O jugo leve

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

Vinde a mim, todos vós que estais aflitos e sobrecarregados, que eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei comigo que sou brando e humilde de coração e achareis repouso para vossas almas, pois é suave o meu jugo e leve o meu fardo.[1]

Em ti buscando Senhor, encontramos o balsamos salutar que amenizam as nossas chagas e nos faz caminhar de forma resoluta diante da encarnação que ora vivenciamos. Entendendo que as dores que por ora entendemos atrozes representam as portas libertadoras para a nossa própria redenção. Antes de ser a oração do fraco, esta representa a oração daquele que aprendeu a caminhar com o Cristo, vivenciando-lhe os ensinos e compreendendo-lhe a mensagem de vida.

Os percalços que possuímos servem de degraus para ultrapassarmos as barreiras morais existentes em nós. Em lugar de vermos em nosso próximo o antagonista que serve como empecilho para nossa evolução, entendamos que é a criatura que nos ajuda a evoluir. Dia se faz que ao acendermos a luz interna acendemos a luz em nosso derredor. O projeto nunca é solitário, por mais que o pareça.

Ao fazermos por nós estamos fazendo por todos que estão em nosso derredor, mesmo que não o percebamos. Procurando aprimorar os recursos morais que já trazemos em bagagem espiritual, fortificamo-nos, com isso passamos a enxergar, aqueles que pareiam dificultar nossos passos de uma outra maneira. Estes, decidem ou permanecerem nas trevas da ignorância, perturbando-se e perturbando a outras criaturas ou ladeiam-se a nós e provocam-se em processo de depuração evolutiva.

Caminhar nos passos do Mestre Rabi, denota maturidade evolutiva. Pois, somos chamados a nos conhecermos interiormente, para conseguirmos aceitar o burilamento exterior, os quais somos convidados a fazer diuturnamente. Independente da interferência do próximo. Pois de tempos em tempos os nossos próprios clichês mentais se abrem e por nós mesmos realizamos catarses em busca de depuração, mas é através do próximo que realizamos os grandes encontros morais. É uma proposta de comunhão com Deus, para que possamos estar sempre prontos ao chamado da Lei. Em nossa grande maioria, desejamos os aplausos dos homens esquecendo-nos de que se aqui estamos encarnados, o principal objetivo é de sermos imolados para a glória nos Céus.

Imolados no orgulho, na vaidade, na preguiça, na cobiça e em tantos outros vícios que possuímos. Em virtude da peregrinação a exemplo da via crucis que o Mestre vivenciou antes da crucificação, observamos os açoites, os insultos, a balburdia e a própria cruz que carregamos, esquecendo que estamos vivenciando o processo não é o momento final de nossas vidas eternas. Que a exemplo do Mestre, que compartilhou na Última Ceia[2] com aquele que iria traí-lo, não permitiu se abater, mas reafirmou sua fé. “Minha vitória é a dos que sabem ser derrotados entre os homens, para triunfarem com Deus, na divina construção de suas obras, imolando-se, com alegria, para glória de uma vida maior.”

Com o advento da Doutrina Espírita, da Doutrina dos Espíritos, pudemos constatar que a criatura não morre. A reencarnação passou a ser um fato constatado que nos permite entender a necessidade de evoluir para não repetirmos a lição; a comunicabilidade com os ditos mortos comprova-nos as informações trazidas nos livros já editados, com riquezas de detalhes jamais imaginados; tendo a pluralidade dos mundos habitados a confirmação do progresso absoluto da criatura humana. Não somos dados jogados ao acaso. Somos criaturas interligadas que estamos num processo constante evolutivo, numa marcha incessante rumo a perfeição que Jesus nos apresentou.

Estar reencarnado constitui-se num divisor de águas na vida da criatura humana. Poderemos enxergar isto como uma oportunidade de aprendizado, no qual deixaremos para trás a criatura velha, que não mais comporta em nós; ou carregaremos grilhões por toda a encarnação, acreditando que Deus é injusto para conosco e que não nos vê as dores e os sofrimentos que estamos vivenciando.

Todos nós de uma maneira ou de outra estamos em processo depurativo. Falamos aqui dos necessários a evolução humana e frutos da catalogação e comprometimentos antes da lide reencarnatória. Não estamos falando daqueles que a criatura cria em virtude da sua incúria e desobediência a Lei vigente. Mesmo estes, acabam por servir como aprendizado para entender como deve se proceder e não agir de forma equivocada.

Todas as vezes que nos afastamos da lei somos infelizes, todas as vezes que agimos de acordo, somos felizes. Para aqueles que estão em desacordo, as palavras do Mestre não são válidas, mas somente os que procuram “… carregar seus fardos e assistir aos seus irmãos.”[3]  Saindo do egoísmo e enxergando que existem também dores que nos ladeiam passamos a carregar de forma mais suave a nossa própria encarnação.

JORNAL O CLARIM – MARÇO 2021


[1] MATEUS, cap. XI, vv. 28 a 30.

[2] Livro Boa Nova, capítulo 25, Autor Espiritual Humberto de Campos, Psicografia Chico Xavier

[3] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VI, item 6

Não vim destruir a lei

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Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

Não penseis que eu tenha vindo destruir a lei ou os profetas: não os vim destruir, mas cumpri-los: – porquanto, em verdade vos digo que o céu e a Terra não passarão, sem que tudo o que se acha na lei esteja perfeitamente cumprido, enquanto reste um único iota e um único ponto.[1]

Jesus não veio derrogar a Lei Divina ou Lei Natural, pois ela constitui-se na própria Lei de Deus[2]. Sendo a rota segura que nos conduz a felicidade, todas as vezes que nos afastamos dela, somos infelizes; todas às vezes que estamos de acordo com ela rumamos para a felicidade plena.

Nem o que foi estabelecido por Moisés, Jesus veio derrogar. O que foi trazido por Moisés pode ser dividido em duas partes. A primeira, constituindo-se num código moral de conduta para época, viriam a ser diretrizes para as criaturas que aportavam de um movimento politeísta, crença em vários deus. Entendiam que o palpável e o que não ultrapassasse os sentidos era a única coisa verdadeira. Moisés apresentou a existência de um Deus único, Soberano e Senhor e Orientador de todas as coisas[3].

Ao fazer isto, Moisés, primeira revelação, trouxe-nos a parte espiritual do seu trabalho: os dez mandamentos. Calcando a primeira viga de contenção espiritual, servindo como divisor de águas para os que eram seus conterrâneos. Podendo parecer pequeno nos dias de hoje, mas de grande singularidade. Fazia com que as pessoas da época voltassem seus olhos para um porvir singular, fazendo com que as puerilidades e pequenezes do momento deixassem de existir pouco a pouco e todos voltassem seus pensamentos para o que o Mestre Jesus iria ensinar.

Jesus sintetizou os dez mandamentos em Amar a Deus sobre todas a coisas e ao próximo como a si mesmo. Constituindo-se este amar no que O Livro dos Espíritos nos explica quando nos fala da Lei de Adoração: na elevação do pensamento a Deus.[4]Ao elevarmos nosso pensamento, saímos da faixa primária que constitui a criatura e passamos a enxergar a vida sob outro patamar. Colocando-nos à disposição do Criador para assimilarmos as benesses que proveem do mais alto, sintonizando com o que vem do mais alto, assim, ascendendo como criaturas e acendendo a luz divina em nós mesmos.

Podendo desta forma, projetar para o próximo o que a centelha divina cintila neste momento em nós, a máxima se torna verdadeira e conseguimos amar ao nosso próximo a medida que conseguimos nos amar e nos amamos a proporção que nos elevamos em pensamento ao Criador através do movimento de adoração, que é inato. Movimento este que fazemos quando reconhecemos as nossas limitações e nos curvamos perante o poder que nos protege.[5] Curvamo-nos de forma simbólica, reconhecendo quem somos para podermos evoluir. Não se constitui um jogo de palavras, mas a compreensão da criatura perante o Seu Criador, que é Deus.

Jesus era o educador por excelência. Ele nos tirava da educação punitiva-destrutiva e nos apresentava a educativa-reabilitadora[6]. Nós não somos culpados pelos nossos atos, mas responsáveis pelas nossas atitudes e deveremos nos reajustar perante a Lei, Lei Natural ou Divina como queiramos interpretar o que deixemos de fazer de correto ou façamos errado. A medida que formos corrigindo nossos atos iremos nos reabilitando perante a Lei e aprendendo a forma correta de fazermos.

As duas primeiras revelações eram calcadas em pessoas, morta a criatura, morta a ideia para alguns. Sendo que a Doutrina Espírita ou Doutrina dos Espíritos surge e Allan Kardec debruçar-se sobre o estudo que já havia-se iniciado, mas que o grupo necessitava de alguém que organizasse e conduzisse de forma coerente e adequada as respostas daquelas mesas falantes, apresentam-nos os Espíritos, não mais uma criatura, mas um grupo, na verdade todo um conglomerado que não poderia ser morto, pois o espírito é imortal, apresentando a pré-existência da criatura e a sobrevivência. Não da forma como era apresentado antes.

A própria comunicabilidade com os chamados mortos, a qual antes era feita de forma rudimentar e em alguns casos desrespeitosa, agora sobe de patamar e compreende-se que nada mais são que aqueles que conviveram conosco e que partiram antes de nós. Todo este mundo de relação que sempre existiu e que nós desconhecíamos, ignorávamos ou simplesmente não desejávamos tomar conhecimento. Por fim, nos é apresentado toda a possibilidade de explicação lógica de vida e vida além da vida. A calma e alegria que surge na criatura de sabermos que não estamos sozinhos. Que os seres que amamos continuam existindo e nos acompanhando de perto se assim for permitido e que um dia, encontrar-nos-emos felizes comprovando as verdades espirituais! Não vim destruir a Lei, mas sim fazer cumprí-la!

JORNAL O CLARIM – FEVEREIRO 2021


[1] MATEUS, cap. V, vv. 17 e 18.

[2] Livro dos Espíritos, questão 614

[3] Livro A Gênese, Capítulo I, item 21

[4] Questão 649

[5] Questão 650

[6] Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, psicografia de Divaldo P. Franco, autoria espiritual de Joanna de Ângelis, cap.I – Soberanas Leis

Escândalos

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Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Se algum escandalizar a um destes pequenos que crêem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós que um asno faz girar e que o lançassem no fundo do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos; pois é necessário que venham escândalos; mas, ai do homem por quem o escândalo venha. Tende muito cuidado em não desprezar um destes pequenos. Declaro-vos que seus anjos no céu vêem incessantemente a face de meu Pai que está nos céus, porquanto o Filho do Homem veio salvar o que estava perdido. Se a vossa mão ou o vosso pé vos é objeto de escândalo, cortai-os e lançai-os longe de vós; melhor será para vós que entreis na vida tendo um só pé ou uma só mão, do que terdes dois e serdes lançados no fogo eterno. – Se o vosso olho vos é objeto de escândalo, arrancai-o e lançai-o longe de vós; melhor para vós será que entreis na vida tendo um só olho, do que terdes dois e serdes precipitados no fogo do inferno.”[1]

Quando retratamos esta passagem de Mateus, a primeira impressão é que não poderemos corrigir a ninguém sobre nenhuma atitude errônea que ela venha a tomar. Mais ainda, que as consequências serão violentas se assim o fizermos. Então como agirmos diante dos dias atuais que as agressões tomam espaço e criaturas de mentes desavisadas avassam não enxergando o limite do legal, ético e correto?

Começamos por aumentar o entendimento sobre a palavra escândalo para depois entendermos o nosso comportamento atual. O próprio Evangelho Segundo o Espiritismo[2] quando nos fala sobre o tema, faz uma explicação adicional sobre a palavra escândalo, como sendo uma queda, princípios falsos, abuso de poder, etc. Verificamos assim, que não significa somente algo que vá provocar vergonha no outro, mas uma atitude errônea nossa perante a sociedade. Ponto importante a ser destacado neste momento.

Algo que nós esquecemos é que todos os nossos atos provocam ressonância, mesmo aqueles que só a nossa consciência é testemunha. “Invariavelmente, nesse caso, é de natureza íntima e ninguém toma conhecimento, porque permanece agindo no lado escuro da personalidade, fomentando distúrbios emocionais e comportamentais de variado porte, que se transformam em conflitos de consciência quando defrontados com o ético, o social e o espiritual.”[3]

A criatura é mais o que projeta em sociedade do que realmente ela é de verdade, por isso os conflitos existentes em sociedade. As máscaras sociais e o desejo de impor a sua vontade seja pelo poder, seja pelo exagero no que faz. Os disparates de comportamento e a fuga existencial. Criaturas não só desalinhadas com o eticamente existente, mas com a própria consciência que encaminha a criatura para os valores morais já adquiridos e corroborados pelos exemplos de amor que envolvem a criatura durante a existência. A criatura escandaliza-se escandalizando os outros através de comportamentos inadequados, muitas vezes agredindo-se para agredir, ferindo-se para ferir, extinguindo a existência carnal, como último ato de escândalo perante a sociedade.

Ou a criatura torna-se severo condutor de almas exigindo aquilo de que ela não é capaz de executar. “Quase sempre o indivíduo mergulhado na sombra, de que tem dificuldade de se libertar, disfarça as imperfeições projetando a imagem irreal de um comportamento que está longe de possuir, mas que se torna, não raro, severo para com os demais e muito tolerante para com os próprios erros. Estabelecida essa transferência psicológica de conduta, passa a viver em torvelinho de paixões e tormento de aflições que procura disfarçar com habilidade.” Procurando resolver no outro aquilo que não consegue resolver em si. Expõe, escandaliza o semelhante para que os seus erros não venham à tona e se um dia vier, sejam amenizados pelos erros dos outros que já foram expostos.

Entendemos que é necessário a corrigenda mais que adicionemos a ela a ética do amor. Que nos faz nos colocarmos no lugar do outro, antes de fazermos qualquer corrigenda. De pensarmos no bem da coletividade, antes de pensarmos no nosso próprio bem, de analisarmos a nós mesmos, antes de sermos juízes dos nossos semelhantes, pois quando nos colocamos na condição de corretor do comportamento alheio deveremos nos esforçar por sermos modelos daquele comportamento, não nos assemelhando aos títulos de poder da Terra que são dados àqueles que muitas vezes não merecem e não se constituem exemplos.

Educadores, pais, membros da sociedade, criaturas encarnadas que somos e que influenciamos o meio no qual vivemos, sempre que pudermos utilizar o poder do exemplo o façamos, mas quando nossas atitudes não forem suficientes para alcançarem a alma do outro, que nossas palavras estejam de acordo com elas. Para que aquele que nos observe veja que a nossa intenção não é escandalizar, mas educar. Trazendo ao ambiente equilíbrio e fazendo um pouco de justiça em sociedade de acordo com a Lei de Deus.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – fevereiro 2021


[1]  MATEUS, cap. XVIII, vv. 6 a 11; V, vv. 29 e 30.

[2] Capítulo VIII, item 11

[3] Jesus e o Evangelho a Luz da Psicologia Profunda, Divaldo Franco, autoria espiritual de Joanna de Ângellis, cap. 9 – Escâncalos

Oração

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

walkirialucia.wlac@outlook.com

Quando orardes, não vos assemelheis aos hipócritas, que, afetadamente, oram de pé nas sinagogas e nos cantos das ruas para serem vistos pelos homens. – Digo-vos, em verdade, que eles já receberam sua recompensa. – Quando quiserdes orar, entrai para o vosso quarto e, fechada a porta, orai a vosso Pai em secreto; e vosso Pai, que vê o que se passa em secreto, vos dará a recompensa. Não cuideis de pedir muito nas vossas preces, como fazem os pagãos, os quais imaginam que pela multiplicidade das palavras é que serão atendidos. Não vos torneis semelhantes a eles, porque vosso Pai sabe do que é que tendes necessidade, antes que lho peçais.[1]

De a muito nos foi ensinado que não é pela quantidade das palavras que teremos o nosso pedido atendido. Tampouco se pularmos tantas ondinhas, ou vestirmos esta ou aquela roupa, comermos isto ou deixarmos de comer tal coisa que teremos os nossos desejos atendidos. Mas então, porque, tantos espíritas fazem disso uma prática nas festas de final de ano? Alguns responderão: se bem não fizer, mal não fará! Ou: para não ser diferente dos outros, para a minha família não reclamar, ou enfim: porque viver está difícil e necessitamos de todo tipo de ajuda.

Não desejamos ser aquela que mexe com o simbolismo de quem quer que seja, mas “Se vos dizeis espíritas, sede-o.”[2]A partir do momento que proferimos uma fé espírita, a qual nos fala da imortalidade da alma, principalmente que a fé que transforma não está representada em objetos tampouco em práticas exteriores, representaria um contra senso praticá-los com o objetivo de alcançar o que quer que seja.

Em nossos momentos de dificuldade busquemos encontrar esta conexão interna com a Divindade que já habita em nós e oremos com o fervor e pureza d’alma, ao ponto que nos sentiremos transportados e transmudados como criaturas. Momentos raros sim, mas possíveis em nossa encarnação. São estes momentos que nos possibilitam a capacidade de mudar e verificar o momento presente como uma parcela de nossa existência.

Estamos tão obcecados (obsidiados em muitos dos casos) no momento ou situação específica presente, que não vislumbramos outras coisas que nos circundam. Ao elevarmos o nosso pensamento em prece, deixamos de plainar na faixa primária de pensamentos elevando-nos a patamares que não estamos acostumados a frequentar mentalmente.

Neste momento, espíritos amigos que nos acompanham de perto conseguem nos insuflar pensamentos de paz, amor, harmonia, bem-estar e sugestionar situações que nos ajudarão a solucionar os problemas que estamos vivenciando na atual reencarnação. Sabemos também, com o próprio conhecimento que a doutrina nos traz, que alguns destes são de longa duração, em virtude do expurgo moral necessário a criatura humana. Então, que pulemos ondinha, vistamos roupa desta ou daquela cor, ou mesmo o próprio Bezerra de Menezes materialize-se em nossa presença teremos que suplantar e nos reajustarmos com os erros do passado.

Então, por que a oração? Para que quando caminharmos diante da trilha da evolução humana as lâminas afiadas e pontiagudas das pedras do caminho não tenham o peso e a dor maior que já possuem. Para que que possamos dar o devido valor que as pessoas e as situações possuem em nossas vidas. Para que possamos aprender a agradecer a divindade e as criaturas humanas pelos beneplácitos que recebemos. Aprendermos a sermos gratos por tudo de bom que recebemos. Diante das provas da vida, enxergarmos que flores nos são colocadas no caminho para que a caminhada seja mais suave e o perfume nos embale no amargor de determinados pedrados.

A figura de linguagem que nos convida a entrarmos no nosso quarto e fecharmos a porta para podermos orar mostrar-nos que a conexão com a Divindade se faz quando deixamos silenciar o mundo interior, quando nos visitamos na forma mais simbólica possível e nos encontramos, sozinhos, sem máscaras, sem subterfúgios, sem desculpas. Somos nós mesmos diante de nós mesmos. Assim, conseguimos ser sinceros na oração. Falar o que estamos sentindo e de que realmente necessitamos. Sem testemunhas. Somente a nossa consciência que vela por nós.

Jornal O Clarim – janeiro 2021


[1] MATEUS, cap. VI, vv., 5 a 8.

[2] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo X, item 14

Influência dos Espíritos

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

Ocupam os Espíritos uma região determinada e circunscrita no espaço?

‘Estão por toda parte. Povoam infinitamente os espaços infinitos. Tendes muitos deles de contínuo a vosso lado, observando-vos e sobre vós atuando, sem o perceberdes, pois que os Espíritos são uma das potências da Natureza e os instrumentos de que Deus se serve para execução de Seus desígnios providenciais. Nem todos, porém, vão a toda parte, por isso que há regiões interditas aos menos adiantados.’”[1]

Quando falamos da influência dos espíritos em nossas vidas a primeira resposta que vem em nossa mente é que os Espíritos influenciam em nossos pensamentos e atos “Muito mais que imaginamos. A tal ponto, que de ordinário, são eles que nos dirigem.”[2] Sendo que esquecemos que em tudo existe a sintonia e remontando um pouco mais, por isso que existe um encadeamento lógico das questões em O Livro dos Espíritos, temos a explicação que nem em todos os lugares (incluindo a nossa mente, já que para isso deve existir a sintonia) é permitido aos espíritos entrarem.

Se fosse de outra forma, seríamos marionetes nas mãos daqueles que fossem mais sagazes na criação divina não sendo o objetivo da Divindade. Estamos encarnados para nos reajustarmos com a Lei de fatos pretéritos, aprendermos lições novas e rumarmos para a perfeição relativa nos apresentada por Jesus. Não para sermos fantoches ou algo parecido nas mãos de espíritos que possuem como único deleite, divertirem-se com o sofrimento e angústias de encarnados.

Então, quando vemos a questão de “… ordinários, são eles que vos dirigem.” Verificamos que a marca deixada na resposta é que eles são criaturas comuns, que não são dotadas de nenhuma qualificação superior, mas que conseguem nos influenciar a tal ponto porque assim permitimos. Sintonizamos com eles de tal forma que nos deixamos guiar passivamente por sua influenciação. Iguais a criaturas que não desejam raciocinar ou decidir a roupa que irá vestir ou alimento que irá ingerir e contrata um profissional para decidir por si, tornando-se um protótipo igual a tantos outros gerados pelo mesmo profissional, desejoso de ser aceito pela sociedade que faz parte, anulando a própria personalidade e não percebendo os problemas psicológicos que está gerando para si mesmo no presente e no futuro.

Não deixamos de conviver com os espíritos. Estamos cercados por eles. Somos também espíritos. Esquecemo-nos disso. Da mesma maneira que eles interferem em nossos pensamentos e interagem em nosso mundo, nós também fazemos com relação a eles. Envolvemos tais criaturas em nossas vidas, em nossas preocupações. Mas tudo só ocorre numa relação de sintonia. Oferecemos material psíquico e emocional para que eles se nutram, eles devolvem o mesmo material enriquecido de suas emoções. Neste momento a troca se estabelece a sintonia se faz.

Não se espantem quando os quadros obsessivos se consolidam e as criaturas não entendem afirmando que não fizeram nada demais. Que normalmente, o que ocorreu é que estavam desgostosas da vida. Tudo na vida começa de maneira diminuta. Nenhum quadro começa por uma subjugação. As ideias começam pela tristeza contumaz, a infelicidade por causa desconhecida ou até conhecida, nutrida pelo nosso desejo de sermos agasalhados por quem está ao nosso redor e muitas vezes não reconhece o que estamos vivendo.

Então somos responsáveis pelo início do processo. Nem todos, porém, vão a toda parte, por isso que há regiões interditas aos menos adiantados.” Os espíritos mais elevados conseguem perscrutar os nossos pensamentos, até porque o intuito é nos ajudar. Os iguais a nós ou inferiores só se nós permitirmos através da sintonia. Entendido isso, conseguimos estabelecer um parâmetro limite de quem ou não pode sintonizar conosco.

Mas como nos mantermos em guarda e fazermos esta sintonia? Através da leitura edificando, da mentalização, da boa música, dos bons pensamentos, da conversa que nos engrandece e das boas companhias. Sem nos esquecermos do Evangelho como vivência diária e da prática da caridade. Mas viver tudo isso é complicado! O Mundo está complicado. Entendemos, porque estamos encarnados neste mundo também. Mas seria muito mais complicado se não tivesse o apoio e o subsídio de todos estes recursos e para aqueles que duvidam e não fazem uso, sugerimos: comecem a mudar os pensamentos. Estabeleçam uma rotina diária de boa leitura. A forma como vocês sintonizarão com tudo e com todos será diferente. É um processo que depende somente de nós!

Jornal O Clarim – dezembro 2020


[1] Livro dos Espíritos, questão 87

[2] Livro dos Espíritos, questão 459

Cristãos Novos

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Walkiria Lucia Araujo Cavalcante

“Os cristãos novos, os espíritas, que estão tentando seguir Jesus e trazer de volta as Suas incomparáveis lições, são hoje o seu [do espírito do mal] alvo preferido. Odiados pelos estranhos e perseguidos por companheiros da mesma grei, são crucificados na calúnia, na zombaria, na desmoralização, nos enfrentamentos difíceis, a fim de que abandonem a seara, que ficaria despovoada, e a sua sementeira logo pereceria por falta de cuidados.”[1]

Ainda em virtude da educação religiosa obtida em outros segmentos, acreditávamos que no Espiritismo encontraríamos portas abertas a facilidade. Ao adentrarmos, sentir-nos-íamos blindados de todo mal que por ventura viessem a nos acontecer. Coisa singular: continuamos a seguir a mesma vida que outrora, com um diferencial, agora somos espíritas. Palavra que faz mudar a chave do conhecimento e nos coloca num patamar diferenciado de responsabilidade perante a vida e perante nós mesmos.

Professamos uma fé que nos comove a alma, nos projeta os pés para frente, impedindo-nos de ficarmos parados, pois somos aqueles que possuímos o estandarte da caridade e do amor como divisa para nossas vidas, alicerçado numa mudança de conduta pautada na auto-iluminação. A partir do momento que nos é apresentado um porvir novo, desde agora, começamos por divisá-lo e começamos a vivenciar, mesmo que de forma primária, o Reino de Deus em nós, por praticarmos o bem e conduzirmo-nos dentro de uma vida cristã.

Mas então, porque ainda muitos se desviam do caminho? Porque iguais aos cristãos de antigamente, precisamos repetir a lição. Insistirmos em fazer o certo suportando as investidas daqueles que querem dificultar a nossa caminhada. Voltamos nosso olhar para as distrações do caminho e permitimo-nos desmoronar pelas investidas destes. A calúnia é fel venenoso que não há comprovação, do qual carregamos os efeitos; a zombaria surge no momento em que o outro se sente inferiorizado pela nossa persistência no bem; a desmoralização é a constatação de ato falho do passado que vem à tona e que outro insiste em pintar com cores fortes. Em tudo, o aprendizado se faz presente. Mais não queremos este enfrentamento conosco mesmos.

“A habilidade das Trevas é incomum, porquanto, usando da inteligência direcionada para os seus fins macabros, sempre encontra instrumentos próprios para alcançar os objetivos a que se dedicam. Esses instrumentos estão no íntimo das criaturas, e são as suas imperfeições morais, que se tornam fáceis de manejo seguro por elas, atendendo aos objetivos nefários a que são aplicados.”[2] Lembramos da passagem do Evangelho Segundo o Espiritismo – Missão dos Espíritas: “Só lobos caem em armadilhas de lobos.”[3] Sintonizamos com tais criaturas e através da culpa permitimos que eles tenham acesso as nossas imperfeições morais e nos enfraqueçam, mostrando-nos uma perspectiva triste, a qual parece sem solução de continuidade para a nossa evolução espiritual.

O processo de sintonia torna-se mais sutil e sensível, necessitando-se de mais vigilância para os médiuns: “… criam-lhes situações vexatórias, transmitem-lhes ideias pessimistas, temerosas, despertam-lhes a desconfiança e a suspeita, afligem-nos…”[4] Então, o melhor é não ser espírita e se for, não ser médium? De forma alguma. Todos nós vivenciamos desafios na evolução, sejamos ou não espíritas, tenhamos ou não a mediunidade como ferramenta de trabalho. O que ocorre é que todo aquele que se coloca em destaque por algo que esteja fazendo torna-se foco de admiração, mesmo que se as avessas como são no caso dos ataques.

O Livro dos Espíritos nos esclarece que os espíritos que ainda estão na inferioridade se comprazem em nos induzir ao mal pelo despeito que sentem por ainda não estarem na situação na qual nos encontramos[5], em síntese, por inveja. Querem que sintamos o que eles sentem, só que esquecem que já vivenciamos as nossas experiências pelo vale de lágrimas e dores e ainda vivenciamos em virtude de reajuste com o passado, mas que procuramos nos alinhar com a proposta de vida cristã abraçada, não mais maldizendo a vida que possuímos, mais agradecendo por cada oportunidade bem dita de estarmos encarnados.

Em que momento da encarnação estejamos, por quais situações estejamos experienciando, tenhamos duas certezas em mente: a oração será o nosso sustentáculo para ultrapassarmos o período desafiador; e o Mestre Jesus é o Modelo e Guia dinâmico da humanidade. Modelo por ser o exemplo vivo de como e se deve fazer; Guia porque até hoje Ele está a nossa frente a nos mostrar o ponto que deveremos seguir, como um farol a nos iluminar na noite escura das dores íntimas que vivenciamos. Quanto àqueles que nos perseguem, se enraízam nas trevas da própria ignorância. Dia chegará que também desejarão enxergar a luz e procurarão por ela. De nossa parte, permaneçamos firmes em nossa fé.

RIE-Revista Internacional de Espiritismo


[1] Livro: Libertação do Sofrimento, psicografia Divaldo Franco, autora espiritual Joanna de Ângellis, cap. 29

[2] Idem

[3] Capítulo XX, item 4

[4] Livro: Libertação do Sofrimento, psicografia Divaldo Franco, autora espiritual Joanna de Ângellis, cap. 29

[5] Questão 281

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