O óbolo da viuva

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Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Estando Jesus sentado defronte do gazofilácio, a observar de que modo o povo lançava ali o dinheiro, viu que muitas pessoas ricas o deitavam em abundância. – Nisso, veio também uma pobre viúva que apenas deitou duas pequenas moedas do valor de dez centavos cada uma. – Chamando então seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta pobre viúva deu muito mais do que todos os que antes puseram suas dádivas no gazofilácio; – por isso que todos os outros deram do que lhes abunda, ao passo que ela deu do que lhe faz falta, deu mesmo tudo o que tinha para seu sustento.[1]

Estar encarnado constitui-se a maior prova de amor que Deus poderia nos dar. Permitindo-nos fazer as escolhas que nos apraz e orientando-nos, através dos seus anjos tutelares, o caminho que deveremos seguir até alçarmos a perfeição relativa que nos é permitido alcançar. No processo evolutivo da criatura humana nos dispomos a escolher o caminho baseados nos exemplos que nos são mostrados, a exemplo da passagem da viúva.

Conta-se que um jovem rapaz desejava alcançar o mais alto patrimônio que um homem poderia amealhar na Terra. Para isso trabalhou muito. Acordava mais cedo que todos e ia dormir depois do último homem honesto da Terra. Fez isso até conquistar o que desejava. Mas isto só ocorreu quando ele se encontrava em idade avançada. Para conquistar o que desejava ele abriu mão dos amores, das amizades e tudo que sustentam a criatura humana no processo evolutivo e quando as forças físicas falham, ele desencarnou.

Nós evoluímos através das duas asas: do conhecimento e do amor. E das expressões emanadas delas: do conhecimento, temos o trabalho, o desenvolvimento intelectual, a disciplina, a assiduidade, etc; do amor, temos a caridade, a fraternidade, o perdão, etc. todas às vezes que enfatizamos o desenvolvimento de uma asa deixamos em desequilíbrio a outra. E o ser espiritual que alça a evolução Crística, encontra no equilíbrio espiritual a força motriz que liga e sustenta o conhecimento e o amor.

Ao chamar a atenção dos discípulos para o povo que lançava o dinheiro na caixa de donativos, o Mestre demonstrava que nem todos aqueles que possuem o valor aquisitivo financeiro ou do saber ou qualquer outro que traga o significado de superioridade aquisitiva sobre os semelhantes, também possuem a forma correta de entreguá-los. Pois que para se desvencilharem da obrigação, lançavam as moedas que possuíam em abundância. Eles tinham, verdade seja dita, mas não sabiam compartilhar.

Em contraponto, apresenta-se uma viúva, o sinônimo de uma criatura sozinha e desamparada, que pela própria situação que si apresentava, poderia negar-se a ajudar se fosse instada a fazer. Ela não somente de escolha própria o faz sem precisar ser provocada, como também deitava as moedas, num sinal de profundo envolvimento pelo ato de amor que está fazendo, entregando um pouco de si no próprio ato de dar, doando-se em amor ao próximo, não importando o próximo que o fosse, pois ela não conhecia.

Outro ponto a ser destacado na passagem são os valores repassados a caixa de donativos. Os mais ricos, lançavam em abundância; a viúva, deitou do pouco que possuía. Mais o importante não é a quantidade do que fazemos, mas como fazemos e o nossos envolvimento naquilo que fazemos. o amor que dedicamos e a importância que damos para o trabalho que estamos desenvolvendo em prol do outro.

Em trabalhos de caridade e assistência ao próximo e nas próprias Instituições Espíritas reconhecemos criaturas com grande potencial contributivo de ajuda ao semelhante que se escusam de fazê-lo pelo orgulho que possuem e justificam que não são capazes deste ou daquele trabalho, mas em realidade são incapazes de comportarem-se igual a viúva. Mesmo tendo pouco a oferecer, não querem vivenciar o processo de aprendizado e se exporem aos olhos alheios. Aprenderem a medida que estão executando, pois também constitui-se num processo de aprendizado que não findamos em concluir. Por isso, disse-se que o primeiro beneficiado é aquele que doa.

Fazermos algo somente quando temos condições de lançarmos em abundância os nossos donativos ainda demonstra a infantilidade da criatura humana que deseja ser vista e admirada por todos os que estão ao redor. Vejam como sou bom! Vejam como sou o melhor passista da casa, o melhor médium, o melhor palestrante! Enquanto, que o palestrante, passista, médium regular, mas perseverante, que oferece o seu óbolo, oferecem o que que há de melhor em si, aprendendo e melhoram-se a medida que executam se assim o desejarem.

A medida que nos aperfeiçoamos, aperfeiçoamos o trabalho que executamos em qualquer vertente a qual estejamos vinculados. Quantas vezes nos reinventamos em virtude do conhecimento adquirido. Que bom que isso ocorre, significa que estamos evoluindo, se nada mudasse, significaria que estávamos estagnados em conhecimento, uma das asas importantes para a evolução plena.

Dia chegará, que o desprendimento existirá em nós de tal maneira, que não mais teremos necessidade de analisar se este ou aquele comportamento está de acordo com os passos do Mestre, estaremos vivendo nos passos do Mestre. Pois ele mesmo nos afirmou: “Digo a verdade: Aquele que crê em mim fará também as obras que tenho realizado. Fará coisas ainda maiores do que estas, porque eu estou indo para o Pai.”[2]

Jornal O Clarim – Setembro 2021


[1] MARCOS, cap. XII, vv. 41 a 44. – LUCAS, cap. XXI. vv. 1 a 4.

[2] João, cap. 14, v 12

A Força Criadora do Pensamento

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Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Tudo quanto acalentamos nas nascentes do ser, o pensamento, passa a ser de interesse inadiável, mesmo que disfarcemos, evitando que o exterior revele o ser real que está oculto. Nas experiências do erro e do acerto, seleciona-se por automatismo o melhor, aquilo que propicia a felicidade. Em decorrência da fixação mental, vão-se plasmando no modelo organizador biológico ou perispírito, muito plástico, constituído de energia muito especial, as formas que serão assumidas pelo Espírito em próxima oportunidade de reencarnação. Toda forma é precedida por um modelo que lhe expressa o desejado, que se vai adaptando ao que lhe corresponde na mente. O planejamento é do Espírito que emito a onda mental e em contato com o ectoplasma consegue modelá-lo com os seus elementos semimateriais ou mesmo físicos.[1]

Já dizia Mateus que onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração[2], ao proferir esta afirmação, ele não imaginava a verdade que estava proferindo. Somos aquilo que pensamos, mesmo que mascaremos aquilo que pensemos, plasmamos em nossos derredor aquilo que tentamos ocultar. Da mesma maneira que influenciamos a nós mesmos também influenciamos o ambiente que estamos. Formando uma união simpática e harmónica ou dissociada de fluídos dos presentes.

As criaturas, elaboramos na mente aquilo que somos e o que iremos vivenciar. Desenvolvemos as nossas experiências de acordo com aquilo que nós pensamos traduzido em desejos que são frutos dos nossos hábitos adquiridos em virtude dos automatismos decorrentes das experiências repetidas ao longo das reencarnações. Mudando a matriz: o pensamento criador, mudamos a forma de agir. Parece fácil, mas não é, pois deparamo-nos com um cabedal de experiências já vivenciadas que nos moldam e fazem-nos executar de tal maneira e não de outra. Sendo este o movimento que deveremos fazer, modificar a partir de agora para não mais fazermos.

A mudança realiza-se em primeiro lugar é na área psíquica. Por isso, é tão difícil, mas não impossível. A criatura desvincular-se dos vícios de fumar, beber, comer de mais e tantos outros e não estamos falando aqui das associações de entidades que também se vinculam as criaturas portadores destes vícios. Estamos falando do processo físico e mental que a criatura necessita alterar para deixá-los. Iniciando-se o processo com uma terapêutica de “choque” para equilibra-se fisicamente, a principio a criatura, necessita-se curá-la espiritualmente em sequência, pois se isto não for feito, a criatura, viverá de terapêutica de “choque” em terapêutica de “choque”.

O pensamento bem direcionado, sendo esta uma das buscas da criatura humana, leva-nos a uma grande força criadora com relação a nós mesmos. Somos capazes não só de transportarmos as montanhas da ignorância, mas de sairmos da fase que nos encontramos e ultrapassarmos as barreiras morais inferiores e caminharmos para faixas superiores de elevação moral. Transformarmos o campo das formas que nos circundam através da força criadora que existem em nós. O pensamento bem direciona impulsiona o ectoplasma, no qual estamos mergulhados, fazendo-o movimentar-se como elemento de consecução e construção.

Em virtude não só do que estamos pensando, mas também do que fazemos, pois o fazer também se constitui o ato de pensar em ação, a criatura plasma no perispírito, matéria maleável, aquilo que irá lhe constituir o arcabouço de experiências futuras. Então, não basta pensarmos bem, é necessário, agirmos bem. Para que na ação o pensamento movimente-se de maneira exata moldado e envolvido no que foi emito pelo Espírito pensante.

Dia virá que a criatura humana não mais terá necessidade de comunicar-se através do corpo somático. As conversas serão mente a mente. Dominaremos a força criadora do pensamento e conseguiremos nos expressar tão como somos, sem termos necessidade de subterfúgios e em muitos casos, mascararmos os nossos pensamentos de nós mesmos. A criatura busca em muitas situações fingir que não pensa o que pensa, que não sente o que sente e que não age como age. Acreditando que desta forma, não deverá se reajustar com a Lei Divina.

“Onde está escrita a lei de Deus? ‘Na consciência.’”[3] Todos nós detemos o Gene de Deus em nós. Por mais que pensemos de forma desajuizada este pensamento invariavelmente passa pelo filtro da consciência. Não podemos esquecer desse fato. Deus está em nós porque a Sua Lei está grafada em nossa consciência, por mais que o véu do esquecimento não nos permita compreender no todo, temos a intuição e isto nos permite caminhar para a verdade absoluta direcionando o pensamento para o correto e o justo.

Mais uma vez nos deparamos com a escolha para a criatura humana. Em espiritismo não existi o proibitivo. Em cristianismo não existe o proibitivo. Em ambos não existe o pecado. Existe a responsabilidade perante os seus atos. Por isso, ao pensarmos algo que foge ao que está conforme a Lei, deixamos marcas no perispírito. Antes de fazermos mal ao outro, através do pensamento, estamos fazendo a nós mesmos, não só porque nos imantamos por substâncias deletérias, mais porque nos “grafamos” de tais pensamentos. Momento chegará que a criatura olhará para outra e enxergará não a constituição somática, mas o que está grafado no perispírito. Seremos vistos de forma mais transparente. Isto não ficará adstrito somente aos médiuns videntes, mas a todos que estaremos constituindo um mundo que as barreiras físicas não constituíram empecilho para enxergarmos que somos em integralidade.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – setembro 2021


[1] Livro No Mundo de Regeneração, psicografia de Divaldo P. Franco, autor Manoel P. de Miranda, cap. 13

[2] Mateus, 6:21

[3] Livro dos Espíritos, questão 621

O maior mandamento

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Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Os fariseus, tendo sabido que ele tapara a boca dos saduceus, reuniram-se; e um deles, que era doutor da lei, para o tentar, propôs-lhe esta questão: – ‘Mestre, qual o mandamento maior da lei?’ – Jesus respondeu: ‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito; este o maior e o primeiro mandamento. E aqui tendes o segundo, semelhante a esse: Amarás o teu próximo, como a ti mesmo. – Toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.’[1]

Num mundo que o convite é para o cumprimento do Olho por Olho, Dente por Dente, defrontamo-nos com o Mestre Rabi convocando-nos ao amor a Deus e ao semelhante. Parece um contrassenso ou palavras que serviram para serem aplicadas num momento específico. Momento este que ressoa ainda mais agora em nossos corações, pois que a humanidade já avançou em entendimento e alguns afirmam que as criaturas não se permitem mais ao amor ao semelhante nem tão pouco a glorificação de Deus. Será que está correto este pensamento? De maneira alguma!

Mais atual que nunca, amar a Deus e ao semelhante, constitui-se como pedra angular e guia da criatura humana. Vivemos buscando um meio de prosseguirmos a encarnação. Muitos de nós, afirmamos que não temos objetivo na existência reencarnatória, esquecendo-nos que a principal obra de nossas vidas é evoluir. Mesmo aqueles que se dizem não reencarnacionistas, pois entendemos que nenhuma criatura deliberadamente deseje ficar estacionária. Desejamos todos melhorarmos de padrão o qual estamos, seja com o objetivo financeiro, estamos saindo da escala atual para outra mais promissora, atualizando o conhecimento, aprimorando o que já possuímos e com isso adquirindo um cabedal que nos candidata ao aprendizado moral, através do conhecimento, avançando até chegarmos ao entendimento espiritual.

Saindo do negacionismo para o entendimento do divino em nós, passamos por várias experiências que nos provam que a criatura humana não está só habitando o Universo. Isto eleva o patamar do entendimento, permite que ela comece por interligar-se ao todo, a unidade da criação a toda a Criação. Percebe-se não como um dado jogado ao acaso, mas uma criatura com objetivos perante o Universo e perante a Divindade. Soma-se a isso, sendo um ser pensante que é, a possibilita da criatura ser co-criadora no bem que se estabelece no mundo.

Avançando-se mais, a criatura encontra-se como ser de contato com a Divindade, uma centelha de amor a vibrar no Universo. Pulsa na criatura a vibração do próprio criador. Não estamos mais entediados pela mesmice do dia a dia. Algo se diferencia em nós, pois estamos envolvidos pelo próprio Criador. Passamos a conjugar o verbo na primeira pessoa do plural, não mais no singular. Entendemos que não somos sozinhos no Universo, estamos vinculados uns aos outros para que possamos individualmente evoluirmos.

O amor entende-se como sendo o transbordar da Lei de Deus em nós. Amar a Deus sobre todas as coisas é em primeiro lugar, conectar-se com a Lei, para conectar-se com o próprio Deus. Ainda temos uma visão restrita do que vem a ser Deus, só os espíritos puros o conhecem. Mas a medida que o amamos, compreendemos a sua Lei e passamos a agir conforme ela emana. Assim, devolvemos em retidão o que a compreensão nos mostra.

Amar ao semelhante e compartilhar com ele o nosso entendimento sobre a própria Lei. Amar ao semelhante, possibilita-nos colocar em prática o que entendemos sobre a mensagem Divina. Não temos a compreensão completa, por isso nos é pedido que amemos como nós nos amamos. Não a amarmos mais do que entendemos da própria Lei.

Estarmos encarnados constitui-se na forma prática de aprendizado da Lei Divina. Não poderemos recuar diante da proposta de amar: “Podem os Espíritos degenerar? ‘Não; à medida que avançam, compreendem o que os distanciava da perfeição. Concluindo uma prova, o Espírito fica com a ciência que daí lhe veio e não a esquece. Pode permanecer estacionário, mas não retrograda.’”[2] , significaria retroagir na própria evolução, possibilidade que não é viável para a criatura humana.

Aproveitemos a possibilidade que nos foi ofertada e aprendamos a amar. Amar quem nos ladeia a reencarnação. Amar quem se coloca como opositor de nossos propósitos evolutivos. Isto não significa colocar no mesmo patamar as duas criaturas, mas não nutrir ódio por quem quer nos atrapalhar a caminhada. Temos a opção de caminharmos e assim desculparmos se nos for difícil demais perdoar ou saturarmo-nos desta energia até solvermos e desgastarmos ela em nós. Será um processo longo e doloroso de aprendizado que poderíamos ter nos poupados e avançado em outros terrenos do conhecimento e do amor.

Jornal O Clarim – julho 2021


[1] MATEUS, cap. XXII, vv. 34 a 40

[2] Livro dos Espíritos, questão 118

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Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Quando ele veio ao encontro do povo, um homem se lhe aproximou e, lançando-se de joelhos a seus pés, disse: Senhor, tem piedade do meu filho, que é lunático e sofre muito, pois cai muitas vezes no fogo e muitas vezes na água. Apresentei-o aos teus discípulos, mas eles não o puderam curar. Jesus respondeu. dizendo: Ó raça incrédula e depravada, até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei? Trazei-me aqui esse menino. – E tendo Jesus ameaçado o demônio, este saiu do menino, que no mesmo instante ficou são. Os discípulos vieram então ter com Jesus em particular e lhe perguntaram: Por que não pudemos nós outros expulsar esse demônio? – Respondeu-lhes Jesus: Por causa da vossa incredulidade. Pois em verdade vos digo, se tivésseis a fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a esta montanha: Transporta-te daí para ali e ela se transportaria, e nada vos seria impossível.”[1]

Cena singular na qual um pai de família representando todos os que chefiam os seus clãs familiares interpela o Mestre Rabi diante da manifestação do filho que se encontrava em processo obsessivo por subjugação.

Por ser digno de nota e objeto de explicação, temos o processo de obsessão como o envolvimento espiritual de uma criatura com relação a outra. No caso em deslinde, de um desencarnado para um encarnado. Fala-se que é de subjugação, pois o encarnado em questão, como bem destacado na passagem “… cai muitas vezes no fogo e muitas vezes na água …” demonstrando que o estado do subjugado “… é uma constrição que paralisa a vontade daquele que a sofre e o faz agir a seu mau grado. Numa palavra: o paciente fica sob um verdadeiro jugo.[2]

Entendido a questão do processo que ocorreu gostaríamos de destacar a questão que mais à frente que se desenvolve: da fé do tamanho do grão de mostarda. Deixa-nos pensar, pois que se os apóstolos que ladeavam o Mestre não na tinham como deveriam, nós, que não convivemos com Ele, pelo menos não temos esta lembrança, iremos ter ou desenvolver esta fé? Como, num processo de aprendizado acelerado que no momento estamos vivenciando, iremos trabalhar esta fé em nós?

Se observarmos, os apóstolos nada mais eram que tipos representativos da humanidade. Viviam em sociedade e para os costumes da época, grau evolutivo individual, padrão de entendimento da mensagem divina e compreensão da representatividade de Jesus naquele momento, também possuíam seus dilemas, dificuldades, mas também, contribuíram positivamente para o processo evolutivo de agrupamento no qual viviam. Influenciavam o seu clã e permitiam-se influenciar, levando tais conflitos ao Mestre.

Existiam fatores que eles não dominavam, mas que nem por isso eram excluídos da presença de Jesus. Sabiam-se aquém, em alguns momentos, do trabalho que eram convocados a realizar, mas não deixavam de executar quando eram convocados por Jesus. Por fim, sabiam-se que não conheciam todas as verdades que o Cristo trazia, mas nem por isso deixavam de acompanha-lo e dar testemunhos de fé em outros tantos momentos nos quais foram convocados a fazer. Muito pelo contrário. Executavam e procuravam fortalecer-se enquanto o faziam.

Quando erravam, corrigiam a rota. Não se permitiam tempo para lamentar a derrota. Num exemplo muito claro, após a negação de Pedro a Jesus, ele redimiu-se no trabalho bem executado em prol da divulgação da Mensagem de Amor do Mestre, sendo um dos mais fiéis apóstolos após a partida de Jesus juntamente com Paulo de Tarso.

Já nos orienta Erastro[3]: “Ah! bendizei o Senhor, vós que haveis posto a vossa fé na sua soberana justiça e que, novos apóstolos da crença revelada pelas proféticas vozes superiores, ides pregar o novo dogma da reencarnação e da elevação dos Espíritos, conforme tenham cumprido, bem ou mal, suas missões e suportado suas provas terrestres.”

A maneira dos apóstolos não nos é exigido a perfeição, nem tão pouco a compreensão absoluta para seguirmos os passos do Mestre e termos fé “… do tamanho do grão de mostarda”, mas os apóstolos nos ensinam na perseverança que desenvolvemos a fé através do trabalho árdua de devoção ao bem e modificação interior iremos trabalhando a argila igual aos vasos antigos que após serem moldados são levados ao fogo extremo e tornam-se sólidos, após a queima.

A fé não nasce pronta nem aparece num processo rápido. É construída dia após dia através do aprendizado constante da criatura para com ela mesma diante da vida. Não é mensurada em quantidade, mas em qualidade, sendo individual, revela-se nos mais diferentes e inesperados momentos da vivência da criatura. O que para um pode ser um fator desencadeador, para outro representa um momento de revolta, traduzindo-se também como uma soma de experiências passadas que a faz eclodir e solidificar na criatura. Ter fé é compreender que a vontade de Deus é a que prevalece porque ela representa o real cumprimento da Sua Lei.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – julho 2021


[1] MATEUS, cap. XVII, vv. 14 a 20

[2] Livro dos Médiuns, item 240

[3] Evangelho Segundo o Espiritismo, item 4

Médico das almas

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Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Sou o grande médico das almas e venho trazer-vos o remédio que vos há de curar. Os fracos, os sofredores e os enfermos são os meus filhos prediletos. Venho salvá-los. Vinde, pois, a mim, vós que sofreis e vos achais oprimidos, e sereis aliviados e consolados. Não busqueis alhures a força e a consolação, pois que o mundo é impotente para dá-las. Deus dirige um supremo apelo aos vossos corações, por meio do Espiritismo. Escutai-o. Extirpados sejam de vossas almas doloridas a impiedade, a mentira, o erro, a incredulidade. São monstros que sugam o vosso mais puro sangue e que vos abrem chagas quase sempre mortais. Que, no futuro, humildes e submissos ao Criador, pratiqueis a sua lei divina. Amai e orai; sede dóceis aos Espíritos do Senhor; invocai-o do fundo de vossos corações. Ele, então, vos enviará o seu Filho bem-amado, para vos instruir e dizer estas boas palavras: Eis-me aqui;

venho até vós, porque me chamastes.[1]

Num momento no qual em que a primeira palavra poderia ser de blasfêmia diante dos sofrimentos em que a criatura enlutada busca suprir a falta dos que já partiram ou por estar vivenciando as perdas materiais que assolam as nações e que por si só já causam grandes transtornos O Espírito de Verdade exorta-nos a uma reflexão sobre o sublime amor do Pai para conosco.

Diante das lutas do dia a dia, diante do leito vazio, diante das despedidas não feitas, convoca-nos a voltarmos os nossos sentimentos ao Espiritismo como consolo as nossas almas combalidas diante das intempéries que estamos vivendo. Tendo a convicção que os que já partiram, estão vivos, não somente em nossa lembrança, mas como criaturas eternas, iguais a nós mesmos que em algum momento iremos realizar a nossa passagem em mudança de plano constitutivo de densidade fluídica. Os que já partiram recebem as nossas vibrações de amor e ternura. Como também de saudade e tristeza.

Não acreditemos que os nossos esforços, por mais parcos e incipientes que aos nossos olhos possam parecer, representem algo perante a mudança que já se processa neste momento no Mundo. Não poderemos nos enfraquecer na boa obra da construção do bem, em virtude dos maus exemplos que nos circunda. Preenchamo-nos ao contrário da esperança e nos envolvamos das boas atitudes daqueles que estão em nosso derredor fazendo o bem pelo bem, entendendo que esta é a única possibilidade de vivenciarmos a consciência tranquila durante a existência terrestre.

Representantes de várias religiões unem-se em prol dos desvalidos. Cientistas não pronunciando o segmento religioso que professam dão-se as mãos. Anônimos deixam o recesso de seus lares para buscarem outros lares em doação de si mesmos para serem os Médicos de Almas que o Mestre Jesus preconizava a mais de dois mil anos. Todos estes são exemplos da prática do bem pelo bem. Sentirmo-nos oprimidos diante da avalanche dos acontecimentos é consequência esperada. Mais tenhamos a certeza que seremos aliviados e consolados pelos obreiros do bem, verdadeiros mensageiros do Pai que estão em nosso derredor.

Não busquemos alheres, nos prazeres transitórios, materiais, de gozo fácil que não preenchem a alma a cura para a alma combalida, a força e a consolação. Mas porque, então ele exorta o Espiritismo? Porque através do Espiritismo compreendemos que a vida continua, entendemos que somos herdeiros de nós mesmos, que através das várias vilegiaturas reencarnatórias equacionamos os erros passados e constituímos um somatório positivo de boas aventuranças em nosso benefício. Através do Espiritismo compreendemos de onde viemos, porque estamos aqui e para onde estamos caminhando. Entendemos que depende de nós o quão rápido ou lento será a nossa caminha rumo a perfeição relativa a qual estamos destinados.

Por fim, na passagem, há a exortação para que amemos e oremos. Em tudo fazemos escolhas. Ao amarmos deixamos de acalentar a dor, a revolta, a incredulidade e todos os outros vícios e instrumentos de sofrimento que nos afastam da Divindade e de nós mesmos. A oração nos sustenta nesta mudança de proposta, fazendo-nos enxergar o mais além. Quando estamos muito voltados para o presente, permitimo-nos imantar com mais facilidade da revolta, má conselheira, que nos impede de desenvolver a resignação e a obediência perante a Lei Divina.

O Mestre Jesus sempre se faz presente em nossas vidas. Basta desejarmos. Constitui-se numa questão de sintonia. De nos permitirmos envolver em seus exemplos e seguirmos seus passos. Nunca estamos numa caminhada a sós, além dos espíritos do Senhor que nos ladeiam os passos e nos instruem, sempre que solicitamos e nos tornamos dóceis a suas orientações, temos Jesus, de braços dados conosco, a nos dizer: Eis-me aqui; venho até vós, porque me chamastes.

Jornal O Clarim – junho 2021


[1] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VI, item 7

Coragem da fé

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Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Aprendestes que foi dito: ‘Amareis o vosso próximo e odiareis os vossos inimigos.’ Eu, porém, vos digo: ‘Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam, a fim de serdes filhos do vosso Pai que está nos céus e que faz se levante o Sol para os bons e para os maus e que chova sobre os justos e os injustos. – Porque, se só amardes os que vos amam, qual será a vossa recompensa? Não procedem assim também os publicanos? Se apenas os vossos irmãos saudardes, que é o que com isso fazeis mais do que os outros? Não fazem outro tanto os pagãos?”[1]

“Digo-vos que, se a vossa justiça não for mais abundante que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no reino dos céus.”[2]

Quando aportamos no movimento espírita, talvez pensemos que o maior ato de coragem fosse lidar com a presença dos espíritos. Pois, ato contínuo a existência da chamada vida após a morte, foi-nos informado que aqueles que partiram da indumentária física antes de nós e que se constituíram antagonistas nossos continuavam existindo no pós-morte.

Tempo passa e deparamo-nos com outra realidade. A dos vivos que nos ladeiam os passos. Dos encarnados que nos colocam em prova sobre o que constitui a nossa fé. Dizermo-nos espíritas dentro de uma instituição com criaturas que comungam do mesmo pensamento e que trazem histórias de vida semelhantes as nossas, pois desejam modificação na grande maioria, buscando na instituição a força e o apoio necessários para conseguirem suplantar as dores que trazem consigo, constitui-se o momento sublime das dificuldades que poderemos por ora encontrar.

Desavenças, descrença ou desvios que por ventura ocorram serão realinhados e direcionados. Aqueles que desejam permanecer no trabalho excelso do bem manter-se-ão firmes. Os que ainda não se evidenciam perfeitamente convencidos, sairão no momento correto, acrescidos da mensagem evangélica. No momento aprazado tal mensagem novamente eclodirá. Estando onde a criatura estiver, será um instrumento da mensagem viva do Amor do Cristo na vida dos semelhantes.

Falamos e desejamos abordar as criaturas que ultrapassam os limites da chamada tolerância e da boa convivência durante a encarnação, exigindo um pouco mais da nossa compreensão evangélica. Pessoas que estão ladeando-nos a encarnação, verdadeiros instrumentos da nossa compreensão do que vem a ser fé com o Cristo. Não estamos isentando com isso o comportamento do outro perante o ato, mas estamos nos colocando no devido lugar daqueles que já entendemos a mensagem espírita e como deveremos aplica-la no dia a dia de nossa encarnação. Pois, não é este o grande questionamento de nossas vidas, como fazer diante dos sofrimentos e aplicar o conhecimento espírita a nossas vidas atualmente?

É plausível o questionamento e viável a aplicação. Na verdade, nunca foi tão exequível a aplicação do conhecimento espírita em nossas vidas. Utilizando-nos do próprio conhecimento espírita entendamos que aquele que nos faz o mal o faz por desconhecimento da Lei Divina, mesmo ela estando insculpida em nossa consciência[3] somente através das várias encarnações e através do exercício do amor vamos descortinando o véu da ignorância que a encobre, este é o primeiro ponto que gostaríamos de destacar.

O segundo ponto, é que a criatura que assim o age, associa-se a criaturas tão desarrazoadas mentalmente quanto ela, formando um agrupamento que deseja dar vazão as suas tristezas, mágoas e revoltas contra nós ou a humanidade como um todo. Não podendo subir, procuram trazer para baixo aqueles que de alguma forma estão esforçando-se para crescer: “O desejo que neles predomina é o de impedirem, quanto possam, que os Espíritos ainda inexperientes alcancem o supremo bem. Querem que os outros experimentem o que eles próprios experimentam.”[4]

Quarto ponto. Pela Lei da Afinidade, diz o dito popular que o criminoso sempre volta ao local do crime. Não somos vitimas que estamos sofrendo a injunção pecaminosa de um algoz. Somos criaturas que estamos num processo evolutivo que possuímos um passado do qual necessitamos o devido reajuste moral. Se algo de tamanha monta nos acontece é porque em passado próximo ou distante fizemos algo que estava em desacordo com a Lei Divina e que neste momento necessita ser equacionado.

Quinto ponto. Em Doutrina Espírita aprendemos que a Justiça distributiva se faz para todos indistintamente. Mesmo que estejamos neste processo de reajuste e que o outro esteja servindo por escolha própria como instrumento para que tal ocorra conosco ele também terá seu momento de encontro com a Lei e a própria consciência. Pois estamos todos mergulhados na Lei de Justiça, de Amor e de Caridade.

Tendo a fé que nos sustente nos momentos graves da encarnação, seremos conduzidos para o porvir que nos fará ultrapassar os pórticos dolorosos que por ora estejamos vivenciando tendo a certeza que esta faze de dores passará para logo vivenciarmos os momentos de alegria e bem-aventuranças que tanto desejamos. Trabalhemos pela nossa paz e não nos detenhamos nos percalços da vida.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho 2021


[1] MATEUS, cap. V, vv. 43 a 47

[2]  MATEUS, cap. V, v. 20

[3] Livro dos Espíritos, questão 621

[4] Livro dos Espíritos, questão 281

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