Lógicas e contradições

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Octávio Caumo Serrano   caumo@caumo.com

Jesus é a encarnação da Lei do Amor

Ao estudar o Evangelho de Jesus deparamo-nos com registros que dificilmente podem ser atribuídos ao Rabi da Galileia. Aquele que perdoou até os seus algozes em pleno flagelo da cruz, não pode ter tido certas atitudes que constam dos registros dos evangelistas como sendo ações de Jesus.

Em certas oportunidades, é verdade, ele tomou atitudes que contradiziam a sua natureza, mas para aproveitar o momento e ensinar. Exemplo, ao ser interpelado quando em uma reunião por pessoas que lhe disseram que sua mãe e irmãos ali chegaram e queriam falar-Lhe, Ele perguntou: “Quem é meu pai, quem é minha mãe, quem são meus irmãos? Meu pai, minha mãe, meus irmãos, são todos aqueles que cumprem a vontade do meu Pai Celestial.” ESE Cap. XIV, item 5

Embora nem sua mãe nem seus irmãos tivessem entendido a sua tarefa nem prestigiado o seu trabalho, ao contrário, censurando-O porque seus gestos pareciam inusitados, absurdos, irreais, em nenhum momento ele renegou sua família. Nesse episódio aproveitou para nos ensinar que a parentela que forma a família na terra tem como finalidade transformar parentes de sangue em amigos de alma e que os nascidos na casa do vizinho têm para Deus a mesma importância que nossos filhos e pais. Sabemos pelo Espiritismo que as famílias na Terra são formadas muito comumente por inimigos ou desafetos de vidas passadas e que voltam a se unir para nova tentativa de reconciliação. Por isso há ainda tanto desentendimento entre os que vivem no mesmo lar.

Lição igual está no ESE capítulo XXIII, Moral Estranha, quando diz que se o homem não aborrecer ou odiar seus pais não poderia ser seu discípulo. Sempre ensinando sobre a parentela temporária e a parentela espiritual na qual somos todos irmãos.

O mesmo se deu quando propositadamente não lhe ofereceram a lavanda para limpar seus dedos e Ele, ao ser censurado por não cumprir a lei, aproveitou para ensinar que o que faz mal ao homem não é o que entra pela sua boca, mas o que dela sai. Certamente não fazia apologia à falta de higiene, mas aproveitou para dizer que a maldade, a calúnia, a ofensa, fazem mais mal a uma pessoa do que uma possível comida indigesta. Uma lesa o corpo físico; a outra mancha o caráter e cria problemas de consciência.

Há, porém, certas atitudes grosseiras que são atribuídas a Jesus como a censura aos fariseus, chamando de raça de víboras, túmulos caiados. Ou quando expulsou os vendilhões do templo derrubando as barracas, junto com ovelhas, pombas e cambistas. Aqueles homens que ali estavam eram trabalhadores que vendiam suas mercadorias segundo as normas do Templo de Jerusalém ou trabalhavam no câmbio com dinheiro porque no Templo só se aceitava moeda judia. Jesus jamais iria desrespeitas quem estava trabalhando, embora jamais aprovaria o comércio na “Casa de Deus”, como nunca falou mal dos publicanos. Ao contrário, convidou Mateus que arrecadava pedágio dos barcos na Mar da Galileia para ser seu seguidor e, mais tarde, em Jericó, visitou a casa de Zaqueu. Dois homens que arrecadavam impostos para pagamentos a Roma.

Devido a estatura moral de Jesus, ao adentrar o Templo, o que ele fez raras vezes, porque morava no norte do país, na Galileia, onde fez quase toda a sua pregação e só ocasionalmente descia até Jerusalém, em dias de festa, é provável que os vendedores se amedrontaram com a sua presença e, alvoroçados, correram fazendo com que os animais também se assustassem derrubando tudo o que havia pela frente. Mal comparando com os dias atuais, como os camelôs das ruas que ao verem os fiscais recolhem tudo o que podem e fogem. Tivesse ele que censurar algo, o faria aos que governavam e não os que cumpriam as ordens fazendo disso a sua sobrevivência.

Quando estudarmos o Evangelho de Jesus, seja na Bíblia, nos livros protestantes ou nos textos espíritas e de outras doutrinas, analisemos sempre com bom senso e procuremos extrair do episódio a intenção de Jesus e não o ato conforme relatado friamente. Lembremos que os Evangelhos começaram a ser anotados muito depois da morte de Jesus. A maioria dos estudos, segundo divulgações correntes, concorda que os Evangelhos teriam sido escritos na seguinte ordem: MARCOS (em Roma 64 d.C), Mateus (em Jerusalém 70 d.C) Lucas (em Antióquia 80 d.C) e João (em Éfeso 95.d.C).  Muito dependeu da memória dos Evangelistas e da compreensão do que teria Jesus dito ou feito. Se ainda hoje não entendemos a essência da Boa Nova, imaginemos como isso chegava na cabeça daqueles homens. A prova é que na hora do suplício do Messias todos O abandonaram. Só ficou junto à cruz, com as três Marias, João, o apóstolo mais novo entre todos.

Somos eternamente gratos àqueles homens que registraram os fatos envolvendo a vida de Jesus, sem os quais nada teria chegado até nós. Que Deus os abençoe. Mas como espíritas usemos a fé raciocinada e não a crendice cega só porque dizem que isso ou aquilo aconteceu.

Tribuna Espírita – Jan/Fev 2018

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Quem sabe que não sabe, muito sabe

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Octávio Caumo Serrano caumo@caumo.com

Somos muito pretensiosos para tão pouco conhecimento;

Ao estudar o Espiritismo ouvimos dos orientadores encarnados notícias de elevado nível, relatando a superioridade dos espíritos comunicantes, como se estes viessem das esferas divinas até ao plano material naturalmente, como em viagem de missão ou turismo. Bom saber que não recebemos orientações de espíritos da esfera do Cristo, mas de seus prepostos recém despojados das vestes do mundo que ainda sofrem muito as suas influências. Há os que ainda são mais humanos do que nós. Incluem-se nessa falange até os anjos guardiões. É fácil compreender isto, porque já aprendemos que não se destina um professor universitário a alunos de jardim da infância. Não adianta eles nos explicarem o que a nossa inteligência rudimentar e nosso conhecimento embrionário são incapazes de compreender.

No Livro dos Espíritos, logo na questão 10, foi indagado se o homem pode compreender a natureza íntima de Deus e os espíritos disseram que não. Falta-nos sentido para isso. Na questão 14 eles são contundentes, após perguntas sobre Deus e seus atributos: “Não vos percais num labirinto de onde não podeis sair. Isso não vos tornará melhores, mas um pouco mais orgulhosos, talvez, já que julgaríeis saber quando na realidade nada saberíeis. Deixai de lado esses sistemas, pois muitas coisas já vos tocam diretamente, a começar por vós mesmos. Estudai vossas próprias imperfeições para vos livrardes delas; isto será mais útil do que querer penetrar no que é impenetrável.”

Os Espíritos que responderam às perguntas que Allan Kardec incluiu em O Livro dos Espíritos, advertiram que não adianta querer viver no Céu se ainda não aprendemos a viver na Terra. Daí porque morrer e desencarnar são coisas diferentes. Muitos morrem, mas não desencarnam devido ao apego aos postos, às honras e outros preconceitos dos quais não se libertaram.

No capítulo XXVIII do livro Emmanuel, por Chico Xavier, o mentor do confrade mineiro fala sobre as comunicações espíritas, ampliando nossa compreensão sobre a mediunidade. Diz ele: “… cada plano recebe do que lhe é superior, apenas o bastante ao seu estado evolutivo, sendo de efeito contraproducente ministrar-lhe conhecimentos que não poderia suportar”.  Diz mais: “… a maioria das entidades comunicantes são verdadeiros homens comuns, relativos e falhos, porquanto conservam, por vezes integralmente (atenção!), o seu corpo somático e têm como habitat o próprio orbe que lhes guarda os despojos e as vastas zonas dos espaços que o cercam, atmosferas do próprio planeta, que poderíamos classificar de colônias terrenas nos planos da erraticidade”. Este conhecimento nos previne contra os médiuns deslumbrados que endeusam as entidades que recebem, chegando a admitir que falaram com os da mais alta corte celeste. Ignoram que não resistiriam sequer a luz emanada deles. O senador romano Publius Lentulus ao escrever a Cesar sobre Jesus disse que ninguém conseguia encará-lo porque “seu olhar resplandece no seu rosto como os raios do sol. Quando resplende apavora e quando ameniza faz chorar”. E Ele ainda estava entre nós!

O progresso espiritual não é algo que alguém conquiste só por querer. É preciso vencer a si mesmo para ser melhor. Há que incorporar virtudes e não apenas defini-las. É o que somos, não o que aspiramos ser. É o que pensamos, não o que falamos. De nada valem a voz mansa e a docilidade quando temos uma consciência cobradora e um coração cheio de mágoa e revolta. A fé é a aceitação da vida e não a frequência a um templo ou uma oração decorada. A fé verdadeira nunca desmorona diante da contrariedade. É inabalável.

“Dos motivos expostos, infere-se que a suposta vulgaridade dos ditados mediúnicos é um fato naturalismo, porque emanam das almas dos próprios homens da Terra, imbuídos de gosto pessoal, já que o corpo das suas impressões persiste com precisão matemática, e somente os séculos, com o seu consequente aglomerado de experiências, conseguem modificar as disposições cármicas ou perispirituais de cada indivíduo. Procuram agir no plano físico unicamente para demonstração da sobrevivência além da morte, levantando os ânimos enfraquecidos, porque dilatam os horizontes da fé e da esperança no futuro, porém, jamais serão portadores da palavra suprema do progresso, não só porque a sua sabedoria é igualmente relativa, como também porque viriam anular o valor da iniciativa pessoal e a insofismável realidade do arbítrio humano.” Você que é médium com tarefas definidas, tenha em mente que é ainda mais médium de si mesmo do que dos sofredores que o rodeiam. É o primeiro que deve aprender as lições sugeridas pelos comunicantes. Sentindo o sofrimento da entidade que se aproxima ficará alertado que se não se cuidar acabará como ela. Por isso a maioria dos médiuns é consciente. Aprende quando em transe para viver quando desperto e consciente. O acréscimo de uma só virtude, que implica o banimento do defeito contrário, já é apreciável conquista para uma encarnação.

“Todas as ciências estão ricas de especulações teóricas e todas as religiões que se divorciaram do amor estão repletas de palavras, quase sempre vazias e incompreensíveis. As predicações são ouvidas, por toda parte; mas a prática é rara, daí a necessidade de se habituar a ela com devotamento, para que os atos revelem os sentimentos, operando com o espírito de verdadeira humildade.” Tenhamos os pés no chão, caros confrades e iniciantes desta doutrina fantástica e esclarecedora. Somos informados mais para doutrinar a nós mesmos do que para converter a humanidade. Sejamos bons exemplos para despertar nos outros a vontade de imitar-nos. Mas sem perder a humildade porque há muito mais a aprender do que o que já nos foi revelado. O que sabemos é uma gota no oceano dos conhecimentos. Estamos ainda no jardim da infância espiritual. Conheçamo-nos, como propôs Sócrates, para aproveitar a encarnação sem pretensões descabidas ou sonhos irrealizáveis. Não esquecer que somos de um mundo de provas e expiações e, portanto, seres muito imperfeitos. Paciência e coragem!

Tribuna Espirita Nov_Dez_2017

O trabalhador espírita

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Octávio Caúmo Serrano

Qual a tarefa mais importante para o colaborador do Centro?

Vamos recapitular como foi a chegada ao Espiritismo da maioria de nós. Embora hoje seja mais comum, ainda são poucos os nascidos em lares espíritas e, mesmo entre esses, nem todos se sentem inspirados a buscar a doutrina porque os espíritas da casa não são bons propagandistas do Espiritismo; não têm conduta condizente com a que deve ter um praticante dessa doutrina.

Vamos imaginar, prioritariamente, uma pessoa que tenha problemas e decida buscar um centro espírita para aconselhar-se, equilibrar-se ou curar-se. Foi convencida por um amigo ou pesquisou e crê que seria uma boa opção para se livrar do problema. Passa pelo atendimento fraterno (uma orientação espiritual), desabafa com o entrevistador, é aconselhado a receber uma série de passes, ouve palestras e, se fizer sentido, participa dos estudos e cursos que a casa oferece. A grande maioria está satisfeita com essa rotina e comporta-se como o que vai à missa católica ou ao culto protestante. Faz-se presente, reza, contribui e já cumpriu tudo o que lhe cabia junto à sua religião. Todavia, há sempre alguns que se sensibilizam com o trabalho do centro, gratuito e fraterno, e sentem vontade de dar sua colaboração.

Que trabalho eles podem fazer? A resposta é: – Muitos. Tudo depende da capacidade, instrução, vivência, conhecimento e experiência doutrinária, porque há serviços acessíveis a todos, mas nem todos podem fazer tudo. Nem sempre o participante tem capacidade para a oratória e consequente divulgação do Evangelho ou do Espiritismo; nem pode ser um entrevistador porque para isso precisa, além da doutrina, alguma experiência da vida e habilidade para o correto aconselhamento.

Mas há outros serviços acessíveis a quase todos. Por exemplo, os passes que precisam de pessoas que abram o coração e deixem jorrar amor; o de distribuidor de mensagem ou recepcionista que dá as boas vindas e assessora o visitante dentro da casa; o que ajuda na limpeza; o que abre e fecha o Centro, se encarrega de ligar e desligar luzes, ventiladores, ar, microfones, etc.; e tantos outros, conforme o tipo de organização. Há em muitas casas a assistência material. Enxovais, sopas, etc. Todos são trabalhos igualmente importantes quando feitos de coração.

Há pessoas dispostas a se deixar ensinar e há outras que são preocupadas com a perfeição, o que os faz recuar quando convocados a algum serviço que não dominam ou quando censuradas por ter executado algo em desacordo com as normas da casa e da própria doutrina espírita. Pedir-lhes para que façam simples prece de abertura ou encerramento da reunião, por exemplo, pode afugentá-las.

Quando convocamos alguém para o trabalho e ele diz que não sabe fazer, informamos que é esse o trabalho que ele deve executar; para aprender. Se apenas repetirmos o que sabemos trazido de outras vidas, sairemos daqui sem acrescentar-nos em nada. Portanto, devemos dar prioridade aos trabalhos que não sabemos fazer; para aprender.

O importante, no entanto, é fazermos da nossa vida particular um prolongamento da nossa atuação religiosa, porque muitos de nós somos especialistas no Espiritismo prático, mas poucos praticamos a essência espírita. Falamos, mas não somos; ensinamos, mas não aprendemos! E, no entanto, segundo Emmanuel a mais importante tarefa do homem na Terra é sua própria iluminação. Corrigir antes a si próprio do que os outros.

Esta recomendação do mentor do Chico encontra eco no próprio Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VIII. No item 9, quando o fariseu observou que Jesus não lavou as mãos antes de comer, o Cristo lendo o pensamento dele, comentou: “Agora vos outros, os fariseus, limpais o que está por fora do corpo e do prato, mas o vosso interior está cheio de roubo e de maldade. Insensatos, quem fez tudo o que está de fora não fez também o que está dentro?” – Lucas XI-37/40.

No item 10, Kardec diz que os judeus haviam negligenciado os verdadeiros mandamentos de Deus. Preocupavam-se com o sábado, as mãos lavadas, as oferendas e orações quilométricas no templo, mas continuavam como eram sem modificar-se. Por isso disse o Cristo: “É em vão que esse povo me honra com os lábios, ensinando máximas e mandamentos dos homens.”

Ainda no item 10, Kardec afirma que o mesmo acontece com a doutrina moral do Cristo que acabou por ser deixada num segundo plano, o que fez com que muitos cristãos, à semelhança dos judeus, creiam que a salvação está mais assegurada pelas práticas exteriores do que pela moral. O homem não chega a Deus enquanto não se fizer perfeito.

Se observarmos bem este trecho que já tem vinte séculos, veremos que permanece atual e se aplica a todos os religiosos modernos, inclusive a nós espíritas, lamentavelmente. Somos muitas vezes presunçosos por conhecer de ectoplasma, perispírito, vampirismo, materialização e esquecemos que damos pouca atenção ao amor ao próximo, especialmente quando se trata de aceitar suas limitações. E o mandamento que nos aconselha amar o próximo como a nós mesmos não estabelece ressalvas; não diz desde que o próximo seja seu amigo, seu parente ou da sua religião.

Na parábola do Bom Samaritano Jesus mostrou que a ação em favor do bem é mais importante que o rótulo da doutrina que abraçamos. Oremos e vigiemos!

Tribuna Espírita – maio/junho 2017

Espiritismo e fantasias

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Octávio Caúmo Serrano

O que se vê de doutor em Espiritismo que nunca estudou nada é uma festa!

Se alguém lhe perguntar sobre assuntos referentes à espiritualidade ele sempre terá uma tese pronta e sobre a qual discorrerá como um especialista. Fala de reencarnação, de carmas, de ação e reação, de morte e vida, de enterro e cremação. Para tudo ele tem uma resposta irretocável. Quase uma lei.

Este último item, por exemplo, a cremação. Pergunta-se a um e ele diz que não tem problema. Como disse Sócrates aos discípulos: “O corpo? Joguem fora. Eu lá não estarei.”  Mas se perguntarmos a outro, ele desaconselha totalmente porque se o espírito não estiver totalmente desapegado da matéria irá sofrer as dores das queimaduras! Recomendam, atribuindo a Chico Xavier a orientação, que se esperem setenta e duas horas antes de queimar o corpo.

Por que setenta e duas horas se há espíritos desencarnados há décadas ainda apegados ao corpo e ao mundo material? Nem sabem que estão mortos. O diagnóstico seguro da separação do espírito do corpo só poderá ser dado se houver um vidente que garanta o desligamento total. Mas nessa hipótese, é uma questão de confiar ou não no médium consultado. Setenta e duas horas parecem realmente interessantes, mas para confirmar que o falecido está morto mesmo e não em letargia, como Lázaro de Betânia, amigo de Jesus; o irmão de Marta e Maria. Muitos corpos, quando da exumação para colocar seus restos em ossuários, estavam virados de bruços evidenciando que o morto se movimentou debaixo da terra. Se não o houvessem enterrado rapidamente talvez teria despertado. Ou seja, para confirmar a morte do corpo, mas não que o espírito já se tenha desligado. Para isso nenhum prazo é seguro. O desapego só se dá quando o encarnado trata o mundo material com desprendimento.

Sabe-se que o ato de sepultar pessoas faz parte das tradições, a ponto de um imperador muçulmano megalomaníaco  de nome Shah Jahan construir um monumento, que está entre as sete maravilhas do planeta, para servir de túmulo à sua esposa Mumtaz Mahal que faleceu ao dar a luz seu 14º filho,  nos anos 1600; o Taj Mahal, em Agra, na Índia. O mesmo se deu com as campas dos judeus, os Patriarcas e suas esposas, com as pirâmides egípcias, para servir de morada eterna para os faraós; isso se repete em todas as raças e religiões. A maioria das famílias tem jazigos próprios para seus mortos.

O poder econômico também tem grande influência sobre essa prática, porque o lucro com o morto é permanente. Nos finados as velas e as flores triplicam de preço, mas as pessoas consideram um menosprezo visitar sua campa sem levar-lhe uma oferenda. Nunca se deram flores em vida, mas não querem repetir o descaso.

Os túmulos buscam expressar a importância social do morto e demandam cara manutenção, Mesmo os cemitérios modernos, onde a padronização prevalece, custa caro para manter o jardim viçoso, já que essas campas só tem uma pedra com nomes e datas, encravada num gramado. Sem mencionar os cultos que devem ser feitos no 7º, 30º e 365º dias, e ser repetido todo ano. Simbologia da boa lembrança que, geralmente, não acontece durante todo o ano.

Enquanto faltam terrenos para a construção de casas para os vivos e ruas para desafogar o trânsito, enormes áreas são desperdiçadas com as mortalhas, inclusive de muitos que nunca tiveram um lar enquanto estavam entre nós. Terrenos bem localizados, em áreas centrais das grandes cidades, usados como necrópoles, servindo de ostentação para classes privilegiadas e oferecendo oportunidade para bandidos roubarem metais e outras utilidades, depenando os túmulos. Locais abandonados durante todo o ano, com mato tomando conta dos monumentos. Ninguém pensa neles antes de novembro de cada ano. Nesse mês, roçam, pintam, enfeitam! E o morto nem mora lá…

Nossos mortos devem ter sua campa no nosso coração, se é que em verdade nos amamos em vida.  Caso contrário, esquecê-los, perdoá-los ou pedir perdão é o melhor a fazer e deixar que a Lei da vida decida sobre um eventual reencontro, desde que possa ser útil às partes envolvidas. Como novo tempo de aprendizado, sem a ideia de maldade, porque Deus não castiga ninguém. Só nos dá novas oportunidades de crescimento espiritual. Reencarnar é um dos mais expressivos gestos de misericórdia com que o Pai Celeste nos contempla. Acreditemos ou não!

Quem desejar dar lições de Espiritismo primeiramente esclareça-se na doutrina para não falar tolices e orientar mal as pessoas. Não é assunto para quem frequenta uma reunião por semana para ouvir palestra e, como quem vai à missa, acredita-se espírita. Quem não estuda o Espiritismo não é espírita; é mero simpatizante. Não deve ensinar o que não sabe.

Neste abril comemora-se 160 anos do lançamento de O Livro dos Espíritos. Agradeçamos a Allan Kardec pelo extraordinário presente que deu à humanidade organizando a mensagem dos Espíritos. Um dia o mundo será novamente dividido: Antes e depois do Espiritismo! E a humanidade estará liberta!

Tribuna Espírita março/abril 2017

 

E se um dia o mundo acabar?

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Octávio Caúmo Serrano – caumo@caumo.com

Muitos se referem ao mundo como sendo o Universo, quando na verdade o nosso mundo é apenas este pequeno planeta. E como cada um tem sua própria humanidade, não acontecerá o mesmo nos diferentes mundos. A cada um segundo suas obras, sua destinação e sua era!

Mas se o nosso planeta acabar? O que vai acontecer conosco? Imaginemos que uma guerra nuclear destrua a vida na terra.  Vamos todos morrer, evidentemente. Mas o que é morrer? Os espíritos dizem que é desencarnar, ou seja, morre o corpo, mas o espírito, eterno e imortal, continua vivendo. Não há força bélica que possa destruir as almas.

E o que vai ser de nós, espíritos, se a vida na Terra terminar? Ficaremos na erraticidade (o plano espiritual) aguardando transferência para outro planeta similar ao nosso, já que existem inúmeros, a fim de lá reencarnarmos e continuar nossa espiritualização. A ciência já os está descobrindo e dizendo até onde estão alguns deles. Nunca vamos desaparecer nem ficar órfãos de oportunidades de aprimoramento. Além disso, não nos esqueçamos de que também evoluímos no plano imaterial. Já diz o Livro dos Espíritos que o mundo material é secundário e nem precisaria existir (questão 86). Serve apenas para apressar nosso progresso.

E para o planeta quais seriam as consequências? Ficaria um tempo impróprio para a vida humana devido à radiação, águas poluídas, impossibilidade de nascer alimento, ar impróprio, como já aconteceu no início da sua criação. Mas com o tempo também se renovaria e ficaria adequado para receber novamente corpos similares aos nossos  para a vida de espíritos em processo evolutivo. Jesus, o Governador da Terra, que a administra com tanto carinho e tudo oferece aos seus irmãos, ficaria certamente decepcionado com a ingratidão da humanidade terráquea porque, mesmo em se considerando que a tragédia seria da autoria de uns poucos fanáticos, traria consequências para todos os continentes.

Depois de mais de quatro bilhões de anos para chegar a este estágio, quando se prepara para progredir e ser um mundo de regeneração, voltaria à estaca zero; retrocederia aos tempos da formação quando a vida era impossível como a conhecemos na condição atual. Mas nós, seus atuais habitantes conservaríamos a nossa individualidade e o conhecimento que já acumulamos. Nada perderíamos do que conquistamos com nosso esforço. Seria como se mudássemos de um bairro, escola, emprego, cidade ou país; continuaríamos nós mesmos com tudo o que já aprendemos. Ou como se saíssemos de uma região que é alagada para a construção de uma represa e fôssemos transferidos para um novo local, onde ocuparíamos novas casas. O espírito nunca perde o que conquistou e não retrograda. Nesse sentido, já aprendemos com o Espiritismo no comentário da pergunta 194 a.

Há uma apreensão na espiritualidade quanto a esta possibilidade e os auxiliares de Jesus empenham-se em aconselhar os homens, inspirando-os a pensar de maneira menos egoística e mais fraterna, mostrando-lhes que se matam pelos supérfluos e se esquecem de crescer como almas. Pena que andemos meio surdos. Mas algo de bom já está acontecendo. Quando vemos depois de tanto tempo os Estados Unidos e Cuba entendendo-se, concluímos que já houve algum despertar.

O entendimento e a aceitação do que foi dito neste texto, dá-nos mais esperanças e leva-nos a uma serenidade que não poderíamos ter sem conhecer os desígnios de Deus em relação aos seus diletos filhos. Como podemos nos imaginar abandonados por um Pai misericordioso como esse que nos criou como a sua obra suprema?

Ninguém se aflija, pois o caos não existe e o fim de tudo representa o começo de algo. É um constante vir a ser. Depois da escuridão da noite só nos resta aguardar um novo amanhecer e contemplar a beleza dessa nova alvorada. Depois da tempestade vem a bonança. Quando o sol se deita e lua vem clarear-nos. Nunca estamos na escuridão; a menos que a nossa alma esteja em trevas.

Queremos crer que ainda reste um pouco de bom senso na nossa equivocada humanidade e ela já se deu conta de que é preciso rever valores para que o mundo tenha mais harmonia. Mas jamais percamos a fé.

Tribuna Espírita _ janeiro fevereiro 2017

 

 

Pretensão

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Octavio Caumo Serrano

Aspiramos chegar ás estrelas e ainda não sabemos fazer serenamente a viagem que nos leva ao próprio coração. Julgamos tudo apressadamente. Perdemos oportunidade por nos faltar calma para pensar, falar e agir.

Há mais ou menos trinta e cinco anos, em São Paulo, assisti a uma palestra do conferencista Divaldo Pereira Franco, quando ele comentava: – “Imaginemos um espaço que vai do norte da América do Norte ao Sul da América do Sul, como sendo o tamanho da nossa  Galáxia, a Via Láctea. Nalgum ponto deste espaço, há uma moeda de cinco centavos, que simboliza o nosso sistema solar; em algum lugar desta moeda de cinco centavos há um ponto do tamanho de uma cabeça de alfinete que é um planeta desse sistema. O homem teve acesso a algum lugar nessa cabeça de alfinete e como não encontrou vida igual à nossa, decretou: Não há vida fora da Terra.” Mal comparando, seria como um marciano descer no deserto do Saara; nem gente, nem bicho, nem água, nem planta… Veredicto do marciano: – Não há vida na Terra.

Em razão da pressa para saber, conhecer e julgar coisas e acontecimentos, nem percebemos como as aparências enganam. Devemos analisar tudo por diferentes ângulos. Alguém fisicamente feio pode ter beleza de alma. Calado não demonstra quem é. Mas ao se expressar, faz jorrar conhecimento e sabedoria com as mais seguras orientações. Mas se analisarmos só o exterior não sabemos que ele tem beleza. O mesmo acontece quando a julgamos pelos trajes, pelos pertences, pela escala social, etc. Corremos o risco de cometer grandes equívocos. São os preconceitos.

Quando percebermos o pouco que sabemos ficará fácil deixar-nos ensinar. Se não desejarmos continuar limitados, acabaremos nos abrindo para novos saberes. Por mais absurda que pareça uma definição, não esqueçamos que pessoas foram flageladas por afirmar que o Sol era o centro e a Terra girava em volta dele. Cientistas alemães recém fizeram experiências com drogas que mantiveram pessoas mortas por vinte minutos e depois as ressuscitaram para que relatassem o que viram e sentiram. O assombroso é que todos afirmaram que a vida continuava. Mesmo com o organismo físico desligado, a alma continua vendo, ouvindo, sentindo e pensando. Os cientistas disseram que lamentam discordar de certas religiões, mas que a vida nunca cessa e é assim para todas as pessoas. Não é algo místico, mas o resultado de experimentos dentro dos princípios da ciência. Testes conclusivos: Não há morte para a alma!

Já houve quem dissesse que há dois tipos de tolos. Os que acreditam em tudo e os que não acreditam em nada. Não tenhamos pressa em aceitar o que não compreendemos, afrontando nossa própria razão. Todavia, também não tenhamos pressa em negar o que aparece de novo, porque o mundo caminha a passos largos e não é possível tudo sabermos. Mal comparando, as décadas de hoje equivalem aos séculos de outrora. Entre a informação e a aceitação, há um resguardo para discernimento. Se não concorda, adie a sua aprovação ou o seu interesse no aprofundamento do que foi revelado. Se for de encontra ao seu bom senso, não adicione às suas verdades. Mas cuidado para não negar apressadamente porque poderá ter que pedir desculpas  desapontado. No nosso país, há uma dúzia de anos, um operário fez-se presidente. Para uns ele era um perigo e até já pensavam em sair do país; para outros a salvação da lavoura; tudo que mais precisávamos. De início aprovação máxima já conseguida por alguém num cargo similar: 80/85%. Passado uns tempos essa porcentagem virou rejeição. Foi de Deus a vilão, em prazo muito curto!

Agora, quando estávamos sentimentalmente simpatizando com uma senhora candidata à presidente dos Estados Unidos, virtualmente vencedora, frustramo-nos com sua derrota e já vemos o caos internacional se instalando. Embora soubéssemos deles quase nada, tínhamos preferência. Como esse país no cenário mundial é relevante, já estamos sofrendo por antecipação. Como somos precipitados! Ainda não percebemos que os eleitos só ganham porque Deus autoriza a sua vitória. Pensamos que eles se elegem pelo voto popular, mas as consciências humanas são comandadas por uma força superior que as impele a fazer o melhor, ainda que aos nossos olhos pareça o contrário. Quantas vezes é preciso que cheguemos ao fundo do poço para começar o caminho de volta de forma mais lúcida. Até o sofrimento é um teste de crescimento.

Não devemos definir que se fosse diferente seria melhor, porque nunca o saberemos. O “SE” é mera divagação de utopias imprevisíveis. “SE” é algo que não se consumou e ignoramos como seria se houvesse acontecido. É preciso dar tempo ao tempo. Que cada pessoa faça a sua parte e se não concorda com o estado de coisas aja diferente, porque é somente por sua ação que cada um é responsável. Se for bem feita não tema pelos erros dos outros. O mundo é maior que nós e ninguém pode o tempo todo contrariar o bom e o bem que, ao final, sempre saem vencedores. Deus nos deixa participar para testar nossa lucidez; mas a palavra final é sempre Dele. Nunca percamos a fé!

Feliz Natal; e que os principais presentes que recebamos e ofertemos sejam o amor, o otimismo,  a solidariedade e o respeito mútuo.

Tribuna Espírita Novembro/Dezembro 2016

Somos todos adotados

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Octávio Caúmo Serrano             caumo@caumo.com

Aprendemos ao longo da história milenar que o homem é uma alma reencarnada. Uma afirmativa, por exemplo, de Sócrates, 400 anos antes de Jesus e 2250 anos antes de o Espiritismo, organizado por Allan Kardec que nasceu em 3 de outubro de 1804, vir para ressuscitar a Lei da Reencarnação, arquivada e esquecida nos escaninhos do passado remoto.

Quando um casal se une para produzir um corpo, constrói uma nova casa para o abrigo de alguma alma milenar que virá morar nela, após cuidadosa programação, levando-se em conta seu passado espiritual e necessidades evolutivas que precisa experimentar. Traz, portanto, um psiquismo já plenamente povoado de ações, boas e más, caracterizadas como virtudes e defeitos que já estão nele incorporados, porque estes são os tesouros do céu, que o ladrão não consegue roubar.

Nossas experiências ficam acumuladas no inconsciente para toda eternidade. Daí porque vale a pena o esforço de renovação para melhorar-nos porque se incorpora para sempre em nós e nunca mais o perdemos. Uma conquista definitiva. Uma vez paciente seremos dono da paciência; para sempre. Uma vez humilde, dono definitivo da virtude da humildade. Por todos os milhões de séculos que ainda nos restarão viver.

Embutido nesse passado, há amiúde resgates ligados à fertilidade e à impotência dos humanos, o que os impedem de criar o novo corpo no qual virá morar essa velha alma que deseja continuar suas experiências. É para as mulheres um momento de frustração inconsolável porque, sem dúvida, é na maternidade que elas experimentam o seu mais sublime momento de vida. A alegria é tanta quando ficam grávidas que por mais feias que sejam suas feições humanas elas se enriquecem de uma beleza que transparece pelos poros, com olhos mais brilhantes e suavidade no semblante. Conclui-se que é por terem no seu corpo, durante esses nove meses, duas almas em vez de uma.

Há um recurso ainda mal compreendido para preencher essa decepção causada pela infertilidade que é a adoção. Embora aprendamos que o corpo herda do corpo, mas o espírito tem sua própria história, ainda há um tabu no momento da adoção. Temem que o adotado seja filho de algum malfeitor e traga com ele uma carga maligna herdada do genitor. Embora saibamos que caráter não se transmite por DNA, há sempre alguma apreensão.

Em O livro dos Espíritos, na pergunta 203, foi feita a seguinte indagação: “Os pais transmitem aos filhos uma porção de suas almas ou apenas lhes concedem a vida animal, à qual uma alma nova vem, mais tarde, adicionar a vida moral?” Resposta, “Os pais transmitem apenas a vida animal, pois a alma é indivisível. Um pai estúpido poderá ter filhos inteligentes e vice-versa,”
A seguir, na questão 207 há outra dúvida: “Os pais frequentemente transmitem a seus filhos uma semelhança física; transmitem, também, uma semelhança moral?”  Resposta, “Não, pois têm almas (ou espíritos) diferentes O corpo deriva do corpo, mas o espírito não deriva do espírito. Entre os descendentes das raças há apenas consanguinidade.”

Mas como explicar que às vezes há semelhanças morais entre pais e filhos? Na questão 207a está dito que são espíritos simpáticos, atraídos pela afinidade de suas inclinações.

Quem não puder ter filho não tenha preconceito contra a adoção, porque filho legítimo ou adotivo será um homem de bem, ou não, conforme a educação que se lhe dê. É provável que um adotado nos cause até mais alegria porque, se for correta e naturalmente informado dos antecedentes, saberá ser agradecido e procurará corresponder ao amor que lhe foi ofertado. Ao contrário do chamado legítimo, que quando é contrariado nas suas necessidades logo solta aquela conhecida frase absolutamente inverídica: “Eu não pedi pra nascer.” Às vezes pediu e até implorou.

Quando o adotivo está na categoria dos espíritos afins, como relatado na questão 207a acima, poderá ser até mais parecido com os pais do que aqueles que foram gerados no ventre da mãe genitora. Serão mais amigos e sabe-se lá porque chegaram a esse lar. No livro da psicóloga americana Helen Wambach, “Vida antes da vida”, ela relata nas entrevistas por regressão hipnótica, alguns casos de pessoas que sabiam que iriam nascer de uma mãe com a qual eles não tinham compromisso, mas que logo depois seriam adotados por outras pessoas com as quais tinha comprometimentos anteriores. A Lei de Deus é muito bem feita!

Nunca se esqueça: FILHO ADOTADO, TROFÉU DE AMOR. Título do Capítulo 13 do nosso livro “Pontos de Vista” de março de 1996. Se já existíamos antes de nascer, somos todos adotados.

Tribuna Espírita – Setembro/Outubro 2016

 

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