Pais e filhos

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RIE_setembro_2017

É primavera. Cuidemos de nossos filhos; sementes, flores e frutos da nossa árvore.

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Educar filhos é uma das missões mais difíceis. Nenhuma novidade, não é?

Meu pai era um homem de um metro e sessenta que virou pedreiro depois de ser dispensado de uma indústria de tecidos em São Carlos (SP), onde foi promovido a supervisor, mas não pôde assumir o cargo por ser analfabeto.

Viveu pouco. Apenas cinquenta e quatro anos. Partiu em 1957 após diversos e longos períodos de enfermidades, especialmente com ulcerações de estômago. Mas, apesar dessas limitações, ao desencarnar deixou sua esposa em casa própria, construída às tardes, depois do expediente, após mais de dez anos de luta. Foi num terreno de oito por vinte e três metros, comprado em cem prestações, no Jabaquara, bairro de periferia em São Paulo. Deixou um filho de vinte e três anos (eu), formado em contabilidade, e meu irmão de dezesseis, já trabalhando e estudando. Mais tarde seria advogado. Ambos trabalhamos a partir dos dez anos sem nunca nos sentirmos vítimas da exploração infantil. Ajudamos com prazer no orçamento da família e nos transformamos em pessoas de bem, que sempre se agradaram pelo trabalho. E o pai nunca se revoltou por ser sem-terra.

Aparentemente, isso nada tem de anormal. Mas o que desejo destacar são as lições que ele, assessorado pela mãe, claro, nos deu. Nos dias atuais há didáticas para orientar na educação das crianças, com receitas para não traumatizá-las. No entanto, vemo-las cada vez mais sem educação. Por quê? Não é pergunta de fácil resposta. Todavia, a primeira que nos vem à mente é porque dizemos, mas não mostramos. Fraudamos, brigamos no lar, fumamos e tomamos alcoólicos, mas não queremos que nossos filhos sejam viciados, falsos ou violentos.

Gosto de fazer poemas e muitos dos que tenho são descrições de fragmentos da vida do meu pai, porque ele me deu grandes exemplos ao me permitir testemunhar suas atitudes diante das dificuldades. Não falava; mostrava por decisões. Nunca me deu uma tapa. Não porque eu fosse um anjo, mas porque o método que ele usava era o do exemplo e não o do discurso vazio ou da repressão pelo temor.

Observem esta incoerência.

Certa vez, vinha eu de Peruíbe, praia do litoral de São Paulo, para a Capital e enfrentei o congestionamento da velha Rodovia Pedro Taques. Lembrei-me de um amigo que fazia pregações em sua igreja e que decidiu furar essa fila transitando pelo acostamento. Como de hábito, o guarda o parou e a atitude natural era mandar o apressado retornar pela outra pista até chegar novamente ao fim da fila. Naquele dia, foi diferente, me contou ele. Conversou com o guarda e resolveu o problema. Prosseguiu viagem com a ajuda do policial que o encaixou na fila principal.

Seu filho de doze anos, que estava no banco traseiro, ao presenciar a cena, lhe perguntou: “Pai. Você não deu dinheiro ao guarda, deu?”. Antes que ele respondesse, o filho continuou: “Você, não, pai. Você que ensina aos outros o que é certo ou errado não podia ter dado dinheiro a ele.” Meu amigo confessou-me que nunca uma atitude sua lhe causou tanto arrependimento. Jamais voltou a ter a admiração do menino nos seus trabalhos de orientador. Caiu do pedestal onde o filho o colocara!

As atitudes do meu pai foram sempre o inverso. Certa vez faltou comida em casa porque o patrão não pagou no dia certo, mas ele tinha um dinheiro reservado para a prestação da bomba de poço. Quando eu lhe sugeri que naquele fim de semana usasse esse dinheiro, ele ficou muito bravo. No meu poema digo assim:

Nos meus dez anos de idade, com muita serenidade, falei-lhe usando critério. – Se acalme, pai, dá-se um jeito; o senhor é homem direito e Deus protege quem é sério. – Afinal, lá na gaveta, daquela cômoda preta, o senhor tem reservado o valor da prestação, da bomba do seu João; pague alguns dias atrasados…

– Esse dinheiro não é meu, bravo meu pai respondeu, inda que eu coma capim; e não me faça careta, depois que vai pra gaveta, já não mais pertence a mim!

Fiquei todo embevecido, vendo o gigante ferido! Meu olho ainda mareja… Que lição naquele dia, Deus do Céu, Virgem Maria!… Sua bênção pai, onde esteja!

Já aos sete anos, quando lhe apresentei o primeiro boletim para lhe falar das minhas notas (todas ótimas), ele olhou e me devolveu. “Muito bem, sempre que desejar me fale do seu boletim, mas não é obrigado a fazê-lo. Você estuda pra você, você não estuda pra mim. Portanto, cabe a você cuidar do seu boletim!” Digam se não é sabedoria! Teve a confiança de colocar nos ombros de uma criança a noção de responsabilidade. Nunca trai meu pai, envergonhando-o de qualquer maneira. Foi meu amigo e maior fã.

O que falta nestes dias são exemplos de conduta. Menos vícios, menos brigas, menos desleixos, menos ganância e vaidade; menos leviandades. Pregando uma coisa e vivendo o inverso. Lembram-se da conhecida passagem do telefone?

O pai explicava ao filho que era feio mentir. O aparelho toca e o menino atende. – Pai, é pra você; o tio João. – Fala que eu não estou!…

Lá se foi o belo tratado sobre a mentira levado pela enxurrada. Não temos de dizer ao filho o que queremos que ele faça. É preciso mostrar em nós o que desejamos que ele seja. Poucos fazemos isso, infelizmente… Penso que reside aí o nosso maior insucesso como educadores. A tarefa é difícil. Mas nossa culpa também é grande.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – setembro 2017

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Jesus, os Essênios e nós

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RIE_Agosto_2017

O que a história não conta ou os homens desconhecem.

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

No deserto da Judeia começaram a ser preparados os caminhos para a grande visita de Jesus de Nazaré. Vivendo no mosteiro do Qum Ran, próximo ao Mar Morto, e em outros espalhados pela Palestina, os Essênios viviam com sobriedade e fraternidade. Assistiam a todos, independentemente de crença, cor, raça ou parentesco. Tratavam qualquer um como irmão. Mais tarde, essa foi a máxima de Jesus quando nos recomendou: “Ama o próximo como a ti mesmo.” E para esclarecer o que devemos entender por próximo, explicou a Nicodemos, o doutor da lei judaica, com a parábola do Bom Samaritano. Disse que um homem seguia de Jerusalém para Jericó, descendo por uma pequena serra, cheia de salteadores, sem fazer menção quanto ao nome ou posição social do viajante. Apenas esclareceu que os religiosos (sacerdote e levita) não se preocuparam em prestar socorro ao infeliz; foi um discriminado herege da Samaria que o ajudou, deixando claro que não é o rótulo da crença que mede nosso verdadeiro valor no campo da caridade.

Entre os mistérios sobre Jesus inclui-se o desconhecimento sobre sua vida dos 13 aos 30 anos. Uns dizem que Ele saiu do país e outros que viveu entre os Essênios. Como não há registros históricos oficiais, tudo fica no campo da especulação e o que nos resta é analisar, pelo bom senso, o que poderia ser verdade.

A semelhança da vida dos Essênios com o que pregou Jesus é grande, o que nos leva a crer que, pelo menos, houve da parte de Jesus contato com eles. Gratz afirma que João Batista, “a voz que clamava do deserto aplainando os caminhos do Senhor”, era essênio. Que essa comunidade era formada por pessoas diferentes não resta dúvida. O rei da Prússia, escrevendo a Voltaire, afirma: “Jesus foi um Essênio.” Os costumes também eram semelhantes; a reunião dos Essênios nas refeições lembra a ceia final que Jesus teve com seus apóstolos.

Escritores acreditados da época, como Filon de Alexandria, falou dos Essênios: “Eles são como santos que habitam em muitas aldeias e vilas da Palestina. Unem-se por associações voluntárias mais do que por laços de família. Querem melhor praticar a virtude e o amor entre as criaturas; nas suas casas não há grito ou tumulto; quando um fala os outros ouvem respeitosamente; é um silêncio que causa grande impressão ao visitante. Moderam a cólera e sustentam a paz. O que dizem vale por um juramento porque, afirmavam, só precisa jurar quem é mentiroso.” Edmund Wilson, jornalista do periódico The New York Times, em série de reportagens sobre os documentos encontrados em 1947 no Mar Morto, escreve: “O Convento, esse prédio de pedras junto às águas amargas do Mar Morto, com seu forno, tinteiros, piscinas sacras e túmulos, é, talvez mais do que Belém e Nazaré o berço do cristianismo.”

Os princípios de vida dos Essênios eram os mesmos pregados por Jesus: amor ao próximo, vida simples e desapego aos bens materiais. Nos fins de semana estudavam as escrituras e o mais preparado explicava para os demais tudo o que não fora entendido devido à simbologia das lições. Como fazia Jesus quando se reunia com seus discípulos em Cafarnaum, na casa da sogra de Pedro, para explicar as belezas do reino dos Céus. Mas os Essênios exigiam que os instrutores fossem igualmente superiores nos costumes e nos exemplos. O poder do instrutor independe de preparação cultural. Assim, se não for capaz de ensinar exemplificando, qualquer leigo pode desempenhar as suas funções. (grifo nosso!)

Por isso, Hempel em 1951 escreveu: “Esclarecida a origem dos cristãos. O cristianismo é apenas essênio. Essênio ou cristão dá no mesmo.” Ainda agora, quando o Espiritismo está entre nós, vemos as orientações da espiritualidade superior confirmando os princípios essênios de fazer o bem sem olhar a quem. Mostrando que tudo é velho e tudo se renova com a evolução do entendimento.

Sem pretender inventar novidades, recomendamos que as pessoas leiam sobre a vida dessa comunidade que viveu afastada da opulência e dos conflitos políticos e religiosos de Jerusalém, recolhendo-se na região inóspita do deserto da Judeia junto à lendária cidade de Jericó, a mais antiga da Terra entre as que têm mais de dez mil anos. Berço do publicano regenerado, o nosso estimado Zaqueu, que assim como Madalena, a certa altura da vida, estava inconformado com a maneira como vivia; sentindo um vazio existencial, sobe num sicômoro (árvore da região) para ver Jesus que visitava a sua cidade e orientar-se com Ele sobre o que fazer para redimir-se de erros que acreditava ter cometido. É um momento raro que acontece na vida de todos nós e é preciso estar atento na hora desse chamamento. E se tivermos a sinceridade de Zaqueu não precisamos buscar o Cristo nos templos, porque ele nos visitará na nossa própria casa como fez com aquele homem, proporcionando-lhe extrema felicidade. Para que Jesus entre na nossa vida basta abrir-lhe a porta do nosso coração. Uma porta que só se abre de dentro para fora.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – agosto de 2017

É preciso nascer de novo

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RIE julho 2017

“O que é nascido da carne é carne; o que é nascido do Espírito é Espírito” – João III 1-2.

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Embora a crença da reencarnação seja aceita por quase toda a humanidade, ficando a exceção por conta dos cristãos não espíritas, os mecanismos dessa lei ainda são mal compreendidos e levam-nos a divagações.

Entre os judeus, havia nos fariseus a crença na ressurreição, a ponto de desejarem ser enterrados no cemitério do Vale do Cedrón, em Jerusalém, de onde emergiriam os primeiros que fossem para o mundo celestial no final dos tempos. Está entre os muros do Templo e o Monte das Oliveiras, onde há muitos túmulos de judeus importantes, inclusive o do profeta Zacarias. É também conhecido como o Vale do Julgamento, local onde Deus viria buscar os escolhidos.

Outros religiosos, os saduceus, acreditavam em Deus e em suas recompensas, mas apenas nesta vida. Receberiam pelo bem que fizessem aqui mesmo na Terra. Mortos, nada mais restaria. Divergências no mesmo povo que se considera o eleito por Deus.

No Brasil, um país de maioria católica, e também de adeptos de diferentes doutrinas derivadas do cristianismo, como os protestantes com seus diferentes segmentos, por exemplo, a reencarnação é tratada como fantasia. Mesmo os médicos que cuidam das almas, analistas e terapeutas em geral, atribuem tudo aos registros do inconsciente. Usam palavras difíceis para explicar o que não entendem nem estão convencidos, porque ficam acanhados de admitir o próprio desconhecimento no assunto. Afirmam que se alguém executa um instrumento ou fala uma língua estrangeira é porque ouviu nalgum dia, nalgum lugar, alguém tocar a música ou falar o idioma. Foi na convivência com alguém, uma babá ou qualquer situação, por mais fortuita que pareça, que a criança registrou o fato que aflora em determinado momento. Mas não explicam como alguém pode falar línguas mortas há milênios e nem de quem as teria ouvido.

As redes sociais mostram hoje crianças com menos de seis anos que são verdadeiros virtuoses da música, da pintura e outras artes. Crianças que falam meia dúzia de idiomas sem nunca ter estudado ou convivido com pessoas de tais línguas. Tentar negar não é inteligente. É melhor pesquisar; é menos arriscado. Se não tiver explicação melhor dizer não sei. Afinal, ninguém sabe tudo. Pior; o que sabemos é tão pouco que é quase nada.

Falam dos complexos de Édipo e Electra, mas não explicam as causas. Complexo de Édipo é um dos conceitos fundamentais de Freud, na psicanálise. Este conceito refere-se a uma fase no desenvolvimento infantil em que existe uma “disputa” entre a criança do sexo masculino e o genitor (figura masculina parental) pelo amor da genitora (figura feminina parental). Complexo de Electra foi estudado pelo psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung, em referência ao mito grego de Electra. Esta é uma fase do desenvolvimento psicossexual das crianças do sexo feminino, de acordo com a psicanálise. Consiste na etapa em que a filha passa a se sentir atraída pelo pai, disputando com a mãe a atenção deste homem. Qual a razão? Acontece com todas as meninas, sem exceção? Certo que não.

O Espiritismo explica que muitos problemas de casamentos do passado, com a interferência de amantes que destroem lares, provocam necessidades de resgates e os faltosos voltam como pais e filhos para exercitar um amor sublimado, maior que o amor carnal dos tempos que se foram. Mas isso ocorre sem que seja regra absoluta. Há pais e filhos que nenhum comprometimento têm nesse sentido.

Por mais que as religiões e os cientistas neguem, mais de oitenta por cento das pessoas, por curiosidade e bom senso, têm dúvidas sobre se já viveram antes e se viverão depois. Não pretendem aceitar a reencarnação, mas a razão quase que as obriga. As pesquisas cada vez mais afirmam que sim e estamos atualmente, segundo entrevistados da psicóloga norte-americana Helen Wambach, no momento das grandes revelações para a humanidade. Já descobriram até que o coração têm neurônios e, portanto, pensa; assim como a mente tem sentimento. Os novos conhecimentos não param por aí e se aceleram a cada dia, provando-nos que sabemos pouco ou quase nada a respeito de nós mesmos. Temos tudo a aprender sobre de onde viemos e o que nos espera.

As igrejas preferem negar e vender indulgências, curas, riqueza, conforto e alegam que precisar nascer de novo refere-se a uma renovação de conceitos que deve operar-se em cada um, como quando Jesus Cristo disse a Saulo que ele deveria matar o homem velho que havia nele para deixar nascer o homem novo. Sem dúvida, é também importante renascimento, mas não foi desse nascer novamente que Jesus falou a Nicodemos.

O próprio Jesus ao dizer que João Batista era Elias que havia voltado e a humanidade não percebeu, deixa claro que falava da reencarnação. Os ensinamentos de Jesus são simples e claros, mas como a simplicidade não permite mistérios e divagações, as igrejas colocam nisso uma pitada de misticismo para ter poder espiritual sobre o povo. Quando soubermos que os templos são secundários e não precisamos frequentá-los para fazer o bem, para chegar a Deus e construir nosso céu, ficaremos menos atrelados a essas fantasias. Jesus está ao nosso lado permanentemente com seu Evangelho. Os grupos religiosos só valem pelo que nos ensinam das Leis Divinas fortalecendo a nossa fé e não por supostas vantagens que possam oferecer mesmo sem que tenhamos merecimento. Milagres sem mérito seriam injustiças. E Deus não comete injustiças.

Salve o Espiritismo: “Fora da caridade não há salvação”. Damos de graça o que de graça recebemos. Que Deus nos ajude para não perdermos jamais esse foco e esse rumo.

RIE-Revista Internacional de Espiritismo – julho 2017

Jesus e o Espiritismo

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Rie_06_2017

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Que utilidade têm as orientações dos Espíritos?

“Uma vez que Jesus ensinou as verdadeiras Leis de Deus, qual a utilidade dos ensinamentos dados pelos Espíritos? Eles têm algo a mais a ensinar-nos?” Isto foi perguntado na questão 627 de O Livro dos Espíritos.

Considerando-se que o Espiritismo é o cristianismo redivivo, o que significa ressuscitado ou remoçado, fica claro que as lições de Jesus foram adulteradas ao longo do tempo, a ponto de o maior mandamento – “ama Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo” – ter praticamente desaparecido do seio da humanidade, especialmente onde deveria estar mais preservado que é no meio religioso.

Com sua conhecida educação e prudência, Kardec diz que os espíritos deviam esclarecer-nos por que Jesus falava por alegorias. Não quis dizer que o mercantilismo das doutrinas separa os homens porque cada uma enfatiza que apenas os seguidores da sua igreja terão a salvação. A intenção é afastar a concorrência. Quem não aceita Jesus na versão deles não ganha o Céu. E essa salvação passa pelas doações que criam privilégios segundo a generosidade das ofertas. Melhoram até o faturamento das empresas dos que mais colaboram.

A Doutrina Espírita, que Kardec catalogou no capítulo I de O Evangelho Segundo o Espiritismo como a terceira revelação, vem no momento certo em que o Evangelho de Jesus nada mais tem do original divulgado pelo Cristo. Os crentes se separaram indo cada um para um lado e é por isso que hoje há uma inflação de seitas que nascem a cada dia, com nomes esdrúxulos até, porque as tendinhas passaram a ser um comércio lucrativo. Amor ao próximo? Não dá lucro; melhor amor-próprio ou amor a si próprio.

A Doutrina ditada pelos espíritos nos quatro cantos da Terra e organizada pelo professor francês Rivail, posteriormente conhecido como Allan Kardec, traz de novo a pureza do cristianismo nascente dos tempos de Pedro, Paulo, João, Thiago, Madalena e demais seguidores dos primeiros séculos. Ela descarta os rituais, os paramentos, os altares e enfeites dourados dos templos e forma núcleos semelhantes à Casa do Caminho, ornamentados de singeleza. A beleza está no serviço prestado gratuitamente, acolhendo pessoas de todas as doutrinas que desejam esclarecer-se na pureza do Evangelho e não na sociedade religiosa elitizada, onde encontramos templos que selecionam seus frequentadores pela posição social que ocupam na comunidade. Colunáveis da Terra!

A desculpa que mais se ouve na explanação do Evangelho é que a alegoria das lições de Jesus, quando se servia de parábolas, dificulta o entendimento das orientações do Cristo. Todavia, quando ele recomendou que amássemos o próximo como amamos a nós mesmos ou que fizéssemos ao outro exatamente o que gostaríamos que o outro nos fizesse, não o fez de forma alegórica, mas clara e direta. E é exatamente aí onde mais nos afastamos do cristianismo. Quem não for da nossa igreja é nosso inimigo.

Observemos que mesmo nas parábolas interpretativas há enunciados que não deixam dúvidas. A do bom samaritano, por exemplo, fala da indiferença do sacerdote e do levita, religiosos da elite judaica, e do socorro prestado pelo herege samaritano que apenas via naquele homem – que não conhecia nem sabia seu nome – o seu próximo. Ele disse que um homem descia de Jerusalém para Jericó; não um rei, um judeu, um rico; simplesmente um homem.

A vinda do Espiritismo como revelação posterior a Moisés e Jesus obedece a uma sequência lógica, pois se Jesus completou, ratificou, mas também corrigiu orientações de Moisés, porque eram de um tempo ido, assim o Espiritismo veio restaurar as lições originais pregadas por Jesus e adulteradas ao longo dos séculos. Repetindo: não por falta de entendimento, mas propositadamente para tirar proveito da confusão que as próprias doutrinas estabeleceram. Tudo é para a casa de Deus. Carros, casas, cheques, dinheiro, cartões de crédito. Certamente depositados no Banco da Divindade.

O Espiritismo fala numa linguagem sem rodeios, direta e que cabe na razão das pessoas menos cultas da mesma forma como pode ser entendida pelos doutores. Podemos alegar que não acreditamos ou não estamos dispostos ao rigor da reforma íntima. Mas jamais que não entendemos. Emmanuel, no livro O Consolador, pergunta 210, diz que o Espiritismo não precisa dos intelectuais da Terra, mas que eles é que devem encontrar suporte no Espiritismo para mais bem executar o seu progresso. Assim como fez Jesus que convocou seu apostolado entre homens simples; pescadores, publicanos etc.. Não buscou os doutores do Templo de Jerusalém, porque eles nada entendiam do reino que estava sendo anunciado. A conversa com Nicodemos é uma comprovação.

Há uma prece, a Oração da Sabedoria, que diz: “Dá-me, Senhor, inteligência para entender, não as coisas difíceis e fáceis de ser compreendidas, mas as coisas mais simples e tão difíceis de ser entendidas!” Por isso quando perguntaram a Emmanuel o que era a Bíblia, ele responde: “A Bíblia é o amor…”. E replicaram: “Mas por que ela é tão grande?” E o guia do Chico respondeu: “Para explicar o amor! Do amor, nem defini-lo sabemos.”

Esperamos ter deixado claro que os espíritos tinham de vir para restaurar o que os homens destruíram. Com o Espiritismo só é enganado quem quer ou é um crédulo imprevidente buscando levar vantagem.

  • RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho de 2017

Amigos de sangue e parentes do coração

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Octavio Caumo Serrano | caumo@caumo.com

Devemos ter dois tipos de amigos: os que nos ensinam ou nos socorrem e os que aprendem conosco ou aceitam nossa ajuda.

A vida é breve para perdermos tempo. Não somos domadores para exigir do outro, à força, o que ele não deseja fazer, aceitar ou aprender. Da mesma forma que somos como desejamos, respeitemos o livre-arbítrio das pessoas, deixando-as ser como preferem. Ninguém pode obrigar o outro a ser seu amigo, amá-lo ou a concordar com seus pontos de vista, a menos que se conscientize que a mudança lhe será benéfica. Se ainda não entendeu, vamos entregá-lo ao tempo que é um professor convincente. A natureza, a dor e o futuro mostram o que nem sempre conseguimos.

Para melhor entendimento consultemos O Livro dos Espíritos nas questões relativas aos anjos guardiães, perguntas 489 a 521, com destaque para a ampla questão 495, de autoria dos lúcidos São Luiz e Santo Agostinho, ambos de ativa participação nos trabalhos da Codificação do Espiritismo. Temos nela receita segura de qual deva ser nosso comportamento diante de alguém rebelde, que se recusa a ser ajudado.

Isso vale para um estranho, um parente e mesmo um filho, após atingir a idade adulta. Enquanto é pequeno e não tem capacidade suficiente para decidir sobre seu futuro cabe a nós encaminhá-lo, orientá-lo e incentivá-lo. Mas uma vez adulto, devemos dar-lhe o direito ao livre-arbítrio para que faça como melhor lhe pareça. Assim como o anjo da guarda, nunca deixemos de ser um ombro à disposição, tenhamos sempre o tempo que ele precisa para desabafar ou pedir ajuda, mas agora a situação se inverte. Ele vem buscar orientação e socorro quando julgar necessário e não quando nós imaginamos que ele precisa. Enquanto o sofrimento não faz a sua parte, nossos argumentos serão inconsistentes. É preciso que ele se conscientize das suas limitações e da importância da ajuda que podemos lhe dar. Caso se julgue autossuficiente, deixemos que decida por si mesmo. E se for mesmo independente como pensa, devemos comemorar. Antes de ser nosso filho, é filho de Deus; um irmão que caminha conosco nos meandros do mundo material. Um espírito individual com seus próprios direitos e deveres; plantando e colhendo como todos nós. Se ele tiver êxito ficaremos felizes. Se fracassar, terá de recomeçar as experiências todas novamente. É da Lei!

Nem sempre gozamos do respeito de nossos filhos e somos para eles competentes orientadores. É comum que queiram para si uma vida que nada tem de parecida com a nossa ou com a que lhe propusemos seguir na sua caminhada. Não é anormal que nos considerem retrógrados, atrasados e sem nenhuma inspiração ou originalidade para acrescentar-lhes algum progresso. Não somos um bom exemplo, segundo a visão dele. Paramos no tempo ou estamos na idade da pedra. Não adianta dar murro em ponta de faca. Vamos nos ferir, sem nenhuma utilidade. Como Jesus já prometeu que nenhuma ovelha do rebanho se perderá, andando mais devagar ou mais depressa, eles também chegarão ao ponto mais alto da perfeição possível aos humanos. Uns demorarão mais outros menos, mas ninguém será abandonado. Todos têm, sem exceção, um anjo protetor a inspirar-lhes no caminho do bem. Uns ouvem melhor, outros são meio surdos, mas todos chegarão ao seu apogeu.

Sabemos como isso entristece os pais, principalmente quando se sentem impotentes para guiar sua prole e ajudá-la a encontrar o bom caminho. Mas desde que fizemos o melhor que sabíamos ou podíamos, renunciando muitas vezes ao nosso próprio conforto para ajudar os filhos, Deus reconhecerá nossos esforços e nos premiará, mesmo que não sejamos bem sucedidos, pois não dependeu de nós. Não houve negligência, mas apenas impotência ou mesmo inexperiência para atingir os objetivos. Não se pode abrir a cabeça do outro e pôr dentro o que ele precisa. Mesmo porque nem sempre temos certeza do que ele realmente quer. Fazemos conforme nosso entendimento e capacidade, o que às vezes não é suficiente. O importante, todavia, é fazer o melhor que sabemos e podemos, pois teremos a consciência em paz!

É sempre muito difícil participar da vida de outro espírito que, muitas vezes, nem mesmo ele sabe bem o que deseja para si. Temos de agir como o semeador que lança a semente, mas sabe que a sua germinação dependerá da terra, do adubo, da rega, do clima e do tempo próprio de cada planta. Sabe que pode semear, mas nunca tem a certeza do que irá colher. Nós, os humanos, temos de ter a certeza de pôr a cabeça no travesseiro e conseguir dormir, porque estamos em paz com a Lei Divina.

Neste mês em que se festeja o Dia das Mães, escrevemos este recado para que elas façam o melhor que possam para seus filhos, mas não se autoflagelem se houver algum insucesso. A vontade de um termina onde começa a vontade do outro. Deus abençoe as mães, os pais, os filhos e os amigos de verdade!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – maio 2017

Trabalho e Evolução

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Desenvolvimento material e crescimento espiritual.

Octavio Caumo Serrano | caumo@caumo.com

Quando estudávamos o Capítulo XXV de O Evangelho Segundo o Espiritismo, “Buscai e achareis”, com seus subtítulos “Ajuda-te e o céu te ajudará”, “Olhai as aves do campo” etc., meditamos profundamente sobre nossa passagem pela Terra e constatamos como ela é sacrificial. Entendemos, por outro lado, que não poderia ser diferente, porque somos espíritos imperfeitos e habitamos um planeta de provas e expiações em processo de aprendizado.

Observamos que quando Jesus disse “pedi e dar-se-vos-á”, “buscai e achareis”, “batei e abrir-se-vos-á”, ele não ressaltou que devemos pedir só o que nos faça bem espiritualmente. Nós pedimos o que desejamos, embora Deus nos dê só o que precisamos. Por isso nem sempre gostamos da forma como Deus nos atende. Nós pedimos uma cruz leve, mas ele nos dá ombros fortes; pedimos para Ele solucionar nossos problemas, mas Ele nos dá discernimento para que nos mesmos os resolvamos; pedimos facilidades e Ele nos oferece o trabalho que leva ao aprendizado.

No Evangelho fica claro que precisamos da atividade como recurso para desenvolvimento do próprio intelecto. São com as experiências que fazemos; procurando resolver problemas que crescemos. Daí a comprovação da anterioridade das almas e do acúmulo de conhecimentos que levamos para a erraticidade, que nos servem de guia na volta ao mundo material. Se a alma morresse e se acabasse, todas as almas nasceriam desprovidas de qualquer conhecimento. A humanidade permaneceria sempre igual porque o conhecimento de uma vida se perderia. Nunca sairíamos da infância espiritual.

Todavia, apesar de sermos almas milenares, aprendemos quase nada. E como precisamos manter a sobrevivência material, alimentando-nos, vestindo-nos, abrigando-nos, estudando, e isso só conseguimos com os ganhos do trabalho, descuidamo-nos do crescimento espiritual, porque este exige de nós virtudes ainda não conquistadas. A fé ainda não se impregnou no nosso ser. E é ela que nos faria entender a importância de virtudes como resignação, humildade, paciência e desprendimento. Jogamos com as mesmas armas dos outros e somos o contrário do que deveríamos ser: impacientes, orgulhosos, egoístas, prepotentes, belicosos, defendendo-nos com unhas e dentes, como fazem os leões que se digladiam por um pedaço da caça.

Explica-nos Kardec, no referido capítulo, que o homem na infância da Humanidade só aplica a sua inteligência na procura de alimentos, nos meios de se preservar das intempéries e se defender dos inimigos. Mas como ele tem o desejo constante de melhorar é impelido a pesquisas para melhorar sua situação. Daí as invenções que surgem no mundo permanentemente, sempre no sentido de dar ao homem conforto para o seu progresso e bem-estar. Ele realça, porém, que o progresso que o homem realiza individualmente durante a sua permanência na Terra é insignificante e até imperceptível para muitos. Não é sem razão que os espíritos já ensinam que o reconhecimento de um defeito é indicação de evolução. Ninguém imagina que numa, ou mesmo em dez encarnações, o homem possa deixar de ser inferior, livrando-se da maioria dos defeitos que tem o ser humano atual. Nem falamos da escravidão aos vícios (tabagismo, alcoolismo, sensualidade, gula, drogas), já que esses são mais fáceis de vencer porque moram fora do homem. Os defeitos estão na alma; são miasmas espirituais e só com o esforço de modificação interior, como ensina o Espiritismo, é possível eliminá-los. Combate-se o defeito substituindo-o por uma virtude. Ou somos uma coisa ou outra. Para ter êxito, tentemos começar pelos menos graves como a impaciência, a insatisfação, a inconformação, a mágoa. Vencidos estes, elejamos outros igualmente graves e os combatamos um a um.

O mundo material é importante porque é nele que fazemos fundamentais experiências. É a ganância de um que oferece o emprego ao outro; é a inteligência do chefe que comanda a atividade coerente do subordinado. Esta dualidade, quando exercida com equilíbrio, nada tem de nociva. Um patrão humano tem um auxiliar dedicado; um servidor eficiente terá sempre um senhorio generoso.

Um dia me contaram um história que reproduzo como ilustração: um homem pescava com vara e um empresário lhe perguntou: “Quantos peixes pretende pescar?”. “Um”, disse o homem, “para o meu almoço”. “Por que não pesca dois? Venderia um e poderia comprar mais varas de pesca”. “Pra quê?”, redarguiu o pescador. “Ora, para ganhar dinheiro. Com o tempo você compraria uma canoa, um barco motorizado e finalmente um desses pesqueiros de alto-mar”. “E depois?”, perguntou o pescador. “Você ganharia muito dinheiro ficaria riquíssimo e não precisaria fazer mais nada”. O homem o olhou e disse: “Mas eu já não estou fazendo nada”.

Ele desconhecia a diferença entre não fazer nada ociosamente e ganhar o direito de não fazer nada, depois de lutas, conquistas e crescimento intelectual. Para quem acredita em vida única ele está certo. Mas se considerarmos a importância da reencarnação ele está jogando fora mais uma oportunidade

Até as aves, como ensinou Jesus, contam com as oferendas de Deus. Mas não estão isentas do esforço para tirar o alimento da fonte da natureza. Está aí toda a diferença entre não fazer nada, porque é preguiçoso, e conquistar o direito de não fazer nada! Pelo menos para sobreviver. Porque mesmo não precisando do trabalho para sustentar-se o homem deve trabalhar para servir, ou do contrário atrofia o físico e enferruja a inteligência.

Todas essas orientações nos chegaram com clareza pelo Espiritismo, doutrina codificada por Allan Kardec, que comemora 160 anos neste 18 de abril. Oremos por ele e agradeçamos aos espíritos que ditaram a codificação.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – abril 2017

O tempo das dores

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Há tantas razões para agradecer e tão poucas para reclamar, mas nós nos concentramos nas pequenas infelicidades.

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

 

Ou será que deveríamos dar como título “O mundo das dores”? Preferimos usar “o tempo” devido à sua relatividade. É algo que na verdade não existe e só é percebido pelas mentes humanas, especialmente enquanto encarnadas. É comum nas reuniões de doutrinação de espíritos ouvirmos alguém que desencarnou há muito tempo, séculos inclusive, referir-se aos episódios passados como sendo agora. Relata seu dia a dia vivido em tempos remotos como se os fatos estivessem ocorrendo naquele momento. Poderíamos dizer que ele se perdeu no tempo ou se perdeu do tempo!

Tudo é um constante vir a ser e nada sofre interrupção por acontecimentos do cotidiano que, às vezes, por nossa pequena capacidade de raciocínio, os definimos como tragédias. Todos os dias o sol do oriente se transfere para o ocidente, trocando de lugar com a lua, para no dia seguinte retornar como o fizera na noite passada; desde que o mundo é mundo e o será por toda a eternidade. Um dia nosso planeta desaparecerá, porque tudo o que nasce um dia morre, dure mais ou dure menos. O espírito, ao contrário, é imortal, por isso sobreviveremos.

Hoje, o assunto da mídia, das esquinas, dos lares, da sociedade, é a crise. Ninguém percebe que é uma crise igual a que vivemos desde outros tempos: para os pobres, deserdados e explorados; para os preguiçosos que se abatem e se entregam ante as menores dificuldades; para os fracos que desejam obter tudo com facilidade.

A crise real a ser lamentada é a crise de moral e de vergonha que graça na humanidade e que tão notada nesta maravilhosa terra do Cruzeiro.

Há tantas razões para agradecer e tão poucas para reclamar, mas nós nos concentramos nas pequenas infelicidades. Temos mente sadia e podemos traçar nossa própria diretriz; no entanto não percebemos que só por isso somos felizes. Quando nascemos, nossos pais certamente ficaram ansiosos para nos ver e conferir se estávamos perfeitos. Uns estavam inteiros fisicamente, outros não, mas todos estavam completos como almas eternas e poderiam aproveitar a sua encarnação mesmo tendo limitações físicas. Por isso as redes sociais amiúde exibem vídeos de deficientes que têm membros de menos, inclusive cegueira, mas que abrem seus próprios caminhos como tenacidade e vivem com alegria, agradecidos pela vida dando exemplo aos que são fracos.

Neste mês, recordamos do Codificador Allan Kardec, mais uma vez, porque foi em 31 de março de 1869, com pouco mais de sessenta e quatro anos, que ele desencarnou pelo rompimento de um aneurisma. Fulminado, quando cheio de entusiasmo, preparava a mudança da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas para um lugar mais amplo, a fim de dinamizar a divulgação do Espiritismo. Por que sua vida foi ceifada num momento tão importante para ele e para a humanidade, que tanto bebia das revelações trazidas pelos espíritos por seu intermédio? Certamente porque o tempo que ele tinha para a tarefa a que veio havia se esgotado e também porque o que havia sido revelado já era suficiente para um grande avanço na sociedade do nosso tempo que, infelizmente, ainda não aplica no dia a dia a sabedoria proposta pelos espíritos.

O estudo sério, assíduo e sequenciado desta Doutrina leva o homem a um entendimento sobre si mesmo que ele jamais havia tido. Nenhuma explicação para a morte é tão lúcida como a informação espírita. Tudo é consequência de atos anteriores, na aplicação clara da lei de ação e reação que tem fortes implicações quando se trata de gestos espirituais. Causa e efeito ou semeadura e colheita seriam sinônimas da primeira. Ninguém sofre pelos males causados pelo outro, nem paga dívidas que não haja contraído. Já disse Jesus aos seus seguidores quando lhe perguntaram sobre o cego que ele havia curado se o pecado fora dele ou dos pais. Jesus explica que vinha de vida passada. Como esclarecimento diante de leigos, Ele disse que nem ele nem os pais eram causadores daquele mal, mas era preciso que a lei se cumprisse. Fala claramente de erros anteriores daquela mesma alma que agora habitava outro corpo.

O mundo das dores ou o tempo das dores têm mais a ver com as ações que geram consequências más, do que fatalidade ou algo imprevisível ou ocasional. É como na lição que explica que a boa árvore é conhecida pelos frutos que produz e vice versa.

Nenhum de nós precisa temer a crise, desde que se empenhe com esforço e honestidade na conquista de suas necessidades, comedidamente, sem ganância desenfreada. E da mesma forma que a felicidade não está na chegada, mas no trajeto, se lutarmos por algo e não tivermos sucesso já ganhamos a experiência resultante da luta e do esforço. Será a nossa maior conquista. Essa o ladrão não rouba, a ferrugem não corrói, a traça não come e os regimes políticos não conseguem destruir. Como daqui a pouco vamos embora, qualificamo-nos a voltar mais competentes e com mais méritos para uma nova vida que, logo mais, teremos que viver. Quem for um agente ativo na melhoria do mundo se qualifica a viver num lugar melhor que este, do qual tanto reclamamos. E ele não tem culpa, pois é o reflexo dos homens que o habitam. O mundo em que vivemos é a soma das consciências humanas. Se bem observado, considerando-se a maneira como o tratamos, ele até que é bastante generoso com esta mal agradecida humanidade tendo que se recuperar todos os dias para sanar as destruições causadas pelos homens.

Não fale em crise. Sorria a produza. Produza bens, produza amigos, amor e simpatia. Tenha a consciência em paz e tudo o mais deixe por conta de Deus. Ele resolve.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – março 2017

 

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