Sessões Mediúnicas

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante 

“Artigo 17 – … As sessões são particulares ou gerais; jamais são públicas…

Artigo 18 – O silêncio e o recolhimento são rigorosamente exigidos durante as sessões, e principalmente durante os estudos. Ninguém pode tomar a palavra, sem que a tenha obtido do Presidente. Todas as perguntas dirigidas aos espíritos devem sê-lo por intermédio do Presidente, que pode se recusar a formulá-las, segundo as circunstâncias. São notadamente interditadas todas as perguntas fúteis, de interesse pessoal, de pura curiosidade, ou feitas com vistas a submeter os Espíritos a provas, assim como todas as que não tenham um objetivo de utilidade geral, do ponto de vista dos estudos. São igualmente interditadas todas as discussões que se afastam do objetivo especial do qual se ocupa.. [1]

Constituindo princípio básico de respeito de sociedade, mas principalmente quando estamos lidando com os espíritos, Kardec convencionou em Estatuto, normais formais que serviram de orientação para os presentes da época e para todos aqueles que quisessem replicar como modelo norteador de disciplina com relação as comunicações mediúnicas.

Algumas pessoas que adentram ao movimento espírita dizem não ser necessário estudar o livro dos médiuns, nem tão pouco ser preciso muitas orientações com relação ao trato com os espíritos. Afirmam estes que estamos falando da comunicabilidade e o fenômeno de incorporação ocorre de “lá para cá”, utilizando inclusive palavras de Chico Xavier. Mas esquecem-se que o próprio Chico, recebeu de Emmanuel como regra de execução do trabalho mediúnico três conselhos: disciplina, disciplina e disciplina.

Vemos no próprio Evangelho Segundo o Espiritismo que “… a mediunidade é coisa santa, que deve ser praticada santamente, religiosamente.”[2] Denotando assim, o respeito e a responsabilidade com que dever ser praticado. Não é algo de improviso, feito de qualquer maneira, em qualquer lugar, nem tão pouco com plateia. Deveremos nos preparar para execução do trabalho antes ou concomitantemente. Não permitindo ensaios, nem que mentes desavisada (encarnadas ou desencarnadas) utilizem-nos para expansões dos desejos e prazeres.

Começamos assim, a delinear a responsabilidade mediúnica que a criatura encarnada possui diante da própria ou quando responsável pelos trabalhos numa instituição espírita do grupo. Estamos tratando de fluidos, mentes, estrutura psicológica dos envolvidos que precisam estar preparados para tal trabalho. Todos os envolvidos não estão numa reunião social, mas num trabalho de ajuda ao próximo e de ajuda a si mesmos, fazendo um trabalho de catarse e modificação interior neste momento. Por isso, afirma-se que as reuniões mediúnicas seguem numa crescente, como também numa crescente segue a progressão individual de cada membro do grupo.

Infelizmente, “havendo chegado o seu tempo de divulgação, ampliando os horizontes das informações de alto significado, é natural que ocorram vários desvios de conteúdo, especialmente no que diz respeito à mediunidade pouco estudada e muito difundida.”[3] Cabe-nos, a nós espíritas, fazermos o bom papel de divulgação acertada. Incutindo a informação através do exemplo, mas também, através da instrução. Nas instituições espíritas, principalmente, orientar, disciplinar e conduzir o bom andamento dos trabalhos. Não podemos nos melindrar em corrigir o que está errado. Pois, compete-nos sermos os guardiões da mensagem, sendo os propagadores do bem.

Se temos acesso ao conteúdo, que o repassemos de forma correta, para que o erro não seja replicado em nome de não magoarmos a suscetibilidade alheia. “Considerando-se a gravidade de que se reveste, a mediunidade exige educação contínua e aprimoramento moral do seu portador, de modo a manifestar-se dentro dos padrões de respeito e de elevação que a devem caracterizar em todas as circunstâncias.”[4]

Ponto importante a ser destacado: o aprimoramento moral do médium. Muitos afirmam, que por ela ser orgânica, não haveria o que se falar sobre isso. Mas entendemos não ser desta forma. Quanto mais afinado o instrumento melhor o som é produzido. Quando mais culto e harmonizados com o bem, mais fácil aqueles que propagam o bem encontram ressonância e sintonia na emissão da mensagem. Somos àqueles que traduzimos a mensagem e quanto maior a sintonia, maior a exatidão, não havendo ruído para aqueles que estão recebendo.

Por isso que somos médiuns, mediadores entre os dois planos de energia e sensibilidade. Já não fazemos mais parte daqueles que vibram nas faixas mais inferiores, mas a nossa entrada ainda é interdita a zonas superiores pelas nossas mossas morais, as quais estamos, pouco a pouco, cicatrizando através dos bons atos, muitos destes nas reuniões mediúnicas de ajuda ao próximo. Por isso, que o estudo, a disciplina e o aprimoramento moral são as bases condutoras para a boa execução do trabalho mediúnico.

“A circunspeção, a seriedade na prática do fenômeno, a ação contínua da caridade, a maneira correta de viver, constituem os cartões de crédito que dignificam todos aqueles que descobrem os valiosos tesouros do serviço de intercâmbio espiritual.”[5] Nós médiuns somos seres comprometidos sim, não só com um passado espiritual, fato que todos os encarnados o são, mas principalmente, somos comprometidos com o trabalho assumido. A mediunidade é uma ferramenta de trabalho, que a atualizamos como meio de aperfeiçoamento e com isso, conquistamos créditos que angariamos em nosso proveito para de futuro utilizarmos.

Jornal O Clarim – janeiro de 2020

[1] Livro dos Médiuns, Capítulo XXX – Regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, capítulo III – Das Sessões.

[2] Capítulo XXVI, item 10

[3] Livro: Compromissos de Amor, capítulo: 37 – Comportamento Mediúnico, psicografado Divaldo Franco, Espíritos Diversos

[4] Idem

[5] Idem

Preces Espíritas

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante 

649 Em que Consiste a adoração?” Na elevação do pensamento a Deus. Deste, pela adoração, aproxima o homem sua alma.

  1. Qual o caráter geral da prece? A prece é um ato de adoração. Orar a Deus é pensar nele; é aproximar-se dele; é pôr-se em comunicação com ele. A três coisas podemos propor-nos por meio da prece: louvar, pedir, agradecer.[1]

O capítulo final de O Evangelho Segundo o Espiritismo contém uma coletânea de preces espíritas. Embora a Doutrina Espírita nos ensine que não há fórmulas para se orar, pois o que vale é o pensamento, os Espíritos trouxeram essa coleção de preces para facilitar aos que sentem dificuldade ao fazer uma oração ou que não acreditam nas suas próprias palavras por imaginar que elas não têm força suficiente para ajudar a si mesmo ou ao próximo.

Kardec divide em cinco partes a saber: Preces Gerais (Oração Dominical, Reuniões Espíritas, Para os Médiuns), Preces por Aquele Mesmo que Ora (Aos anjos guardiães e aos Espíritos Protetores, Para Afastar os Maus Espíritos, Nas Aflições da Vida, etc), Preces por Outrem (Preces por Alguém que esteja em aflição), Preces pelos que já não são da Terra (Por Alguém que Acaba de Morrer) e Preces pelos Doentes e pelos Obsediados (Pelos Doentes e Obsediados).

Entendemos que o Mestre Lionês foi muito feliz neste trabalho, pois antes de cada sugestão de prece ele faz uma explicação orientativa sobre do que se trata cada uma delas. Ao oramos, colocamo-nos em comunhão com Deus, num movimento de adoração, não contemplativa, mas de elevação do pensamento procurando mergulhar no psiquismo da Lei Divina, pensando , aproximando e nos comunicando com Ele, podemos absorver sua mensagem. Seja através de palavras já escritas ou formuladas por nós mesmos.

No livro Boa Nova, Humberto de Campos, relata uma conversa[2] de Simão Pedro com Jesus que vem a Desaguar na Oração Dominical que conhecemos. Conta-nos Humberto de Campos que a sogra de Simão Pedro foi curada por Jesus e vendo do que ela era capaz, pediu que Pedro solicitasse a intercessão do Mestre Rabi para a solução dos problemas matérias que eles possuíam. Afinal, eles foram dos primeiros a seguirem o Mestre.

Então, aguardando oportunidade certa, Pedro questiona o Jesus: “Mestre, será que Deus nos ouve todas as orações?” É uma questão delicada. Somos seres limitados tentando compreender e traduzir as atitudes de um ser ilimitado que é Deus. De acordo com a resposta do Mestre, temos a tendência de buscarmos o mais alto e necessitamos de comungar com essa experiência. É o que ocorre quando pedimos, louvamos ou agradecemos. Buscamos a Deus através de várias formas, não obrigatoriamente de palavras ditas, recitadas ou não, mas as nossas ações e os nossos sentimentos deverão corroborar o que estamos expressando naquele momento. Então, todas as nossas orações são ouvidas, mas o atendimento é para o espírito eternos, não para a criatura que vive sob a influência das vicissitudes materiais.

Pedro não se dá por vencido, assim como nós. E pergunta: “Se Deus ouve as súplicas de todos os seres, porque tamanhas diferenças na sorte?” Neste momento, Pedro começa a si comparar e comparar sua família a de outros, da mesma maneira que fazemos algumas vezes em nossas preces. Em vez de analisarmos a nós mesmos e o que podemos fazer para nos melhorarmos e alcançarmos o nosso objetivo. Jesus nos lembra que todos pertencemos a Deus, então, todos somos seus servidores. Cada um em seu campo de atuação contribuindo para o progresso e transformando a vida em uma perfeita oração de amor. Trabalhando no bem, pelo bem, no sentido do bem para todos.

Neste diálogo que se estabeleceu, Simão Pedro procura saber “… como deveremos interpretar a oração?” O Mestre nos orienta que “em tudo deve a oração constituir o nosso recurso permanente de comunhão ininterrupta com Deus.” Nos momentos bons, nos momentos ruins. Nas horas felizes, nas horas tristes. Termos na oração a companheira diária que nos apazigua a mente, nos acalenta a alma e nos ajuda a prosseguir. Nos ajudando a termos firmeza nos passos, equilibro nos pensamentos e certeza no processo de decisão.

Estar em comunhão com Deus e com a sua Lei não significa um movimento de corpo em que nos depomos ajoelhados ou que dizemos uma quantidade de palavras, ou tão pouco práticas exteriores que não condizem com o que estamos pensando ou sentindo. Pedro acreditava que estava de acordo e que mantinha inalterada a sua comunhão com Deus. Mas mesmo assim não lograva êxito. E mais uma vez questiona Jesus do porque não conseguir.

Mas, Jesus, que conhecia a alma humana, mais do que a própria criatura humana imagina, pergunta-lhe: “E que tens pedido a Deus?” A resposta não poderia ser diferente: “Tenho implorado à sua bondade que aplaine os meus caminhos, com a solução de certos problemas materiais.” Jesus, diante desta resposta, orienta a Pedro: “… enquanto orares pedindo ao Pai a satisfação de teus desejos e caprichos, é possível que te retires da prece inquieto e desalentado. Mas, sempre que solicitares as bênçãos de Deus, a fim de compreenderes a sua vontade justa e sábia, a teu respeito, receberás pela oração os bens divinos do consolo e da paz.”

Não nos é interditado solicitar bens materiais, mas que isso não seja objeto e objetivo único de nossas vidas. A mensagem do Mestre foi para o espírito eterno. Deveremos sempre solicitar bênçãos e compreensão do que está nos acontecendo naquele momento. Muitas vezes desejamos interromper algo que está servindo como experiência. Não podemos pular etapas. É da Lei. Neste momento Simão Pedro, também compreende isto e diz: “Senhor, ensina-nos a orar!…” Momento no qual, o Mestre Rabi pronuncia a Oração Dominical.

Revista Internacional de Espiritismo – RIE – janeiro 2020

[1] Livros dos Espíritos

[2] Capítulo 18 – Oração Dominical

Redenção em Nós Mesmos

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“O perseguidor de hoje naturalmente será o necessitado de amanhã rogando compreensão e ajuda. O sicário impiedoso de agora ressurgirá depois na condição de vítima à espera de misericórdia e simpatia. Aquele que cria dificuldade e embaraço quando na tarefa da nossa ascensão, despertará, posteriormente, enleado nos cipós da própria imprevidência, desfazendo os nós da irresponsabilidade. O criminoso inveterado que se compraz na prática do erro não fugirá da consciência em despertamento, agora ou mais tarde convidando-o ao ressarcimento. É do Código Divino que todo aquele que pertuba se pertuba, todo aquele que projudica, só a si mesmo prejudica. Assim considerando, tenhamos em mente o impositivo evangélico do perdão doando-o até mesmo aos mais impenitentes lutadores inimigos da nossa pa.”[1]

 

O Mestre Jesus na celebre passagem que responde a Pedro que deve perdoar não sete vezes, mas setenta sete vezes nos convida ao perdão irrestrito, sem limites. A termos tolerância para com o nosso próximo e resignação perante o cumprimento da Lei em Nossas vidas.

Não estamos encarnados vivendo situações casuísticas. Somos espíritos imortais, num processo evolutivo, num constante aprendizado que nos deparamos com criaturas, melhor afirmando, com situações que nos levam sempre ao encontro de nossas consciências em forma de reparo com a Lei. Rebelamo-nos com quem nos fere, mas esquecemo-nos que em algum momento fomos os construtores da situação e tais criaturas atuam como personagens da história.

Ouvíamos que o perdão é bom para quem perdoa, sendo uma verdade compreendida a posteriori. Ao ficarmos magoados, tristes com o que fizeram conosco, carregamos em nós mesmos, grilhões que nos prendem a situação e muitas vezes, prendemo-nos psiquicamente, a (s) pessoa (s) que deram causa. Além de termos sofrido uma vez, sofremos outras tantas em virtude da lembrança revivida do fato ocorrido.

O outro, que se constitui nosso algoz, muitas vezes, não lembra que fez, ou acredita-se no direito de ter feito, então, ainda não fez consciência de culpa com relação ao fato. Sendo nós, os únicos a carregarmos a situação conosco. Por isso, ser tão importante nos desvincularmos do ocorrido, sendo necessário como primeiro passo no processo de cura e libertação do sofrimento.

Nesta passagem que trouxemos e que intitula nosso artigo, verificamos que o nobre espírito, também destaca outro aspecto, faz-nos enxergar que mesmo que a consciência de culpa não tenha feito moradia na criatura, não há como fugir ao Código Divino. Que todos sem exceção estamos submetidos a ele. O ressarcimento faz parte da Lei, que hoje, somos nós que estamos ressarcindo e que amanhã será que está fazendo-se instrumento do nosso ressarcimento.

Pode parecer um pensamento egoístico, mas não é. Ajuda-nos a compreender o que nos acontece. Entendermos que em algum momento descumprimentos o Código Divino e por isso, estamos submetidos a correção de nossos atos. Pois acreditamos na reencarnação, entendemos que em tudo existe consequências, não existe nada que façamos que não reproduza eco, nas nossas como na vida dos semelhantes, então, se a Lei nos alcança, também alcançará àqueles que se tornam instrumentos do nosso sofrimento e reajustamento.

A prática do perdão, faz do entendimento da vida futura uma realidade, afastando a revolta de nossas vidas. Entendendo que a melhor forma de superarmos o sofrimento é amando. Se não conseguirmos fazer isto com relação ao nosso algoz, amemos mais que está ao nosso lado na caminhada. Sejamos mais doces, mais amáveis, mais caridosos, mais solícitos, também para isso ajuda-nos e ensina-nos a prática do perdão. Todos ganhamos quando perdoamos. Sem exceção. Mas quando permitimos que a amargura tome conta de nós, também àqueles que estão ao nosso lado, ladeando a jornada e nos ajudando nos tropeços, sofrem com a nossa dor e amargura.

Um ponto que gostaríamos de destacar é o da vingança. Pois, em algumas situações, temos a possibilidade de exerce-la. “Portanto, meus amigos, nunca esse sentimento deve fazer vibrar o coração de quem quer que se diga e proclame espírita. Vingar-se é, bem o sabeis, tão contrário àquela prescrição do Cristo: ‘Perdoai aos vossos inimigos’, que aquele que se nega a perdoar não somente não é espírita como também não é cristão. A vingança é uma inspiração tanto mais funesta, quanto tem por companheiras assíduas a falsidade e a baixeza.”[2]

Seria o que os evangelistas nos apresentam como dar a outra face. A face do entendimento. Quando temos a possibilidade de fazermos algo errado e não fazemos, é porque a luz do entendimento já faz moradia em nós. A luz do entendimento superior trazida por Jesus, que curava aos sábados, andava entre as pessoas de má vida e estava entre os que os escribas e fariseus condenavam. Estas mesmas pessoas existem entre nós. Somos criticados por não irmos à forra, mas estamos agindo de acordo com a nossa consciência e com os preceitos evangélicos que corroboram os nossos atos.

Jesus nos ensinou: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”[3] Demonstrando que a consciência ainda não desperta age de forma antagônica com o Código Divino. Um dia, que não tardará, o despertamento ocorrerá, como ocorreu para Jesus e para tantos que ladeiam o Mestre Rabi e nós que estamos em busca deste clarão de luz em nossas vidas, começamos a sentir raios de luz a produzirem-se cada vez que não nos vingamos e transformamos ódio em amor produzindo a redenção em nós mesmos.

Jornal O Clarim – dez 2019

[1] Livro Intercâmbio Mediúnico, cap. 46, Divaldo Franco, autoria espiritual João Cléofas

[2] Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XII, item 9

[3] Lucas, cap. XXIII, vv 34

Princípios evangélicos

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Waçkiria Lucia Araujo Cavalcante

“Medita estas coisas, ocupa-te nelas para que o teu aproveitamento seja manifesto a todos”. – Paulo. (I Timóteo, 4:15.).

Os princípios evangélicos são as normas que conduzem e orientam os seguidores de qualquer religião. Mas o entendimento dogmático da mensagem nada tem a ver com a mensagem de transformação moral que o Cristo nos trouxe. Associando-se o capítulo XV – Fora da Caridade Não Há Salvação, do Evangelho Segundo o Espiritismo com o capítulo159 – Aprendamos, no entanto… do livro Palavras de Vida Eterna de autoria espiritual de Emmanuel e psicografia de Chico Xavier trazer a ideia que mais importante que as práticas ritualísticas é a transformação que a criatura promove em si e acaba por influenciar ao semelhante em contato com a mensagem trazida por Jesus.

Jesus não veio implantar uma religião, mas traz aos corações humanos o sentido de religiosidade. Pregava àqueles que ninguém queria pregar, estava com quem ninguém queria estar, falava do que ninguém gostava de falar. Esta polidez evangélica, que até os dias atuais prevalece, que prefere mascarar a dor humana para não ter que trata-la, Ele trazia à tona, para poder trata-la. Conhecia o não dito pelo ser humano e ia ao encontro das mazelas humanas. Era desta religiosidade, deste religare que Ele veio nos falar.

Por isso, a passagem do Samaritano está bem acertada quando vem nos ilustra a questão da caridade. Não importa o título que possuímos, mas o que produzimos em proveito do nosso próximo. Pode parecer simples, mas nos dias atuais, em que muitas campanhas de caridade se vinculam ao movimento espírita, perguntamo-nos, quais delas estamos vinculados verdadeiramente? Ou quantas criaturas, utilizam-se de tais situações como meio de promoção pessoal ou para curar o vazio existencial mascarando suas dores internas?

Entendemos que fazer algo é melhor que não fazer nada. Mas estamos dando um passo a mais no entendimento do que está sendo realizado. Não podemos condicionar a nossa ajuda com um correspondente do outro ao nosso ato. Para que ele seja fiel a nós ou ao nosso credo. Ou tão pouco que a Divindade obrigatoriamente tenha que nos corresponder pelo nosso ato de caridade.

“Um homem, que descia de Jerusalém para Jericó, caiu em poder de ladrões, que o despojaram, cobriram de ferimentos e se foram, deixando-o semimorto. – Aconteceu em seguida que um sacerdote, descendo pelo mesmo caminho, o viu e passou adiante. – Um levita, que também veio àquele lugar, tendo-o observado, passou igualmente adiante. – Mas, um samaritano que viajava, chegando ao lugar onde jazia aquele homem e tendo-o visto, foi tocado de compaixão. – Aproximou-se dele, deitou-lhe óleo e vinho nas feridas e as pensou; depois, pondo-o no seu cavalo, levou-o a uma hospedaria e cuidou dele. – No dia seguinte tirou dois denários e os deu ao hospedeiro, dizendo: Trata muito bem deste homem e tudo o que despenderes a mais, eu te pagarei quando regressar. Qual desses três te parece ter sido o próximo daquele que caíra em poder dos ladrões? – O doutor respondeu: Aquele que usou de misericórdia para com ele. – Então, vai, diz Jesus, e faze o mesmo.”[1]

Muitas vezes estamos mortos segundo a carne. Vivendo “só por viver” como muitos afirmam. Acreditando que a esperança é um termo vão e que não vale mais a pena a encarnação. Defrontamo-nos com os mais variados tipos de pessoas: as religiosas, que pregam de lábios, mas que são frágeis em atitudes; os cultos, que entendem da ciência e da própria religião, mas que não corroboram em atos aquilo que falam. Mas de repente, aparece em nossa jornada, criatura singular, detentora de suavidade nos passos e firmeza no olhar, que nos transmite paz e nos acolhe sem nos perguntar o que desejamos.

Traz-nos o evangelho sem falar do evangelho. É o próprio evangelho em nossas vidas. Vive a singularidade de ser um Cristão mesmo sem ter talvez convivido com o próprio Cristo. Apensa as nossas chagas com o unguento do amor, e nos leva por caminho seguro até a hospedaria do templo onde Deus habita. Faz-nos ver o futuro e a esperança volta a brotar em nós. Não nos pergunta qual a nossa religião, mas demonstra que a dele é a do Cristo.

Para depois, firmes em nossas próprias pernas, possamos caminhar sozinhos. Entendendo que o apoio do outro é substancial em nossa caminhada para prosseguirmos, mas que os passos principais serão dados por nós mesmos. Os princípios evangélicos servem de norteadores neste momento para conduzirmo-nos rumo ao caminho do bem. Entendendo que o Mestre Jesus deu-nos o exemplo e deixou-nos emissários, mas que nunca a forma deverá superar o conteúdo.

Quando se afirma que Fora da Caridade Não Há Salvação, a Doutrina ilumina-nos o horizonte, mostrando-nos acima de tudo o princípio de irmandade que deverá conduzir-nos os passos. Ao ajudar o irmão, estou diminuindo em mim, o orgulho, a soberba e aumentando a empatia, o amor e a bondade. Saio de mim ao encontro do meu próximo e volto a mim, enriquecida do bem que fiz. Por isso, que nossas ações não devem estar pautadas a religião que abraçamos, mas ao sentido de religiosidade que faz a mudança em nós. O outro, não importando a que religião pertença é nosso irmão como também somos irmãos dele. Foi isto que o Mestre nos ensinou, foi isto que o Mestre vivenciou.

Jornal O Clarm – novembro 2019

[1] Evangelho de Lucas, capítulo cap. X, vv. 30 a 37.

Indissolubilidade do casamento

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“Também os fariseus vieram ter com ele para o tentarem e lhe disseram: Será permitido a um homem despedir sua mulher, por qualquer motivo? Ele respondeu: Não lestes que aquele que criou o homem desde o princípio os criou macho e fêmea e disse: – Por esta razão, o homem deixará seu pai e sua mãe e se ligará à sua mulher e não farão os dois senão uma só carne? – Assim, já não serão duas, mas uma só carne. Não separe, pois, o homem o que Deus juntou.

Mas, por que então, retrucaram eles, ordenava Moisés que o marido desse à sua mulher um escrito de separação e a despedisse? – Jesus respondeu: Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés permitiu despedísseis vossas mulheres; mas, no começo, não foi assim. – Por isso eu vos declaro que aquele que despede sua mulher, a não ser em caso de adultério, e desposa outra, comete adultério; e que aquele que desposa a mulher que outro despediu também comete adultério.. (MATEUS, cap. XIX, vv. 3 a 9.)

A primeira leitura, o texto pode parecer machista, pois fala-nos da dispensa do homem com relação à mulher. Mas o entendimento deverá ser diverso. Provindo de uma sociedade patriarcal, o poder de desfazimento do laço conjugal estava detido no homem, cabendo a ele o rompimento. Unindo-nos numa só carne, somamos os ideias evolutivos e transmutamos em educação ao fruto da união o somatório de quem somos.

Quando o respeito não faz mais moradia na convivência doméstica e a união não foi baseada no desejo mútuo de progresso, é lícito o desfazimento dos laços não construídos pela Divindade. Emmanuel (espírito), através da psicografia de Chico Xavier, no livro Vida e Sexo, capítulos 6 a 9, traz-nos luz ao entendimento das uniões e serve como balizador do desenvolvimento do nosso pensamento a partir deste momento.

Quando duas criaturas se unem em comunhão sexual, em primeiro lugar, deve-se estabelecer um vínculo de afinidade e confiança, pois além da parte material, existe o que Emmanuel denomina de “circuito de forças” que se estabelece entre as criaturas, no qual ambas de alimentam e retroalimentam psiquicamente destas energias espirituais. Quando há a fuga conjulgal, passa-se a estabelecer um desequilíbrio de forças, engana-se quem acredita que quem fica é que é somente o desequilibrado.

Em toda relação, em especial a conjugal, as bases deverão ser a do respeito e da responsabilidade para com o outro. Respeito para sempre analisarmos e não fazermos aquilo que não desejaríamos que fizessem para conosco e responsabilidade, pois ao vincularmo-nos emocionalmente a outra criatura, estabelecemos um compromisso, que ultrapassa qualquer documento assinado. É antes, um compromisso moral que nos disciplina espiritualmente, mostrando-nos neste pequeno mundo de relação a dois, como deveremos proceder na sociedade.

Fugindo das nossas obrigações conjugais, estamos desconsiderando o outro, mas estamos num processo de desconsideração de nós mesmos. De descompasso com o que assumimos outrora com o parceiro de jornada. Por isso, que adulterar vai mais além de trair. Adulterar é modificar o princípio, o acordo assumido entre as partes. Existem as regras civis, as regras sociais e as regras estabelecidas entre os casais. Quando se adultera, fala-se principalmente destas últimas.

Alegam que as relações profissionais e as redes sociais propiciam a traição. Entendemos que estamos falando do veículo. Seria como culpar a faça por ter cortado a mão. Quem corta a mão é quem empunha a faca. O mesmo equivale para as redes sociais e as relações profissionais. Utilizamo-nos e nos expressamos através deles, mas eles não nos possuem.

A indissolubilidade absoluta do casamento é uma lei humana[1], “O amor, sem dúvida, é lei da vida, mas não será lícito esquecer os suicídios e homicídios, os abortos e crimes na sombra, as retaliações e as injúrias que dilapidam ou arrasam a existência das vítimas, espoliados do afeto que lhes nutria as forças, cujas lágrimas e aflições clamam, perante A divina Justiça, porque ninguém no mundo pode medir a resistência de um coração quando abandonado por outro e nem sabe a qualidade das reações que virão daqueles que enlouquecem, na dor da afeição incompreendida, quando isso acontece por nossa causa.”[2]

Não podemos exigir do outro o que ele é incapaz de nos oferecer. Mas deveremos ter a decência de entender que o outro é um ser humano que merece o nosso respeito e que um dia nos enamoramos dele. O elegemos como parceiro de jornada, mesmo que não seja por toda a encarnação. Que tenhamos a decência de terminarmos da mesma maneira que começamos: com respeito. Respeito ao outro, respeito a nós mesmos. Para que não sejamos cúmplices “…suicídios e homicídios, os abortos e crimes na sombra..”.

A Doutrina “bentida” Espírita nos mostra as consequências dos nossos atos, fala-nos do livre arbítrio e da certeza evolutiva da criatura humana. Que as relações estabelecidas hoje não são fruto do acaso, mas que dependem de nós a forma como as iremos direcioná-las: sendo um calvário de dores ou palmas de flores a nos conduzir rumo à perfeição.

Temos como exemplo a mãe de André Luiz[3]. O Pai dele estava para reencarnar, após período em zona umbralina. A mãe que possuía arcabouço moral e estava em zonas superiores a Nosso Lar, visita-o e informa que irá reencarnar. Diz mais, que ambos quando atingirem a idade adulta irão se reencontrar, consorciar-se e receberem as jovens que foram desencaminhadas pelo pai de André Luiz. As relações conjugais fogem do determinismo que muitos acreditam existir. Somente a necessidade evolutiva nos condiciona os passos e as relações afetivas.

 

RIE – Revista Interacional de Espirtismo – novembro 2019

[1] Questão 697 de O Livro dos Espíritos

[2] Livro Momentos de Ouro – Chico Xavier, mensagem de Emmanuel, Lesões Afetivas

[3] Livro Nosso Lar, capítulo 46, psicografia de Chico Xavier, autor espiritual André Luiz

Felicidade

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“A felicidade é constituída de pequenas ocorrências, delicadas emoções, sutis aspirações que se convertem em realidade, construções internas que facultam a paz interior. Indague-se aos gozadores se eles estão felizes, satisfeitos com a vida, e com certeza responderão que se encontram saturados, cansados, desinteressados praticamente de tudo. Desse modo, consciente das muitas bênçãos que tens recebido da vida, especialmente se dispões de um corpo harmônico e saudável para aplicar-lhe as forças em favor do desenvolvimento intelecto-moral, amando e servindo sem cessar. No entanto, se te encontras com algum limite orgânico, sob a ação das tenazes do sofrimento de qualquer natureza, agrade a Deus a honra de resgatar os erros e adquirir o necessário para a felicidade que logo chegará.. [1]

 

Mas o que é a felicidade? Muitos acreditam ao adentrar no movimento espírita que os beneméritos da humanidade irão retirar de nós as dores que possuímos ou irão nos apartar a partir daquele momento e não mais sofreremos os labores das dores humanas e só seremos abençoados pelas hosanas nas alturas.

Desde o princípio, pelo contrário, somos apresentados à justiça das aflições e todas as suas consequências. Entendemos, mesmo que não consigamos aplicar em toda sua integralidade, que somos responsáveis pelos nossos atos e que semelhante a uma bola arremessada numa parede, a mesma força que empregarmos nela, voltará para nós. Da mesma maneira, os sentimos de ódio, raiva, amor e misericórdia que empregarmos com relação ao nosso próximo também retornará para nós. Mais ainda, nos envolvemos nele, nos impregnamos neles antes de os emitir.

No terreno do plantio livre, mas de colheita obrigatória, começamos a compreender que viver não se constitui num ato somente orgânico. É um processo espiritual e psicológico que comanda uma máquina orgânica. Rememorando o Evangelho Segundo o Espiritismo e corroborando a fala de D. Joanna como sendo a felicidade um estado interior da criatura e sendo um processo gerado em virtude do nosso comportamento, independente de fatores externos e sendo nós que influenciamos os fatores externos, verificamos que “O corpo não dá cólera àquele que não na tem, do mesmo modo que não dá os outros vícios. Todas as virtudes e todos os vícios são inerentes ao Espírito. A não ser assim, onde estariam o mérito e a responsabilidade?”[2]

Não poderemos colocar a culpa na constituição orgânica por sermos ou não felizes. Afastamos assim, um fator como sendo responsável pela felicidade. Outros alegam que só conseguirão ser felizes se conseguirem um determinado emprego, ou casamento ou filhos, enfim, colocam a felicidade em situações que dependem de acontecimentos exteriores, de vontades de outras criaturas para acontecer.

Primeiro, que mesmo que tenhamos, por imposição, o controle da vontade do outro, a felicidade não trará a alegria proporcionada igual aquela conquistada espontaneamente em virtude da consequência dos fatos e da livre escolha dos outros. Segundo, aprendi com um amigo, que não seguramos o vento em nossas mãos. Mesmo que por nossa imposição, que já é algo gravíssimo, o outro, se submeta a nossa vontade, ele estará cumprindo o nosso desejo enquanto houver uma permissão da Lei.

Então, se não controlamos a veste material, os fatos e as pessoas, como obter a felicidade sem mescla? Porque existem pessoas, que mesmo diante da adversidade, do sofrimento conseguem ter bom ânimo e leveza? Em síntese, como a Doutrina Espírita pode nos ajudar?

Não somos dados jogados ao acaso, estamos vinculados a um passado espiritual do qual demos causa e que hoje estamos colhendo as consequências e que o futuro de nossa colheita depende do que nós estamos plantando hoje. Que as criaturas que se vinculam a nós, mas principalmente as situações estão implicitamente ligadas a este passado espiritual construído por nós. Este é o ponto de partida que toda criatura madura parte para o entendimento da felicidade em bases sólidas.

Entendido isto, começamos a trabalhar e nos educarmos a sermos felizes. Pois a felicidade constitui-se em educação também. Lembremo-nos da história utilizada em grupos de autoajuda e que serve muito bem para ilustrar neste momento: enxergarmos o copo meio cheio. Isto não é técnica moderna. Jesus fez isso. Conta-se que Jesus e alguns discípulos andavam pela Galileia quando um cheiro horrível impregnou o ambiente.

Como sempre, o Mestre não se deixou abalar. E foi ao encontro de onde provinha o cheiro. Tentaram o impedir sem êxito. Seguiu juntamente com os discípulos e ao chegar ao local viu que era um cachorro em estado avançado de decomposição. Enquanto os outros ficavam horrorizados pela decomposição, o Mestre destacava o que de bom ainda era visível: o pelo e os belos dentes “brancos e fortes”.

Então, além de termos consciência de que estamos encarnados num processo evolutivo ascensional, modifiquemos o nosso olhar diante das mazelas da vida, porque mesmo no charco do sofrimento uma linda flor pode e brota para nós. Por fim, não estamos desamparados pelo Pai Amantíssimo. Somos todos seus filhos. Ele vela por nós, confiemos Nele, acreditando que tudo tem o seu momento e que as alegrias constituiem-se nas pequenas honrarias de sermos a mensagem rediviva quando seguimos o exemplo do Mestre.

Jornal O Clarim – outubro 2019

[1] Livro Libertação do Sofrimento, psicografado por Divaldo Franco, pelo espírito Joanna de Ângelis, Capítulo 22, A felicidade possível

[2] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XIX, item 10

Misericórdia

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“Toda vez que o indivíduo, descredenciado legalmente, procede a um julgamento caracterizado pela impiedade e pela precipitação, realiza de forma inconsciente a projeção da sombra que nele jaz, desforçando-se do conflito e da imperfeição que lhe são inerentes, submetido como se encontra à sua crueza escravizadora em tentativa de libertar-se. … Hábeis na arte de dissimular as desditas interiores, especializavam-se em desvelar nos outros as torpezas morais que os infelicitavam e não tinham coragem de enfrentar. É sempre esse o mecanismo oculto que tipifica o acusador contumaz, o justiçador dos outros, o vigia dos deslizes das demais pessoas.”[1]

Aprendemos na oração dominical que o Mestre Jesus nos ensinou que a medida/proporção/capacidade que perdoarmos os erros cometidos pelo nosso próximo para conosco, também desejamos que a Lei seja condescendente na mesma proporção em relação a nós. Mas normalmente, desejamos a misericórdia em nosso benefício, esquecendo-nos que o outro é tão filho de Deus quanto nós.

Esquecemo-nos também do contido em O Livro dos Espíritos, parte 3ª, capítulo 11, que nos instrui a cerca da Lei de Justiça, Amor e Caridade. Nós, de forma imatura, a interpretamos separadamente, mas a Divindade a traduz de forma igualitária, solidária e equitativa. A Lei se cumpre para todos, no momento certo de absorção do aprendizado; o Amor, representando a misericórdia Divina, encaminha-nos para a luz do entendimento e aproveitamento exato; e a Caridade são as mãos amigas que nos amparam os passos e nos conduzem a caminhada para que possamos realizar o devido reajustamento com a Lei.

Antigamente a figura do perdão era representada como uma barganha realizada entre a criatura e a Divindade. Eram oferecidos sacrifícios, hoje, sacrificamos o orgulho e a vaidade colocando-nos de um ponto mais afastado da situação. Daqueles que enxergam com os olhos do espírito a situação. Então, as passagens evangélicas começam a ter outro sentido. Quando lemos o contido em Mateus[2] Então, aproximando-se dele, disse-lhe Pedro: “Senhor, quantas vezes perdoarei a meu irmão, quando houver pecado contra mim? Até sete vezes?” – Respondeu-lhe Jesus: “Não vos digo que perdoeis até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes.”

O Mestre Rabi nos incute a ideia da tolerância e da paciência. Ele poderia ter usar qualquer número como variante para o cálculo. O que ele nos apresenta é uma propositura de dar tempo de conhecer o outro. De conhecer o outro lado da criatura e que também deixemos o outro, ao conviver conosco, conhecer-nos melhor, tendo a chance de modificar suas atitudes. Ninguém reencarna num agrupamento por engano. Não existem enganos na Lei de Divina, verdade seja dita que não possuímos vinculação com todos, mas estamos vinculados às situações e a muitos que nos circundam intimamente.

Pois bem, utilizando-se dessa figura de linguagem, Jesus nos conviva há tolerarmos um pouco mais, uma convivência que a princípio poderia ser cerceada se fatores maiores e superiores não nos obrigassem a permanecermos nela. A sabedoria nos mostra então, que poderemos administrar a situação e tirarmos algum ensinamento, promovendo o devido reajustamento com a Lei, tendo a possibilidade ambos de evoluir rumo à perfeição relativo que o próprio Jesus nos ensinou.

Assim, entendemos com mais facilidade afirmativas como esta: “À luz da Psicologia Profunda, o perdão é superação do sentimento perturbador do desforço, das figuras de vingança e de ódio através da perfeita integração do ser em si mesmo, sem deixar-se ferir pelas ocorrências afugentes dos relacionamentos interpessoais.”[3] O desejar fazer justiça com as próprias mãos. Ou como muitos dizem: Entregar nas mãos de Deus. Quando fazemos o mal aos outros, fazemos em primeiro lugar a nós mesmos.

Perdoar é bom para quem perdoa. Afirmativa que fere os nossos ouvidos e cala-nos fundo a alma, principalmente, quando estamos vivenciando experiências dolorosas neste momento. Mas a sistemática torna-se simples. Ao perdoarmos o outro deixamos de carregar conosco aquele sentimento de ódio, rancor, raiva e vingança que estamos/estávamos sentindo. Permitindo-nos sentir outros sentimentos pelas mesmas ou se não conseguirmos (algo compreensível, a princípio) por outras pessoas.

Mas como conseguir modificar a conduta em meio à turbulência? Evangelho no Lar, a boa prática de leitura de obras doutrinárias e a prece. Criamos um arcabouço mental de bons pensamentos que nos sustentam nestes momentos de queda. E coisa singular, parecem fios tênues que nos vinculam a outros tantos que vibram no mesmo pensamento de amor e edificação.

Que possamos praticar o perdão ao semelhante, mas que possamos exercer o autoperdão. Que deixemos que a Lei se faça em nós. Somos criaturas imperfeitas em processo de evolução constante, senão, não estaríamos encarnados neste Planeta. Nosso compromisso é com a execução. “Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.”[4] Que vislumbremos o porvir e não carreguemos pesos desnecessários na construção da criatura nova que somos.

[1] Livro Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, capítulo julgamentos, psicografado por Divaldo Franco, autora espiritual Joanna de Ângelis.

[2] Mateus, capítulo 12, versículos 21 e 22

[3] Livro Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, capítulo Reconciliação, psicografado por Divaldo Franco, autora espiritual Joanna de Ângelis.

[4] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XVII, item 4

Tribuna Espírita – julho/agosto 19

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