Parentela corporal e parentela espiritual

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante 

“E, tendo vindo para casa, reuniu-se aí tão grande multidão de gente, que eles nem sequer podiam fazer sua refeição. – Sabendo disso, vieram seus parentes para se apoderarem dele, pois diziam que perdera o espírito. Entretanto, tendo vindo sua mãe e seus irmãos e conservando-se do lado de fora, mandaram chamá-lo. – Ora, o povo se assentara em torno dele e lhe disseram: Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e te chamam. – Ele lhes respondeu: Quem é minha mãe e quem são meus irmãos? E, perpassando o olhar pelos que estavam assentados ao seu derredor, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos; – pois, todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.”[1]

Para compreendermos as palavras do Mestre Jesus, precisamos contextualizar a situação. Aquele era um momento que já havia uma perseguição acirrada contra Ele, Maria, mãe amorosa que era, temia pela vida de seu filho. Desejava de alguma forma protege-lo, atitude natural e esperada de toda e qualquer mãe zelosa. Fez-se acompanhar pelos irmãos de Jesus, filhos de José, que era viúvo, sendo Maria sua segunda esposa. O local que Jesus se encontrava estava cheio, inclusive ultrapassando as barreiras da porta, pois as pessoas queriam conhecer O Messias.

Alguém adentra a casa e diz ao Mestre que sua mãe o procurava. Naquele momento, ele, o mesmo que não condenou a mulher adúltera, que curou o cego, que acolheu Zaqueu, que pediu a Pedro para embainhar sua espada não seria o mesmo que repeliria sua mãe e não aceitaria vê-la. Muito pelo contrário. Começava ali, mais uma lição que o Mestre nos trazia: a diferença entre a parentela corporal e a parentela espiritual. Ele elevava, aqueles que comungavam com ele, naquele momento, ao mesmo patamar que a sua família, ao afirmar que “…todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.”

O Evangelho Segundo o Espiritismo[2], nos explica a diferença dos dois tipos de parentela. Mostra-nos que a corporal traz os laços frágeis como a própria matéria, os quais acabam por extinguir-se com o passar do tempo, dissolvendo-se moralmente desde a própria encarnação; a espiritual ao contrário, dura, perpetuando-se após o desencarne, fazendo com que a criatura através das muitas migrações reencarnatórias reconheça no outro, o ser amado, independente de qual título ele venha revestido e se apresente em sua vida.

Por isso, muitos daqueles que estavam comungando com Jesus do ideal cristão, mesmo não sendo parentes consanguíneos, colocavam-se na condição não de parentes espirituais de Jesus, naquele momento, mas estabeleciam uma parentela espiritual em sintonia vibratória, pois comungavam do mesmo objetivo. Ao afirmar que todo aquele que cumprisse a vontade de Deus constituiria sua parentela, mostra-nos que todos, formamos a família universal e somos filhos de um mesmo Pai.

Avançando um pouco mais neste pensamento. O sentido de família em latim é servidor. Então, quando fazemos parte de uma família, sendo está constituída da forma que nós desejamos ou não, estamos num exercício constante de servirmos uns aos outros, treinando a paciência, resignação e amor ao próximo. O Evangelho nos fala também da Piedade Filial[3]. Que vem a ser esta compaixão, esta misericórdia dos filhos para com os pais. Mas, em muitos casos, como agir de uma forma que não fomos ensinados a fazer? Como sermos condescendentes com aqueles que não foram condescendentes conosco?

O Evangelho também nos ensina que o maior dos males se originam no egoísmo e no orgulho. Muito do que condenamos enquanto filhos faríamos da mesma maneira se fossemos pais. Excetuando-se os excessos dos dois lados, a maturidade ensina-nos que muito do que não concordávamos antes decorre das próprias intempéries pessoais que a criatura humana vivencia no decurso da encarnação, não significando vinculações deterioradas entre as partes, mas fatos que precisam ser lapidados no decurso desta mesma reencarnação.

“Formam famílias os Espíritos que a analogia dos gostos, a identidade do progresso moral e a afeição induzem a reunir-se.”[4] Não estamos reencarnados num determinado agrupamento por acaso, aproveitemos a oportunidade de aprendizado ajudando-nos mutuamente e sempre que possível, ajudando aqueles que não comungam conosco da mesma família espiritual. Pois dia virá que todos os antagonismos se dissiparão e formaremos o mesmo grupo de entendimento, comungando do mesmo ideal de sublimação moral.

Jornal O Clarim – Setembro 2020

[1] S. MARCOS. cap. III, vv. 20, 21 e 31 a 35 – S. MATEUS, cap. XII, vv. 46 a 50.

[2] Capítulo XIV

[3] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XIV, itens 3 e 4

[4] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XIV, item 9

O bem e o mal

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante 

“629. Que definição se pode dar da moral? ‘A moral é a regra de bem proceder, isto é, de distinguir o bem do mal. Funda-se na observância da lei de Deus. O homem procede bem quando tudo faz pelo bem de todos, porque então cumpre a lei de Deus.

  1. Como se pode distinguir o bem do mal? ‘O bem é tudo o que é conforme à lei de Deus; o mal, tudo o que lhe é contrário. Assim, fazer o bem é proceder de acordo com a lei de Deus. Fazer o mal é infringi-la.[1]

Temos muito bem delineado o bem proceder em nossas mentes. Assenhoreando-se dos recursos morais que possuímos em plenitude, sabemos realmente quem somos e a capacidade de abstração feita daquilo que podemos realizar.

Isto vem a ser o ponto de partida com relação ao delineamento sobre o bem e o mal em nós mesmos. Aquilo que construímos de bom ou mal para nós ou para o semelhante, já que em virtude de análise crítica com relação aos outros somos ávidos nesta avaliação. Esquecemo-nos de usar de severidade senão só as nossas próprias ações e sermos indulgentes para com as faltas alheias[2].

Começando por entender o que vem a ser o bem proceder, verificamos que a atitude digna e honrada que o ser humano habilite ao que faça, não importando o que faça o candidata a proceder na construção do bem. Deste bem proceder, a sociedade edifica-se em o que se chama de uma nova sociedade, mas que não deixa de ser a mesma sociedade utilizando-se dos mesmos recursos em voga.

As leis escritas evoluem com o tem, mais o que estatui como bem proceder vai mais além disto. São as regras morais que transmutam-se no tempo e fazem a criatura alicerçar valores, respeitando-se a si e ao próximo, independente de testemunhas ou regramentos sociais que estipulem sanções. O bem proceder significa incorporar a Lei de Deus em nossas vidas de tal forma que não precisemos racionalizar se o que estamos fazermos é certo ou errado, o fazermos, pois constitui-se como regra de conduta moral assimilada de todos os tempos em nós e não mais conseguimos precisar quando adquirimos.

Regramento comum de explicação, o mal constitui-se na inexistência do bem. Quando a luz se faz, por menor que ela seja, a sombra se dilui. Da mesma maneira ocorre com relação ao bem. Ao sermos tocados, sendo esta a expressão correta a ser utilizada, pelo bem, há uma mudança física em nós. As substâncias deletérias que antes constituíam o nosso sistema, são dissipadas e absorvemos substancias quintessênciadas, muito sutis, que nos inundam o ser e nos nutrem.

Da mesma maneira que tomamos remédios em cápsulas ou em forma líquida quando estamos doentes, assim também ocorre quando estamos doentes da “alma”. Ao sintonizarmos no mal, adoecemos mentalmente, associamo-nos com criaturas e vibrações que nos imanta de substâncias que nos intoxicam e nos causam mal-estar. Algumas vezes, dizemo-nos “pesados” e assim o estamos não no sentido vulgar que essa terminologia é usada, mais em virtude de todas estas substâncias absorvidas.

Mas na caminhada evolutiva, temos a chance de errarmos inclusive de apreciação com relação ao certo e ao errado. Então como fazer o justo juízo de valor? “Jesus disse: vede o que queríeis que vos fizessem ou não vos fizessem. Tudo se resume nisso. Não vos enganareis.” [3] Nós sabemos discernir, fazermos aos outros o que gostaríamos que nos fosse feito. É que se constitui na regra de ouro do bem viver. Não há como errar com relação a isso.

Mesmo alguns alegando que o mal seja necessário para a criatura evoluir, sabemos que não temos o direito de produzir o mal para o outro como justificativa de sermos objeto de evolução dele. Muito pelo contrário. Estamos encarnados para nos ajudarmos mutuamente e sempre que possível aliviarmos o sofrimento do semelhante trazendo bálsamos salutar as suas dores. “… todos estais na Terra para expiar; mas, todos, sem exceção, deveis esforçar-vos por abrandar a expiação dos vossos semelhantes, de acordo com a lei de amor e caridade.”[4]

Agindo assim, seremos fieis cumpridores da Lei de Deus. Distinguindo o bem do mal, facultando o progresso da humanidade e sendo precursores deste mundo de Regeneração que só se concretizará com a modificação dos que aqui estiverem. O mundo, como estrutura, pode mudar, mas se nós não mudarmos, não faremos parte dele!

Jornal O Clarim – Agosto 2020

[1] Livro dos Espíritos

[2] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo X, item 17

[3] Livro dos Espíritos, questão 632

[4] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo V, item 27

Proteção

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante 

“Pergunta: Dissestes que seríeis para mim um guia, que me ajudaria e me protegeria; concebo essa proteção e o seu objetivo numa certa ordem de coisas, mas gostaríeis de me dizer se essa proteção se estende também às coisas materiais da vida? Resposta: Neste mundo, a vida material importa muito; não te ajudar a viver, seria não te amar.”[1]

Esta pergunta foi dirigida por Allan Kardec ao Espírito Verdade em meio a outras tantas que lhe eram feitas nos quinze minutos mensais que este nobre espírito lhe dedicava a responder questões adstritas a mensagem da codificação. Acordado este feito anteriormente[2] afim de ajudar ao codificador no transcurso do trabalho. Orientando, pedindo revisão e fazendo apontamentos para que o Mestre Lionês pudesse analisar o conteúdo.

Todo o trabalho de construção passa pela edificação da própria criatura humana. Engana-se quem observa à distância, que aqueles que colocam-se à frente de qualquer obra, que estes, também, não estejam passando por um processo de criação e edificação de si mesmos. Modificação de valores, solidificação de outros e absorção de tantos outros. A criatura edifica a obra edificando-se.

Neste processo, precisamos de apoio dos que nos amam. Amar enquanto tudo está conforme desejamos é muito fácil, compreende o difícil e ajudar a este a crescer, constitui-se no processo de evolução, nosso e do outro. Por isso, somos encarnados em pequenos grupos, as famílias. Para que esta proximidade nos ajude a entendermos melhor e nos colocarmos no lugar do outro. Não havendo esta proximidade, teríamos dificuldade de compreender os defeitos do outro e consequentemente de ajuda-lo.

Ao falarmos da Codificação da Doutrina Espírita, falamos de um trabalho de estruturação e modificação de parâmetros de vidas. Saímos do pequeno grupo familiar e nos associamos a criaturas que pensam conforme pensamos, mas que vieram normalmente com impressões de vida diferente das nossas e com as quais nos vinculamos com o propósito maior de divulgação da mensagem e modificação de nós mesmos. Buscamos apoio nos amigos espirituais no processo de aprendizado e nos momentos mais difíceis.

Assim também ocorreu com Kardec em sua vida particular, pois o mesmo em sua vida particular sofria transformações de todo gênero até por ele ser desacreditado por fazer um estudo científico da existência dos espíritos. E como todos nós, necessitava de amparo. Nisto surge a pergunta que encabeça o nosso texto, contendo uma das mais belas respostas que alguém que ama poderia dar a outra pessoa. Mas será que somente Kardec, em virtude do trabalho que executava, possuía a assistência de um espírito protetor? Será que nós, também não possuímos?

Há Espíritos que se liguem particularmente a um indivíduo para protegê-lo? ‘Há o irmão espiritual, o que chamais o bom Espírito ou o bom gênio.’”[3]Qual a missão do Espírito protetor? ‘A de um pai com relação aos filhos; a de guiar o seu protegido pela senda do bem, auxiliá-lo com seus conselhos, consolá-lo nas suas aflições, levantar-lhe o ânimo nas provas da vida.’”[4]

Sempre contamos com a ajuda e amparo de amigos que nos amam, desejam nosso bem e nos orientam no processo evolutivo. Sabem dos nossos defeitos e conhecem das nossas virtudes. Muitos destes, constituem a nossa família espiritual. Estimulam-nos a crescer e tem a paciência de esperar quando insistimos em fazer o errado, pois dia virá em que retornaremos ao caminho do bem, único que nos leva a perfeição.

Por mais que acreditemos que caminhamos sozinhos no processo de transformação de criaturas velhas em ser humanos melhores, sempre existirão mãos amigas, algumas das quais invisíveis, a nos sustentar os passos. Tendo como principal destas o nosso anjo guardião, espírito superior em moralidade e intelectualidade que está vinculado a nós para nos orientar durante a encarnação. Sempre recorramos a ele, não importa quem o seja, importa a sua presença em nossas vidas. Silenciemos o barulho interior para que possamos escutá-lo em nós!

Jornal O Clarim julho 2020

[1] Livro Obras Póstumas, Mensagem de 9 de abril de 1856

[2] Livro Obras Póstumas, Mensagem de 25 de março de 1856

[3] Questão 489 de O Livro dos Espíritos

[4] Questão 491 de O Livro dos Espíritos

Bendigamos

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“Não tornando mal por mal, ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo; sabendo que para isto fostes chamados, para que por herança alcanceis a bênção. Porque quem quer amar a vida e ver os dias bons, refreie a sua língua contra o mal, E os seus lábios não falem engano.”[1]

Estarmos encarnados é uma sublime oportunidade de aplicarmos o entendimento que a doutrina espírita nos faculta através da pluralidade das encarnações, sendo também esta pluralidade que nos proporciona divisarmos a explicação de fatos que não teríamos como entender se não fosse a explicação dada por ela.

Um dos capítulos que somente a pluralidade nos faculta o entendimento é o contido em o Evangelho Segundo o Espiritismo, intitulado Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos (IX). Porque num mundo em que o convite é a agressão pela agressão, injúria por injúria, calúnia por calúnia, ser brando e pacífico é um verdadeiro insulto para os adeptos do revide.

Entendendo que não estamos situados no círculo que nos vinculamos por acaso, vivenciando as experiências que ora vivenciamos, estamos num processo evolutivo que nos leva a perfeição e nos eleva a patamares superiores, mas que precisamos ultrapassar barreiras que não são externas e sim internas, para chegarmos onde desejamos.

Não agredirmos a quem nos agride constitui-se na primeira vitória sobre nós mesmos. Pois, o primeiro impulso é de reagirmos e não de agirmos. Mas a racionalidade espírita nos convoca ao pensamento que bendizer antes de agredir é o melhor remédio. Entendendo que o outro está doente por nos agredir, deveremos usar as técnicas que temos, assim como se estivéssemos num hospital atendente a um doente que nos chegasse, usando das medidas de contenção necessária, sem nos permitir abalar por ele. Este era o primeiro ponto a ser destacado.

Após, entender o que esta mensagem educativa/expurgativa tem a nos trazer como tratado de modificação em nossas vidas. Pois se já aprendemos que tudo que nos acontece é com um fim de melhoramento, que possamos melhorar para não termos que repetir a lição quantas vezes forem necessárias. Assimilado isto, o terceiro passo será como a minha conduta se pautará daquele momento em diante. Pois, deverá ocorrer uma mudança.

Mas, mesmo eu sendo o agredido e injuriado, terei que mudar? A resposta sem contradita é sim. Porque a nossa forma de ver a vida e de nos comportar perante ela está fora de sintonia e precisa ser readequada. Não significa que a injúria ou agressão foi correta, mas que serviu para que nós observássemos o nosso proceder o voltássemos o olhar para nós mesmos e inclusive como estávamos nos tratando. Não é o que o outro nos fez, mas o que iremos fazer com aquilo que o outro nos fez. É bem diferente.

Criaturas em desalinho moral, que ainda estagiam na infantilidade do ser existem convivendo com aqueles que estão mais avançados no processo de entendimento, que já saíram do patamar do “eu” e que procuram enxergar o “nós” em tudo que fazem. Criaturas que se assemelham a seres bestiais, que inclusive assumem funções decisões e de influência sobre a vida de tantas vidas.

Mas se já assumimos alguns passos na escalada evolutiva, não importando pouco ou muito diferente que estejamos destas criaturas que agridem aos outros, mas que na verdade estão agredindo-se e negando-se a oportunidade de absorver o amor universal, que possamos adequar a nossa conduta ao entendimento que professamos.

Quando nos preocupamos muito com a caminhada e deixamos de observar o ponto de chegada passamos a muito valorizar as pedras do caminho. A rosa possui espinhos, mas possui também pétalas que poderiam ser catalogadas como um colar a envolver os espinhos. Tudo depende da forma como enxergamos o que nos é apresentado. Bendigamos sempre a oportunidade de evoluirmos. Da mesma maneira que alfinetes nos ferem, pedras nos são colocadas, e agressões bem-postas, deveremos refletir “… quantas vezes já observaste o socorro invisível ao que era tido em conta de mal irremediável”[2] Mãos amigas nos sustenta a caminhada e nos ajudam a prosseguir diante dos sofrimentos vivenciados, inclusive, as injúrias e as agressões recebidas.

O questionamento não é a justiça ou não do que estamos recebendo, mas a forma como agiremos perante eles. O convite a reflexão e ao entendimento se faz presente. Quando assumirmos a postura de bendizer como Pedro nos impulsiona na passagem, verificaremos que em tudo cabe uma mudança de conduta: em nós e nos outros. Todos evoluímos. Aquele que se constitui nosso algoz, um dia também enxergará tal mensagem, não importando sobre que bandeira ela venha e permitirá se envolver nesta onda de amor e de paz que a mensagem reflexiva doutrinária espírita nos envolve e engrandece, permitindo-nos mudar a sintonia e fazendo-nos compreender, o significado dos apodos dos diferentes gêneros que recebemos.

“Bem-aventurados os que são brandos, porque possuirão a Terra.” [3] “Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.”[4] O Mestre nos promete a Terra da promissão pois os bens da terra são conquistados pelos poderosos da terra que desejam somente conquistar através da força e da violência. Fala-nos da filiação a Deus através de sermos pacíficos, pois esta é única maneira de alcançarmos o Reino de Deus em nós mesmos desde agora.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – julho 2020

[1] PEDRO. 3, vv 9 e 10.

[2] Livro: Palavras de Vida Eterna, psicografia Chico Xavier, autoria espiritual Emmanuel, capítulo 80 – Bendigamos

[3] MATEUS, cap. V, v. 4

[4] Id., v. 9.

Os milagres

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“Na acepção etimológica, a palavra milagre (de mirari, admirar) significa: admirável, coisa extraordinária, surpreendente. A Academia definiu-a deste modo: Um ato do poder divino contrário às leis da Natureza, conhecidas. Na acepção usual, essa palavra perdeu, como tantas outras, a significação primitiva. De geral, que era, se tornou de aplicação restrita a uma ordem particular de fatos. No entender das massas, um milagre implica a ideia de um fato extranatural; no sentido teológico, é uma derrogação das leis da Natureza, por meio da qual Deus manifesta o seu poder. Tal, com efeito, a acepção vulgar, que se tornou o sentido próprio, de modo que só por comparação e por metáfora a palavra se aplica às circunstâncias ordinárias da vida.”[1]

 

Jesus é Aquele que nos ensinou que não iria derrogar as Leis, mas fazer cumpri-las, como então, ele produziria milagres no sentido teológico da palavra? Deparamo-nos aqui, como em outros momentos da vida de Jesus, com atos que a ciência comum não conseguia explicar e trazia um sentido sobrenatural que fazia calar as massas e evitar especulações exigindo deles explicação sobre o que eles mesmos não conheciam ou não desejavam conhecer.

A questão do conhecimento da Lei de é facultada a todos nós o que nos diferencia é o seu conhecimento[2]. Que é aprofundado na proporção do que avançamos na senda evolutiva da perfeição. Jamais um professor exigirá um conhecimento de física avançada a um estudante iniciante da matéria, mas para ele chegar ao final do processo necessitou aprender as quatro funções básicas da matemática.

Isto significa outro ponto importante. A ciência e a religião andam de mãos dadas. Não existe separação entre as duas. “A Ciência e a Religião são as duas alavancas da inteligência humana: uma revela as leis do mundo material e a outra as do mundo moral. Tendo, no entanto, essas leis o mesmo princípio, que é Deus, não podem contradizer-se. Se fossem a negação uma da outra, uma necessariamente estaria em erro e a outra com a verdade, porquanto Deus não pode pretender a destruição de sua própria obra.”[3]. A imutabilidade e a inderrogabilidade traz-nos a estabilidade e a harmonia Universal. Assim sendo, a criatura cria bases sólidas no processo evolutivo.

A mediunidade que não é objeto único da doutrina espírita serve como mecanismo para trazer luz ao que parecia sobrenatural. Desmistifica as curas como um processo de transfusão de fluidos partindo-se dos efeitos para as causas, chegamos a origem dos fenômenos, trazendo-nos a certeza que a comunicabilidade nada mais é que um fato natural ocorrido de mente a mente entre as criaturas ditas mortas e os encarnados. Que vem nos provar mais uma vez que não há derrogação da Lei, mas o cumprimento dela em sua maior pureza.

Outros alegam nos fatos da mediunidade o charlatanismo. Nunca dissemos que a mediunidade não possa ser falseada, sempre solicitamos que os fenômenos fossem estudados para que houvesse uma separação do joio e do trigo, do falso e do verdadeiro, da mentira e da verdade. O embuste permeia a existência humana, mas a criatura desonesta só falseia o que é verdadeira, principalmente aquilo que gera respeito na criatura, mas que a mesma ainda não detém os meandros de sua execução. Parte-se de um princípio verdadeiro, justo e correto para falsear e levar-se vantagem sobre ele.

Mesmo nos tempos atuais, os fenômenos espíritas, em sua grande maioria, são espontâneos. Constamos, em muitas situações, com o detalhamento realizado por parte dos médiuns sobre os fatos, que eles jamais tiveram acesso anteriormente. Desconheciam a existência dos personagens e em alguns dos casos, tais situações fogem a realidade vivida atualmente. A inconsciência é outro fator a ser destacado. Mas, mesmo que tudo isto não fosse objeto de convencimento, imaginemos que Deus iria criar toda uma estrutura Universal, obra gigantesca, para depois modificar pequenas partes ao sabor do bel prazer? “Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas.”[4]

Como a inteligência suprema iria ter ideias menores diante do todo? Como Ele iria mudar Sua Lei para beneficiar este ou aquele? Ele Justo e Bom para todos, fazendo-nos que estejamos imiscuídos na mesma Lei, diante das mesmas situações para termos as mesmas possibilidades de escolhas. Não há milagres, somente desconhecimento, ainda, da Lei. Pouco a pouco o véu do esquecimento se desvalerá da nossa visão espiritual e conseguiremos deslumbrar o que ainda não vemos com os olhos do espírito imortal.

Jornal O Clarim – junho de 2020

[1] Livro A Gênese, capítulo XIII, item 1

[2] Livro dos Espíritos, questão 619

[3] Livro Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo I, item 8

[4] Livro dos Espíritos, questão 1

Jugo Leve

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante 

“Neste pandemônio de perturbações de toda ordem, que decorrem da psicológica, faz-se inadiável a mais ampla divulgação do Espiritismo e de suas libertadoras propostas de lógica para contrabalançar a força ciclópica do materialismo que domina a sociedade. Ampliar as informações sobre a Espiritualidade e a Erraticidade, sobre a Lei de Causa e Efeito, é dever de todos aqueles que já despertaram para Jesus e a própria consciência, assim contribuindo em favor da humanidade e do seu próximo vencido pelas perturbações psicológicas ampliadas pelas obsessões. Ninguém, que se possa escusar desse dever de solidariedade humana e de conscientização dos próprios deveres ante a vida e Deus. Em assim procedendo, estará desincumbindo-se do dever de consciência, auxiliando hoje, conforme foi auxiliado oportunamente, quando, de alguma forma se encontrava em situação semelhante. [1]

Quando Jesus nos fez a proposta do fardo leve e do jugo suave mostrou-nos através do exemplo o caminho que deveríamos seguir. Exemplificou-nos o processo, mesmo não precisando ele mesmo passar, que era possível, diante dos percalços da vida, das tribulações, ajudarmos ao próximo e alçarmos voos rumo ao mais alto. Sendo esta temática desenvolvida em nosso artigo.

Momento grave que a humanidade vivenciamos. Impar, que podemos mudar a nossa e a história de nosso semelhante ou ficarmos esperando que mudem a nossa. Não somos mais os mesmos, queiramos ou não. Os profissionais da área podem dizer que arquétipos foram acordados diante das situações atuais, que memórias adormecidas foram afloradas e todos fomos colados em situação de decisão com relação a nós mesmos.

Sendo uma verdade muito bem dita a nosso ver e a luz do conhecimento espírita. Vivemos um período em que as informações nos chegam de forma avassaladora, live dos mais variados assuntos são projetadas, a criatura está exposta não só ao conhecimento, mas as fake News como nunca fomos antes.

Mas movimento singular também se interpõe a tudo isso: criaturas abnegadas, dos mais variados segmentos, doam-se de si, mais aquilo que estão doando materialmente ao próximo e seguem o exemplo do Mestre Rabi, transformando carregando seu jugo de forma leva e demonstrando que ele pode ser suave se carregado com amor a exemplo de Jesus.

“Se vos dizeis espíritas, sede-os.”[2] Chegou também o nosso momento de usarmos da luz aclaradora da mensagem redivida do Evangelho em nossas vidas e demonstramos o quão força ela tem em nossas vidas. Muito mais do que palavras e mensagens em rede de relacionamentos, deveremos demonstrá-la nas redes de relacionamentos físicos e familiares.

Momento em que somos convocados a volta ao lar, em que nos olhamos nos olhos de forma singular, compartilhamos de forma mais íntima com aqueles que víamos mais de relance, mesmo morando há anos, não compartilhávamos da intimidade. Conhecemos detalhes que antes haviam se perdido. Temos a oportunidade de dirimir situações mal resolvidas que faltavam somente um diálogo para a solução.

Sabemos, que outros tantos lares estão vivendo momentos cruciais de crise. Separações são debeladas. Mais nada que não estivesse, em sua maioria, em vias de ocorrer e que a ausência costumeira do lar deixasse na superfície tais situações permitindo-se que as criaturas envolvidas não se permitissem resolver o que era necessário fazer. O grande problema é a sintonia, o tom como está sendo realizado.

Sairemos transformado desta situação. Olharemos para os que nos circundam de maneira diferente, por que também tivemos a oportunidade de mergulharmos em nós mesmos e vermos quão diferentes somos daqueles que projetamos para os outros em virtude das várias personas que assumimos nas várias obrigações diárias.

Agora, somos a mesma pessoa dentro de casa que desempenhamos tarefas múltiplas nos relacionando com os de fora. Mergulhamos em nós mesmos e para surpresa de muitos, descobrimo-nos pessoas bem diferentes daquelas que gostávamos de projetar. Um dia, um jovem gerente a fim de conhecer a sua equipe, os levou para um parque. Queria ver como eles se comportavam diante dos brinquedos. Armámo-nos para nos defendermo-nos de nós mesmos, muitas vezes.

O momento atual mostra-nos que a necessidade de estarmos uns com os outros é maior que imaginávamos. De compartilharmos momentos felizes com que amámos é imprescindível para nós e que o considerávamos impossível de suportar representa um jugo leve e um fardo suave diante da perenidade da encarnação humana.

A busca do ser humano mudou desde quando começou este período de provação/expiação coletivo que nos encontramos. Cabe-nos escolher o que iremos fazer deste aprendizado: revoltarmo-nos, pior decisão a ser tomada; absorvermos e avançarmos no entendimento, forma madura de ultrapassarmos o momento. “Que importa ao soldado perder na refrega armas, bagagens e uniforme, desde que saia vencedor e com glória? Que importa ao que tem fé no futuro deixar no campo de batalha da vida a riqueza e o manto de carne, contanto que sua alma entre gloriosa no reino celeste?”[3]

 RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho 2020

[1] Livro: Reencontro com a Vida, psicografia Divaldo P. Franco, autoria espiritual: Manoel P. Mirarnda, cap. 2 – Perturbações Psicológicas

[2] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo X, item 14

[3] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo V, item 24

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