O homem no mundo

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Octávio Caumo Serrano – caumo@caumo.com

Você acredita em reencarnação?

Quando me fazem esta pergunta digo que não. Não preciso acreditar na reencarnação porque eu a constato quando olho para as pessoas. A diferença entre nós deixa claro que já vivemos outras vezes e cada um aproveitou como quis ou como pode. Em O Livro dos Espíritos, questão 192, foi indagado aos orientadores da espiritualidade se podemos atingir a perfeição numa única existência e a resposta foi “não”. Por mais adiantado que qualquer um de nós já esteja, o que sabemos é uma migalha do que nos resta saber. Isso é facilmente explicável porque nos faltam atributos para entender até o mais trivial entre os conceitos que abrangem a perfeição espiritual e mesmo a ciência dos homens.

Os Espíritos disseram, no entanto, no item “a” da mesma pergunta, que o homem pode garantir uma existência menos traumática depois desta vida, se não for desleixado, quando então estacionaria sempre no mesmo lugar. Isso nos convida a selecionar, de maneira rigorosa, o que pensamos, o que falamos e o que fazemos. Ter coragem para mudar o que pode ser mudado e sabedoria para aceitar o que não pode ser mudado. Sem ódios ou revoltas; com resignação e fé de que o comando é sempre de Deus e que a cada um será dado conforme suas obras e merecimentos. Não é desinteresse no combate do erro, mas o reconhecimento de até onde podemos ir. O autoflagelo nunca nos beneficiará. Como as promessas dolorosas que a ninguém beneficia.

O que devemos fazer neste instante delicado da sociedade humana, quando estamos mergulhados nas tramas do Apocalipse, é cuidar do nosso progresso moral para nos candidatarmos a lugar melhor numa nova existência, na Terra renovada ou mundos melhores que possamos merecer, porque tentar consertar esta humanidade dos nossos tempos ficou praticamente inviável. Impossível mudar a mente dos homens da nossa era, inclusive e principalmente, os que nos dirigem a partir dos órgãos oficiais, porque a Terra de Regeneração está se formando e eles não caberão numa civilização de homens decentes. Que possamos, pelo menos nós, garantir-nos um futuro menos traumático o que só será possível com um novo plantio já desde agora.

Que função temos no mundo? O que nos compete realizar nesta sociedade? Uma pergunta que fazemos amiúde. A resposta é simples: – Todos estamos aqui em prova, expiação e missão. Expiação porque se trata de nova oportunidade de aprendizado na área onda fracassamos em situações anteriores. Provas para que sejamos testados diante das dificuldades e das dores para avaliar como será o nosso comportamento como cristão que têm, nós os espíritas principalmente, o Evangelho de Jesus simplificado ainda mais pela Doutrina dos Espíritos. Ninguém poderá dizer que não entendeu o recado. Missão porque a todos são dadas tais oportunidades. Como empresário com a missão de oferecer emprego para que as famílias vivam com dignidade; como professor para orientar almas em formação cultural; como mãe ou pai para encaminhar espíritos que nos são confiados; como participantes de qualquer ambiente onde nosso bom comportamento possa influenciar e servir de exemplo aos demais. Enfim, a cada minuto podemos aprender, mas também podemos ensinar.

A nossa maior pobreza, porém, é a falta de conscientização e certeza da continuidade da vida e a necessidade de nascer novamente para dar continuidade ao nosso progresso que, atualmente, é lento e quase imperceptível. O mundo material nos absorve e merece nossa preferência. O crescimento moral/espiritual é sempre desprezado por nos faltar convicção quanto à sua real e fundamental condição para a edificação da nossa felicidade. Já diz o poeta santista Vicente de Carvalho, nos tercetos do soneto Velho Tema: – “Essa felicidade que supomos,/Árvore milagrosa que sonhamos/Toda arreada de dourados pomos,/Existe, sim: mas nós não a alcançamos/Porque está sempre apenas onde a pomos/E nunca a pomos onde nós estamos.”

Se colocarmos na nossa vida como homens no mundo a bandeira do Espiritismo – “Fora da caridade não há salvação – nunca erraremos. Faremos ao outro o que desejamos que ele nos faça quando estamos em situação idêntica. Ensinada por Jesus, esta regra é infalível. O resto virá por acréscimo.

Coragem, fé e boa sorte para todos com votos de Feliz Natal e produtivo Ano Novo.

Jornal Maria de Nazaré   Nov/Dez

 

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A gestação de uma ideia

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Octávio Caumo Serrano  caumo@caumo.com

O comunicador espírita, pela expressão oral ou escrita, deve ser alguém com inteligência, conhecimento e de fácil inspiração. Quando mais sintonizar com as mensagens da espiritualidade, mais facilmente desenvolverá o tema por seu próprio discernimento. Assim nascem, muitas vezes, artigos espíritas que chamam à atenção.

Vivi uma experiência que peço permissão para contar ao leitor.

Num anoitecer de 1991, chegávamos no Centro Kardecista “Os Essênios”, no bairro do Jabaquara, em São Paulo, quando um confrade, Sr. Hélio, na altura dos seus setenta anos se dirigiu a nós: – Seu Octávio. Encontrei um amigo com problemas e lhe disse que viesse conhecer “o nosso centro”. Tão logo ele terminou a frase, eu já não mais ouvia o que ele dizia. Apenas uma luz piscava, acendendo e apagando, com a expressão “O NOSSO CENTRO”.

Ali mesmo eu comecei a perguntar num solilóquio: – Por que nosso centro? Nosso de quem? Sabemos quem criou o nosso centro, se a casa é própria ou alugada? Quem paga IPTU, luz, água, despesas de manutenção e limpeza? Lembramos da primeira vez que viemos ao nosso centro? Tudo pronto, à nossa disposição; orientadores, passistas, palestrantes, banheiro cuidado e equipado, água potável com copos descartáveis, ventiladores para o nosso conforto, biblioteca, de uso gratuito, como tudo o mais. E que fazemos nós pelo nosso centro? Nada. Mas reclamamos se a palestra não foi das melhores, se não pudermos ser atendidos naquele momento, se não nos deixaram entrar porque atrasamos ou estávamos vestidos inadequadamente para este tipo de reunião. Etc., etc., etc.

Dia seguinte, ao chegar no escritório, fui logo para a máquina de datilografia (não havia computador) e escrevi matéria que intitulei “O nosso centro” que logo imprimi, envelopei e levei a uma agência dos Correios para enviar ao jornal O Semeador, da Federação Espírita do Estado de São Paulo. Jornal quinzenal. I-meio era algo inimaginável naquela época; ficção científica!

Na manhã seguinte, chegando ao escritório, reli a matéria e senti calafrios. Mesmo sem me considerar especialista em textos, já havia escrito coisas bem melhores do que aquilo. Acalmei-me quando raciocinei que o jornal teria o bom senso de não aprovar algo tão banal. Para a minha surpresa, porém, já na edição seguinte, numa longa coluna na contracapa, lá estava, impoluto, O NOSSO CENTRO. Gelei! Meu Deus. Todos vão ler isto. E tem minha assinatura! Conformei-me porque o mal já estava feito e não tive o cuidado de revisar à exaustão, como manda a técnica jornalística.

Menos de trinta dias, uma companheira do Centro me entrega um panfleto com o artigo, impresso pela Sociedade Espírita Maria Nunes, de Belo Horizonte, por iniciativa da confreira Juselma Coelho. Seu chefe no Metrô de São Paulo havia ido visitar o tio, Maia, em BH e havia pego nos escaninhos do centro dez folhetos porque o texto lhe pareceu interessante. É a instituição onde trabalhava o médium João Nunes Maia, autor de mais de 60 livros psicografados. O mesmo que recebeu pela via mediúnica, em Contagem, a receita da pomada Vovô Pedro e o folheto seria encartado nos livros despachados pela editora. Logo depois inúmeras instituições copiaram a mensagem e vários jornais e revistas espíritas reproduziram o artigo. Culminou quando, em 1992, a Associação dos Jornalistas Espíritas de São Paulo – AJE-SP – conferiu-me, no auditório da FEESP, o troféu de melhor artigo espírita do ano.

Intrigado com o ocorrido, perguntei a algumas pessoas porque algo tão vulgar teve tanta repercussão. E uma confreira me disse: – Você foi o advogado dos dirigentes espíritas e em nome deles pediu socorro para que as pessoas ajudem mais as instituições. Eles vivem abandonados porque público e colaboradores fazem o estritamente necessário embora exijam cuidado e atendimento como se fosse uma obrigação do centro ajudar as pessoas e não simples ato de caridade. E quanto aos colaboradores, imaginam que por dar passes, fazer palestras ou ajudar nalgum outro trabalho, nada mais lhes compete fazer. Nem apagam a luz, nem fecham a porta, nem desligam um ventilador. Usam tudo o que há no centro e em nada colaboram a não ser com seus supostos dotes mediúnico-evangélicos. Como dizem habitualmente, tenho outros compromissos e só posso dar um dia para a doutrina. Eles imaginam que dão alguma coisa para o Espiritismo ou para Jesus. Dizem que trabalham para o Cristo e nem percebem que trabalham, mal e pouco, para si mesmos.

Nas coisas simples e verdadeiras, quando nascem do coração, estão inseridas grandes verdades. O sucesso deste artigo mal escrito foi uma lição para a minha pretensão como articulista da Doutrina dos Espíritos. Quantas matérias em português castiço, bem construídas, caíram no esquecimento. O Nosso Centro, no entanto, continua atual.

Para quem tiver interesse em conhecer aí vai o link: https://essenios.files.wordpress.com/2008/10/o-nosso-centro.pdf

Tribuna Espírita set/out 2018

 

 

 

Novelas Espíritas

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As inatas vocações

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Tribuna  Espírita    julho/agosto  Octávio Caumo Serrano

Há pessoas com habilidade para o que não aprenderam nesta encarnação. Por isso tantos autodidatas em artes, diferentes profissões e tendências para certas atividades. Uns se dão bem comandando e outros mal servem para obedecer. Às vezes, de uma hora para outra descobrem vocações que nunca imaginariam ter. Um bom motivo para pensar por que isso acontece.

Permitam-me citar um exemplo pessoal.

Quando em 1975, aos quarenta e um anos de idade, fiz minha primeira viagem internacional, um cruzeiro para Montevidéu, Mar Del Plata e Buenos Aires, na festa de Réveillon, me peguei conversando com tripulantes em espanhol com fluência e naturalidade. Percebi que eu tinha um razoável vocabulário nesse idioma e construía frases com verbos bem colocados e corretamente conjugados. Mais que isso, não me servia da tradução mental porque falava o idioma com a naturalidade de um hispânico.

Depois disso, em 1976, viajei a trabalho para Venezuela, Colômbia e Peru, falando o idioma o dia inteiro nas fundições onde demonstrava nossos produtos. Eu era perfeitamente entendido e os compreendia, de maneira fluente e natural.

Comumente alguém me perguntava onde eu houvera aprendido o idioma, pois para eles eu falava bem. E quando eu dizia que nunca estudei era elogiado porque lhes parecia surpreendente. Com o tempo percebi que eu tinha uma extroversão e uma alegria inexplicáveis quando estava num país de língua espanhola. Eu, naturalmente acanhado, era outra pessoa nesses países. Precisava me relacionar e conversar porque falar espanhol me deixa contente.

Em 1991, a Universidade de Salamanca fez um teste em São Paulo para conferir diploma básico em espanhol para estudantes do idioma em países de outras línguas. Habitualmente fazem no Brasil, Estados Unidos e Japão. Dois dias inteiros de provas, sábado e domingo, com todo tipo de teste oral e escrito. Tive facilmente meu diploma. No ano seguinte voltei a me candidatar ao Diploma Superior de Espanhol como Língua Estrangeira. Tudo oficializado pelo Ministério de Educação e Cultura da Espanha. Passei novamente e mais tarde ficaria sabendo que eu tinha dos mais conceituados diplomas para este idioma em todo mundo, podendo ser inclusive tradutor oficial e dar aulas.

Como eu já tinha espaço numa tradicional revista espírita brasileira, onde começara em 1990, a partir de junho de 1998 passei a ter coluna em dois idiomas, que mantemos até hoje. De início houve pessoas para corrigir os textos, mas como é difícil quem tenha além da boa vontade a responsabilidade com prazos, fundamentais para a edição de qualquer veículo de divulgação, passei a ser o tradutor sem que houvesse revisor.

Que texto é esse que escrevo? Espanhol perfeito, castiço? Certamente não. Mas não é também um “portunhol” ou “espanhês”. Sei que encontrarão no texto muitos erros de concordância, acentuação (difícil em espanhol), palavras arcaicas já em desuso, mas estou certo que a mensagem é passada e permite aos irmãos compreende-la. Além disso, quando ouço esse idioma, mesmo falado com velocidade, não perco praticamente nada. E há locais onde se fala mastigado como na Venezuela e no Caribe, cantado, como no México, etc. Se considerarmos os muitos idiomas espanhóis do mundo, em cada país diferente do espanhol tradicional, o que faz que até eles às vezes se desentendam, penso que o meu trabalho cumpre a finalidade de facilitar a compreensão do texto para “los Hermanos hispanos”. O mesmo se dá com os dialetos do sul e nordeste no Brasil ou com o português de Portugal com os das ilhas da Madeira e Açores ou das povoações da África.

A razão de lhes contar sobre este fato não é exaltar mérito que não tenho, já que não resulta de esforço de aprendizado. Desejo apenas enfatizar que é comum buscarmos provas para reencarnação e, às vezes, as evidências estão claras. Meu vocabulário é relativamente grande. E quem pensa que português e espanhol são parecidos e é fácil falar este idioma, engana-se. Posso citar facilmente cem palavras cuja tradução será desconhecida para o leigo. Gostaria de falar os idiomas que estudei tanto (inglês, alemão e francês) com a fluência do espanhol. Mas nesses sou capenga. Mal dão para o gasto.

Que cada um avalie seus conhecimentos e habilidades e veja o que foi obra de estudo e o que foi ideia inata. Já nasceu com ela e por isso tem facilidade para executar a tarefa. Irão se surpreender com as culinárias, as artes, os dotes em geral, pois o que parece difícil para os outros faz com a maior naturalidade. Não aprendeu nesta etapa, mas cultivou noutras eras e tudo o que aprendemos fica guardado e aflora quando se faz necessário. Pelo instinto mais do que pela razão. Daí ser importante aprender coisas novas em cada encarnação para aumentar o conhecimento que um dia pode ser útil. No Centro Espírita há muitas oportunidades para isso, desde que a pessoa se disponha a aproveitar. O mesmo se dá com o trabalho profissional, quando fazemos além das atribuições para as quais somos remunerados. O trabalho, mais que salário, nos dá conhecimento e experiência que guardamos eternamente.

Consultem Inteligência e Razão, L.E. perguntas 71 a 75. E, também, A Lei do Trabalho, questões 674 a 685a. Importante.

 

 

 

Lógicas e contradições

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Octávio Caumo Serrano   caumo@caumo.com

Jesus é a encarnação da Lei do Amor

Ao estudar o Evangelho de Jesus deparamo-nos com registros que dificilmente podem ser atribuídos ao Rabi da Galileia. Aquele que perdoou até os seus algozes em pleno flagelo da cruz, não pode ter tido certas atitudes que constam dos registros dos evangelistas como sendo ações de Jesus.

Em certas oportunidades, é verdade, ele tomou atitudes que contradiziam a sua natureza, mas para aproveitar o momento e ensinar. Exemplo, ao ser interpelado quando em uma reunião por pessoas que lhe disseram que sua mãe e irmãos ali chegaram e queriam falar-Lhe, Ele perguntou: “Quem é meu pai, quem é minha mãe, quem são meus irmãos? Meu pai, minha mãe, meus irmãos, são todos aqueles que cumprem a vontade do meu Pai Celestial.” ESE Cap. XIV, item 5

Embora nem sua mãe nem seus irmãos tivessem entendido a sua tarefa nem prestigiado o seu trabalho, ao contrário, censurando-O porque seus gestos pareciam inusitados, absurdos, irreais, em nenhum momento ele renegou sua família. Nesse episódio aproveitou para nos ensinar que a parentela que forma a família na terra tem como finalidade transformar parentes de sangue em amigos de alma e que os nascidos na casa do vizinho têm para Deus a mesma importância que nossos filhos e pais. Sabemos pelo Espiritismo que as famílias na Terra são formadas muito comumente por inimigos ou desafetos de vidas passadas e que voltam a se unir para nova tentativa de reconciliação. Por isso há ainda tanto desentendimento entre os que vivem no mesmo lar.

Lição igual está no ESE capítulo XXIII, Moral Estranha, quando diz que se o homem não aborrecer ou odiar seus pais não poderia ser seu discípulo. Sempre ensinando sobre a parentela temporária e a parentela espiritual na qual somos todos irmãos.

O mesmo se deu quando propositadamente não lhe ofereceram a lavanda para limpar seus dedos e Ele, ao ser censurado por não cumprir a lei, aproveitou para ensinar que o que faz mal ao homem não é o que entra pela sua boca, mas o que dela sai. Certamente não fazia apologia à falta de higiene, mas aproveitou para dizer que a maldade, a calúnia, a ofensa, fazem mais mal a uma pessoa do que uma possível comida indigesta. Uma lesa o corpo físico; a outra mancha o caráter e cria problemas de consciência.

Há, porém, certas atitudes grosseiras que são atribuídas a Jesus como a censura aos fariseus, chamando de raça de víboras, túmulos caiados. Ou quando expulsou os vendilhões do templo derrubando as barracas, junto com ovelhas, pombas e cambistas. Aqueles homens que ali estavam eram trabalhadores que vendiam suas mercadorias segundo as normas do Templo de Jerusalém ou trabalhavam no câmbio com dinheiro porque no Templo só se aceitava moeda judia. Jesus jamais iria desrespeitas quem estava trabalhando, embora jamais aprovaria o comércio na “Casa de Deus”, como nunca falou mal dos publicanos. Ao contrário, convidou Mateus que arrecadava pedágio dos barcos na Mar da Galileia para ser seu seguidor e, mais tarde, em Jericó, visitou a casa de Zaqueu. Dois homens que arrecadavam impostos para pagamentos a Roma.

Devido a estatura moral de Jesus, ao adentrar o Templo, o que ele fez raras vezes, porque morava no norte do país, na Galileia, onde fez quase toda a sua pregação e só ocasionalmente descia até Jerusalém, em dias de festa, é provável que os vendedores se amedrontaram com a sua presença e, alvoroçados, correram fazendo com que os animais também se assustassem derrubando tudo o que havia pela frente. Mal comparando com os dias atuais, como os camelôs das ruas que ao verem os fiscais recolhem tudo o que podem e fogem. Tivesse ele que censurar algo, o faria aos que governavam e não os que cumpriam as ordens fazendo disso a sua sobrevivência.

Quando estudarmos o Evangelho de Jesus, seja na Bíblia, nos livros protestantes ou nos textos espíritas e de outras doutrinas, analisemos sempre com bom senso e procuremos extrair do episódio a intenção de Jesus e não o ato conforme relatado friamente. Lembremos que os Evangelhos começaram a ser anotados muito depois da morte de Jesus. A maioria dos estudos, segundo divulgações correntes, concorda que os Evangelhos teriam sido escritos na seguinte ordem: MARCOS (em Roma 64 d.C), Mateus (em Jerusalém 70 d.C) Lucas (em Antióquia 80 d.C) e João (em Éfeso 95.d.C).  Muito dependeu da memória dos Evangelistas e da compreensão do que teria Jesus dito ou feito. Se ainda hoje não entendemos a essência da Boa Nova, imaginemos como isso chegava na cabeça daqueles homens. A prova é que na hora do suplício do Messias todos O abandonaram. Só ficou junto à cruz, com as três Marias, João, o apóstolo mais novo entre todos.

Somos eternamente gratos àqueles homens que registraram os fatos envolvendo a vida de Jesus, sem os quais nada teria chegado até nós. Que Deus os abençoe. Mas como espíritas usemos a fé raciocinada e não a crendice cega só porque dizem que isso ou aquilo aconteceu.

Tribuna Espírita – Jan/Fev 2018

Quem sabe que não sabe, muito sabe

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Octávio Caumo Serrano caumo@caumo.com

Somos muito pretensiosos para tão pouco conhecimento;

Ao estudar o Espiritismo ouvimos dos orientadores encarnados notícias de elevado nível, relatando a superioridade dos espíritos comunicantes, como se estes viessem das esferas divinas até ao plano material naturalmente, como em viagem de missão ou turismo. Bom saber que não recebemos orientações de espíritos da esfera do Cristo, mas de seus prepostos recém despojados das vestes do mundo que ainda sofrem muito as suas influências. Há os que ainda são mais humanos do que nós. Incluem-se nessa falange até os anjos guardiões. É fácil compreender isto, porque já aprendemos que não se destina um professor universitário a alunos de jardim da infância. Não adianta eles nos explicarem o que a nossa inteligência rudimentar e nosso conhecimento embrionário são incapazes de compreender.

No Livro dos Espíritos, logo na questão 10, foi indagado se o homem pode compreender a natureza íntima de Deus e os espíritos disseram que não. Falta-nos sentido para isso. Na questão 14 eles são contundentes, após perguntas sobre Deus e seus atributos: “Não vos percais num labirinto de onde não podeis sair. Isso não vos tornará melhores, mas um pouco mais orgulhosos, talvez, já que julgaríeis saber quando na realidade nada saberíeis. Deixai de lado esses sistemas, pois muitas coisas já vos tocam diretamente, a começar por vós mesmos. Estudai vossas próprias imperfeições para vos livrardes delas; isto será mais útil do que querer penetrar no que é impenetrável.”

Os Espíritos que responderam às perguntas que Allan Kardec incluiu em O Livro dos Espíritos, advertiram que não adianta querer viver no Céu se ainda não aprendemos a viver na Terra. Daí porque morrer e desencarnar são coisas diferentes. Muitos morrem, mas não desencarnam devido ao apego aos postos, às honras e outros preconceitos dos quais não se libertaram.

No capítulo XXVIII do livro Emmanuel, por Chico Xavier, o mentor do confrade mineiro fala sobre as comunicações espíritas, ampliando nossa compreensão sobre a mediunidade. Diz ele: “… cada plano recebe do que lhe é superior, apenas o bastante ao seu estado evolutivo, sendo de efeito contraproducente ministrar-lhe conhecimentos que não poderia suportar”.  Diz mais: “… a maioria das entidades comunicantes são verdadeiros homens comuns, relativos e falhos, porquanto conservam, por vezes integralmente (atenção!), o seu corpo somático e têm como habitat o próprio orbe que lhes guarda os despojos e as vastas zonas dos espaços que o cercam, atmosferas do próprio planeta, que poderíamos classificar de colônias terrenas nos planos da erraticidade”. Este conhecimento nos previne contra os médiuns deslumbrados que endeusam as entidades que recebem, chegando a admitir que falaram com os da mais alta corte celeste. Ignoram que não resistiriam sequer a luz emanada deles. O senador romano Publius Lentulus ao escrever a Cesar sobre Jesus disse que ninguém conseguia encará-lo porque “seu olhar resplandece no seu rosto como os raios do sol. Quando resplende apavora e quando ameniza faz chorar”. E Ele ainda estava entre nós!

O progresso espiritual não é algo que alguém conquiste só por querer. É preciso vencer a si mesmo para ser melhor. Há que incorporar virtudes e não apenas defini-las. É o que somos, não o que aspiramos ser. É o que pensamos, não o que falamos. De nada valem a voz mansa e a docilidade quando temos uma consciência cobradora e um coração cheio de mágoa e revolta. A fé é a aceitação da vida e não a frequência a um templo ou uma oração decorada. A fé verdadeira nunca desmorona diante da contrariedade. É inabalável.

“Dos motivos expostos, infere-se que a suposta vulgaridade dos ditados mediúnicos é um fato naturalismo, porque emanam das almas dos próprios homens da Terra, imbuídos de gosto pessoal, já que o corpo das suas impressões persiste com precisão matemática, e somente os séculos, com o seu consequente aglomerado de experiências, conseguem modificar as disposições cármicas ou perispirituais de cada indivíduo. Procuram agir no plano físico unicamente para demonstração da sobrevivência além da morte, levantando os ânimos enfraquecidos, porque dilatam os horizontes da fé e da esperança no futuro, porém, jamais serão portadores da palavra suprema do progresso, não só porque a sua sabedoria é igualmente relativa, como também porque viriam anular o valor da iniciativa pessoal e a insofismável realidade do arbítrio humano.” Você que é médium com tarefas definidas, tenha em mente que é ainda mais médium de si mesmo do que dos sofredores que o rodeiam. É o primeiro que deve aprender as lições sugeridas pelos comunicantes. Sentindo o sofrimento da entidade que se aproxima ficará alertado que se não se cuidar acabará como ela. Por isso a maioria dos médiuns é consciente. Aprende quando em transe para viver quando desperto e consciente. O acréscimo de uma só virtude, que implica o banimento do defeito contrário, já é apreciável conquista para uma encarnação.

“Todas as ciências estão ricas de especulações teóricas e todas as religiões que se divorciaram do amor estão repletas de palavras, quase sempre vazias e incompreensíveis. As predicações são ouvidas, por toda parte; mas a prática é rara, daí a necessidade de se habituar a ela com devotamento, para que os atos revelem os sentimentos, operando com o espírito de verdadeira humildade.” Tenhamos os pés no chão, caros confrades e iniciantes desta doutrina fantástica e esclarecedora. Somos informados mais para doutrinar a nós mesmos do que para converter a humanidade. Sejamos bons exemplos para despertar nos outros a vontade de imitar-nos. Mas sem perder a humildade porque há muito mais a aprender do que o que já nos foi revelado. O que sabemos é uma gota no oceano dos conhecimentos. Estamos ainda no jardim da infância espiritual. Conheçamo-nos, como propôs Sócrates, para aproveitar a encarnação sem pretensões descabidas ou sonhos irrealizáveis. Não esquecer que somos de um mundo de provas e expiações e, portanto, seres muito imperfeitos. Paciência e coragem!

Tribuna Espirita Nov_Dez_2017

O trabalhador espírita

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Octávio Caúmo Serrano

Qual a tarefa mais importante para o colaborador do Centro?

Vamos recapitular como foi a chegada ao Espiritismo da maioria de nós. Embora hoje seja mais comum, ainda são poucos os nascidos em lares espíritas e, mesmo entre esses, nem todos se sentem inspirados a buscar a doutrina porque os espíritas da casa não são bons propagandistas do Espiritismo; não têm conduta condizente com a que deve ter um praticante dessa doutrina.

Vamos imaginar, prioritariamente, uma pessoa que tenha problemas e decida buscar um centro espírita para aconselhar-se, equilibrar-se ou curar-se. Foi convencida por um amigo ou pesquisou e crê que seria uma boa opção para se livrar do problema. Passa pelo atendimento fraterno (uma orientação espiritual), desabafa com o entrevistador, é aconselhado a receber uma série de passes, ouve palestras e, se fizer sentido, participa dos estudos e cursos que a casa oferece. A grande maioria está satisfeita com essa rotina e comporta-se como o que vai à missa católica ou ao culto protestante. Faz-se presente, reza, contribui e já cumpriu tudo o que lhe cabia junto à sua religião. Todavia, há sempre alguns que se sensibilizam com o trabalho do centro, gratuito e fraterno, e sentem vontade de dar sua colaboração.

Que trabalho eles podem fazer? A resposta é: – Muitos. Tudo depende da capacidade, instrução, vivência, conhecimento e experiência doutrinária, porque há serviços acessíveis a todos, mas nem todos podem fazer tudo. Nem sempre o participante tem capacidade para a oratória e consequente divulgação do Evangelho ou do Espiritismo; nem pode ser um entrevistador porque para isso precisa, além da doutrina, alguma experiência da vida e habilidade para o correto aconselhamento.

Mas há outros serviços acessíveis a quase todos. Por exemplo, os passes que precisam de pessoas que abram o coração e deixem jorrar amor; o de distribuidor de mensagem ou recepcionista que dá as boas vindas e assessora o visitante dentro da casa; o que ajuda na limpeza; o que abre e fecha o Centro, se encarrega de ligar e desligar luzes, ventiladores, ar, microfones, etc.; e tantos outros, conforme o tipo de organização. Há em muitas casas a assistência material. Enxovais, sopas, etc. Todos são trabalhos igualmente importantes quando feitos de coração.

Há pessoas dispostas a se deixar ensinar e há outras que são preocupadas com a perfeição, o que os faz recuar quando convocados a algum serviço que não dominam ou quando censuradas por ter executado algo em desacordo com as normas da casa e da própria doutrina espírita. Pedir-lhes para que façam simples prece de abertura ou encerramento da reunião, por exemplo, pode afugentá-las.

Quando convocamos alguém para o trabalho e ele diz que não sabe fazer, informamos que é esse o trabalho que ele deve executar; para aprender. Se apenas repetirmos o que sabemos trazido de outras vidas, sairemos daqui sem acrescentar-nos em nada. Portanto, devemos dar prioridade aos trabalhos que não sabemos fazer; para aprender.

O importante, no entanto, é fazermos da nossa vida particular um prolongamento da nossa atuação religiosa, porque muitos de nós somos especialistas no Espiritismo prático, mas poucos praticamos a essência espírita. Falamos, mas não somos; ensinamos, mas não aprendemos! E, no entanto, segundo Emmanuel a mais importante tarefa do homem na Terra é sua própria iluminação. Corrigir antes a si próprio do que os outros.

Esta recomendação do mentor do Chico encontra eco no próprio Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo VIII. No item 9, quando o fariseu observou que Jesus não lavou as mãos antes de comer, o Cristo lendo o pensamento dele, comentou: “Agora vos outros, os fariseus, limpais o que está por fora do corpo e do prato, mas o vosso interior está cheio de roubo e de maldade. Insensatos, quem fez tudo o que está de fora não fez também o que está dentro?” – Lucas XI-37/40.

No item 10, Kardec diz que os judeus haviam negligenciado os verdadeiros mandamentos de Deus. Preocupavam-se com o sábado, as mãos lavadas, as oferendas e orações quilométricas no templo, mas continuavam como eram sem modificar-se. Por isso disse o Cristo: “É em vão que esse povo me honra com os lábios, ensinando máximas e mandamentos dos homens.”

Ainda no item 10, Kardec afirma que o mesmo acontece com a doutrina moral do Cristo que acabou por ser deixada num segundo plano, o que fez com que muitos cristãos, à semelhança dos judeus, creiam que a salvação está mais assegurada pelas práticas exteriores do que pela moral. O homem não chega a Deus enquanto não se fizer perfeito.

Se observarmos bem este trecho que já tem vinte séculos, veremos que permanece atual e se aplica a todos os religiosos modernos, inclusive a nós espíritas, lamentavelmente. Somos muitas vezes presunçosos por conhecer de ectoplasma, perispírito, vampirismo, materialização e esquecemos que damos pouca atenção ao amor ao próximo, especialmente quando se trata de aceitar suas limitações. E o mandamento que nos aconselha amar o próximo como a nós mesmos não estabelece ressalvas; não diz desde que o próximo seja seu amigo, seu parente ou da sua religião.

Na parábola do Bom Samaritano Jesus mostrou que a ação em favor do bem é mais importante que o rótulo da doutrina que abraçamos. Oremos e vigiemos!

Tribuna Espírita – maio/junho 2017

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