A ilusão das oferendas

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Octavio Caumo Serrano
Novembro; mês de reverenciar santos e mortos

Segundo a doutrina espírita, porém, são essas duas classes de tipos inexistentes. Do mesmo jeito que a igreja santifica pessoas baseada em supostos milagres, aconselha acender velas e oferecer flores às almas que já não vivem entre nós. Evidentemente, esta é mais uma forma de obter vantagens graças à crendice irracional, porque a maioria pensa que a luz enfumaçada de uma vela poluente, pode iluminar os caminhos dos mortos, para irem ninguém sabe aonde; o que pode oferecer luz a um ente querido é a oração sincera, o perdão por uma mágoa ainda guardada, a doce lembrança dos bons momentos vividos e a gratidão por lições aprendidas.

Diz o Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XVII, item 11 (Cuidar do Corpo e do Espírito) que há ascetas, que agridem o corpo e os materialistas, que querem diminuir a alma, para os quais tudo é apenas humano e nada há de espiritualidade. “Duas violências, tão insensatas uma quanto à outra”. Diz Georges, Espírito protetor em 1863.

O corpo precisa ser tratado com o melhor cuidado, amor e respeito, porque é a sede de uma alma que o usa provisoriamente como recurso de progresso espiritual, já que esta é a finalidade da vida em mundos materiais como a Terra. Não pode ser negligenciado, menosprezado ou aviltado. É tido como o templo do espírito. Mas, no final, ele será descartado e a alma levará consigo apenas as ações que ele a permitiu praticar. A vontade vem da alma, mas a ação vem muitas vezes das mãos e braços que oferecem a ajuda caridosa que enaltece o homem espiritual. Nada levamos de material, porque só as ações podem ser transportadas para o plano da erraticidade. Já disseram que os bens materiais são retidos como contrabando na fronteira entre os dois planos.

Conclui-se que, assim como as oferendas do Templo de Jerusalém, também são inócuas e inúteis as promessas com repetição de preces não sentidas ou o flagelo físico nas escadarias, de joelhos, mortificações por chibatadas nas próprias costas, ou a inútil caminhada de setecentos quilómetros até a igreja de São Tiago, na bela Coruña, Galícia espanhola. Mentem nos iludindo que simples andança e a oferenda ao templo “sagrado” podem curar nossos “pecados”. Se durante a caminhada orarmos, arrependermo-nos de erros que provocamos, a nós ou a terceiros, com a predisposição de não voltar a cometê-los, poderemos colher benefícios. Mas nada que não possamos realizar na nossa cidade, estado ou país. Ou mesmo no nosso lar. A Galícia é linda e tem bons vinhos. Quem puder visitá-la que o faça porque viajar é dos melhores recursos para se adquirir cultura. Mas não para ter “pecados” perdoados sem méritos que justifiquem. Ou comprados com esmolas a uma igreja. Os bens de Deus não se compram com dinheiro.

O Espiritismo ensina que a anulação de nossos erros demanda quatro etapas: Reconhecimento, arrependimento, retratação e reparação. Os dois primeiros dependem do autor; o terceiro precisa do ofendido e o quarto que ainda haja possibilidade de conserto do mal que provocamos. Quando isso não é possível (porque o outro está distante ou desencarnado) o gesto fica guardado na bagagem dos nossos carmas para soluções futuras. Na próxima ou nalguma outra encarnação. Isso é o que ensinou Jesus ao aconselhar a reconciliação com os adversários enquanto estamos a caminho.

Não se preocupe em enfeitar o túmulo do seu parente com velas e flores no dia de finados se você passou o ano todo sem incluí-lo em suas recordações sequer por um minuto. É até possível que ele vá até o cemitério, mas só se não estiver reencarnado ou não tiver algo mais importante para fazer nesse dia. No túmulo, dentro do caixão ou da gaveta, você já sabe que ele não está. Só por amor é que se dá esse encontro. Não é pelas velas ou pelas flores.

Certa vez fiz um soneto que dizia:

Remorso – Octávio Caumo Serrano

Há viúvos que vão ao cemitério, / Levar flores por ter na sua consciência/Remorso pela falta de clemência/Com a esposa, até em pleno climatério!…  (vivendo em adultério)

Sentindo-se, qual Rei, dono do império/Sem ter com ela um pouco de paciência, /Não via que isto era uma incoerência, / Tratando-a com desdém; um impropério.

Jamais deu-lhe uma flor no aniversário; /Nunca lembrou o dia do casamento, /Sentia-se um verdadeiro donatário…

Agora que o remorso não aguenta, /Deseja aproveitar esse momento/Livrando-se do mal que o atormenta!

Jornal O Clarim – novembro 2020

Parentes e amigos

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Octávio Caumo Serrano     ocaumo@gmail.com

À família do mundo destina-se à formação da família espiritual. Enquanto a sanguínea é resultado de ato biológico, a espiritual só é formada por elos de amor entre os componentes. A finalidade da família na Terra é transformar parentes em amigos. Somos parentes comumente à nossa revelia, mas para ser amigo é necessário o nosso consentimento. E para bom êxito é comum termos até de “engolir sapos”.

Diz o Evangelho Segundo o Espiritismo (cap XIV item 9) que é dos mais graves equívocos a ingratidão dos filhos. Por mais que os pais falhem e não correspondam aos seus anseios, eles lhes devem, no mínimo, algo precioso que é a vida. Se não gostam de como agem seus pais não repitam com seus filhos o que censuram neles. Mas jamais os maltratem, abandonem ou condenem. É possível que lhes faltou recursos ou conhecimento para ser melhores. Mas o fato de o terem trazido ao mundo já é razão suficientes para que estes sejam gratos. E se forem mais competentes, que os ajudem e protejam. Há muito de verdade quando o povo diz que a mãe cuida de dez filhos e dez filhos não conseguem cuidar de u´a mãe.

Há filhos que cobram dos pais o que eles, com mais cultura e recursos, não fazem. É comum que numa família, além dos pais, também filhos mais velhos abandonem ideais para sacrificar-se pelo irmão mais novo, o caçula, que por vezes é temporão e não viveu as agruras de épocas mais difíceis. Quantos são doutores e estudaram com a renúncia do mais velho que precisou colaborar no sustento da casa. É comum, porém, que quanto mais facilidades tiveram e mais receberam mais ingratos sejam. Para eles os pais valem mais mortos que vivos porque deixam algum patrimônio para o seu desfrute. Não preservam a memória do ancião esquecendo-se, inclusive, das noites que passaram nas suas cabeceiras cuidando da febre que os atormentava. Infelizmente quem não serve para ser filho também não serve para ser pai; normalmente recebem de sua prole a mesma ingratidão que usaram com os genitores.

Meus pais eram operários e analfabetos, mas seus exemplos ainda vivem em mim. Jamais um cobrador bateu duas vezes à porta para cobrar a mesma dívida. Lembro-me de uma ocasião (1947) em que meu pai passou um ano doente, tomando remédio todos os dias sem que conseguisse manter o alimento no estômago. Com 1,60 chegou aos 42 quilos. Um pouco melhor, foi trabalhar e num sábado não voltou para casa porque o patrão ficou de levar-lhe dinheiro e não foi. Ele estava sem um centavo em casa. Conto no poema Fragmentos de Vida-Exemplos do meu pai: “Já raiava um novo dia/o domingo amanhecia/quando a mãe me despertou:/-Meu filho estou preocupada/passei a noite acordada/porque seu pai não voltou!/Assustado com o que ouvi/me apressei logo em sair/e fui até a construção;/lá encontrei meu pai sentado,/todo triste acabrunhado,/de olhar fincado no chão./Sem receber seu salário/porque a patrão usurário/não pagou a semanada/ele estava entristecido,/mais que isso, aborrecido/de alma despedaçada…/Aquele homem decente/que estivera tão doente/estava sendo a aviltado/e eu, seu filho, seu sonho,/ estava também tristonho/por ver meu pai humilhado!/Amanhã eu me demito/disse-me quase num grito/porque isso não é direito/se teu primo é nosso amigo/como faz isso comigo/que lhe dedico respeito./Com treze anos de idade,/ mantendo a serenidade/falei-lhe usando critério:/- Se acalme, pai, dá-se um jeito/o senhor é homem direito/ e Deus protege quem é sério;/afinal lá na gaveta/daquela cômoda preta/o senhor tem reservado/o valor da prestação/da bomba do seu João;/pague alguns dias atrasado!/- Esse dinheiro não é meu,/bravo meu pai respondeu,/inda que eu coma capim!/E não me faça careta,/depois que vai pra gaveta/já não mais pertence a mim!/Fiquei todo embevecido/ante o gigante ferido;/meu olho ainda mareja;/que lição naquele dia! Deus do céu, Virgem Maria!/- Sua benção, pai, onde esteja!

E viva os pais!

Jornal O Clarim – Agosto 2020

As “gentes” do mundo novo

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ocaumo@gmail.com  Octávio Caumo Serrano

O que virá a seguir? É a indagação do momento!

Certamente, uma parte da sociedade brasileira (e mesmo mundial, porque ser humano é igual em qualquer lugar) viverá um tempo de regeneração, acompanhando a tendência de progresso do planeta em que vivemos. A evolução é permanente e quem se negar a acompanhá-la será esmagado como uma pequena pedra que tente impedir o deslocamento de uma jamanta. Mas é preciso que a sintonia com este desejo de aprimoramento já exista no indivíduo. Milagres nunca acontecem porque a lei se cumpre sem favorecimentos que não tenhamos conquistado por direito.

Nestes dias de desconforto planetário temos inúmeras demonstrações de algo definido como fé, sem que as citações sejam acompanhadas de atitudes. Mandamos pelas redes sociais orações, mensagens de esperança, músicas, louvações, vídeos, áudios e que tais. Mas não basta crer em Deus na teoria sem nos afastarmos um milímetro do conforto que temos, sem lutar contra as próprias imperfeições e sem praticar um mínimo de bondade que contemple um miserável parceiro de jornada, especialmente fora da parentela do mundo ou do restrito círculo das amizades.

Analisemos certas categorias da sociedade humana, muitas delas escravas do sistema que não podem se regenerar, por mais que desejem. Como encontrar um político com vontade própria (em qualquer esfera ou escalão) num regime de trocas e favorecimentos constantes, nessa profissão que tem por objetivo primordial fazer o homem se dar bem, sem que ele conviva em harmonia com os demais para tirar proveito, submetendo-se até ao que não aprova para perpetuar-se nos cargos e arrastar suas próximas gerações para este inesgotável eldorado. O leitor concorda que é impossível, não? Por mais que sua intenção fosse boa.

E entre os párias sociais, assaltantes, criminosos e traficantes (desde os produtores até os que atuam nos mais diferentes escalões da distribuição). Como podem mudar de vida transformando-se em honestos se vivem da desgraça dos infelizes que não sabem administrar-se. Não são seres que têm vida, mas mortos que respiram. Seus corações são vazios de sentimentos e funcionam apenas como bomba de distribuição para que os órgãos sigam funcionando. Os sentimentos mais elementares estão todos extintos. O amor ao próximo, para eles, não faz nenhum sentido.

Como podem comerciantes desonestos e sonegadores que subfaturam suas vendas para livrar-se da tributação,  que adulteram alimentos e vendem remédios fraudados que não têm eficiência contra o mal do doente; como imaginar que um contrabandista pode se tornar decente por ter sido assustado por um vírus desconhecido, se a polícia e a prisão ou pena de morte nenhum receio lhes causam? Não vamos sonhar acordados. Para esses, o expurgo é inevitável e a vida num mundo inferior, onde começarão de novo, é a única saída.

Não esqueçamos dos drogados, maníacos sexuais, pedófilos, agressores nos lares que covardemente ferem esposas, filhos, pais idosos e todos os que se opõem às suas manias e vícios. Será que se modificarão após a pandemia apenas por haver sobrevivido. Entenderão que lhes foi dada nova oportunidade de mudança?

Deixei para o fim os seres comuns como nós, que nos dizemos religiosos, mas que só usamos o nome de Deus, de Maria, Jesus e dos Santos ou Espíritos para nos dar bem. Nas nossas rogativas, verdadeiras odes ao egoísmo, lembramos apenas dos nossos: minha família, meus amigos, meu país! Sem percebermos que o choro de um implica o choro de todos, lesamos o próximo com promessas de falsa salvação. Esquecemos que somos todos interdependentes. Um produz algo que o outro consome, enquanto também fabrica algo diferente para alguém usar. Na vida somos todos, ao mesmo tempo, vendedores e compradores. Mesmo que seja de informação. Ninguém vive sem o próximo. E só se estivermos todos em harmonia é que vamos sobreviver. Caso contrário cairemos todos no mesmo precipício, abraçados uns nos outros, num suicídio coletivo. A hora chegou e não admite alegações de qualquer ordem. Lembro-me de uma frase do saudoso humorista Chico Anysio do seu personagem o Profeta: “Somos como mourões de cerca; só ficamos de pé porque estamos amarrados uns nos outros”.

A lei de Deus sempre esteve insculpida na nossa consciência. É só escutá-la e segui-la. A convocação para o Mundo de Regeneração já começou há algum tempo. O prazo está findando. Lembrando Jesus, “muitos serão os chamado, mas poucos os escolhidos”. Sabem por quê?  Porque quem chama é Deus e quem se escolhe é o homem”. E ele sempre opta pela escolha errada. Desde quando matou Jesus e libertou Barrabás! Corramos; o tempo é agora. A tarefa é pessoal e intransferível. Salve-se quem puder; ou souber. E que o Pai nos ajude!

Jornal O Clarim julho 2020

Depois da tempestade

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ocaumo@gmail.com Octávio Caumo Serrano

Após o mundo controlar a pandemia, o que restará de bom?
Se voltarmos na história do mundo recente e moderno, constataremos que já houve problemas similares com certa regularidade; a cada século. 1720, a grande praga de Marselha; 1820, pandemia do cólera; 1920 a gripe espanhola; 2020, o corona. Algumas, como a de 1920, com consequências muito mais devastadoras do que temos até agora com o covid-19. E quem foram as vítimas? Provavelmente muitos de nós, também, em encarnações anteriores.
Quando analisamos a evolução tecnológica, contrastando, e muito, com seu progresso moral, somos forçados a admitir que as dores não são argumentos suficientes para melhorar o homem. Certamente, surgirão movimentos que enaltecem o ser humano, quando comunidades se reúnem para socorrer os mais sofridos nestas horas de angústia. Mas são ainda uma minoria com propensão para o bem, mas sempre com a tradicional omissão dos mais poderosos política e financeiramente. E quando dizem presente é para auto enaltecer-se e colher dividendos políticos e financeiros. Geralmente é o pobre que socorre o pobre.
Nossa afirmação se baseia na constatação de que, apesar das dificuldades por que passa a sociedade, os oportunistas continuam presentes e tentam se beneficiar do sofrimento alheio para proveito próprio. Alimentos com preços abusivamente aumentados, o mesmo acontecendo com remédios, equipamentos e produtos de proteção contra a pandemia. Por que isso acontece? De quem é a culpa?
Certamente que a maior razão é que ainda estamos como mundo de provas e expiações onde o atraso prevalece com destaque para o exacerbado egoísmo dos homens que procuram estar bem, mesmo à custa da miséria alheia. Afinal, dizem, a vida é uma só e temos de aproveitar. Daqui a pouco morremos e fica tudo aí.
Nesta hora, vem-nos à mente o mal que a igreja católica fez à humanidade quando excluiu de seus dogmas a reencarnação, no Concílio de Constantinopla em 553 d.C. Certamente não é a única razão para a conduta irresponsável dos homens, mas é uma das mais importantes. Acreditássemos já há quinze séculos que a lei de causa e efeito nos cobra pelos atos realizados e que não sairemos da inferioridade antes de pagar até o último centavo, é provável que nossa conduta fosse diferente. Saberíamos que tudo o que semearmos teremos que colher. Um motivo a mais para sermos, usando a linguagem eclesiástica, “tementes a Deus”.
Por isso sou pessimista quando à capacidade desta praga melhorar a humanidade quando o mal terminar. Uns ou outros, já meio propensos ao bem, alçarão voos mais altos. Mas a maioria desonesta, que vive na criminalidade dos mais diferentes jaezes, quer descamisado quer de colarinho branco, não subirá um degrau na sua escalada espiritual. Para eles não há um futuro que valha o investimento, já que a morte e o fim. Comemorarão a sobrevivência e pronto! Por isso é que os cristãos brasileiros, católicos ou protestantes, sorriem e fazem pouco dos espíritas quando estes falam de outras vidas por sucessivas encarnações.
Não tenhamos exageradas ilusões imaginando que depois da tempestade possa vir grande bonança. Um planeta que tem 95% da sua riqueza nas mãos de 5% da sua população, onde os miseráveis da África, Ásia e América Latina não tem acesso à rede de esgotos, água potável, escolas e hospitais, não pode ser um mundo feliz. A corrigenda do ser humano demanda ações radicais muito mais rigorosas do que uma pandemia por um vírus que morre com cinco minutos de sol ou lavando a mão com água e sabão ou bloqueando a nossa saliva com máscara para que não atinja o próximo. Ele nos mata menos pela sua força e mais pela nossa imunodeficiência, devido aos pensamentos inferiores negativos e alimentação inadequada, tão comum nesta geração “fast food” onde predominam os enlatados com conservantes que nos envenenam. Podem me chamar de pessimista, mas perto dos 86 anos de idade já passei da fase de sonhador irracional. Mesmo a distância, vivi os efeitos da segunda grande guerra quando faltava tudo e o pouco que havia era racionado. Vivi os percalços do governo militar e inflação de 80% ao mês! Também o confisco de nossas economias nos deixando, cada um, com R$ 50,00. E de lá para cá o mundo moral só piorou; o tráfico cresceu, a criminalidade aumentou e as desigualdades explodiram. Não vai ser um viruzinho como o corona que vai conseguir educar-nos ou sensibilizar-nos. Aguardem e verão se alguma mudança será percebida na humanidade.
Ah!, como eu gostaria de estar errado!

Jornal O Clarim maio 2020

 

O Evangelho e os homens

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Octávio Caumo Serrano   caumo@caumo.com

Ensinar é informar; mas nunca temos a certeza de atingir os objetivos.

O Evangelho, também conhecido como a Boa Nova, ensinado por Jesus, pode, como diz a parábola, acabar na areia, na pedra, na terra… E vai dar frutos ou não dependendo de onde caia e em que condições.

Para entendê-lo, consultemos o mesmo Jesus. Se numa hora Ele diz que não devemos pôr a candeia debaixo do alqueire, logo depois afirma que não se deve dar pérolas aos porcos. Ou quando Ele diz que a quem tem mais, mais será dado, e de quem tem pouco até esse pouco será retirado. Ou, segundo a voz do povo, não devemos gastar vela com mau defunto. Por que essas contradições.

Não há contradições. Podemos comparar essa divulgação a uma aula ministrada por experiente professor que diz o mesmo para todos os seus alunos. Mas no fim do ano, uns passam com destaque, outros “raspando” e ainda há os que não passam. No entanto, o professor ensinou igualmente a todos, mas cada um entendeu conforme a sua capacidade e desejo. Esse desejo geralmente está condicionado ao grau de sabedoria do indivíduo. Não é que ele não quer; ele não pode porque a mensagem está acima do seu discernimento e lhe falta bom senso. É como um paciente que só entende superficialmente a sua doença, quando explicada por um especialista.

Na pergunta 621 de O Livro dos Espíritos foi indagado aos veneráveis onde está escrita a Lei de Deus. E eles responderam: Na consciência. Perguntou-se, a seguir, então porque ela lhe tem de ser lembrada constantemente com a vinda de emissários divinos que repetem sempre o mesmo e eles disseram que é porque os homens a esquecem e menosprezam.

Este alerta sobre a divulgação do Evangelho é importante porque um expositor fala para um público e cada pessoa dessa coletividade entende de um jeito. O que para uns é óbvio para outros é mistério. A maioria dos homens ainda não percebeu que ao perdoar e a si que perdoa e ao odiar é seu coração que se enche de veneno. Somos o criador dos nossos males e podemos ser o primeiro e maior médico para as nossas enfermidades. É o que diz o Evangelho há vinte séculos, para todos os cristãos, e eles ainda não entenderam e vivem digladiando-se. Cada um define o Cristo de uma forma e usa suas lições conforme suas conveniências. O mesmo acontece com os que seguem Buda, Moisés, Maomé e outros enviados de todos os tempos. Todos falaram a mesma coisa para seus povos e em seus idiomas, mas cada um deles é um procurador de Deus traduzindo a Lei Divina para um vocabulário acessível aos homens. E nesses casos, nem sempre os mais letrados entendem melhor que analfabetos. Cultura e sabedoria são atributos diferentes.

Inútil tentarmos amestrar os homens enquanto insistirem em ser feras. Pensarão e agirão como feras. Não afaste seu familiar de Deus ou do Evangelho de Jesus pregando de um jeito e vivendo de maneira oposta. Sem o exemplo não há convencimento. Não falemos do Evangelho sem mostrá-lo em nossas atitudes. Serão palavras ao vento! Não recitemos mensagens; sejamos nós a mensagem. É preciso coerência entre o que falamos e o que vivemos.

Nas escolas de evangelização infantil espírita, defendemos que não deve haver massinhas ou joguinhos, mas evangelho. E se alguém disser que criança não entende, permita-me contar uma passagem,

Fazíamos palestra numa quarta-feira à tarde, no Centro Kardecista os Essênios em São Paulo, onde habitualmente estava presente uma senhora com duas filhas de sete e cinco anos. A menor, loirinha, um biscuit, sentava-se na posição de lotus (como os iogues), longe da mãe, e dormia profundamente. Eu ficava aflito porque ela balançava e parecia que iria cair da cadeira. Nunca caiu.

Certa quarta, ao sair, encontramos mãe e filhas na porta do centro. -Olá. Vocês ainda por aí? – Pois é, meu marido que vem nos buscar atrasou-se. Não havia celulares… Nesse momento a pequena dorminhoca disse à mãe: – Mãe, o seu Octávio fez uma palestra tão legal! Surpresa, a mãe indagou. -Foi filha? Por que você achou a palestra legal? – Porque ele disse que nós só devemos fazer para os outros o que nós queremos que os outros façam pra nós! Eu achei muito legal!…

Não há crianças. Há espíritos adultos que voltam para novas experiências. Não fale com crianças com a linguagem do bilu-bilu, porque ela vai olhar para você e vê-lo com um tonto! O Evangelho sai da nossa boca igual para todos, mas chega diferente no ouvido de cada um. E daí para o cérebro e coração é uma longa viagem.

Tribuna Espírita setembro/dezembro 2019

 

 

Você acredita na reencarnação?

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O tema é reencarnação            Octavio Caumo Serrano

Você acredita na reencarnação? Alguém me perguntou… Não! Não acredito porque não preciso. Eu a vejo e compreendo quando observo as pessoas.

Não cremos na maioria das coisas porque as vemos, mas porque as sentimos ou compreendemos. Assim é, por exemplo, com o ar ou a eletricidade. Existem e basta! Como disse Jesus a Nicodemos. “Falo das coisas da Terra e você não entende; que será quando eu começar a falar das coisas do Céu!”

Mesmo quando não vemos, o bom senso, se é que o temos, nos mostra uma realidade que as palavras não explicam, mas que por dedução inteligente nós a constatamos. Com a reencarnação acontece assim. Embora haja muitos relatos de pessoas, especialmente crianças, que contam fatos de suas vidas anteriores, citando nomes, datas e fatos comprovados por testemunhas ou documentos, nem isso é necessário porque a ideia circula em nossa mente, independentemente de crença religiosa. É intuitiva porque já foi vivida e faz parte das experiências estocadas na alma. Mesmo os que afirmam que ninguém voltou para contar, usam argumento inconsistente. De que forma gostariam que voltassem? Como humanos ou fantasmas?

Certa vez, quando eu tinha casa de campo no município de Mairiporã, São Paulo, visitei um vizinho que havia conhecido um centro espírita e se encantara com as lições do Evangelho explicadas por Kardec. A esposa, de outra doutrina cristã, bem radical, se dirige a mim e argumenta: – Viu as ideias que o seu amigo está tendo, Octávio? Agora só fala de reencarnação. – Você acredita “nessas coisas”, Octávio? Respondi: – Eu não, ao que ela aduziu, eu também não.

Após pequena pausa, voltei ao assunto e argumentei: – Mas, sabe, minha amiga. Uma coisa que me intriga é, por exemplo: – Você crê em Deus. – Sim, claro. – E como é o seu Deus, bom ou mau? – Extremamente justo e misericordioso! – Pois aí é que eu me perco, minha cara. – Por que, então, esse Deus cria filhos tão diferentes? Ricos e pobres, sadios e aleijados, bonitos e feios, uns que morrem tão cedo e outros que ficam tão velhos, se para Ele todos deveriam ser igualmente filhos queridos? Ela me olhou, profundamente surpresa, e disse: – Sabe que eu nunca havia pensado nisso. – Eu também não, minha cara. Penso que é hora de começarmos a pensar. Embora eu já fosse espírita, inclusive palestrante, se dissesse a ela que acreditava em reencarnação seria para ela mais um desequilibrado, segundo o seu conceito.

O número dos que acreditam é muito maior do que o número de espíritas confessos que no Brasil não chegam a sete ou oito por cento da população. E os que não acreditam, mas têm dúvidas formam um percentual enorme, passando de setenta por cento. É a única explicação que leva uma organização de TV líder no Brasil e com penetração internacional expressiva a fazer um seriado falando do tema reencarnação e vidas passadas. Não fez a série para os espíritas porque não atenderia às suas necessidades de audiência. Isso me lembra muito o ditado espanhol: “No creo en brujas, pero que las hay, las hay.”

Há muitos que preferem acreditar na salvação pela fé com a frequência à alguma igreja que prometa milagres. Não há local ou situação que a todos “salvem” indiscriminadamente porque seria injusto. Mais do que fé vale o merecimento. “Faz que o Céu te ajuda” é uma das célebres promessas de Jesus. Dizem os espíritos que “Deus que nos criou sem o nosso conhecimento não poderá salvar-nos sem a nossa colaboração.” Por isso, conheça a Verdade e liberte-se. Ou seja, liberte-se de si mesmo porque somos nós nosso maior algoz. Obsessor só nos derruba quando sintonizamos com suas “fake news”. Mentiras que nos adulam e iludem porque exploram nossa vaidade e desconhecimento de nossas próprias qualidades e defeitos. O Espiritismo é a doutrina da razão. Estude-o para conhecer-se e então seguirá por caminhos novos, liberto de ilusões e fantasias. Fiquem com Deus!

Tribuna Espírita – julho/agosto 19

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