Médico das almas

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Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Sou o grande médico das almas e venho trazer-vos o remédio que vos há de curar. Os fracos, os sofredores e os enfermos são os meus filhos prediletos. Venho salvá-los. Vinde, pois, a mim, vós que sofreis e vos achais oprimidos, e sereis aliviados e consolados. Não busqueis alhures a força e a consolação, pois que o mundo é impotente para dá-las. Deus dirige um supremo apelo aos vossos corações, por meio do Espiritismo. Escutai-o. Extirpados sejam de vossas almas doloridas a impiedade, a mentira, o erro, a incredulidade. São monstros que sugam o vosso mais puro sangue e que vos abrem chagas quase sempre mortais. Que, no futuro, humildes e submissos ao Criador, pratiqueis a sua lei divina. Amai e orai; sede dóceis aos Espíritos do Senhor; invocai-o do fundo de vossos corações. Ele, então, vos enviará o seu Filho bem-amado, para vos instruir e dizer estas boas palavras: Eis-me aqui;

venho até vós, porque me chamastes.[1]

Num momento no qual em que a primeira palavra poderia ser de blasfêmia diante dos sofrimentos em que a criatura enlutada busca suprir a falta dos que já partiram ou por estar vivenciando as perdas materiais que assolam as nações e que por si só já causam grandes transtornos O Espírito de Verdade exorta-nos a uma reflexão sobre o sublime amor do Pai para conosco.

Diante das lutas do dia a dia, diante do leito vazio, diante das despedidas não feitas, convoca-nos a voltarmos os nossos sentimentos ao Espiritismo como consolo as nossas almas combalidas diante das intempéries que estamos vivendo. Tendo a convicção que os que já partiram, estão vivos, não somente em nossa lembrança, mas como criaturas eternas, iguais a nós mesmos que em algum momento iremos realizar a nossa passagem em mudança de plano constitutivo de densidade fluídica. Os que já partiram recebem as nossas vibrações de amor e ternura. Como também de saudade e tristeza.

Não acreditemos que os nossos esforços, por mais parcos e incipientes que aos nossos olhos possam parecer, representem algo perante a mudança que já se processa neste momento no Mundo. Não poderemos nos enfraquecer na boa obra da construção do bem, em virtude dos maus exemplos que nos circunda. Preenchamo-nos ao contrário da esperança e nos envolvamos das boas atitudes daqueles que estão em nosso derredor fazendo o bem pelo bem, entendendo que esta é a única possibilidade de vivenciarmos a consciência tranquila durante a existência terrestre.

Representantes de várias religiões unem-se em prol dos desvalidos. Cientistas não pronunciando o segmento religioso que professam dão-se as mãos. Anônimos deixam o recesso de seus lares para buscarem outros lares em doação de si mesmos para serem os Médicos de Almas que o Mestre Jesus preconizava a mais de dois mil anos. Todos estes são exemplos da prática do bem pelo bem. Sentirmo-nos oprimidos diante da avalanche dos acontecimentos é consequência esperada. Mais tenhamos a certeza que seremos aliviados e consolados pelos obreiros do bem, verdadeiros mensageiros do Pai que estão em nosso derredor.

Não busquemos alheres, nos prazeres transitórios, materiais, de gozo fácil que não preenchem a alma a cura para a alma combalida, a força e a consolação. Mas porque, então ele exorta o Espiritismo? Porque através do Espiritismo compreendemos que a vida continua, entendemos que somos herdeiros de nós mesmos, que através das várias vilegiaturas reencarnatórias equacionamos os erros passados e constituímos um somatório positivo de boas aventuranças em nosso benefício. Através do Espiritismo compreendemos de onde viemos, porque estamos aqui e para onde estamos caminhando. Entendemos que depende de nós o quão rápido ou lento será a nossa caminha rumo a perfeição relativa a qual estamos destinados.

Por fim, na passagem, há a exortação para que amemos e oremos. Em tudo fazemos escolhas. Ao amarmos deixamos de acalentar a dor, a revolta, a incredulidade e todos os outros vícios e instrumentos de sofrimento que nos afastam da Divindade e de nós mesmos. A oração nos sustenta nesta mudança de proposta, fazendo-nos enxergar o mais além. Quando estamos muito voltados para o presente, permitimo-nos imantar com mais facilidade da revolta, má conselheira, que nos impede de desenvolver a resignação e a obediência perante a Lei Divina.

O Mestre Jesus sempre se faz presente em nossas vidas. Basta desejarmos. Constitui-se numa questão de sintonia. De nos permitirmos envolver em seus exemplos e seguirmos seus passos. Nunca estamos numa caminhada a sós, além dos espíritos do Senhor que nos ladeiam os passos e nos instruem, sempre que solicitamos e nos tornamos dóceis a suas orientações, temos Jesus, de braços dados conosco, a nos dizer: Eis-me aqui; venho até vós, porque me chamastes.

Jornal O Clarim – junho 2021


[1] Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VI, item 7

Coragem da fé

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Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Aprendestes que foi dito: ‘Amareis o vosso próximo e odiareis os vossos inimigos.’ Eu, porém, vos digo: ‘Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam, a fim de serdes filhos do vosso Pai que está nos céus e que faz se levante o Sol para os bons e para os maus e que chova sobre os justos e os injustos. – Porque, se só amardes os que vos amam, qual será a vossa recompensa? Não procedem assim também os publicanos? Se apenas os vossos irmãos saudardes, que é o que com isso fazeis mais do que os outros? Não fazem outro tanto os pagãos?”[1]

“Digo-vos que, se a vossa justiça não for mais abundante que a dos escribas e dos fariseus, não entrareis no reino dos céus.”[2]

Quando aportamos no movimento espírita, talvez pensemos que o maior ato de coragem fosse lidar com a presença dos espíritos. Pois, ato contínuo a existência da chamada vida após a morte, foi-nos informado que aqueles que partiram da indumentária física antes de nós e que se constituíram antagonistas nossos continuavam existindo no pós-morte.

Tempo passa e deparamo-nos com outra realidade. A dos vivos que nos ladeiam os passos. Dos encarnados que nos colocam em prova sobre o que constitui a nossa fé. Dizermo-nos espíritas dentro de uma instituição com criaturas que comungam do mesmo pensamento e que trazem histórias de vida semelhantes as nossas, pois desejam modificação na grande maioria, buscando na instituição a força e o apoio necessários para conseguirem suplantar as dores que trazem consigo, constitui-se o momento sublime das dificuldades que poderemos por ora encontrar.

Desavenças, descrença ou desvios que por ventura ocorram serão realinhados e direcionados. Aqueles que desejam permanecer no trabalho excelso do bem manter-se-ão firmes. Os que ainda não se evidenciam perfeitamente convencidos, sairão no momento correto, acrescidos da mensagem evangélica. No momento aprazado tal mensagem novamente eclodirá. Estando onde a criatura estiver, será um instrumento da mensagem viva do Amor do Cristo na vida dos semelhantes.

Falamos e desejamos abordar as criaturas que ultrapassam os limites da chamada tolerância e da boa convivência durante a encarnação, exigindo um pouco mais da nossa compreensão evangélica. Pessoas que estão ladeando-nos a encarnação, verdadeiros instrumentos da nossa compreensão do que vem a ser fé com o Cristo. Não estamos isentando com isso o comportamento do outro perante o ato, mas estamos nos colocando no devido lugar daqueles que já entendemos a mensagem espírita e como deveremos aplica-la no dia a dia de nossa encarnação. Pois, não é este o grande questionamento de nossas vidas, como fazer diante dos sofrimentos e aplicar o conhecimento espírita a nossas vidas atualmente?

É plausível o questionamento e viável a aplicação. Na verdade, nunca foi tão exequível a aplicação do conhecimento espírita em nossas vidas. Utilizando-nos do próprio conhecimento espírita entendamos que aquele que nos faz o mal o faz por desconhecimento da Lei Divina, mesmo ela estando insculpida em nossa consciência[3] somente através das várias encarnações e através do exercício do amor vamos descortinando o véu da ignorância que a encobre, este é o primeiro ponto que gostaríamos de destacar.

O segundo ponto, é que a criatura que assim o age, associa-se a criaturas tão desarrazoadas mentalmente quanto ela, formando um agrupamento que deseja dar vazão as suas tristezas, mágoas e revoltas contra nós ou a humanidade como um todo. Não podendo subir, procuram trazer para baixo aqueles que de alguma forma estão esforçando-se para crescer: “O desejo que neles predomina é o de impedirem, quanto possam, que os Espíritos ainda inexperientes alcancem o supremo bem. Querem que os outros experimentem o que eles próprios experimentam.”[4]

Quarto ponto. Pela Lei da Afinidade, diz o dito popular que o criminoso sempre volta ao local do crime. Não somos vitimas que estamos sofrendo a injunção pecaminosa de um algoz. Somos criaturas que estamos num processo evolutivo que possuímos um passado do qual necessitamos o devido reajuste moral. Se algo de tamanha monta nos acontece é porque em passado próximo ou distante fizemos algo que estava em desacordo com a Lei Divina e que neste momento necessita ser equacionado.

Quinto ponto. Em Doutrina Espírita aprendemos que a Justiça distributiva se faz para todos indistintamente. Mesmo que estejamos neste processo de reajuste e que o outro esteja servindo por escolha própria como instrumento para que tal ocorra conosco ele também terá seu momento de encontro com a Lei e a própria consciência. Pois estamos todos mergulhados na Lei de Justiça, de Amor e de Caridade.

Tendo a fé que nos sustente nos momentos graves da encarnação, seremos conduzidos para o porvir que nos fará ultrapassar os pórticos dolorosos que por ora estejamos vivenciando tendo a certeza que esta faze de dores passará para logo vivenciarmos os momentos de alegria e bem-aventuranças que tanto desejamos. Trabalhemos pela nossa paz e não nos detenhamos nos percalços da vida.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – junho 2021


[1] MATEUS, cap. V, vv. 43 a 47

[2]  MATEUS, cap. V, v. 20

[3] Livro dos Espíritos, questão 621

[4] Livro dos Espíritos, questão 281

Evangelho no Lar

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Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou no meio deles[1]

Após estarmos a mais de um ano com alguns dos confrades tendo as atividades das Instituições as quais estão vinculados suspensas, perguntando-se como fazer para desenvolver os trabalhos a contento, mais ainda, como manter o ânimo, pois o entrelaçamento de amor que as atividades semanais proporcionavam já neste momento são realizadas de forma on-line e mesmo que algumas Instituições tenham voltado por algum tempo a realizá-las presencialmente, tiveram que retomar o fechamento por medida de respeito sanitária.

De nossa parte, trazemos o pensamento expresso em Mateus, que nos consola, por sabermos que o Mestre Rabi estará conosco sempre que nos reunirmos em seu nome. Mesmo que de forma remota, mesmo que estejamos sozinhos em nosso Lar, mais sempre na companhia amorosa dos bons espíritos. Nunca estamos sozinhos, nos sentimos desacompanhados. Estamos rodeados por uma tão grande nuvem de testemunhas[2]. Mas um ponto que talvez seja um pouco esquecido neste momento e que não deveria é o Culto do Evangelho no Lar.

Em linhas gerais, é nos reunirmos a sós ou acompanhados com os amigos espirituais que sempre se fazem presentes nestes momentos, realizarmos uma prece inicial, lermos um trecho do evangelho ou da bíblia, tecermos um breve comentário sobre o que foi lido e realizarmos a prece final. Algumas pessoas colocam um copo com água e pedem que os bons amigos espirituais fluidifiquem (depositem bons fluídos nos recipientes com água) no momento da prece final. É realizado com constância, significa dizer que deverá ocorrer em dia e hora marcada. Mas não impede que leiamos o Evangelho tantas vezes quantas forem necessárias ao dia e por semana.

Ao realizarmos o Evangelho no Lar, não somos somente nós ou nossa família que nos beneficiamos. Mas nossos vizinhos e todos aqueles que nos circundam. É um verdadeiro serviço espiritual que a criatura realiza. O respeito que os espíritos que se envolvem neste trabalho demonstram está muito bem retratado no Livro Os Mensageiros[3]. O Evangelho no Lar nunca será uma reunião social ou momento de desaguar frustações familiares, mas momento de permuta constante de conhecimentos e solidificação de valores domésticos que por ora necessitam ser resgatados em conversas edificantes usando-se da mensagem trazida no Evangelho para corroborar atitudes ou reajustar comportamentos.

Ao fazermos o evangelho no Lar além de nos fortalecermos, ajudamos aqueles que estão em nosso derredor e criamos um ponto de luz, além de fortalecermos uma barreira espiritual em nosso Lar. “Nunca poderemos enumerar todos os benefícios da oração. Toda vez que se ora num lar, prepara-se a melhoria do ambiente doméstico. Cada prece do coração constitui emissão eletromagnética de relativo poder. Por isso mesmo, o culto familiar do Evangelho não é tão só um curso de iluminação interior, mas também processo avançado de defesa exterior, pelas claridades espirituais que acende em torno. O homem que ora traz consigo inalienável couraça. O lar que cultiva a prece transforma-se em fortaleza, compreenderam? As entidades da sombra experimentam choques de vulto, em contato com as vibrações luminosas deste santuário doméstico, e é por isso que se mantêm à distância, procurando outros rumos…[4]

A distância física dos trabalhos executados na lide espirita nos afastou dos companheiros que nos ladeiam a jornada na Instituição, mas não nos afastou da doutrina. Não nos desabilita do aprendizado e da busca constante pela renovação interior. Temos as mesmas informações ao nosso alcance que não nos enfraqueçamos no processo evolutivo constante.

As dores estão acirradas para todos nós. Para alguns se tornaram acerbas em virtude do desenlace de seres amados que por hora não conseguimos abarcar num golpe de vistas a razão, entendemos sim que se tudo que promana de Deus é justo, também há justiça em todas as situações que estamos vivenciando. Que tenhamos a sabedoria da compreensão de entendermos que o momento presente se equacionará com a solução necessária do aprendizado que tenhamos que ter, mais que elevemos a nossa resignação ao nível de nossas provas[5], como o Evangelho nos orienta, aguardando pacientes a calmaria do mar revolto.

Jornal O Clarim – maio 2021


[1] S. Mateus, 18.20.

[2] Hebreus, 12:1

[3]Autoria espiritual de André Luiz, psicografia de Chico Xavier, capítulos 35 a 37

[4] Idem, 37 – No Santuário Doméstico

[5] Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo VI, item 6

Arrependimento

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A

Walkiria Araújo – walkirialucia.wlac@outlook.com

“Deus não dá prova superior às forças daquele que a pede; só permite as que podem ser cumpridas. Se tal não sucede, não é que falte possibilidade: falta a vontade. Com efeito, quantos há que, em vez de resistirem aos maus pendores, se comprazem neles. A esses ficam reservados o pranto e os gemidos em existências posteriores. Admirai, no entanto, a bondade de Deus, que nunca fecha a porta ao arrependimento. Vem um dia em que ao culpado, cansado de sofrer, com o orgulho afinal abatido, Deus abre os braços para receber o filho pródigo que se lhe lança aos pés. As provas rudes, ouvi-me bem, são quase sempre indício de um fim de sofrimento e de um aperfeiçoamento do Espírito, quando aceitas com o pensamento em Deus. É um momento supremo, no qual, sobretudo, cumpre ao Espírito não falir murmurando, se não quiser perder o fruto de tais provas e ter de recomeçar. Em vez de vos queixardes, agradecei a Deus o ensejo que vos proporciona de vencerdes, a fim de vos deferir o prêmio da vitória. [1]

Este trecho encontra-se inserido no capítulo que trata sobre a Ingratidão dos Filhos e os Laços de Família do Evangelho Segundo o Espiritismo. Mesmo para nós espíritas, este torna-se um tema delicado a ser tratado, pois enxergarmos com a roupagem física pessoas que a título da consanguinidade deveriam nos amar ou ter laços de afinidade conosco, são em algumas situações, criaturas antagônicas nossas. Pessoas que nos fizeram mal ou a quem prejudicamos e recebemos na nossa estrutura familiar ou somos recebidos por eles.

A reencarnação nos alinha no campo perfeito de entendimento para o sentido de aprendizado completo evolutivo. Desejamos fracionar o conhecimento, afastando de nós o processo, não convivendo com àqueles de quem temos necessidade. Abortando de todas as formas este processo. A Divindade, em sua magnânima proficiência, une-nos nos sei familiar, fazendo-nos sermos aqueles que iremos embalar o berço do nosso algoz ou sermos o necessitado desse embalo e cuidados daquele a quem fizemos mal.

Um princípio de repulsão de estabelece nestas situações, o qual deveremos buscar superar, em nome da caridade e do desejo de ultrapassarmos as algemas que nos prende ao passado de delitos cometidos. Mesmo que sejamos nós as vítimas de outrora, vinculamos pelo ódio e a falta de perdão a tais situações. Aquele que praticou, através do remorso, mesmo que inconsciente, também se vincula. Ambos desejosos que a solução se estabeleça.

Após passada a primeira infância, momento mais favorável ao plantio da boa semente e no qual o processo reencarnatório se finda, a criatura, plena de si, volve a plenitude do seu ser, mesmo possuindo o véu do esquecimento, reconhece no seu (sua) genitor(a) o (a) aquele (a) de quem ele se inimizou em outra encarnação. Todos nós temos o direito de escolha. Não é porque começamos de forma errada que deveremos terminar algo de forma errada.

Por isso, que reencarnamos. Para podermos ter a oportunidade de nos reajustarmos com a Lei através do próximo. Aparando as arestas e fazendo as pazes, sempre que possível, com quem estiver a caminho conosco. O conhecimento espírita oferta-nos a possibilidade de compreender de maneira diferente tais processos. A compreensão leva-nos a um comportamento diferente.

Talvez, não consigamos mudar totalmente de comportamento, nem influenciar positivamente no todo o comportamento do outro, mas ambos sairemos modificados desta convivência. “Senhor, quantas vezes perdoarei a meu irmão, quando houver pecado contra mim? Até sete vezes?” – Respondeu-lhe Jesus: ‘Não vos digo que perdoeis até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes.’”[2] Além do convite a tolerância com relação ao próximo, o Mestre Jesus também nos convida a darmos uma nova chance ao outro, uma oportunidade para que o outro mostre também as suas virtudes, pois todos as possuímos.

Mesmo nos esforçando, existe a possibilidade do outro não absorve a mensagem que desejemos transmitir, mais saibamos que estamos nos esforçando pela execução do bem. Um dia, o outro também esforçar-se-á pela modificação. Em algum momento o arrependimento dos atos cometidos nos bate à porta, isto ocorre porque a boa semente foi plantada em nós e floresceu diante do aprendizado vindouro. Assim também ocorrerá com aqueles que por ventura estejam vinculados a nós e não nos compreendam a mensagem.

Que não sejamos nós aqueles que dificultam o bom entendimento e o desfazimento de raízes profundas de sofrimentos passados. Que não sejamos nós aqueles que perdem a oportunidade de rejubilar-se de ter podido ajudar aquele que sofre na escuridão da falta de entendimento das verdades eternas. Que não sejamos nós aquele que deixe de ceder primeiro em nome de um ponto de honra que mais nos leva a desgostos e tristeza do que nos faculta a paz de espírito.

Criaturas nos encontramos nos mais variados patamares de entendimento espiritual. Brigas, mágoas, tristezas e desentendimentos surgem por situações muitas vezes as mais pueris. Outras, são baseadas em traumas provindos de outras encarnações que demorarão tantas outras para serem dirimidas. Que as primeiras, as mais fáceis de serem dirimidas, possam contar com o nosso apoio, entendimento e decisão para solução. Somente assim, as famílias conseguirão se unir num só clã, numa só unidade.

Muitos dos problemas que alguns atribuem a outras encarnações são provindos desta mesma, deste bom olho e desta boa vontade em viver em comunidade. Estamos em família é termos a oportunidade de crescermos em conjunto, de aprendermos em conjunto de amarmos o conjunto.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – maio 2021


[1] O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIV, item 9

[2] MATEUS, cap. XVIII, vv 21 e 22

Fidelidade

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Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – walkirialucia@outlook.com

“É com a perseverança que chegarás a recolher o fruto do teu trabalho. O prazer que experimentarás vendo a doutrina se propagar e ser compreendida te será uma recompensa da qual conhecerás todo o valor, talvez mais no futuro que no presente. Não te inquietes, pois, com as sarças e as pedras que os incrédulos ou os maus semearão sobre teu caminho. Conserva a confiança: com a confiança tu chegarás ao fim, e merecerás ser sempre ajudado.”[1]

Allan Kardec foi aquele no qual foi depositada a confiança que a Doutrina Espirita seria codificada e todas as informações que já estavam sendo reunidas de algum tempo seriam catalogadas e orientadas, por ele, de uma maneira que ficariam didaticamente inteligíveis para aqueles que nunca tiveram conhecimento da explicação de tais fenômenos, mais que vivenciavam em algum grau esta ligação entre os dois planos. Sendo num 01/04/1757, há exatos 164 anosa primeira publicação de O Livro dos Espíritos com 501 perguntas, tendo a segunda com as atuais 1019 perguntas em 1860 o primeiro livro do pentateuco das Obras Espíritas.

A princípio, Kardec não acreditava que uma mesa falasse. Estando certo neste pensamento. Entendia que só uma pessoa, uma causa racional e inteligente poderia responder as questões formuladas. Várias foram as explicações dadas a época para a ocorrência dos fenômenos, menos que existiam espíritos. Algumas destas, constantes em O Livro dos Médiuns, em especial destacamos: Dos Sistemas, Capítulo IV. A partir do momento que pessoas sérias lhe trouxeram mensagens e corroboraram com o seu próprio caráter as comunicações, fizeram com que Kardec começasse por se debruçar sobre tais mensagens e analisar. Ele passou a participar das reuniões e interrogar as forças que até aquele momento não haviam se identificado por Espíritos, e a partir deste momento estabeleceu-se um corpo de informações compiladas, revistas por médiuns incorporados e estudadas exaustivamente na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.

O trabalho avançava, amigos uniam-se ao propósito de divulgação da mensagem, espíritos amigos o sustentavam neste trabalho de amor a humanidade, mas também os detratores não poderiam deixar de existir. Criaturas que não desejavam o progresso da humanidade, pois tinham a ilusão que assim também não precisariam progredir, tentaram tolher-lhe os passos. Um dos fatos em destaque é o Auto de fé de Barcelona (21/09/1961) retratado em O Livro Obras Póstumas.

Em síntese, Kardec remeteu à Barcelona num total de 300 volumes: Livros dos Médiuns, Livros dos Espíritos e coleções da Revista Espírita. Foram cumpridos todos os requisitos legais e aduaneiros que a remessa requeria, sendo que para liberação, havia necessidade de autorização do Bispo do local, o qual não só negou como ordenou que as obras fossem apreendidas e queimadas em praça pública.

Kardec ao questionar o Espírito Verdade sobre a restituição das referidas obras, obteve como resposta que ele tinha o direito de pedir, mas “ … a minha opinião é que resultará desse auto-de-fé um bem maior que não produziria a leitura de alguns volumes. A perda material não é nada em comparação com a repercussão que semelhante fato dará à Doutrina. Compreendes o quanto uma perseguição tão ridícula e tão atrasada poderá fazer o Espiritismo progredir na Espanha. As ideias se difundirão com tanto mais rapidez, e as obras serão procuradas com tanto mais diligência, quanto as tiver queimado.”

Quantas vezes na divulgação da mensagem Espírita preocupamo-nos tanto em nos defendermos com relação a esta ou aquela calúnia, a esta ou aquela palavra desagradável que nos é dita em virtude da divulgação do trabalho que estamos realizando. Esquecemos que antes de nós, outros vieram e fizeram um trabalho de planificação e sedimentação da informação, mas que as criaturas desavisadas e desprovidas de proposito evolutivo continuam nos ladeando a encarnação, algumas destas nos lares, nas instituições espíritas, enfim, estão convivendo e desfrutando da nossa intimidade. Saibamos escolher e sermos fieis até o fim.

De uma maneira menor e diferente, também fomos convidados a perseverarmos nos trabalhos de divulgação da mensagem espírita. Na mediunidade, nas palestras, nos trabalhos de atendimento fraterno, passes, em todos os trabalhos que realizamos dentro ou fora, em nome da Divulgação da Doutrina Espírita. Então, a mensagem trazida a Kardec pelo Espírito Verdade, também se aplica a nós. Talvez não reconheçamos de pronto o que estamos fazendo, mas no futuro entenderemos melhor a nossa participação no processo evolutivo das criaturas humanas e no nosso próprio.

Sempre nos é facultado a escolha. Diante do que já aprendemos, o que desejamos para nós? “Não te deixes desencorajar pela crítica. Encontrarás contraditores obstinados, sobretudo entre as pessoas interessadas nos abusos. Encontrá-los-á mesmo entre os Espíritos, porque os que não estão completamente desmaterializados procuram, frequentemente, semear a dúvida por malícia ou por ignorância. Mas prossegue sempre.”[2]

Jornal O Clarim – abril 2021


[1] Livro dos Espíritos, Prolegômenos.

[2] Livro dos Espíritos, Prolegômenos.

Chamamento divino

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Walkiria Lúcia de Araújo Cavalcante – walkirialucia.wlac@outlook.com

“… Disse ao servo: sai depressa pelas ruas e bairros da cidade e traze aqui os pobres, os aleijados, mancos e cegos.”[1]

É comum, ao dispormos cursos de passes nas Instituições Espiritas, um grande número se candidatar. Mas com o passar do tempo o grupo ir resumindo-se a alguns poucos, até verificarmos que após o engajamento propriamente dito ao trabalho, pois que não existe formatura em nenhum tipo de trabalho, constituindo-se o primeiro choque para aqueles que começam, verificarmos a desistência e inconstância dos que ficaram. Resumindo-se a poucos daquele agrupamento iniciado.

A alegação de muitos passa pelos afazeres domésticos, cursos que precisam começar ou terminar, trabalhos assumidos, enfim, situações diversas que a criatura humana alega para o desligamento. Outras, afirmam incapazes de darem continuidade em virtude da incapacidade para o serviço assumido ou por reconhecerem-se com impedimentos morais que lhe tolhem os passos? Mas será que para arregimentarmo-nos neste agrupamento de soldados do Cristo na divulgação do bem teremos que ser perfeitos? Não. Pois se assim fosse, não teríamos nenhum trabalhador na seara espírita.

Afastando-se os impedimentos naturais e as situações que realmente fogem ao controle daqueles que estão vivenciando gostaríamos de destacar os quadros obsessivos tão bem explicados em O Livro dos Médiuns, em seu capítulo 23. “A obsessão é o resultado do intercâmbio psíquico, emocional ou físico entre dois seres que se amam ou que se detestam. … Aquele que se sentiu enganado ou traído, vitimado pelo seu opositor, busca retribuir o mal que lhe sofreu, impondo-lhe a crueldade da perseguição sem quartel procedente do mundo espiritual onde hoje se encontra. … Outras vezes, são vinculações amorosas de qualidade inferior, nas quais ambos os compares intercambiam sentimentos vulgares, que os levam a uma convivência mental de torpes satisfações ou de desejos inconfessáveis, que a morte de um deles não mais permite realizar-se.”[2]

Quando nos permitimos associar por mentes que desejam nos afastar de nossos propósitos mais elevados, estes sugerem que aquilo que estamos fazendo não é importante, necessário ou não somos úteis a obra que estamos abraçando. Mais ainda, que não estamos prontos e não somos merecedores de estarmos onde estamos. Não podemos nos permitir contaminar por tais pensamentos. E tal envolvimento não acontece somente com os noviciados no trabalho espírita. Nenhum de nós está livre de tal envolvimento. Orai e vigiai, já nos foi ensinado, para não cairmos em tentação.

Sendo para os de nós que já nos encontramos a mais tempo no movimento estas palavras, entendemos que o tempo de doutrina não significa tempo de conhecimento. A mensagem aplicada ao dia a dia da criatura constitui-se como corolário do que o Mestre nos exemplificou. Lembremos sempre que Ele mesmo não escreveu nenhum Evangelho. Estes foram escritos pelos seus seguidores. Mostra-nos que mais importante do que falarmos, precisamos experienciarmos a mensagem. No nosso segmento diário de proceder. Não desistirmos de empreender o contido no Evangelho representa obra de vida.

Allan Kardec, Bezerra de Menezes, Chico Xavier e tantos outros são exemplos de persistência e perseverança diante da mensagem. Fazendo com que ela se torne viva, não somente palavras repetidas como forma de convencimento. Observemos que nenhum deles dizia-se perfeito na execução do trabalho, mas faziam o que hoje os profissionais da área chamam de rever o que errou para consertar no processo de construção de um líder e que Santo Agostinho já nos orientava: “Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma…”[3]

Desta forma, as interferências de outras mentes até ocorrerão, pois as baixas mentais farão parte da nossa encarnação, mas quando fizermos esta avalição que Santo Agostinho nos sugere começaremos por praticar a primeira virtude que nos imuniza contra a obsessão: a humildade. Após, avançaremos para o exercício da correção moral, outra virtude a nos humanizar e espiritualizar. A caridade começar a brotar neste momento em nós. Pois, vemos que ou outros também passam por este processo, terceira virtude imunizatória diante dos processos obsessivos.

O conhecimento permeia todas estas fazes nos instruindo e fortificando. Explicando o porquê de termos paciência, perseverança e por fim, a necessidade do perdão. Perdão ao outro e a nós mesmos. Nesta última, do perdão, desvinculamo-nos dos quadros obsessivos mais delicados, os destacados anteriormente como “traição” ou que a criatura acredita-se “vitimado” por nós. Ao nos perdoarmos, deixamos de trazer a pecha da culpa e substituímos pela responsabilidade ativa, através do trabalho.

O outro terá a opção de iluminar-se também e trabalhar pela própria evolução ou ficará num processo de busca por vingança. O que gostaríamos de destacar que o chamamento divino[4] como Emmanuel sabiamente diz, soa para todos nós. Aproveitemos esta oportunidade e não permitamos que outros interfiram na oportunidade bendita que tenhamos de nos auto iluminar. Não seremos punidos, nem nada demais nos ocorrerá, mas retardaremos os passos ruma a perfeição relativa buscada. Isto já é o bastante para analisarmos a situação e mantermo-nos firmes diante do propósito abraçado.

RIE – Revista Internacional de Espiritismo – abril 2021


[1] Lucas. 14:21.

[2] Livro: Reencontro com a Vida, psicografado por Divaldo P. Franco, autoria espiritual Manoel P. de Miranda, capítulo 04 – Exorcismo Inútil

[3] Questão 919-a

[4] Livro: Palavras de Vida Eterna, capítulo 127, psicografado por Chico Xavier

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