclarar suas dúvidas, vá para a sua missa, o seu culto, ore bastante, faça promessas, cante e dance, enquanto necessitar dessas práticas. Verá que quando começar a perdoar, praticar caridade, além da esmola e do dízimo, tudo começa a transformar-se. Verá a importância de ser solidário e indulgente e os rituais perderão importância.

Convém recordar o texto que segue, intitulado “Uma homenagem — profética — a Allan Kardec” e incluído em nosso livro Pontos de Vista, da Casa Editora O Clarim:

***

O Courrier de Paris de 11 de junho de 1857, poucos dias após o lançamento da primeira edição de O Livro dos Espíritos, divulga matéria sobre o fato.

O jornal informa que havia sido publicada obra deveras notável, até mesmo curiosa, se não houvesse nela coisas interessantes que não poderiam ser consideradas banais: “O Livro dos Espíritos, escreve, é página nova no próprio grande livro do infinito e, estamos persuadidos, uma marca será posta nessa página.”

Declara o editor, Sr. Du Chalard, que não conhece o autor, mas que alguém que escreveu tal prefácio deve ter a alma aberta a todos os sentimentos nobres. Afirma, ainda, que jamais fez qualquer estudo sobre fenômenos sobrenaturais, embora, vez que outra, se perguntasse o que haveria nas regiões onde se convencionou chamar “O Alto”.

O jornalista, impressionado com a obra, não tem dúvida em recomendá-la. “A todos os deserdados da Terra, a todos quantos marcham e que nas suas quedas regam com lágrimas o pó das estradas, diremos: — Lede O Livro dos Espíritos; ele vos tornará mais fortes. Também aos felizes, que pelos caminhos só encontram aclamações e os sorrisos da fortuna, diremos: — Estudai O Livro dos Espíritos e ele vos tornará melhores.”

Menciona que o trabalho é da autoria dos Espíritos, fala das sublimes respostas, mas enaltece as perguntas que as provocaram. Desafia os mais incrédulos a rirem quando lerem o livro em silêncio e solidão.

Após o comentário, propõe: “O senhor é homem de estudo e têm aquela boa-fé que apenas necessita instruir-se? Então leia o Livro Primeiro, que fala sobre a Doutrina Espírita. É dos que se ocupam apenas consigo mesmo e nada enxergam além dos próprios interesses? Leia as Leis Morais. Todos os que têm pensamentos nobres de coração, leiam o livro da primeira à última página. Aos que encontrarem matéria para zombaria, o nosso lamento.”

No título, dissemos tratar-se de uma homenagem profética. Naquele instante, o jornalista vislumbrou a estrada de luz que se abria com as revelações e só alguém igualmente com grande sensibilidade poderia perceber a conotação divina que o livro apresentava. Entre os espíritas, mesmo já tendo convivido com tais notícias há mais de cento e sessenta anos, há poucos com as convicções do editor francês que, de pronto, percebeu a chegada do Consolador.

***

Se você deixar e quiser, o Espiritismo pode fazer muito por você. E se um dia despertar para a lógica do pensamento espírita, abrace a doutrina por inteiro, trabalhe com ela e por ela. Lembre-se que nela tudo se faz de graça. Nenhum centavo lhe será cobrado pela participação nos estudos e tarefas. Como nas escolas tradicionais, depois de estudar o básico precisamos do ensino superior e das pós-graduações! Aproveite. Não se sabe quando terá nova oportunidade. Boa sorte!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – julho 2019

Combatendo o desalento

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Que tempos são esses que, embora aparentemente chegados, parece que nunca chegam?

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

 

Apesar de ter descoberto o Espiritismo somente aos trinta e oito anos de idade, já tenho quase quarenta e sete anos de contato com esta fantástica doutrina.

A frase dita por um divulgador protestante — o chamado crente no meu tempo de jovem, lá por 1952 —, “os tempos são chegados”, ainda hoje ecoa em meus ouvidos, embora naquele tempo eu não tivesse a menor ideia a que tempos se referia aquele entusiasmado pregador de rua, rodeado por uma dúzia de atentos ouvintes. Hoje, sessenta e sete anos depois, ouvindo os Veneráveis Espíritos informarem sobre a transição planetária, começo a entender um pouco que tempos são esses que, embora aparentemente chegados, parece que nunca chegam. É porque o tempo do homem e o tempo de Deus são diferentes.

Meu primeiro centro espírita foi o Amor e Paz, na Alameda dos Arapanés, 707, no bairro de Moema, São Paulo. Depois dele fiz meus primeiros cursos de Doutrina Espírita na Federação Espírita do Estado de São Paulo e num grupo ligado à Aliança Espírita Evangélica, o Grupo Socorrista Maria de Nazaré, quando comecei a proferir palestras e a ministrar aulas em vários centros, com base nas apostilas da Aliança. Buscava transmitir as verdades do Evangelho de Jesus, agora com a cobertura de Kardec, que nos deu explicações claras das lições do Mestre para maior facilidade de entendimento.

De explanações técnicas, leis de causa e efeito e que tais, fui aos poucos percebendo que tudo pode ser sintetizado na máxima do Cristo: “Ama o próximo com a ti mesmo.” A partir desse instante, constatei como é praticamente impossível a este homem planetário amar o próximo, já que não consegue sequer amar a si mesmo. Cada um de nós, componentes desta humanidade fracassada, é intimamente um vulcão revolto, que não consegue acalmar-se. Vomita iras e ódios, cada expressão é um impropério, com revolta até contra o próprio Criador, que nos ofereceu a vida para sermos felizes. Mas, como não sabemos lidar com o nosso passado nem com o presente para plantar melhor futuro, somos um bando desarvorado vagando ao léu da indecisão. Ninguém se ama. É comum não gostarmos do próprio nome. O gordo queria ser magro e o magro queria ser gordo.

Pulamos daqui para lá e de lá para cá porque nada nos agrada. Nem a família, nem o emprego, nem a religião. Quando não invejamos a vida do outro, o agredimos, transformando-o no culpado por nossos desajustes. Seja ele o político, o patrão, o professor, o vizinho ou o marginal, porque temos de eleger alguém que leve a culpa pelos fracassos que são só nossos.

Neste ciclo planetário de mudanças radicais, os tempos efetivamente mudam, mas não em anos ou décadas. As mudanças da história são registradas em séculos ou milênios, no mínimo.

E nós, como ficamos? Como seres eternos estamos sendo esculpidos pelo buril da natureza. Atritamo-nos, ferimo-nos e à medida que aprendemos sobre paciência, resignação e fé vamos ficando mais leves. Aprendemos que as mágoas da revolta moram em nós e que o perdão nos alivia, mesmo que o outro não o aceite. Nossa tarefa somos nós; o outro é mero recurso que usamos para o nosso aprimoramento. Para isso, porém, temos de vencer o orgulho. Mas, melhorar por quê? Porque é esta a tarefa primordial da vida em mundos probatórios como o nosso.

Não há saída. Queiramos ou não, a Lei é que decide, não nós. Somos comandados pela natureza que habita em nós. Enfraquecemos, envelhecemos e no curto período que por aqui estagiamos — porque também temos prazo de validade na matéria — temos de conviver com ela de maneira pacífica e harmoniosa. Lutar contra é tempo perdido. Seremos sempre derrotados. Melhor nos aliarmos a ela. A lei que nos harmoniza é a do amor. Com tudo e todos, intensa e incondicionalmente.

Antes que o desalento me dominasse totalmente, decidi confessar-me com o Pai Eterno e dizer-Lhe: — Senhor da Vida, sei que a tudo assistes e tudo permites para testar nossa força e nossa fé, e que estás preparando o nosso lugar ao Teu lado caso vençamos esta guerra contra nós mesmos. Confio na Tua bondade e é por isso que prossigo com coragem e destemor. Tem misericórdia de nós, pobres equivocados. Não permitas que invalidemos o esforço de tantos missionários, que vieram antes de nós preparar-nos o roteiro com lições que muitas vezes lhes custaram a vida. Foram tantos a testemunhar, que não é honesto de nossa parte desperdiçar o sacrifício desses desprendidos que nada queriam para si. Foram enviados divinos que renunciaram às suas vidas para ofertá-las a nós. Não cometamos tão severa ingratidão! Que eu jamais sinta desalento por mais pedregoso que seja a caminho. Amém!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho 2019

Citações para pensar

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RIE_Maio_2019A vivência dentro dos preceitos ditados pelo Evangelho suaviza nossas dores

Octávio Caumo Serrano | caumo@caumo.com

Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti.” Tal citação é atribuída a Santo Agostinho. Ele também teria ensinado que “ninguém pode ser perfeitamente livre até que todos o sejam” e “convém matar o erro, porém salvar os que vão errados”.

Já ouvimos este mesmo princípio, formulado um pouco diferente, sem que saibamos citar o autor. Mas como a essência da lição é mais importante do que o criador da frase, atrevemo-nos a reproduzi-la: “Deus, que te criou sem o teu conhecimento, não poderá salvar-te sem a tua cooperação.” Deixa claro, e o bom senso a confirma, que somos responsáveis por tudo o que acontece no mundo, particularmente o que envolve nosso próprio futuro. Interferimos, para o bem ou para o mal, conforme agimos e nos comportamos diante da vida, em qualquer local onde atuemos.

Esta afirmação às vezes choca os religiosos, que garantem que como Deus sabe o que é melhor para nós, irá tratar-nos com Seu imensurável amor e só nos brindará com a felicidade. Mas se isso é real, por que nos criou simples e sem nenhum conhecimento, permitindo que nos aprimorássemos por nossos próprios méritos? Por que não nos criou perfeitos, sem a necessidade de encarnações, a maioria probatórias, cheias de dores e sofrimentos?

Jesus, segundo o Evangelho de Lucas (16:2), nos disse: “Dá conta da tua administração.” Mas, se independentemente do nosso esforço, Deus nos dá de tudo, por que o Mestre assim o afirmou?

No capítulo 75 do livro Fonte Viva, Emmanuel, o nobre senador romano, pela psicografia de Chico Xavier nos diz: “Na essência, cada homem é servidor pelo trabalho que realiza na obra do Supremo Pai, e, simultaneamente, é administrador, porquanto cada criatura humana detém possibilidades enormes no plano em que moureja. Mordomo do mundo não é somente aquele que encanece os cabelos à frente dos interesses coletivos, nas empresas públicas ou particulares, combatendo intrigas mil, a fim de cumprir a missão a que se dedica. Cada inteligência da Terra dará conta dos recursos que lhe foram confiados. A fortuna e a autoridade não são valores únicos de que devemos dar conta hoje e amanhã; o corpo é um templo sagrado. A saúde física é um tesouro. A oportunidade de trabalhar é uma bênção. A possibilidade de servir é um obséquio divino. O ensejo de aprender é uma porta libertadora. O tempo é um patrimônio inestimável. O lar é uma dádiva do Céu. O amigo é um benfeitor. A experiência benéfica é uma grande conquista. A ocasião de viver em harmonia com o Senhor, com os semelhantes e com a Natureza é uma glória comum a todos. A hora de ajudar os menos favorecidos de recursos ou entendimento é valiosa. O chão para semear, a ignorância para ser instruída e a dor para ser consolada são apelos que o Céu envia sem palavras, ao mundo inteiro. Que fazes, portanto, dos talentos preciosos que repousam em teu coração, em tuas mãos e no teu caminho? Vela por tua própria tarefa no bem, diante do Eterno, porque chegará o momento em que o Poder Divino te pedirá: — ‘Dá conta de tua administração.’”

Mais do que exploradores ou dependentes de Jesus somos seus auxiliares na melhora do mundo. Quando se trata de vestir, alimentar ou abrigar um semelhante, somos seus ajudantes, suavizando as dores físicas do outro. Ainda que ele mesmo ore e seja resignado, nem sempre tem condições de sobreviver por conta própria, cabendo a nós esta parte, quando também nos beneficiamos do bem que fizemos, justificando a importância da nova encarnação que rogamos ao Pai, a fim de crescermos mais um centímetro espiritual. “Fora da caridade não há salvação”, ensina o Espiritismo.

A vivência dentro dos preceitos ditados pelo Evangelho suaviza nossas dores, porque onde mais o homem se perde é na defesa de si mesmo. Muitos há que têm caridade com o semelhante, mas guardam mágoa, rancores, ódios e desejos de vingança nos labirintos da alma. Insaciáveis, envenenam-se lentamente pondo a culpa no mundo, nos pais, no cônjuge, no patrão, no governo, quando não se rebelam contra o próprio Criador, sentindo-se injustiçados e punidos por um mal que acreditam não ter cometido. Por isso o estudo do Espiritismo, a certeza da vida eterna e a necessidade de muitas encarnações purificadoras são tão importantes. Se não merecemos as dores pelo que fazemos nesta vida, certamente trazemos arquivados na nossa essência erros de outras passagens pelos mundos materiais. E ainda ignoramos que as dores são atenuadas pela misericórdia divina, se as comparássemos às necessidades reais de resgate pelas quais deveríamos passar. Antes de reclamar, vamos analisar como vivemos e, de coração aberto e sincero, vejamos se estamos dando conta da nossa administração.

A você, mãe do mundo, carinhoso beijo deste filho que já teve muitas mães nestas múltiplas passagens de redenção e aprendizado pelo Terra ou mundos similares, ora dando a elas alegrias, ora enchendo seus olhos de pranto. Desculpas e saudades!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Maio 2019

Ama o próximo como a ti mesmo

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Amai os vossos inimigos” — Mateus (5:44)

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

A humanidade recebeu um presente do Céu quando Allan Kardec, após muitas recusas, decidiu organizar o Espiritismo, a ponto de ser batizado por Camille Flammarion de “o bom senso encarnado”. Certamente que tudo estava programado para convencer o sábio a aceitar a tarefa, mas o livre-arbítrio e o desejo de sucesso entre os homens da Terra poderiam levá-lo a optar por seu colégio, a sua principal aspiração desde que retornou da Escola de Pestalozzi, em Yverdon, na Suíça. Mas a razão prevaleceu e ele optou por aceitar o difícil encargo junto aos Espíritos, apesar dos prejuízos materiais que teve pelos preconceitos e interesses dos equivocados seres humanos de sua época, que seguem sendo os mesmos em todas as épocas.

Após lançar O Livro do Espíritos em 1857 e O Livro dos Médiuns em 1861, decidiu escrever um livro que viria a público em 29 de abril de 1864 com o título Imitação do Evangelho Segundo o Espiritismo. Renomeado a partir da terceira edição de O Evangelho Segundo o Espiritismo, deu cunho religioso à nossa doutrina, já que o Espiritismo foi definido pelos Espíritos como a única instituição genuinamente humana e divina, conforme se lê na introdução de muitas edições.

É neste livro que Kardec realça os principais objetivos da nova doutrina, deixando claro que ela nenhum conhecimento sonegará aos seus praticantes. Nela a fé é raciocinada e não dogmática. Ao elaborá-lo, o Codificador teve o cuidado de colocar excelente prefácio do seu mentor, o Espírito de Verdade (segundo muitos espíritas o próprio Jesus dando orientações), explicar os objetivos da obra e colocar nos seus vinte e oito capítulos apenas a parte moral dos ensinamentos do Cristo.

Logo após a introdução, fala da universalidade das comunicações para mostrar que não é doutrina de uma só pessoa, como o judaísmo, o islamismo, o budismo e o próprio cristianismo, mas o ensinamento dos Espíritos de expressiva superioridade, que habitaram nas mais diferentes raças e religiões e se manifestaram ao mesmo tempo entre doutores e analfabetos, religiosos e ateus, em países de diferentes crenças e costumes. Em nenhum momento diz que devemos rezar de pé ou sentados, no claro ou no escuro, às sextas, sábados ou domingos, diante de imagens ou com uniformes para os diferentes rituais.

Mostra o Evangelho de Jesus com clareza e explica os termos da época usados nas parábolas (fariseus, saduceus, samaritanos, escribas etc.) para que possam ser interpretadas corretamente, porque no Espiritismo não há mistérios nem evangelhos velados, como os que só existem nos missais da Igreja, como o Evangelho de Tobias, entre outros. No Espiritismo tudo é público e explicado a todos com clareza. Não enfeita templos com ouro, nem usa falso silêncio e adoração com segundas intenções, quando louvam o Senhor, exploram o Senhor, mas não seguem o Senhor. Não amam o próximo como ele proclamou, embora façam romarias, procissões, oferendas e promessas.

O Espiritismo enfatiza que a reforma moral é o grande tesouro para ser levado ao céu no encerramento da jornada terrena. Por isso ele atende eruditos e ignorantes, desde que ambos abram o coração para as suas revelações. Tem como lema “fora da caridade não há salvação”, pertença o fiel a qualquer crença.

Graças ao Espiritismo, também, sabemos que os familiares desta vida foram provavelmente desafetos de passadas encarnações. Graças à misericórdia do esquecimento ignoramos os males que reciprocamente nos fizemos. Isto significa que na família de hoje podemos estar reunidos com inimigos de um passado imediato ou remoto, mas que vamos depender da harmonização nesta encarnação para quitar falhas antigas. Amar os inimigos não é ter paciência e perdoar o antagonista de outros relacionamentos sociais ou comerciais. O inimigo a que Jesus se referiu pode ser perfeitamente aquela pessoa que divide a mesa, o leito e o lar conosco, e pela qual temos mais tolerância devido à consanguinidade. Desculpamos ou, pelo menos, suportamos agressões de um familiar, o que não aceitamos se parte de um estranho.

Por todos esses cuidados, O Evangelho Segundo o Espiritismo é um livro que merece toda credibilidade, porque escancara a verdade para todos os que o consultam com seriedade e desejos de mudanças para cumprir bem a tarefa que lhes foi confiada nesta vida. Por isso Kardec foi homenageado no seu sepultamento por importante cientista de sua época que assim se manifestou: “Fora Allan Kardec um homem de ciência e de certo não houvera podido prestar este primeiro serviço e dilatá-lo até muito longe, como um convite a todos os corações. Ele, porém, era o que eu denominarei simplesmente o bom senso encarnado.” (Do discurso pronunciado junto ao túmulo de Allan Kardec por Camille Flammarion.)

A eles nossos agradecimentos. 

Nota do autor: Nicolas Camille Flammarion foi astrônomo, pesquisador psíquico e divulgador científico francês. Teve importante papel na investigação e popularização da astronomia. Recebeu notórios prêmios e foi homenageado com a nomenclatura oficial de alguns corpos celestes.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo  de abril 2019

Fé e bom senso

1 Comentário

RIE 03_2019

Dizem que Cristo salva! Será? De que maneira se dá essa salvação?

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Entre as qualidades mais importantes do homem da Terra, especialmente neste momento apocalíptico, está a fé. A fé que, segundo a Doutrina dos Espíritos, é resultado do raciocínio. Podemos compará-la à lei de ação e reação. Ou semeadura e colheita, que nos faculta plantar, mas que dará como safra a consequência desse plantio. Nem podia ser diferente. Na justiça divina não existem exceções. Saibamos agradecer pela noite bem dormida e também por ter acordado. Agradeçamos também pelo dia vivido, pelas lições aprendidas e pelo bem praticado. Muitos não terminaram o dia. Ficaram pelo caminho.

Em todas as religiões nos dizem que temos de ter fé em santos, em símbolos, em Jesus ou mesmo em Deus, como se isso fosse suficiente e tudo recebêssemos, independentemente de esforço. Pelas redes sociais mandam-nos figurinhas com bênçãos para nós e família, e ainda dizem que se não interrompermos a corrente teremos boas surpresas; em minutos. Mas, indagamos, por que motivo? Que privilégio imaginamos ter nós, nossa família e nossos amigos para recebermos facilidades diante dos percalços da vida, pretendendo colher o que nunca plantamos. Receberemos benesses pelo simples envio de uma figurinha? Se fosse verdade seria bom. O mundo estaria salvo. Ah, humanidade crédula e atrasada! Jesus Cristo nos ensinou o que teríamos de fazer para que o Céu nos ajudasse. Aliás com grande misericórdia, compensando-nos a mil por um do que viéssemos a produzir. Mas não disse a mil por zero. Nunca nos prometeu que milagres cairiam do Céu sem os merecermos.

A Lei de Deus é única para todos os seres e, portanto, não nos trata individualmente. O que é certo num, é certo noutro. As penalidades diante dos erros de um são iguais àquelas que punem os erros de outros em idênticas condições de discernimento. Não depende de sexo, raça ou religião. Deus não faz acepção de pessoas e, como já advertiu Jesus, a vara que mede todos os homens é a mesma. E o critério também. O bem nos cria méritos e o mal nos atrasa. Não é Deus quem nos julga. Somos julgados por nossas próprias ações. Como não é o professor que nos reprova; é a nossa incompetência e desinteresse pelo aprendizado!

Quando oramos a Deus, por nós ou pelos nossos, imaginamos nossa prece sendo endereçada a um Ser Superior, diante de um imenso computador, com super HD e sofisticado aplicativo que nos controla e no qual cada um de nós é um arquivo próprio, seja DOC, PDF ou algo mais sofisticado que ainda desconhecemos. E a cada movimento nosso, Deus, atento, anota um item de mérito que nos enaltece ou um carma negativo a ser enfrentado ainda nesta vida ou durante nossa eternidade espiritual, em momento apropriado. O jogador diz que ganhou porque é abençoado por Deus. Imagina que Deus simpatiza com seu clube e por isso permitiu que o outro fosse derrotado. Que tolice. Venceu porque teve mais competência ou contou com falhas dos mediadores da disputa, árbitros que se equivocaram ou fraudaram o resultado. Deus não tem nada com isso.

Lembramos que certa vez, em 1965, “Dr. Fritz” Espírito quis operar Chico Xavier através do médium não espírita Zé Arigó: “Eu te ponho bom desse olho. Faço-te a cirurgia agora, disse Arigó!” Chico Xavier respondeu-lhe: “Não; isso é um reflexo do passado. Eu sei que o senhor pode consertar o meu olho. Mas como o compromisso do passado continuará, vai me aparecer outra doença. Como já estou acostumado com essa, eu a prefiro. Por que eu iria querer uma doença nova?”

Os Espíritos não estão à disposição para promover curas de doenças que não raro precisam de providências corretivas para nosso crescimento espiritual, o que se dá pela reparação moral. Por tudo isso, é urgente não abrirmos mão da precaução! Ainda que o excesso em tudo seja ruinoso, Kardec endossa nossa atitude dizendo que “vale mais pecar por excesso de prudência do que por excesso de confiança”.

Chico recebeu assistência de seu médico particular até desencarnar. Os Espíritos sérios não curam corpos; curam almas. Cada um pode se curar com suas próprias orações e atitudes, sem precisar acender vela, subir escadarias de joelhos, ir a Meca, Medina, Santiago de Compostela, Jerusalém, Vaticano, Templo de Salomão, Fátima, Lourdes, Abadiânia, Juazeiro, Canindé ou Aparecida do Norte. Nem a qualquer santuário de qualquer doutrina para deixar lá seu pacote de pecados.

Vejam o que está no texto de João, 4:23. Adorar a Deus independe de um lugar. Na conversa com a mulher da Samaria, Jesus critica a maneira como as pessoas da época faziam adoração a Deus. O importante é adorar a Deus em espírito e em verdade, e para isso não é preciso um lugar especial. É no coração de todo ser humano que Deus deve ser adorado, e não apenas em um monte ou em um prédio.

Deus habita em todas as pessoas que O recebem com alegria e fazem de seu coração o altar para Ele ficar. As pessoas que adoram o Pai em espírito e em verdade podem também usar um lugar para, juntas, fortalecer e renovar a sua fé. Mas o importante é o que está no coração de cada uma delas e não apenas o lugar. Visitemos esses belos templos como atração turística ou para orar, pedindo ou agradecendo, mas não com pagamentos ou oferendas, que nunca são para Deus.

Antes, contudo, lembrem-se: curamo-nos em casa mesmo. Ore e espere. A cura do corpo se dá pelo saneamento da alma. Faça o bem que puder e combata mágoas e ressentimentos, para ter saúde. O principal trabalho de Chico foi o alívio às almas sofridas, a maioria mães inconformadas, e não o de corpos desgastados. O próprio Jesus fez algumas curas em momentos que serviram para testemunhar o poder de Deus… Foram poucos “milagres” e muitas pregações e aconselhamentos. E mesmo nesses casos dizia: — A tua fé te curou. Vai e não peques mais.

Espiritismo não pode ser confundido com curandeirismo. Mesmo quando buscamos o centro na esperança de cura de doenças físicas, ou para aprender sobre o Evangelho à luz da Doutrina dos Espíritos, tenhamos em mente a regra básica: se houver algum tipo de pagamento, mesmo para compra de oferendas, fuja. Não é Espiritismo.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – Março 2019

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