É preciso nascer de novo

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RIE julho 2017

“O que é nascido da carne é carne; o que é nascido do Espírito é Espírito” – João III 1-2.

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Embora a crença da reencarnação seja aceita por quase toda a humanidade, ficando a exceção por conta dos cristãos não espíritas, os mecanismos dessa lei ainda são mal compreendidos e levam-nos a divagações.

Entre os judeus, havia nos fariseus a crença na ressurreição, a ponto de desejarem ser enterrados no cemitério do Vale do Cedrón, em Jerusalém, de onde emergiriam os primeiros que fossem para o mundo celestial no final dos tempos. Está entre os muros do Templo e o Monte das Oliveiras, onde há muitos túmulos de judeus importantes, inclusive o do profeta Zacarias. É também conhecido como o Vale do Julgamento, local onde Deus viria buscar os escolhidos.

Outros religiosos, os saduceus, acreditavam em Deus e em suas recompensas, mas apenas nesta vida. Receberiam pelo bem que fizessem aqui mesmo na Terra. Mortos, nada mais restaria. Divergências no mesmo povo que se considera o eleito por Deus.

No Brasil, um país de maioria católica, e também de adeptos de diferentes doutrinas derivadas do cristianismo, como os protestantes com seus diferentes segmentos, por exemplo, a reencarnação é tratada como fantasia. Mesmo os médicos que cuidam das almas, analistas e terapeutas em geral, atribuem tudo aos registros do inconsciente. Usam palavras difíceis para explicar o que não entendem nem estão convencidos, porque ficam acanhados de admitir o próprio desconhecimento no assunto. Afirmam que se alguém executa um instrumento ou fala uma língua estrangeira é porque ouviu nalgum dia, nalgum lugar, alguém tocar a música ou falar o idioma. Foi na convivência com alguém, uma babá ou qualquer situação, por mais fortuita que pareça, que a criança registrou o fato que aflora em determinado momento. Mas não explicam como alguém pode falar línguas mortas há milênios e nem de quem as teria ouvido.

As redes sociais mostram hoje crianças com menos de seis anos que são verdadeiros virtuoses da música, da pintura e outras artes. Crianças que falam meia dúzia de idiomas sem nunca ter estudado ou convivido com pessoas de tais línguas. Tentar negar não é inteligente. É melhor pesquisar; é menos arriscado. Se não tiver explicação melhor dizer não sei. Afinal, ninguém sabe tudo. Pior; o que sabemos é tão pouco que é quase nada.

Falam dos complexos de Édipo e Electra, mas não explicam as causas. Complexo de Édipo é um dos conceitos fundamentais de Freud, na psicanálise. Este conceito refere-se a uma fase no desenvolvimento infantil em que existe uma “disputa” entre a criança do sexo masculino e o genitor (figura masculina parental) pelo amor da genitora (figura feminina parental). Complexo de Electra foi estudado pelo psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung, em referência ao mito grego de Electra. Esta é uma fase do desenvolvimento psicossexual das crianças do sexo feminino, de acordo com a psicanálise. Consiste na etapa em que a filha passa a se sentir atraída pelo pai, disputando com a mãe a atenção deste homem. Qual a razão? Acontece com todas as meninas, sem exceção? Certo que não.

O Espiritismo explica que muitos problemas de casamentos do passado, com a interferência de amantes que destroem lares, provocam necessidades de resgates e os faltosos voltam como pais e filhos para exercitar um amor sublimado, maior que o amor carnal dos tempos que se foram. Mas isso ocorre sem que seja regra absoluta. Há pais e filhos que nenhum comprometimento têm nesse sentido.

Por mais que as religiões e os cientistas neguem, mais de oitenta por cento das pessoas, por curiosidade e bom senso, têm dúvidas sobre se já viveram antes e se viverão depois. Não pretendem aceitar a reencarnação, mas a razão quase que as obriga. As pesquisas cada vez mais afirmam que sim e estamos atualmente, segundo entrevistados da psicóloga norte-americana Helen Wambach, no momento das grandes revelações para a humanidade. Já descobriram até que o coração têm neurônios e, portanto, pensa; assim como a mente tem sentimento. Os novos conhecimentos não param por aí e se aceleram a cada dia, provando-nos que sabemos pouco ou quase nada a respeito de nós mesmos. Temos tudo a aprender sobre de onde viemos e o que nos espera.

As igrejas preferem negar e vender indulgências, curas, riqueza, conforto e alegam que precisar nascer de novo refere-se a uma renovação de conceitos que deve operar-se em cada um, como quando Jesus Cristo disse a Saulo que ele deveria matar o homem velho que havia nele para deixar nascer o homem novo. Sem dúvida, é também importante renascimento, mas não foi desse nascer novamente que Jesus falou a Nicodemos.

O próprio Jesus ao dizer que João Batista era Elias que havia voltado e a humanidade não percebeu, deixa claro que falava da reencarnação. Os ensinamentos de Jesus são simples e claros, mas como a simplicidade não permite mistérios e divagações, as igrejas colocam nisso uma pitada de misticismo para ter poder espiritual sobre o povo. Quando soubermos que os templos são secundários e não precisamos frequentá-los para fazer o bem, para chegar a Deus e construir nosso céu, ficaremos menos atrelados a essas fantasias. Jesus está ao nosso lado permanentemente com seu Evangelho. Os grupos religiosos só valem pelo que nos ensinam das Leis Divinas fortalecendo a nossa fé e não por supostas vantagens que possam oferecer mesmo sem que tenhamos merecimento. Milagres sem mérito seriam injustiças. E Deus não comete injustiças.

Salve o Espiritismo: “Fora da caridade não há salvação”. Damos de graça o que de graça recebemos. Que Deus nos ajude para não perdermos jamais esse foco e esse rumo.

RIE-Revista Internacional de Espiritismo – julho 2017

Jesus e o Espiritismo

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Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

Que utilidade têm as orientações dos Espíritos?

“Uma vez que Jesus ensinou as verdadeiras Leis de Deus, qual a utilidade dos ensinamentos dados pelos Espíritos? Eles têm algo a mais a ensinar-nos?” Isto foi perguntado na questão 627 de O Livro dos Espíritos.

Considerando-se que o Espiritismo é o cristianismo redivivo, o que significa ressuscitado ou remoçado, fica claro que as lições de Jesus foram adulteradas ao longo do tempo, a ponto de o maior mandamento – “ama Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo” – ter praticamente desaparecido do seio da humanidade, especialmente onde deveria estar mais preservado que é no meio religioso.

Com sua conhecida educação e prudência, Kardec diz que os espíritos deviam esclarecer-nos por que Jesus falava por alegorias. Não quis dizer que o mercantilismo das doutrinas separa os homens porque cada uma enfatiza que apenas os seguidores da sua igreja terão a salvação. A intenção é afastar a concorrência. Quem não aceita Jesus na versão deles não ganha o Céu. E essa salvação passa pelas doações que criam privilégios segundo a generosidade das ofertas. Melhoram até o faturamento das empresas dos que mais colaboram.

A Doutrina Espírita, que Kardec catalogou no capítulo I de O Evangelho Segundo o Espiritismo como a terceira revelação, vem no momento certo em que o Evangelho de Jesus nada mais tem do original divulgado pelo Cristo. Os crentes se separaram indo cada um para um lado e é por isso que hoje há uma inflação de seitas que nascem a cada dia, com nomes esdrúxulos até, porque as tendinhas passaram a ser um comércio lucrativo. Amor ao próximo? Não dá lucro; melhor amor-próprio ou amor a si próprio.

A Doutrina ditada pelos espíritos nos quatro cantos da Terra e organizada pelo professor francês Rivail, posteriormente conhecido como Allan Kardec, traz de novo a pureza do cristianismo nascente dos tempos de Pedro, Paulo, João, Thiago, Madalena e demais seguidores dos primeiros séculos. Ela descarta os rituais, os paramentos, os altares e enfeites dourados dos templos e forma núcleos semelhantes à Casa do Caminho, ornamentados de singeleza. A beleza está no serviço prestado gratuitamente, acolhendo pessoas de todas as doutrinas que desejam esclarecer-se na pureza do Evangelho e não na sociedade religiosa elitizada, onde encontramos templos que selecionam seus frequentadores pela posição social que ocupam na comunidade. Colunáveis da Terra!

A desculpa que mais se ouve na explanação do Evangelho é que a alegoria das lições de Jesus, quando se servia de parábolas, dificulta o entendimento das orientações do Cristo. Todavia, quando ele recomendou que amássemos o próximo como amamos a nós mesmos ou que fizéssemos ao outro exatamente o que gostaríamos que o outro nos fizesse, não o fez de forma alegórica, mas clara e direta. E é exatamente aí onde mais nos afastamos do cristianismo. Quem não for da nossa igreja é nosso inimigo.

Observemos que mesmo nas parábolas interpretativas há enunciados que não deixam dúvidas. A do bom samaritano, por exemplo, fala da indiferença do sacerdote e do levita, religiosos da elite judaica, e do socorro prestado pelo herege samaritano que apenas via naquele homem – que não conhecia nem sabia seu nome – o seu próximo. Ele disse que um homem descia de Jerusalém para Jericó; não um rei, um judeu, um rico; simplesmente um homem.

A vinda do Espiritismo como revelação posterior a Moisés e Jesus obedece a uma sequência lógica, pois se Jesus completou, ratificou, mas também corrigiu orientações de Moisés, porque eram de um tempo ido, assim o Espiritismo veio restaurar as lições originais pregadas por Jesus e adulteradas ao longo dos séculos. Repetindo: não por falta de entendimento, mas propositadamente para tirar proveito da confusão que as próprias doutrinas estabeleceram. Tudo é para a casa de Deus. Carros, casas, cheques, dinheiro, cartões de crédito. Certamente depositados no Banco da Divindade.

O Espiritismo fala numa linguagem sem rodeios, direta e que cabe na razão das pessoas menos cultas da mesma forma como pode ser entendida pelos doutores. Podemos alegar que não acreditamos ou não estamos dispostos ao rigor da reforma íntima. Mas jamais que não entendemos. Emmanuel, no livro O Consolador, pergunta 210, diz que o Espiritismo não precisa dos intelectuais da Terra, mas que eles é que devem encontrar suporte no Espiritismo para mais bem executar o seu progresso. Assim como fez Jesus que convocou seu apostolado entre homens simples; pescadores, publicanos etc.. Não buscou os doutores do Templo de Jerusalém, porque eles nada entendiam do reino que estava sendo anunciado. A conversa com Nicodemos é uma comprovação.

Há uma prece, a Oração da Sabedoria, que diz: “Dá-me, Senhor, inteligência para entender, não as coisas difíceis e fáceis de ser compreendidas, mas as coisas mais simples e tão difíceis de ser entendidas!” Por isso quando perguntaram a Emmanuel o que era a Bíblia, ele responde: “A Bíblia é o amor…”. E replicaram: “Mas por que ela é tão grande?” E o guia do Chico respondeu: “Para explicar o amor! Do amor, nem defini-lo sabemos.”

Esperamos ter deixado claro que os espíritos tinham de vir para restaurar o que os homens destruíram. Com o Espiritismo só é enganado quem quer ou é um crédulo imprevidente buscando levar vantagem.

  • RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho de 2017

Amigos de sangue e parentes do coração

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Octavio Caumo Serrano | caumo@caumo.com

Devemos ter dois tipos de amigos: os que nos ensinam ou nos socorrem e os que aprendem conosco ou aceitam nossa ajuda.

A vida é breve para perdermos tempo. Não somos domadores para exigir do outro, à força, o que ele não deseja fazer, aceitar ou aprender. Da mesma forma que somos como desejamos, respeitemos o livre-arbítrio das pessoas, deixando-as ser como preferem. Ninguém pode obrigar o outro a ser seu amigo, amá-lo ou a concordar com seus pontos de vista, a menos que se conscientize que a mudança lhe será benéfica. Se ainda não entendeu, vamos entregá-lo ao tempo que é um professor convincente. A natureza, a dor e o futuro mostram o que nem sempre conseguimos.

Para melhor entendimento consultemos O Livro dos Espíritos nas questões relativas aos anjos guardiães, perguntas 489 a 521, com destaque para a ampla questão 495, de autoria dos lúcidos São Luiz e Santo Agostinho, ambos de ativa participação nos trabalhos da Codificação do Espiritismo. Temos nela receita segura de qual deva ser nosso comportamento diante de alguém rebelde, que se recusa a ser ajudado.

Isso vale para um estranho, um parente e mesmo um filho, após atingir a idade adulta. Enquanto é pequeno e não tem capacidade suficiente para decidir sobre seu futuro cabe a nós encaminhá-lo, orientá-lo e incentivá-lo. Mas uma vez adulto, devemos dar-lhe o direito ao livre-arbítrio para que faça como melhor lhe pareça. Assim como o anjo da guarda, nunca deixemos de ser um ombro à disposição, tenhamos sempre o tempo que ele precisa para desabafar ou pedir ajuda, mas agora a situação se inverte. Ele vem buscar orientação e socorro quando julgar necessário e não quando nós imaginamos que ele precisa. Enquanto o sofrimento não faz a sua parte, nossos argumentos serão inconsistentes. É preciso que ele se conscientize das suas limitações e da importância da ajuda que podemos lhe dar. Caso se julgue autossuficiente, deixemos que decida por si mesmo. E se for mesmo independente como pensa, devemos comemorar. Antes de ser nosso filho, é filho de Deus; um irmão que caminha conosco nos meandros do mundo material. Um espírito individual com seus próprios direitos e deveres; plantando e colhendo como todos nós. Se ele tiver êxito ficaremos felizes. Se fracassar, terá de recomeçar as experiências todas novamente. É da Lei!

Nem sempre gozamos do respeito de nossos filhos e somos para eles competentes orientadores. É comum que queiram para si uma vida que nada tem de parecida com a nossa ou com a que lhe propusemos seguir na sua caminhada. Não é anormal que nos considerem retrógrados, atrasados e sem nenhuma inspiração ou originalidade para acrescentar-lhes algum progresso. Não somos um bom exemplo, segundo a visão dele. Paramos no tempo ou estamos na idade da pedra. Não adianta dar murro em ponta de faca. Vamos nos ferir, sem nenhuma utilidade. Como Jesus já prometeu que nenhuma ovelha do rebanho se perderá, andando mais devagar ou mais depressa, eles também chegarão ao ponto mais alto da perfeição possível aos humanos. Uns demorarão mais outros menos, mas ninguém será abandonado. Todos têm, sem exceção, um anjo protetor a inspirar-lhes no caminho do bem. Uns ouvem melhor, outros são meio surdos, mas todos chegarão ao seu apogeu.

Sabemos como isso entristece os pais, principalmente quando se sentem impotentes para guiar sua prole e ajudá-la a encontrar o bom caminho. Mas desde que fizemos o melhor que sabíamos ou podíamos, renunciando muitas vezes ao nosso próprio conforto para ajudar os filhos, Deus reconhecerá nossos esforços e nos premiará, mesmo que não sejamos bem sucedidos, pois não dependeu de nós. Não houve negligência, mas apenas impotência ou mesmo inexperiência para atingir os objetivos. Não se pode abrir a cabeça do outro e pôr dentro o que ele precisa. Mesmo porque nem sempre temos certeza do que ele realmente quer. Fazemos conforme nosso entendimento e capacidade, o que às vezes não é suficiente. O importante, todavia, é fazer o melhor que sabemos e podemos, pois teremos a consciência em paz!

É sempre muito difícil participar da vida de outro espírito que, muitas vezes, nem mesmo ele sabe bem o que deseja para si. Temos de agir como o semeador que lança a semente, mas sabe que a sua germinação dependerá da terra, do adubo, da rega, do clima e do tempo próprio de cada planta. Sabe que pode semear, mas nunca tem a certeza do que irá colher. Nós, os humanos, temos de ter a certeza de pôr a cabeça no travesseiro e conseguir dormir, porque estamos em paz com a Lei Divina.

Neste mês em que se festeja o Dia das Mães, escrevemos este recado para que elas façam o melhor que possam para seus filhos, mas não se autoflagelem se houver algum insucesso. A vontade de um termina onde começa a vontade do outro. Deus abençoe as mães, os pais, os filhos e os amigos de verdade!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – maio 2017

Trabalho e Evolução

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Desenvolvimento material e crescimento espiritual.

Octavio Caumo Serrano | caumo@caumo.com

Quando estudávamos o Capítulo XXV de O Evangelho Segundo o Espiritismo, “Buscai e achareis”, com seus subtítulos “Ajuda-te e o céu te ajudará”, “Olhai as aves do campo” etc., meditamos profundamente sobre nossa passagem pela Terra e constatamos como ela é sacrificial. Entendemos, por outro lado, que não poderia ser diferente, porque somos espíritos imperfeitos e habitamos um planeta de provas e expiações em processo de aprendizado.

Observamos que quando Jesus disse “pedi e dar-se-vos-á”, “buscai e achareis”, “batei e abrir-se-vos-á”, ele não ressaltou que devemos pedir só o que nos faça bem espiritualmente. Nós pedimos o que desejamos, embora Deus nos dê só o que precisamos. Por isso nem sempre gostamos da forma como Deus nos atende. Nós pedimos uma cruz leve, mas ele nos dá ombros fortes; pedimos para Ele solucionar nossos problemas, mas Ele nos dá discernimento para que nos mesmos os resolvamos; pedimos facilidades e Ele nos oferece o trabalho que leva ao aprendizado.

No Evangelho fica claro que precisamos da atividade como recurso para desenvolvimento do próprio intelecto. São com as experiências que fazemos; procurando resolver problemas que crescemos. Daí a comprovação da anterioridade das almas e do acúmulo de conhecimentos que levamos para a erraticidade, que nos servem de guia na volta ao mundo material. Se a alma morresse e se acabasse, todas as almas nasceriam desprovidas de qualquer conhecimento. A humanidade permaneceria sempre igual porque o conhecimento de uma vida se perderia. Nunca sairíamos da infância espiritual.

Todavia, apesar de sermos almas milenares, aprendemos quase nada. E como precisamos manter a sobrevivência material, alimentando-nos, vestindo-nos, abrigando-nos, estudando, e isso só conseguimos com os ganhos do trabalho, descuidamo-nos do crescimento espiritual, porque este exige de nós virtudes ainda não conquistadas. A fé ainda não se impregnou no nosso ser. E é ela que nos faria entender a importância de virtudes como resignação, humildade, paciência e desprendimento. Jogamos com as mesmas armas dos outros e somos o contrário do que deveríamos ser: impacientes, orgulhosos, egoístas, prepotentes, belicosos, defendendo-nos com unhas e dentes, como fazem os leões que se digladiam por um pedaço da caça.

Explica-nos Kardec, no referido capítulo, que o homem na infância da Humanidade só aplica a sua inteligência na procura de alimentos, nos meios de se preservar das intempéries e se defender dos inimigos. Mas como ele tem o desejo constante de melhorar é impelido a pesquisas para melhorar sua situação. Daí as invenções que surgem no mundo permanentemente, sempre no sentido de dar ao homem conforto para o seu progresso e bem-estar. Ele realça, porém, que o progresso que o homem realiza individualmente durante a sua permanência na Terra é insignificante e até imperceptível para muitos. Não é sem razão que os espíritos já ensinam que o reconhecimento de um defeito é indicação de evolução. Ninguém imagina que numa, ou mesmo em dez encarnações, o homem possa deixar de ser inferior, livrando-se da maioria dos defeitos que tem o ser humano atual. Nem falamos da escravidão aos vícios (tabagismo, alcoolismo, sensualidade, gula, drogas), já que esses são mais fáceis de vencer porque moram fora do homem. Os defeitos estão na alma; são miasmas espirituais e só com o esforço de modificação interior, como ensina o Espiritismo, é possível eliminá-los. Combate-se o defeito substituindo-o por uma virtude. Ou somos uma coisa ou outra. Para ter êxito, tentemos começar pelos menos graves como a impaciência, a insatisfação, a inconformação, a mágoa. Vencidos estes, elejamos outros igualmente graves e os combatamos um a um.

O mundo material é importante porque é nele que fazemos fundamentais experiências. É a ganância de um que oferece o emprego ao outro; é a inteligência do chefe que comanda a atividade coerente do subordinado. Esta dualidade, quando exercida com equilíbrio, nada tem de nociva. Um patrão humano tem um auxiliar dedicado; um servidor eficiente terá sempre um senhorio generoso.

Um dia me contaram um história que reproduzo como ilustração: um homem pescava com vara e um empresário lhe perguntou: “Quantos peixes pretende pescar?”. “Um”, disse o homem, “para o meu almoço”. “Por que não pesca dois? Venderia um e poderia comprar mais varas de pesca”. “Pra quê?”, redarguiu o pescador. “Ora, para ganhar dinheiro. Com o tempo você compraria uma canoa, um barco motorizado e finalmente um desses pesqueiros de alto-mar”. “E depois?”, perguntou o pescador. “Você ganharia muito dinheiro ficaria riquíssimo e não precisaria fazer mais nada”. O homem o olhou e disse: “Mas eu já não estou fazendo nada”.

Ele desconhecia a diferença entre não fazer nada ociosamente e ganhar o direito de não fazer nada, depois de lutas, conquistas e crescimento intelectual. Para quem acredita em vida única ele está certo. Mas se considerarmos a importância da reencarnação ele está jogando fora mais uma oportunidade

Até as aves, como ensinou Jesus, contam com as oferendas de Deus. Mas não estão isentas do esforço para tirar o alimento da fonte da natureza. Está aí toda a diferença entre não fazer nada, porque é preguiçoso, e conquistar o direito de não fazer nada! Pelo menos para sobreviver. Porque mesmo não precisando do trabalho para sustentar-se o homem deve trabalhar para servir, ou do contrário atrofia o físico e enferruja a inteligência.

Todas essas orientações nos chegaram com clareza pelo Espiritismo, doutrina codificada por Allan Kardec, que comemora 160 anos neste 18 de abril. Oremos por ele e agradeçamos aos espíritos que ditaram a codificação.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – abril 2017

O tempo das dores

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Há tantas razões para agradecer e tão poucas para reclamar, mas nós nos concentramos nas pequenas infelicidades.

Octávio Caúmo Serrano | caumo@caumo.com

 

Ou será que deveríamos dar como título “O mundo das dores”? Preferimos usar “o tempo” devido à sua relatividade. É algo que na verdade não existe e só é percebido pelas mentes humanas, especialmente enquanto encarnadas. É comum nas reuniões de doutrinação de espíritos ouvirmos alguém que desencarnou há muito tempo, séculos inclusive, referir-se aos episódios passados como sendo agora. Relata seu dia a dia vivido em tempos remotos como se os fatos estivessem ocorrendo naquele momento. Poderíamos dizer que ele se perdeu no tempo ou se perdeu do tempo!

Tudo é um constante vir a ser e nada sofre interrupção por acontecimentos do cotidiano que, às vezes, por nossa pequena capacidade de raciocínio, os definimos como tragédias. Todos os dias o sol do oriente se transfere para o ocidente, trocando de lugar com a lua, para no dia seguinte retornar como o fizera na noite passada; desde que o mundo é mundo e o será por toda a eternidade. Um dia nosso planeta desaparecerá, porque tudo o que nasce um dia morre, dure mais ou dure menos. O espírito, ao contrário, é imortal, por isso sobreviveremos.

Hoje, o assunto da mídia, das esquinas, dos lares, da sociedade, é a crise. Ninguém percebe que é uma crise igual a que vivemos desde outros tempos: para os pobres, deserdados e explorados; para os preguiçosos que se abatem e se entregam ante as menores dificuldades; para os fracos que desejam obter tudo com facilidade.

A crise real a ser lamentada é a crise de moral e de vergonha que graça na humanidade e que tão notada nesta maravilhosa terra do Cruzeiro.

Há tantas razões para agradecer e tão poucas para reclamar, mas nós nos concentramos nas pequenas infelicidades. Temos mente sadia e podemos traçar nossa própria diretriz; no entanto não percebemos que só por isso somos felizes. Quando nascemos, nossos pais certamente ficaram ansiosos para nos ver e conferir se estávamos perfeitos. Uns estavam inteiros fisicamente, outros não, mas todos estavam completos como almas eternas e poderiam aproveitar a sua encarnação mesmo tendo limitações físicas. Por isso as redes sociais amiúde exibem vídeos de deficientes que têm membros de menos, inclusive cegueira, mas que abrem seus próprios caminhos como tenacidade e vivem com alegria, agradecidos pela vida dando exemplo aos que são fracos.

Neste mês, recordamos do Codificador Allan Kardec, mais uma vez, porque foi em 31 de março de 1869, com pouco mais de sessenta e quatro anos, que ele desencarnou pelo rompimento de um aneurisma. Fulminado, quando cheio de entusiasmo, preparava a mudança da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas para um lugar mais amplo, a fim de dinamizar a divulgação do Espiritismo. Por que sua vida foi ceifada num momento tão importante para ele e para a humanidade, que tanto bebia das revelações trazidas pelos espíritos por seu intermédio? Certamente porque o tempo que ele tinha para a tarefa a que veio havia se esgotado e também porque o que havia sido revelado já era suficiente para um grande avanço na sociedade do nosso tempo que, infelizmente, ainda não aplica no dia a dia a sabedoria proposta pelos espíritos.

O estudo sério, assíduo e sequenciado desta Doutrina leva o homem a um entendimento sobre si mesmo que ele jamais havia tido. Nenhuma explicação para a morte é tão lúcida como a informação espírita. Tudo é consequência de atos anteriores, na aplicação clara da lei de ação e reação que tem fortes implicações quando se trata de gestos espirituais. Causa e efeito ou semeadura e colheita seriam sinônimas da primeira. Ninguém sofre pelos males causados pelo outro, nem paga dívidas que não haja contraído. Já disse Jesus aos seus seguidores quando lhe perguntaram sobre o cego que ele havia curado se o pecado fora dele ou dos pais. Jesus explica que vinha de vida passada. Como esclarecimento diante de leigos, Ele disse que nem ele nem os pais eram causadores daquele mal, mas era preciso que a lei se cumprisse. Fala claramente de erros anteriores daquela mesma alma que agora habitava outro corpo.

O mundo das dores ou o tempo das dores têm mais a ver com as ações que geram consequências más, do que fatalidade ou algo imprevisível ou ocasional. É como na lição que explica que a boa árvore é conhecida pelos frutos que produz e vice versa.

Nenhum de nós precisa temer a crise, desde que se empenhe com esforço e honestidade na conquista de suas necessidades, comedidamente, sem ganância desenfreada. E da mesma forma que a felicidade não está na chegada, mas no trajeto, se lutarmos por algo e não tivermos sucesso já ganhamos a experiência resultante da luta e do esforço. Será a nossa maior conquista. Essa o ladrão não rouba, a ferrugem não corrói, a traça não come e os regimes políticos não conseguem destruir. Como daqui a pouco vamos embora, qualificamo-nos a voltar mais competentes e com mais méritos para uma nova vida que, logo mais, teremos que viver. Quem for um agente ativo na melhoria do mundo se qualifica a viver num lugar melhor que este, do qual tanto reclamamos. E ele não tem culpa, pois é o reflexo dos homens que o habitam. O mundo em que vivemos é a soma das consciências humanas. Se bem observado, considerando-se a maneira como o tratamos, ele até que é bastante generoso com esta mal agradecida humanidade tendo que se recuperar todos os dias para sanar as destruições causadas pelos homens.

Não fale em crise. Sorria a produza. Produza bens, produza amigos, amor e simpatia. Tenha a consciência em paz e tudo o mais deixe por conta de Deus. Ele resolve.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – março 2017

 

Falsos cristos e falsos profetas

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“Amados, não creiais em todos os espíritos, mas provai se eles vêm de Deus” – João 4:1.

Octávio Caumo Serrano | caumo@caumo.com

Ao estudar o capítulo XXI de O Evangelho Segundo o Espiritismo, vem-nos à mente como somos ingênuos ao permitir que falsos profetas tenham sucesso. Ao consultar os desencarnados, Kardec raciocinou que eles eram as almas dos homens que morreram e, portanto, não tinham toda sabedoria. Puro bom senso.

Encantados com o termo profeta, que nas velhas escritas designa os chamados por Deus para revelar o futuro aos homens comuns, passamos a ser crédulos, sem bom senso, caindo em armadilhas. Daí vem a origem dos falsos profetas que, segundo as advertências de Mateus e Marcos, enganarão até os escolhidos. A nossa boa fé é tão sem critério que entregamos nossa vida, o bem mais precioso que temos, a qualquer um desses supostos emissários. O líder religioso, o patrão, o político, o falso amigo… Diz o povo que para cada esperto há dez tolos. Os sabidos sempre terão oportunidades para suas falcatruas, porque são hábeis e sabem como explorar a credulidade das pessoas simples. Até os inteligentes são enganados porque eles são convincentes; encarnados e desencarnados.

Onde estão os falsos profetas? Em todas as áreas. Na mídia irresponsável e ardilosa, na política desonesta, nas religiões mercantilistas, que se proliferam em abundância no planeta. É a razão porque todos querem ter uma emissora de rádio ou TV, é por isso que os partidos políticos chegaram a um número que ninguém consegue memorizar e é por essa razão que nasce todo dia uma igreja nova, falando mal das outras, tentando eliminar a concorrência para que sobre uma fatia mais gorda de cada bolo repartido. Quem tiver curiosidade entre nos programas de pesquisa da internet e digite “falsos profetas”. Terão vídeos e filmes para assistir por um mês mostrando o treinamento que os chefes religiosos fazem com seus colaboradores para assaltar com mais facilidade e convencimento o ingênuo que procura se vencer na vida sem fazer força.

Ainda funciona o toco-mocho, que é a venda por 10 de um bilhete sorteado com 100. Um esperto percebe a fragilidade de outro que se julga sabido e, por ganância, aproveita para lucrar. Quando se vê ludibriado, reclama, embora seja tão desonesto quanto o outro. Se o primeiro lhe propôs vender por 10 o que valia 100, e ele aceitou rapidamente ficar com os 100 pagando apenas 10, mereceu ser enganado. Como um empresário que dá dinheiro para a igreja na ilusão de que Deus aumentará seu faturamento. Mesmo que seja ineficiente como industrial e não modernizou o parque produtivo, só porque dá dinheiro para a igreja, Deus vai recompensá-lo mandando clientes para adquirir seus produtos. Os que não podem pagar vão à falência? Mas no Céu não tem banco e Deus não vive de juros. Só alguém muito ingênuo para acreditar nessas leviandades.

Mesmo no Espiritismo, onde o dinheiro não é comum, o falso profeta se alimenta da vaidade. Perguntem algo e ele terá a resposta que resolve qualquer problema. Por que as pessoas querem ainda falar com os espíritos, fazer perguntas sobre seu passado e seu futuro, depois de conhecer o Evangelho de Jesus? “Faz que o Céu te ajuda”; “a quem te tomar o manto dá também a túnica”; “se alguém te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil”; “vende tudo o que tens e me segue”. O Espiritismo não promete salvação a não ser por prestação de serviços: “fora da caridade não há salvação”.

André Luiz explicou que perguntas fúteis são respondidas por espíritos atrasados que se sentem importantes por orientar. Espírito Superior cuida da coletividade, não da individualidade. A não ser que alguém tenha missão relevante e mereça um guia que o assessore: Kardec e o Espírito de Verdade, Chico Xavier e Emmanuel e outros benfeitores cujos mentores nem se apresentaram, mas fatalmente eles os tiveram; Gandhi, Luther King, Mandela, Teresa de Calcutá, Dulce da Bahia e tantos outros.

O verdadeiro espírita nunca será um falso profeta; ele “é reconhecido pela sua transformação moral e pelo esforço que faz no combate às suas más inclinações”. Não se reconhece o espírita verdadeiro pelos passes que aplica ou recebe, pelas palestras que faz ou assiste, pelos atributos mediúnicos, mas pelo bem que com isso constrói, abrangendo as diferentes formas de caridade e lutando para sair do mundo com um caráter melhor do que chegou quando foi premiado com nova reencarnação. Quem prestigia os falsos profetas são os ingênuos verdadeiros. E como estes são maioria, enchem as igrejas alimentando os desonestos, elegem políticos corruptos que lhes oferecem vantagens irrisórias e compram mercadorias adulteradas. E são esses os que fazem correntes em defesa da honestidade, exigem a renúncia dos que trapaceiam e posam como pessoas de bem. Mas se prevalecem do amigo para furar a fila ou passar na frente de quem chegou primeiro.

O que observamos é uma deterioração na nossa humanidade em termos de caráter. A desonestidade e a mania de levar vantagem a qualquer preço se encontra no DNA da maioria de nós, sendo quase sempre transmitida por genética, apesar de ofender-nos se alguém nos disser isso. Ao nos analisarmos com rigor veremos que é uma lamentável realidade e um impedimento para que sejamos solidários e fraternos, sem que sejamos ao mesmo tempo um tolo e um falso profeta. Oremos e vigiemos. Mas com um rigor que nunca usamos até agora. Os tempos estão no fim; é preciso correr!

O que nos estimula a seguir na luta é saber que o comando segue nas mãos de Deus. Os verdadeiros profetas, organizadores da nova Terra de regeneração, já estão nascendo ou se programando. Façamos por merecer nossa permanência por aqui; encarnados ou candidatos a uma nova vida neste mundo depois de renovado. Criemos mérito para tal.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – fevereiro 2017

A missão do Espiritismo

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Um prefácio de luz para um livro que ilumina!

Octávio Caumo Serrano | caumo@caumo.com

Analisemos o Prefácio de O Evangelho Segundo o Espiritismo, esta mensagem de amor dirigida a todos os homens que define claramente por que viemos ao mundo. A Doutrina dos Espíritos chegou na hora certa, a fim de restabelecer verdades que se deterioraram ao longo do tempo, derrotadas por interesses mesquinhos, equivocados e separatistas.

“Os Espíritos do Senhor, que são as virtudes dos céus, como um imenso exército que se movimenta ao receber a ordem de comando, espalham-se sobre toda a face da Terra. Semelhantes a estrelas cadentes, vêm iluminar o caminho e abrir os olhos dos cegos.

“Eu vos digo, em verdade, que são chegados os tempos em que todas as coisas devem ser restabelecidas no seu verdadeiro sentido, para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos.

“As grandes vozes do céu ressoam como o toque da trombeta, e os coros dos anjos se reúnem. Homens, nós vos convidamos ao divino concerto: que vossas mãos tomem a lira, que vossas vozes se unam, e, num hino sagrado, se estendam e vibrem, de um extremo do Universo ao outro.

“Homens, irmãos amados, estamos juntos de vós. Amai-vos também uns aos outros e dizei do fundo de vosso coração, fazendo a vontade do Pai que está no Céu: Senhor! Senhor! E podereis entrar no Reino dos Céus”. (O Espírito De Verdade)

***

Este alerta trazido pelo guia espiritual de Allan Kardec deixa estabelecido que o Espiritismo veio para renovar o homem, fazendo-o entender quem é e qual a sua função no mundo dos “vivos”. Crescer e renovar-se para tornar-se cristão.

Os recursos de que se serve o Espiritismo são a divulgação das verdades que nos dão conhecimento claro de quem somos nós, o que nos compete fazer neste breve momento da nossa eternidade e para onde iremos depois daqui.

Embora seja louvável o trabalho de caridade material executado pelas entidades espíritas, quando distribuem roupas, alimentos, curas espirituais, não é esta a prioridade da Doutrina dos Espíritos. Ela não veio para cuidar dos corpos, mas das almas. O Evangelho de Jesus, que teve sua essência renovada e atualizada pelo Espiritismo, afirma a mesma coisa. “Vai e não peques mais”; “ninguém sairá daqui enquanto não pagar até o último ceitil”; “Ama o próximo como a ti mesmo!”.

O atendimento às necessidades básicas do homem é da alçada de todas as pessoas, independentemente de sua crença. É um dever de solidariedade do ser humano que pretenda ostentar o título de cristão. Ser espírita é eficiente recurso para atingir esse objetivo, no entanto, quando os poderes constituídos cumprirem integralmente o seu dever social, as necessidades materiais do homem estarão plenamente atendidas. Restará a ele, nesse momento, a tarefa do próprio aprimoramento, o que não pode ser transferida a terceiros. É nesta hora que o Espiritismo mostra sua verdadeira força. Tem as mais claras receitas para a conhecida reforma íntima do homem, que nada mais é do que a construção do seu bom caráter.

A vivência do Espiritismo pelo próprio homem irá fazê-lo melhor a cada dia. Temos usado tempo demais tentando aplicar a doutrina nos outros, com sábias receitas de reforma moral para os que nos ouvem, esquecendo-nos de vivê-las em nós mesmos. A velha frase ainda é válida: “Entramos para o Espiritismo, mas o Espiritismo ainda não entrou em nós”; “Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”, se é que deseja melhorar-se. Tribunos teóricos de discursos invejáveis que manejamos o verbo com sabedoria e eloquência, seguimos pecando nas mais elementares atitudes. Até a nossa mansuetude é muitas vezes mentirosa, artificial. Não resiste à menor contrariedade, porque nos sentimos os donos da verdade.

Muitos de nós que fazemos discursos com receitas para conserto da humanidade deveríamos ser ouvintes em vez de aconselhadores. Talvez aprendêssemos mais se parássemos para pensar honestamente e fizéssemos a autoanálise proposta na pergunta 919a de O Livro dos Espíritos. De cordeiros temos somente a pele.

Este escrito não se destina à condenação de ninguém; é mea-culpa para nossa própria reflexão porque, às vezes, vivendo distraídos perdemos nosso melhor momento. Empolgamos com o conhecimento e a verve fácil para divulgá-los, com frases de efeito e expressiva citação bibliográfica, deixamos passar, distraidamente, a sua vivência. E quando alguém elogia nossa facilidade de comunicação o perigo aumenta mais ainda. Sentimo-nos como faróis para a humanidade e nem percebemos que ainda não iluminamos nem a nós mesmos.

Como prova do que dissemos, reproduzimos nosso soneto “Pregações” da página 16 do livro Luz no Túnel de 1998, nosso primeiro livro de poesias editado em João Pessoa (PB): “Quando me ponho na tribuna a dar conselho / Vou informando de paciência e caridade / Para que um dia toda a comunidade / Seja feliz e a mim me tenha como espelho. / Infelizmente, não é esta a realidade. / O tempo passa e eu já sou um homem velho / E, no entanto, quase nunca sou parelho / Entre o que ensino e o que vivo, de verdade. / Mas eu espero que aquele que me escuta / Ganhe coragem para prosseguir na luta / E saiba sempre perdoar o inimigo. / De minha parte, carregando a cruz ao dorso / Tento viver, e isto me custa um grande esforço, / Ainda que seja dez por cento do que digo”.

Que Deus me ajude para que eu consiga aplicar em mim um pouco do discurso que ofereço aos outros. No meu comportamento no lar, no trabalho, na escola, na rua ou no agrupamento religioso onde faço minhas mais importantes experiências de amor ao próximo. Que minha teoria seja vivida na prática. Ah, meu Deus! Fortaleça-me para que eu consiga. Feliz Ano Novo!

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – janeiro 2017

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